Valério
Arcary: Inflexão na conjuntura?
Explodiu
uma “bomba de fragmentação” de repercussão incontível e consequências
imprevisíveis. As mensagens em áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro
são a confirmação irrefutável das relações do bolsonarismo com o escândalo do
Banco Master – que manteve relações com fundos que faziam lavagem de dinheiro
para o PCC – a maior “orgia” financeira da história do capitalismo brasileiro.
A
conversa explicita, também, que havia estreita intimidade e confiança entre os
dois. Os áudios revelam o que já se suspeitava. Mas agora ninguém pode duvidar
que o banqueiro mais corrupto da história do capitalismo brasileiro, um ladrão
exibicionista e ostentatório é amigo íntimo dos Bolsonaros. Daniel Vorcaro é o
rosto de uma fração burguesa degenerada e apodrecida: um aventureiro lumpen que
se dedicou à pilhagem de fundos de previdência de funcionários públicos com a
cumplicidade do governador condenado Cláudio Castro do Rio de Janeiro, entre
outros. Mas agora a extrema direita está dividida, e até Romeu Zema do Novo e
Renan Santos do Missão estão assanhados e decidiram atacar Flávio Bolsonaro.
Lula tem mesmo sorte.
O
envolvimento pessoal indisfarçável de Flávio Bolsonaro procurando financiamento
da extrema direita por Daniel Vorcaro precipita um “deus-nos-acuda”, um
tumulto, um escarcéu impossível de esconder. A primeira declaração de Flávio
Bolsonaro de que “não tem nada demais”, e que só pediu uma grana para fazer um
filme sobre a biografia de seu pai é um escárnio. Não é possível antecipar,
plenamente, os efeitos que terá na disputa eleitoral, mas o bolsonarismo foi
colocado numa posição, talvez, irremediavelmente, defensiva.
Daniel
Vorcaro é peçonhento, venenoso e tóxico. Não é a primeira vez que a resiliência
da influência do bolsonarismo foi posta à prova. Infelizmente, até hoje, ela se
revelou muito poderosa. E subestimar a força da implantação dos neofascistas
tem sido um erro recorrente da esquerda. Mas tudo tem limites, portanto,
veremos. Há que aproveitar a oportunidade denunciando, impiedosamente, a
cumplicidade do bolsonarismo com o bilionário corrupto preso. Agora a bandeira
de denúncia da corrupção está nas nossas mãos. Ela não pode tremer.
É
previsível que haverá uma inflexão na conjuntura, porque a candidatura de
Flávio Bolsonaro foi duramente atingida, e não está descartado que até possa
ter que ser substituído, se as próximas pesquisas indicarem um desgaste muito
forte. O momento anterior foi condicionado pelas duas derrotas do governo no
Congresso Nacional: a rejeição da indicação de Jorge Messias e a aprovação da
Dosimetria.
Acontece
que agora tudo isso ficou para trás. O Centrão já tinha sido atingido,
duramente, quando vieram a público as vergonhosas relações de Ciro Nogueira,
presidente do PP que ambicionava ser vice de Flávio, com a roubalheira de
Vorcaro, em associação com o banco BRB de Brasília.
O novo
escândalo acontece em um momento em que as pesquisas mais recentes indicam
ainda um empate entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno, com pequenas
oscilações no limite da margem de erro. A desaprovação do governo Lula
permaneceu ligeiramente superior à aprovação, apesar de uma tendência de
recuperação, até um pouco surpreendente.
Ou
seja, se fossem mantidas as condições de temperatura e pressão, não estava
descartado que o bolsonarismo poderia vencer as eleições de outubro. Não é
possível saber em que medida a base social da extrema direita poderá ou não
assimilar o desgaste desta nova denúncia indefensável. Como explicar este
cenário assustador? São muitos os fatores a serem considerados.
A
avaliação é central para definir a melhor linha para a reeleição de Lula. O
desafio é organizar os variados graus de pressão de cada fator. Uma luta
eleitoral não é somente uma luta de argumentos. A disputa da consciência das
massas precisa responder às inquietações que mexem com a subjetividade das
pessoas, em especial, os afetos mais poderosos que expressam os interesses de
classe. Entre eles o mais visceral: o medo. É o medo que incendeia a raiva, o
ressentimento e o ódio.
A maior
dificuldade da esquerda brasileira é que a classe trabalhadora está dividida.
Lula mantém a confiança da maioria dos mais pobres. E é verdade que a economia
tem um peso imenso para explicar a rejeição do governo Lula entre as camadas
médias de trabalhadores, os remediados que ganham acima de dois salários
mínimos que deslocaram para a direita, mas não deve absolutizada.
Nos
últimos três anos e meio não diminuiu a fratura política entre as camadas
populares que vivem com até dois salários mínimos, e os assalariados de
escolaridade média, ou remediados, que ganham um pouco além, sobretudo, entre
R$3,500,00 e R$7,000,00 reais. Essa é uma das razões que explicam porque a
influência eleitoral de Lula é maior no nordeste e menor no sudeste e sul. O
peso demográfico de 48% da população economicamente ativa mais pobre não está
distribuído de forma homogênea pelo país afora.
A
“idealização” do que é o povo brasileiro explica porque é tão desconcertante
que em tantas avaliações haja milhões de pessoas que são considerados “pobres
de direita”. O que está equivocado nesta linha de análise, como ainda se tenta
as vezes romantizar, não é que não sejam de direita. São reacionários, sim. O
que está errado é que a força da extrema-direita se apoia nos remediados, não
entre os mais pobres.
Os
remediados foram envenenados nos últimos dez anos por uma campanha que
denunciava a esquerda como corrupta e como cúmplice do crime organizado. A
extrema direita se alimenta do ressentimento machista contra uma nova geração
de mulheres que se emancipou, uma nova geração negra que se levantou, uma nova
geração de LGBT’s que ocupou as ruas. O bolsonarismo é o negacionismo do
aquecimento global que justifica a pilhagem do agronegócio na Amazônia, Cerrado
e Pantanal.
A
prender as lições dos últimos anos é vital. A linha de argumentação
contrafactual é um exercício legítimo, porque amplia o campo de possibilidades
do que poderia ter sido. Ilumina a imaginação política e a inteligência tática.
E se o governo Lula tivesse substituído Campos Neto no Banco Central em 2023
para reduzir a taxa de juros para incentivar um crescimento mais forte? E se
tivesse apresentado a isenção do Imposto de Renda, ou defendido a tarifa zero
nos transportes mais cedo?
E se
tivesse regulamentado o imposto sobre grandes fortunas? Ou o fim da jornada
seis por um desde 2024 quando a campanha do VAT (Vida Além do Trabalho)
explodiu nas redes? Nenhuma destas iniciativas seria o início de uma ruptura
anticapitalista. Teriam despertado, certamente, uma furiosa reação da maioria
da classe dominante, o que exigiria a construção de uma governabilidade “a
quente” apoiada na mobilização social permanente, e os riscos seriam grandes.
Não é possível ter certeza alguma de qual
teria sido o desenlace. Se aprendemos algo com o golpe institucional contra
Dilma Roussseff fundamentado na farsa das “pedaladas fiscais”, é que as
turbulências teriam sido muito sérias. Evidentemente, a conjuntura de hoje
seria diferente. Alguém pode afirmar com segurança que uma linha reformista
forte, vigorosa e robusta teria sido o suficiente para esvaziar a influência do
bolsonarismo? Talvez, não.
Por
quê? Porque não podemos saber se, como na Colômbia de Gustavo Petro, teria sido
possível construir a mobilização de massas. Mas, talvez, sim. De qualquer
forma, é inescapável que o apoio da extrema-direita repousa, também, em outros
fatores, não, estritamente, econômicos.
A
vivência social não se reduz à experiência material da luta feroz pela
sobrevivência. A absurda, mas avassaladora campanha dos neofascistas de
politização da decisão técnica da Vigilância Sanitária sobre uma marca de
detergente contaminada por uma bactéria resistente a antibióticos, confirmou,
mais uma vez, que estamos diante de uma corrente com espantosa capacidade de
manipulação e, pior ainda, mobilização.
A
implantação da extrema direita não se explica somente pelos limites da política
econômica que garantiu a transferência de R$1 trilhão de reais para os
rentistas da dívida pública, enquanto a redução da desigualdade social recuava.
A conjuntura seria muito menos perigosa se as causas da resiliência do
bolsonarismo fossem, essencialmente, as vacilações e erros do governo Lula, mas
não. O governo não é inocente, evidentemente, e cometeu muitos erros.
Mas
apostar que a comparação das entregas do governo Lula com o balanço desastroso
do governo de Jair Bolsonaro não será suficiente. Mesmo quando consideramos,
estritamente, o balanço positivo da evolução dos indicadores econômicos no
mundo do trabalho, o impacto das mudanças favoráveis impulsionadas pelo governo
não garante a vitória. O crescimento econômico, a extensão dos benefícios de
transferência de renda, a redução do desemprego, a contenção da inflação, o
aumento da renda média, a isenção do Imposto de renda até R$5 mil reais, e tudo
o mais, não são o bastante para garantir um maior apoio a Lula.
Um
caminho possível para explicar este paradoxo é relativizar estes dados
argumentando que foram insuficientes para uma percepção qualitativa de melhoria
no padrão de vida, porque aumentou o endividamento, por exemplo. É verdade. Ou
que foram muito limitadas as reformas pelo estrangulamento do investimento
público imposto pelo arcabouço fiscal, também. Mas estas críticas justas não
explicam porque prevaleceu até agora a incerteza. Afinal, a impopularidade do
governo não é majoritária entre os mais pobres que são as maiores vítimas dos
impasses do lulismo.
• Flávio Bolsonaro leva crise de Vorcaro à
Marcha de Tarcísio. Por Esmael Morais
O
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), subiu nesta
quinta-feira (4) ao trio da Marcha para Jesus ao lado do senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) e do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), num ato
religioso atravessado pela crise política do filho zero um.
A
imagem pesa porque Flávio Bolsonaro não chegou ao palanque como convidado
neutro. O pré-candidato do PL ao Planalto entrou na Marcha carregando o caso
Daniel Vorcaro, a acusação de traição à pátria e a cobrança pública sobre sua
atuação nos Estados Unidos contra interesses brasileiros.
Flávio
Bolsonaro e Tarcísio cantaram e oraram juntos no trio. O prefeito Ricardo Nunes
ficou entre os políticos que separavam o senador do advogado-geral da União,
Jorge Messias, que ficou em outra ponta do carro de som.
O
senador tentou tirar a marca eleitoral da presença no evento, mas usou a fala
para levar a disputa de 2026 ao terreno religioso. Flávio Bolsonaro afirmou que
o Brasil vive uma “guerra espiritual” e disse que o “mal” seria expulso do
governo ainda neste ano.
A
contradição ficou exposta no próprio formato do ato. A Marcha para Jesus tem
caráter religioso, mas virou vitrine de pré-campanha quando reuniu, no mesmo
palanque, o governador paulista, o prefeito da capital e o nome escolhido pelo
bolsonarismo para disputar a Presidência.
A crise
que acompanha Flávio Bolsonaro ganhou novo capítulo na quarta-feira (3). O Blog
do Esmael registrou que o ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro incluiu o
filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, em nova versão de proposta de
colaboração premiada enviada à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da
República (PGR).
A
delação ainda precisa ser aceita pelas autoridades. O ponto político, porém, já
está posto. Vorcaro teria narrado cobranças e transferências de cerca de R$ 60
milhões para a produção do filme, segundo anotação do Blog do Esmael. Flávio
Bolsonaro nega irregularidade e diz que tratou de patrocínio privado.
O caso
nasceu com reportagem do The Intercept Brasil, que revelou mensagens,
documentos e áudios sobre a negociação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Depois
da revelação, o senador confirmou ter pedido dinheiro ao banqueiro para
financiar o filme, mas negou ter recebido vantagem.
O
segundo flanco da crise é internacional. O Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR) abriu procedimento contra o Brasil
envolvendo comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas,
propriedade intelectual, etanol, corrupção e desmatamento. O prazo para
comentários vai até 1º de julho, com audiência em 6 de julho.
A pauta
atingiu o Pix, infraestrutura pública criada e regulada pelo Banco Central do
Brasil (BC). O governo Lula passou a tratar o ataque americano ao sistema
brasileiro como tema de soberania nacional, não apenas como disputa técnica
entre meios de pagamento.
O
presidente Lula (PT) chamou Flávio Bolsonaro de traidor da pátria e imbecil ao
associar o tarifaço de Donald Trump à atuação do bolsonarismo nos Estados
Unidos. O senador nega ter pedido tarifa contra o Brasil e afirma que tentou
evitar punições contra empresas brasileiras.
Eduardo
Bolsonaro ampliou o desgaste ao citar o Zelle, sistema privado dos Estados
Unidos, como “Pix dos EUA”. A fala reforçou a leitura governista de que a
família Bolsonaro tenta transformar uma infraestrutura pública brasileira em
moeda de troca numa negociação conduzida sob pressão de Washington.
Para
Tarcísio, o problema é simples e incômodo. Ao dividir o trio com Flávio
Bolsonaro, o governador paulista emprestou palco, foto e normalidade política a
um aliado que tenta se defender de duas frentes ao mesmo tempo: o dinheiro de
Vorcaro no filme da família e a acusação de atuar contra o Brasil no exterior.
Ricardo
Nunes também entra na conta porque a investigação sobre o Instituto Conhecer
Brasil (ICB), ligado à produtora de “Dark Horse”, alcança contrato de wi-fi
público da Prefeitura de São Paulo. O prefeito criticou a apuração, mas a
presença no trio reforçou a conexão política entre os personagens do mesmo
campo.
A
Marcha para Jesus virou, assim, teste de contaminação eleitoral. Flávio
Bolsonaro buscava bênção pública e contato com o eleitor evangélico. Tarcísio
tentava preservar a ponte com o bolsonarismo. Nunes procurava manter espaço
entre religiosos e direita paulista. A foto entregou os três no mesmo palanque.
O custo
político agora será medido fora do trio. Se Vorcaro avançar na delação e se
Trump mantiver a ofensiva contra o Brasil, a presença de Flávio Bolsonaro
deixará de ser apenas agenda de campanha. Virará cobrança sobre quem aceitou
dividir palco com o pré-candidato mais tóxico da direita.
• "É nojento ver os Bolsonaros
servirem aos interesses americanos", diz Gleisi
A
deputada federal e ex-ministra de Relações Institucionais Gleisi Hoffmann
voltou a criticar integrantes da família Bolsonaro em publicação nas redes
sociais, ao contestar declarações relacionadas ao sistema de pagamentos
instantâneos Pix e ao papel do ex-presidente Jair Bolsonaro em sua criação. A
manifestação foi feita na plataforma X (antigo Twitter), onde a parlamentar
também atacou a defesa do sistema financeiro norte-americano Zelle por parte do
deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro.
Segundo
Gleisi, há uma contradição entre o discurso de diferentes membros da família
Bolsonaro sobre o tema. Em sua postagem, ela afirmou: “Enquanto o Flavio
Bolsonaro tenta dizer que o pix é obra do seu pai, o Eduardo Bolsonaro quer
trocar o nosso pix pelo sistema americano chamado Zelle, como ponto de
negociação pra retirar a taxação americana, que eles ajudaram articular”.
A
parlamentar reforçou que o Pix é uma ferramenta pública brasileira, criada e
administrada pelo Banco Central, e rejeitou qualquer tentativa de atribuir sua
criação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. “O pix é uma infraestrutura pública
brasileira, criada e regulada pelo Banco Central do Brasil. Nunca foi de
Bolsonaro que nem sabia do q se tratatava qdo foi perguntado sobre o assunto”,
escreveu.
Na
mesma publicação, Gleisi estabeleceu uma comparação entre o Pix e o Zelle,
sistema amplamente utilizado nos Estados Unidos para transferências
financeiras. De acordo com ela, o Zelle é um modelo privado, administrado por
instituições bancárias norte-americanas e sujeito à cobrança de taxas. “E o
Zelle é um sistema privado, operado por bancos americanos, que cobra taxas”,
destacou.
A
deputada também elevou o tom das críticas ao acusar membros da família
Bolsonaro de atuarem em favor de interesses estrangeiros. “É nojento ver a
disposição dos Bolsonaros de servir os interesses americanos”, afirmou.
Além
das críticas relacionadas ao sistema de pagamentos, Gleisi mencionou a situação
judicial de Eduardo Bolsonaro. Em sua publicação, ela observou que o dia 16
está marcado para um julgamento envolvendo o parlamentar licenciado e defendeu
celeridade na tramitação de processos. “Esperamos que os demais processos
instaurados e pedidos contra eles sejam agilizados. Precisam ser contidos e
punidos, para o bem do Brasil e do povo brasileiro”, escreveu.
A
declaração ocorre em meio ao debate político sobre o Pix, ferramenta lançada
pelo Banco Central em 2020 e que se consolidou como um dos principais meios de
pagamento utilizados pelos brasileiros, movimentando bilhões de transações
mensalmente. O sistema é considerado uma infraestrutura pública de pagamentos e
vem sendo frequentemente citado em disputas políticas envolvendo sua criação,
gestão e eventuais comparações com plataformas internacionais.
Fonte:
A Terra é Redonda/Brasil 247

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