segunda-feira, 8 de junho de 2026

Valério Arcary: Inflexão na conjuntura?

Explodiu uma “bomba de fragmentação” de repercussão incontível e consequências imprevisíveis. As mensagens em áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro são a confirmação irrefutável das relações do bolsonarismo com o escândalo do Banco Master – que manteve relações com fundos que faziam lavagem de dinheiro para o PCC – a maior “orgia” financeira da história do capitalismo brasileiro.

A conversa explicita, também, que havia estreita intimidade e confiança entre os dois. Os áudios revelam o que já se suspeitava. Mas agora ninguém pode duvidar que o banqueiro mais corrupto da história do capitalismo brasileiro, um ladrão exibicionista e ostentatório é amigo íntimo dos Bolsonaros. Daniel Vorcaro é o rosto de uma fração burguesa degenerada e apodrecida: um aventureiro lumpen que se dedicou à pilhagem de fundos de previdência de funcionários públicos com a cumplicidade do governador condenado Cláudio Castro do Rio de Janeiro, entre outros. Mas agora a extrema direita está dividida, e até Romeu Zema do Novo e Renan Santos do Missão estão assanhados e decidiram atacar Flávio Bolsonaro. Lula tem mesmo sorte.

O envolvimento pessoal indisfarçável de Flávio Bolsonaro procurando financiamento da extrema direita por Daniel Vorcaro precipita um “deus-nos-acuda”, um tumulto, um escarcéu impossível de esconder. A primeira declaração de Flávio Bolsonaro de que “não tem nada demais”, e que só pediu uma grana para fazer um filme sobre a biografia de seu pai é um escárnio. Não é possível antecipar, plenamente, os efeitos que terá na disputa eleitoral, mas o bolsonarismo foi colocado numa posição, talvez, irremediavelmente, defensiva.

Daniel Vorcaro é peçonhento, venenoso e tóxico. Não é a primeira vez que a resiliência da influência do bolsonarismo foi posta à prova. Infelizmente, até hoje, ela se revelou muito poderosa. E subestimar a força da implantação dos neofascistas tem sido um erro recorrente da esquerda. Mas tudo tem limites, portanto, veremos. Há que aproveitar a oportunidade denunciando, impiedosamente, a cumplicidade do bolsonarismo com o bilionário corrupto preso. Agora a bandeira de denúncia da corrupção está nas nossas mãos. Ela não pode tremer.

É previsível que haverá uma inflexão na conjuntura, porque a candidatura de Flávio Bolsonaro foi duramente atingida, e não está descartado que até possa ter que ser substituído, se as próximas pesquisas indicarem um desgaste muito forte. O momento anterior foi condicionado pelas duas derrotas do governo no Congresso Nacional: a rejeição da indicação de Jorge Messias e a aprovação da Dosimetria.

Acontece que agora tudo isso ficou para trás. O Centrão já tinha sido atingido, duramente, quando vieram a público as vergonhosas relações de Ciro Nogueira, presidente do PP que ambicionava ser vice de Flávio, com a roubalheira de Vorcaro, em associação com o banco BRB de Brasília.

O novo escândalo acontece em um momento em que as pesquisas mais recentes indicam ainda um empate entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno, com pequenas oscilações no limite da margem de erro. A desaprovação do governo Lula permaneceu ligeiramente superior à aprovação, apesar de uma tendência de recuperação, até um pouco surpreendente.

Ou seja, se fossem mantidas as condições de temperatura e pressão, não estava descartado que o bolsonarismo poderia vencer as eleições de outubro. Não é possível saber em que medida a base social da extrema direita poderá ou não assimilar o desgaste desta nova denúncia indefensável. Como explicar este cenário assustador? São muitos os fatores a serem considerados.

A avaliação é central para definir a melhor linha para a reeleição de Lula. O desafio é organizar os variados graus de pressão de cada fator. Uma luta eleitoral não é somente uma luta de argumentos. A disputa da consciência das massas precisa responder às inquietações que mexem com a subjetividade das pessoas, em especial, os afetos mais poderosos que expressam os interesses de classe. Entre eles o mais visceral: o medo. É o medo que incendeia a raiva, o ressentimento e o ódio.

A maior dificuldade da esquerda brasileira é que a classe trabalhadora está dividida. Lula mantém a confiança da maioria dos mais pobres. E é verdade que a economia tem um peso imenso para explicar a rejeição do governo Lula entre as camadas médias de trabalhadores, os remediados que ganham acima de dois salários mínimos que deslocaram para a direita, mas não deve absolutizada.

Nos últimos três anos e meio não diminuiu a fratura política entre as camadas populares que vivem com até dois salários mínimos, e os assalariados de escolaridade média, ou remediados, que ganham um pouco além, sobretudo, entre R$3,500,00 e R$7,000,00 reais. Essa é uma das razões que explicam porque a influência eleitoral de Lula é maior no nordeste e menor no sudeste e sul. O peso demográfico de 48% da população economicamente ativa mais pobre não está distribuído de forma homogênea pelo país afora.

A “idealização” do que é o povo brasileiro explica porque é tão desconcertante que em tantas avaliações haja milhões de pessoas que são considerados “pobres de direita”. O que está equivocado nesta linha de análise, como ainda se tenta as vezes romantizar, não é que não sejam de direita. São reacionários, sim. O que está errado é que a força da extrema-direita se apoia nos remediados, não entre os mais pobres.

Os remediados foram envenenados nos últimos dez anos por uma campanha que denunciava a esquerda como corrupta e como cúmplice do crime organizado. A extrema direita se alimenta do ressentimento machista contra uma nova geração de mulheres que se emancipou, uma nova geração negra que se levantou, uma nova geração de LGBT’s que ocupou as ruas. O bolsonarismo é o negacionismo do aquecimento global que justifica a pilhagem do agronegócio na Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A prender as lições dos últimos anos é vital. A linha de argumentação contrafactual é um exercício legítimo, porque amplia o campo de possibilidades do que poderia ter sido. Ilumina a imaginação política e a inteligência tática. E se o governo Lula tivesse substituído Campos Neto no Banco Central em 2023 para reduzir a taxa de juros para incentivar um crescimento mais forte? E se tivesse apresentado a isenção do Imposto de Renda, ou defendido a tarifa zero nos transportes mais cedo?

E se tivesse regulamentado o imposto sobre grandes fortunas? Ou o fim da jornada seis por um desde 2024 quando a campanha do VAT (Vida Além do Trabalho) explodiu nas redes? Nenhuma destas iniciativas seria o início de uma ruptura anticapitalista. Teriam despertado, certamente, uma furiosa reação da maioria da classe dominante, o que exigiria a construção de uma governabilidade “a quente” apoiada na mobilização social permanente, e os riscos seriam grandes.

 Não é possível ter certeza alguma de qual teria sido o desenlace. Se aprendemos algo com o golpe institucional contra Dilma Roussseff fundamentado na farsa das “pedaladas fiscais”, é que as turbulências teriam sido muito sérias. Evidentemente, a conjuntura de hoje seria diferente. Alguém pode afirmar com segurança que uma linha reformista forte, vigorosa e robusta teria sido o suficiente para esvaziar a influência do bolsonarismo? Talvez, não.

Por quê? Porque não podemos saber se, como na Colômbia de Gustavo Petro, teria sido possível construir a mobilização de massas. Mas, talvez, sim. De qualquer forma, é inescapável que o apoio da extrema-direita repousa, também, em outros fatores, não, estritamente, econômicos.

A vivência social não se reduz à experiência material da luta feroz pela sobrevivência. A absurda, mas avassaladora campanha dos neofascistas de politização da decisão técnica da Vigilância Sanitária sobre uma marca de detergente contaminada por uma bactéria resistente a antibióticos, confirmou, mais uma vez, que estamos diante de uma corrente com espantosa capacidade de manipulação e, pior ainda, mobilização.

A implantação da extrema direita não se explica somente pelos limites da política econômica que garantiu a transferência de R$1 trilhão de reais para os rentistas da dívida pública, enquanto a redução da desigualdade social recuava. A conjuntura seria muito menos perigosa se as causas da resiliência do bolsonarismo fossem, essencialmente, as vacilações e erros do governo Lula, mas não. O governo não é inocente, evidentemente, e cometeu muitos erros.

Mas apostar que a comparação das entregas do governo Lula com o balanço desastroso do governo de Jair Bolsonaro não será suficiente. Mesmo quando consideramos, estritamente, o balanço positivo da evolução dos indicadores econômicos no mundo do trabalho, o impacto das mudanças favoráveis impulsionadas pelo governo não garante a vitória. O crescimento econômico, a extensão dos benefícios de transferência de renda, a redução do desemprego, a contenção da inflação, o aumento da renda média, a isenção do Imposto de renda até R$5 mil reais, e tudo o mais, não são o bastante para garantir um maior apoio a Lula.

Um caminho possível para explicar este paradoxo é relativizar estes dados argumentando que foram insuficientes para uma percepção qualitativa de melhoria no padrão de vida, porque aumentou o endividamento, por exemplo. É verdade. Ou que foram muito limitadas as reformas pelo estrangulamento do investimento público imposto pelo arcabouço fiscal, também. Mas estas críticas justas não explicam porque prevaleceu até agora a incerteza. Afinal, a impopularidade do governo não é majoritária entre os mais pobres que são as maiores vítimas dos impasses do lulismo.

•        Flávio Bolsonaro leva crise de Vorcaro à Marcha de Tarcísio. Por Esmael Morais

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), subiu nesta quinta-feira (4) ao trio da Marcha para Jesus ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), num ato religioso atravessado pela crise política do filho zero um.

A imagem pesa porque Flávio Bolsonaro não chegou ao palanque como convidado neutro. O pré-candidato do PL ao Planalto entrou na Marcha carregando o caso Daniel Vorcaro, a acusação de traição à pátria e a cobrança pública sobre sua atuação nos Estados Unidos contra interesses brasileiros.

Flávio Bolsonaro e Tarcísio cantaram e oraram juntos no trio. O prefeito Ricardo Nunes ficou entre os políticos que separavam o senador do advogado-geral da União, Jorge Messias, que ficou em outra ponta do carro de som.

O senador tentou tirar a marca eleitoral da presença no evento, mas usou a fala para levar a disputa de 2026 ao terreno religioso. Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil vive uma “guerra espiritual” e disse que o “mal” seria expulso do governo ainda neste ano.

A contradição ficou exposta no próprio formato do ato. A Marcha para Jesus tem caráter religioso, mas virou vitrine de pré-campanha quando reuniu, no mesmo palanque, o governador paulista, o prefeito da capital e o nome escolhido pelo bolsonarismo para disputar a Presidência.

A crise que acompanha Flávio Bolsonaro ganhou novo capítulo na quarta-feira (3). O Blog do Esmael registrou que o ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro incluiu o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, em nova versão de proposta de colaboração premiada enviada à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR).

A delação ainda precisa ser aceita pelas autoridades. O ponto político, porém, já está posto. Vorcaro teria narrado cobranças e transferências de cerca de R$ 60 milhões para a produção do filme, segundo anotação do Blog do Esmael. Flávio Bolsonaro nega irregularidade e diz que tratou de patrocínio privado.

O caso nasceu com reportagem do The Intercept Brasil, que revelou mensagens, documentos e áudios sobre a negociação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Depois da revelação, o senador confirmou ter pedido dinheiro ao banqueiro para financiar o filme, mas negou ter recebido vantagem.

O segundo flanco da crise é internacional. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) abriu procedimento contra o Brasil envolvendo comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas, propriedade intelectual, etanol, corrupção e desmatamento. O prazo para comentários vai até 1º de julho, com audiência em 6 de julho.

A pauta atingiu o Pix, infraestrutura pública criada e regulada pelo Banco Central do Brasil (BC). O governo Lula passou a tratar o ataque americano ao sistema brasileiro como tema de soberania nacional, não apenas como disputa técnica entre meios de pagamento.

O presidente Lula (PT) chamou Flávio Bolsonaro de traidor da pátria e imbecil ao associar o tarifaço de Donald Trump à atuação do bolsonarismo nos Estados Unidos. O senador nega ter pedido tarifa contra o Brasil e afirma que tentou evitar punições contra empresas brasileiras.

Eduardo Bolsonaro ampliou o desgaste ao citar o Zelle, sistema privado dos Estados Unidos, como “Pix dos EUA”. A fala reforçou a leitura governista de que a família Bolsonaro tenta transformar uma infraestrutura pública brasileira em moeda de troca numa negociação conduzida sob pressão de Washington.

Para Tarcísio, o problema é simples e incômodo. Ao dividir o trio com Flávio Bolsonaro, o governador paulista emprestou palco, foto e normalidade política a um aliado que tenta se defender de duas frentes ao mesmo tempo: o dinheiro de Vorcaro no filme da família e a acusação de atuar contra o Brasil no exterior.

Ricardo Nunes também entra na conta porque a investigação sobre o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ligado à produtora de “Dark Horse”, alcança contrato de wi-fi público da Prefeitura de São Paulo. O prefeito criticou a apuração, mas a presença no trio reforçou a conexão política entre os personagens do mesmo campo.

A Marcha para Jesus virou, assim, teste de contaminação eleitoral. Flávio Bolsonaro buscava bênção pública e contato com o eleitor evangélico. Tarcísio tentava preservar a ponte com o bolsonarismo. Nunes procurava manter espaço entre religiosos e direita paulista. A foto entregou os três no mesmo palanque.

O custo político agora será medido fora do trio. Se Vorcaro avançar na delação e se Trump mantiver a ofensiva contra o Brasil, a presença de Flávio Bolsonaro deixará de ser apenas agenda de campanha. Virará cobrança sobre quem aceitou dividir palco com o pré-candidato mais tóxico da direita.

•        "É nojento ver os Bolsonaros servirem aos interesses americanos", diz Gleisi

A deputada federal e ex-ministra de Relações Institucionais Gleisi Hoffmann voltou a criticar integrantes da família Bolsonaro em publicação nas redes sociais, ao contestar declarações relacionadas ao sistema de pagamentos instantâneos Pix e ao papel do ex-presidente Jair Bolsonaro em sua criação. A manifestação foi feita na plataforma X (antigo Twitter), onde a parlamentar também atacou a defesa do sistema financeiro norte-americano Zelle por parte do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro.

Segundo Gleisi, há uma contradição entre o discurso de diferentes membros da família Bolsonaro sobre o tema. Em sua postagem, ela afirmou: “Enquanto o Flavio Bolsonaro tenta dizer que o pix é obra do seu pai, o Eduardo Bolsonaro quer trocar o nosso pix pelo sistema americano chamado Zelle, como ponto de negociação pra retirar a taxação americana, que eles ajudaram articular”.

A parlamentar reforçou que o Pix é uma ferramenta pública brasileira, criada e administrada pelo Banco Central, e rejeitou qualquer tentativa de atribuir sua criação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. “O pix é uma infraestrutura pública brasileira, criada e regulada pelo Banco Central do Brasil. Nunca foi de Bolsonaro que nem sabia do q se tratatava qdo foi perguntado sobre o assunto”, escreveu.

Na mesma publicação, Gleisi estabeleceu uma comparação entre o Pix e o Zelle, sistema amplamente utilizado nos Estados Unidos para transferências financeiras. De acordo com ela, o Zelle é um modelo privado, administrado por instituições bancárias norte-americanas e sujeito à cobrança de taxas. “E o Zelle é um sistema privado, operado por bancos americanos, que cobra taxas”, destacou.

A deputada também elevou o tom das críticas ao acusar membros da família Bolsonaro de atuarem em favor de interesses estrangeiros. “É nojento ver a disposição dos Bolsonaros de servir os interesses americanos”, afirmou.

Além das críticas relacionadas ao sistema de pagamentos, Gleisi mencionou a situação judicial de Eduardo Bolsonaro. Em sua publicação, ela observou que o dia 16 está marcado para um julgamento envolvendo o parlamentar licenciado e defendeu celeridade na tramitação de processos. “Esperamos que os demais processos instaurados e pedidos contra eles sejam agilizados. Precisam ser contidos e punidos, para o bem do Brasil e do povo brasileiro”, escreveu.

A declaração ocorre em meio ao debate político sobre o Pix, ferramenta lançada pelo Banco Central em 2020 e que se consolidou como um dos principais meios de pagamento utilizados pelos brasileiros, movimentando bilhões de transações mensalmente. O sistema é considerado uma infraestrutura pública de pagamentos e vem sendo frequentemente citado em disputas políticas envolvendo sua criação, gestão e eventuais comparações com plataformas internacionais.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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