Viagens
ao novo mundo: fundamentos das Ecovilas
Em
terras dos cinco continentes, este é um compromisso evidente nos ecolugares em
que passamos: restaurar os biomas originais fazendo retornar a fauna, a flora e
a microbiota original do solo. Vimos que isto leva a uma maior abundância de
água, ao aumento da biodiversidade, a purificação do ar e a criação de
microclimas amigáveis. Em alguns casos, constatamos que desertos se
transformaram em florestas, em esforço de décadas. Em outros, a proteção das
nascentes e a acumulação de água em lagos artificiais – que com os anos se
naturalizam – transformou climas secos em climas mais úmidos localmente.
De onde
vem a determinação para ações deste porte de regeneração da Natureza? Sem
dúvida da emergência climática que urge por ações restauradoras e leva, nas
populações engajadas das ecovilas, a um comportamento regenerativo. Nas
comunidades ancestrais este contexto leva à intensificação da luta pela
preservação de suas terras, que é sustento de suas culturas. Mas a resposta não
é apenas objetiva, uma consequência natural da análise de um contexto que
caminha para ser distópico. Há razões afetivas, éticas e espirituais para isto,
motivações profundas que levam estas pessoas a sair da inércia em que se
encontram outros grupos humanos que também conhecem a imensidão do problema
ambiental e de degradação civilizacional em que vivemos.
Pode-se
dizer que o aspecto afetivo vem da reconexão com o planeta na dimensão “Mãe
Terra”, que é um arquétipo presente em todo o mundo. A Pachamama dos povos
originários andinos, a Maka Ina dos povos Lakota/Sioux da América do Norte, a
Prithvi Mata, indiana ou a Gaia grega, são derivações deste arquétipo que
inspira comunidades regenerativas e povos originários pelo mundo. Esta dimensão
afetiva é também uma dimensão espiritual: frequentemente a Mãe Terra é uma
entidade divina, referenciada como uma dimensão que exige reverência e cuidado.
Como pano de fundo das escolhas de vida das comunidades visitadas há preceitos
éticos muito claros, e um deles é que tudo está conectado e que cada pessoa é
parte do problema ou da solução dos desafios coletivos.
É muito
comum que na cultura das ecovilas as pessoas sintam que para proteger a Vida no
seu sentido amplo, é necessário proteger e regenerar sua fonte. Os gestos
cotidianos podem ser vistos como uma espécie de ritual de reverência a esta
sacralidade: comer comida sem veneno, restaurar o solo com compostagem,
purificar as águas usadas, manter um baixo nível de consumo, reaproveitar e
reciclar objetos e evitar produzir resíduos de difícil absorção pelos solos,
como produtos químicos e plásticos. Disto nasce também, nas ecovilas, uma
produção orgânica de alimentos, de cosméticos e produtos de limpeza
biodegradáveis, de roupas e sacolas de algodão para substituir o uso de
plástico e sintéticos, entre outros itens que mobilizam a economia destas
comunidades por dentro e para fora, gerando renda.
Neste
processo regenerativo, muito frequentemente se fala em Permacultura. Esta
incrível ciência nascida na Austrália e que ganhou o mundo por seus valores
claros, seus métodos objetivos e simples, é uma mistura de práticas
tradicionais indígenas para o tratamento resiliente da terra, com conceitos
mais contemporâneos. Os valores da Permacultura, disseminados por seus
criadores Bill Mollison e David Holmgren são: I) Cuidado com a Terra, II)
Cuidado com as Pessoas e III) Redistribuição de Excedentes. Estes valores são
muito próximos das filosofias ancestrais de interdependência como o “Bem Viver”
dos povos aymara (Suma Qamaña) e quéchua (Sumak Kawsay) dos Andes ou o Ubuntu,
da cultura bantu, do sul da África. Em termos concretos, a Permacultura propõe,
por exemplo, os círculos que se ampliam para manejo do solo, que é muito
corrente nas ecovilas: a zona de uso intensivo e recreacional em torno das
habitações, depois agroflorestas com variada produção de legumes, frutas e
ervas, em seguida as produções de cereais, e às vezes também animais para
consumo e no entorno mais distante as áreas de florestas.
Do
mesmo modo, a ideia de “cultura permanente” da Permacultura estimula a produção
e uso de energias renováveis, de construções de baixo impacto, de gestão da
água sob o lema “reter, infiltrar e armazenar”, do saneamento ecológico com
banheiros secos, círculos de bananeiras, bacias de evapotranspiração e muitas
formas de compostagem. Ou seja, ecovila e permacultura são palavras muito
próximas na prática e isto leva a outro processo que ajuda a restauração e a
economia das ecovilas, que é o CSA, Comunidade Sustenta a Agricultura. Trata-se
de uma parceria direta entre comunidades produtoras, as ecovilas, e compradores
do entorno, negociando preços, itens e períodos de entrega sem intermediários,
promovendo economias solidárias e restauração ecológica.
As
pessoas que sustentam a regeneração nas ecovilas percebem, como os povos
ancestrais, que a Natureza é sagrada, que nós somos a Natureza e buscam viver
de forma coerente com esta convicção. Esta percepção é a fonte da cura
ambiental proposta por Ayrton Krenak, este indígena brasileiro
internacionalmente conhecido por seu livro “Futuro ancestral”. Sua afirmação de
que se o futuro não for ancestral, ou seja, reconectado com lógicas que se
mantiveram por milênios nos quatro cantos do planeta, ele “não será”, evidencia
a possibilidade de um não futuro. O compromisso das ecovilas é exatamente
construir futuros possíveis e sua reconexão com saberes ancestrais é evidente.
Para aprofundar esta compreensão e demonstrar esta hipótese, vamos dar um
passeio por alguns destes saberes que contrastam com aqueles da sociedade
ocidental na qual estamos majoritariamente imersas e imersos, a ponto de nem
perceber que a vida é simplesmente impossível se tudo continuar como está.
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As sabedorias ancestrais e o Novo Mundo
Parto
do mesmo princípio que Krenak e observo que as ecovilas também estão muito
sintonizadas com ele: para superar a cultura do fast food, do hiperconsumo, da
aparência de sucesso a qualquer custo, que sustentam o capitalismo, há que se
reconectar com sabedorias ancestrais, com tempos em que outras aspirações e
valores norteavam a vida. Nestes tempos primordiais da cultura humana era
natural que a Natureza fosse a maior fonte de ensinamentos. A ação humana ainda
a tinha pouco impacto e as pessoas viviam imersas em ambientes minimamente
modificados. No Taoísmo, por exemplo, era na Natureza que se forjava a
explicação para as forças criadoras do Universo, o Yin-Yang, a força escura e a
força clara, a lua e o sol, o dia e a noite, o homem e a mulher. Para o Yoga,
os animais, os elementos geográficos e as plantas inspiraram exercícios físicos
e respiratórios para a manutenção da saúde, mas também muitos dos princípios
éticos dessa tradição. No Sumak Kawsay, quando o comportamento individual se
harmoniza com a Natureza e com a comunidade, a vida é plena.
Outro
princípio das tradições destes povos originários, escolhidos aqui por estarem
mais distanciados dos valores ocidentais atuais, mas presentes nos cinco
continentes, é o reconhecimento da responsabilidade de cada pessoa na harmonia
do todo. Este é uma ética amplamente incorporada na vida das ecovilas.
Diferente da tradição judaico cristã da cultura ocidental, que se baseia na
existência de um Deus todo-poderoso que determina o que é certo e o que é
pecado e pune as pessoas por seu comportamento, muitos preceitos
espiritualistas originários não se referem a este tipo de Deus. São tradições
profundamente espiritualizadas, mas cujos fundamentos estão na compreensão da
conexão entre todas as coisas e na reverência ao mistério sagrado da Vida. Ao
propor as condições para uma vida harmoniosa, reconhecem a responsabilidade de
cada pessoa na harmonia do todo. Quem não se harmoniza, de certa forma,
culturalmente, pune a si mesmo dispensando a presença de um Deus punidor.
A
seguir farei um resumo das concepções de mundo de três tradições ancestrais, o
Yoga, o Taoismo e o Sumak Kawsay, para exemplificar a conexão entre o modo de
vida que vimos nas ecovilas, que produz regeneração, e sabedorias
multimilenárias. Embora a maior parte das tradições ancestrais venham sendo
preservadas através da oralidade e pela repetição de rituais, nosso passeio se
baseará três livros, dois deles milenares: o Yoga Sutra, de Patañjali, escrito
há cerca de três mil anos na Índia e o Tao Te Ching, escrito na China por volta
do século II aC, presumidamente por Lao Tsé. Já o Sumak Kawsay só recentemente
teve seus conceitos e práticas descritos em livros; destacarei a sistematização
feita pelo intelectual aymara Fernando Huanacuni Mamani2, legítimo para buscar
revelar a tradição do seu povo.
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O Yoga
Para
Patañjali, o Yoga se baseia em oito passos: os Yamas (preceitos éticos e morais
para se relacionar com o mundo), os Niyamas (hábitos positivos para o mundo
interior da pessoa), os Ássanas (exercícios físicos), os Pranyamas (exercícios
respiratórios), o Prathyahara (interiorização, o desligar-se dos estímulos
externos), o Dharana (prática da concentração anterior à meditação), o Dhyana
(prática da meditação) e o Samadhi, a iluminação. Esses oito passos são
inspiradores de uma vida sã em todos os campos e caminho para a evolução da
consciência humana. O caminho do Yoga tudo relaciona: a saúde física está
interligada à saúde mental, emocional e espiritual e estar em busca de cada uma
delas interfere positivamente nas demais e no ambiente em que se vive.
Os
ciclos da Natureza, sua forma de operar, seu processo evolutivo, as
características dos reinos mineral, vegetal, animal e humano são decodificados
para favorecer a compreensão do caminho correto para cada pessoa e para as
comunidades. A prática do Yoga constantemente se refere à Natureza, imita sua
sabedoria, recomenda que o ou a praticante esteja em espaços naturais e se
conecte com os elementos, a terra, a água, o ar e o fogo, honrando o Sol e a
Lua, as estações, as marés, o dia e a noite, etc. Além disto, o Yoga é baseado
no conceito de fluxo vital, chamado de Prana, ou energia cósmica, que anima a
vida e precisa ser mantido em equilíbrio por cada indivíduo para sua harmonia e
harmonia do Todo.
A
prática do Yoga convida a mais quietude, silêncio, desapego e a viver o agora,
que são princípios que encontramos nas ecovilas que visitamos. Essas práticas,
assim como os Niyamas explicitados a seguir, podem ser interpretados como
caminhos de percepção dos desafios do presente, da necessária responsabilização
de cada pessoa com os destinos da humanidade e estão sintonizadas com as
necessidades urgentes de regeneração da Natureza.
Os
cinco Yamas, preceitos do Yoga para a vida em sociedade, são o Ahimsa (a não
violência); a Satya (a prática da verdade em pensamentos, palavras e ações), a
Asteya (o não se apropriar de coisas, ideias, tempo ou energia alheia); a
Brahmacharya (o controle dos sentidos, a moderação no uso da energia vital) e a
Aparigraha (o desapego). Numa interpretação atualizada, esses preceitos podem
ser norteadores da superação dos excessos da vida atual: a violência, a vida de
aparências e futilidades, o roubo das gerações futuras pela irresponsabilidade
com o planeta, a sexualização de tudo e o consumo sem limites. Esta é uma ética
profundamente disseminada nas comunidades regenerativas que visitamos,
inclusive ancestrais, mesmo que não se expressem em termos yóguicos, embora o
Yoga seja largamente praticado nas ecovilas.
Também
os Niyamas são caminhos pessoais antissistema em busca da harmonia interior: a
Shaoca, o caminho da pureza ao invés da manipulação atual; o Santosha, o
contentamento ao invés do desejo insaciável; o Tapah, a determinação e o auto
governo, ao invés de uma vida de “manada”, que segue modas e fake news; o
Svadhyaya, o uso da razão para assuntos espirituais ao invés da diluição dessa
em face aos modismos pseudo-espirituais, e o Ishvara Pranidhana, a entrega dos
frutos de suas ações a uma vontade superior, ao invés do narcisismo ególatra
das redes sociais.
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O Taoísmo
Outra
tradição ancestral relevante e expressiva de modos de vida que visitamos é o
Taoísmo, cujos fundamentos foram sistematizados por Lao Tsé, incorporando
tradições ancestrais do povo chinês, e assim ofertando à humanidade o Tao Te
Ching. Nos aforismos desse livro, em suas curtas regras práticas e morais,
busca-se inspirar as pessoas para a obtenção de uma vida longa e feliz em
harmonia com o Tao, “o Caminho do Universo”. Esse primeiro princípio, que diz
respeito à harmonia interna em cada ser, cada sociedade, cada empreendimento,
convida a balancear as forças do yin (contemplação, receptividade) com as
forças yang (atividade, expansão). Outros princípios se seguem: o Wu-wei, a
não-ação, ou ação desprovida de intenções egóicas, seguindo o fluxo da vida, sem
forçá-la; o Ziran, a espontaneidade e a autenticidade como forma de se
expressar no mundo; o Pu, a simplicidade, a eliminação de necessidades
supérfluas.
No
Taoísmo, o autocontrole, a serenidade e a contemplação da natureza são
cultivados e ajudam a chegar às “Três Jóias” – a compaixão, a moderação e a
humildade – como modo de relacionamento com as pessoas e o mundo. Vimos em
muitas ecovilas um compromisso militante com a paz, uma prova cotidiana de
moderação e a busca constante da humildade. Como foi descrito em texto anterior
da série Visitando o Novo Mundo, a condição de fundadoras e fundadores de um
laboratório de convívio humano, por vezes dificulta uma postura humilde, já que
é preciso afirmar com força o projeto em que se está envolvido, mas esta
crítica só pode ser compreendida dentro do contexto.
Voltando
ao Taoísmo, ele afirma que o movimento incessante do Tao formado pela
complementaridade yin-yang, se manifesta no mundo em cinco movimentos/elementos
que organizam toda a existência: o movimento ascendente do Fogo, o movimento
descendente da Água, o movimento estável da Terra, o movimento de expansão da
Madeira e o de retração do Metal. Toda uma visão de mundo é organizada assim a
partir destes cinco elementos e dos movimentos aos quais eles estão
relacionados. Um exemplo claro são as estações: a primavera está relacionada
com a expansão/madeira; o verão com o fogo/ascensão; o outono com a
terra/estabilidade e o inverno com a retração/metal. Do mesmo modo, as horas do
dia, as emoções, os cinco sentidos, as notas musicais, os sabores e muitos
outros aspectos da Vida são compreendidos. Viver em saúde e harmonia é fruto do
balanço entre os elementos/movimentos e suas interrelações na vida comunitária
e no corpo humano. A genial e amplamente curativa MCT, Medicina Tradicional
Chinesa, é fruto da filosofia e práticas taoístas, do mesmo modo que a medicina
ayurvédica se relaciona com o Yoga.
Outro
conceito importante oriundo do Taoísmo – e que também existe no Yoga – é a
existência do Chi, a força vital representada pelo ar, pela respiração, que
também está relacionada aos princípios masculino yang (expirar) e feminino yin
(inspirar). A dualidade no Taoísmo, é a fonte do movimento, representado no
símbolo que o define, o Tao, e favorece o processo evolutivo que nasce da
unidade e voltará ela, sendo, portanto, um processo cíclico e provisório. A
complementaridade dos contrários, e não o confronto e o conflito, são
princípios taoístas para lidar com a Vida e sua diversidade, com a saúde e com
a busca da harmonia. Mesmo não sendo manifestamente taoístas, as comunidades
das ecovilas visitadas apresentam muita afinidade com estes princípios ancestrais,
suas medicinas e recomendações.
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O Bem Viver (Sumak Kawsay ou Suma Qumaña)
A
última tradição ancestral apresentada, como foi dito, é conhecida como “Bem
Viver” e é uma expressão indígena dos Andes que significa Viver Plenamente. Os
povos andinos vêm demonstrando, como sua luta pelos direitos da Natureza, que
sua tradição é uma alternativa ao catastrófico desenvolvimento atual e
conseguiram consagrar estes direitos nas Constituições da Bolívia e do Equador.
Ao invés de aumento do PIB, da riqueza individual, do hiperconsumo
exibicionista e da vida em velocidade estonteante, o Bem Viver busca
simplesmente o “estar bem consigo, com os outros e com a Natureza”. Quando se
está inteiramente inserido no sistema vigente é difícil perceber a sabedoria
desta prática milenar de vida comunitária, porém nas ecovilas o ideal do Bem
Viver é algo muito presente, mesmo que seja muito mais fácil dizer do que
realizar.
A
simplicidade do Bem Viver vem de seus princípios, que começam na vida cotidiana
e acabam por mudar tudo, pois é o próprio sentido da vida que está em jogo.
Buscar viver bem com quem somos, com os que nos rodeiam e com quem nos nutre, a
Natureza, é traduzido em 13 princípios que não foram gravados em um livro
sagrado, mas inscritos na tradição oral milenar e nas vivências dos povos
quéchua e aymara. Os treze princípios da busca de equilíbrio podem ser
divididos em três grandes categorias, segundo Fernando Huanacuni Mamani: I)
Conexão com a Pachamama (Mãe Terra); II) Equilíbrio interno e III) Relação com
os outros. São eles:
A
Conexão com a Pachamama se expressa em: 1) Suma Manq’ aña: saber nutrir-se do
que é são. Deste princípio derivam-se práticas como comer o alimento da estação
e do local, fazer jejum na lua nova, nas transições dos solstícios, ou fazer
oferendas alimentares à Natureza, já que tudo se alimenta e o alimento é sagrado.
2) Suma Umaña: saber beber sentindo o fluxo da vida. Daí origina-se a prática
de oferecer-se de beber à Pachamama e aos elementos naturais reverenciados no
local antes de beber. Beber bebidas sagradas favorece a conexão com o coração
que ajuda a pessoa a “fluir como o rio”; 3) Suma Thokoña: saber dançar em
conexão com o Universo. As danças ancestrais permitem entrar em conexão com a
energia telúrica da Terra e cósmica do Céu; entende-se que toda atividade deve
ser realizada incluindo a dimensão espiritual, da energia cosmo telúrica; 4)
Suma Ikiña: saber dormir entre um dia e outro. Pensa-se que é necessário dormir
dois dias, o seja, antes da meia noite, para se obter as duas energias, a da
noite e a da manhã do dia seguinte. A direção do corpo ao dormir também é
importante, para o norte no Hemisfério Sul e para o Sul no Hemisfério Norte. 5)
Suma Irnakaña: saber trabalhar alegremente. Tradicionalmente o trabalho era
manual, na terra, no artesanato, na caça, na cozinha; atualiza-se o conceito
para todas as atividades que não devem significar sofrimento e sim serem
realizadas com paixão e alegria;
O
Equilíbrio interno se manifesta em: 6) Suma Lupiña: saber estar em silêncio
meditativo. No processo de introspecção, o silêncio pessoal se conecta com o
equilíbrio e silêncio do entorno natural e como consequência emerge a calma e a
tranquilidade necessárias para viver bem. 7) Suma Amuyaña: saber pensar com a
mente e o coração. Um dos princípios aymaras diz “ sem perder a razão,
caminhemos os caminhos do coração”, portanto o pensar não é só racional, ele
está em conexão com o sentir. 8) Suma Munaña: saber amar e ser amado. Saber
respeitar a tudo o que existe gera o amor de retorno e uma relação harmônica
consigo, com os outros, com a Natureza.
A
sabedoria na Relação com os outros se manifesta em: 9) Suma Ist’ aña: saber
escutar a si, aos outros e à Mãe Terra. Na cultura andina escuta-se não só com
os ouvidos, é perceber, sentir, escutar com o corpo, já que tudo que vive, fala
e quer ser escutado.10) Suma Aruskipaña: saber falar construtivamente.
Recomenda-se que antes de falar é preciso sentir e pensar bem, pois só assim se
fala em forma de alento, de modo a contribuir. Tudo o que se fala é gravado no
coração do outro e as vezes é difícil esquecer, por isto é preciso saber falar
bem. 11) Suma Samkasiña: saber sonhar para ter uma melhor realidade. Na cultura
andina percebe-se a vida através do sonho, tanto dormindo quanto acordado. O
sonho é o início da realidade por isto sonhar certo, projetar bem a vida ajuda
a viver bem. 12) Suma Sarnaqaña: saber caminhar sentindo-se acompanhado pelas
boas energias. Quem percebe que está acompanhado pelos ancestrais, pelo sol e
pela lua, pelo vento, pela Pachamama e muitos outros seres, não se cansa e está
protegido. 13) Suma Churaña, suma Katukaña: saber dar e receber. Reconhecer que
a Vida é uma conjunção de muitos seres e muitas forças, que na vida tudo flui
sob o calor generoso do Pai Sol, a força da Mãe Terra, a fluidez da Mãe Água.
Saber dar abençoando, saber receber agradecendo ajuda a Vida a fluir melhor.
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Ecovilas e sabedoria
As três
tradições, yogue, taoísta e do Bem Viver veem o mundo como uma grande teia em
que tudo está interligado e que tocar em um ponto implica em tocar todos os
demais. Como na física quântica, que será objeto de discussão em outro artigo
desta série, o Todo está emaranhado, é tecido junto e cada ser é um ponto, um
nó deste Todo. A passagem de cada ser pelo mundo é vista a longo prazo e o
sentido de comunidade é sempre presente. Honrar os bens comuns – sejam eles
materiais ou sutis, como a água ou o ar ou os rituais e a cultura, é parte
integrante do sentido da vida. Neste contexto de Vida, honrar e regenerar a
Natureza é consequência natural do modo de ver o mundo.
Vimos
pessoas em busca do essencial, desde as coisas mais simples, como os treze
princípios do Bem Viver, até o vínculo sagrado com o Tao, ou desejo de respirar
melhor para que o Prana ou o Chi circulem fluidamente entre o Ser e o Cosmos,
sendo tudo Natureza. Esta busca do essencial dá à vida um sentido de certo e
errado, de importante e desimportante, que faz a busca da plenitude algo
cotidiano e natural. O menos é mais e o simples é o caminho seguido nestes
laboratórios nos quais são testadas novas formas de viver. Estas escolhas de
vida naturalmente levam a uma vida regenerativa das pessoas e do ambiente, e a
Natureza agradece estes esforços com renovada exuberância. Foi isto que vimos e
acreditamos que desta e de outras maneiras vamos construindo pouco a pouco a
Era da Regeneração.
Fonte:
Por Débora Nunes, em Outras Palavras

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