segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os megabanquetes 'patrióticos' no centro de disputa entre direita e esquerda na França

Três mil e quinhentos franceses famintos devoram travessas de embutidos e, de tempos em tempos, irrompem em um coro barulhento.

Trata-se da edição mais recente de um fenômeno gastronômico que vem se espalhando pelo interior da França.

A cidade de Colmar, na Alsácia — famosa por seu centro medieval com casas de estrutura de madeira aparente — foi palco, no último fim de semana, de um dos banquets géants (banquetes gigantes), enormes eventos gastronômicos cuja popularidade no país se tornou repentinamente uma questão política polêmica.

Organizados por uma empresa chamada Le Canon Français (O Canhão Francês), os banquetes são extremamente concorridos: por 81 euros (cerca de R$ 483), os participantes têm direito a quatro pratos da gastronomia local, vinho à vontade e várias horas de cantoria e camaradagem.

Mas a festa não agrada a todos. Para o partido de esquerda radical La France Insoumise (LFI, ou "França Insubmissa"), os banquetes têm um lado obscuro.

A LFI afirma ter evidências de cânticos racistas e de funcionários imigrantes sendo insultados. Como a carne de porco aparece frequentemente no cardápio, o partido diz que as festas são pensadas para excluir muçulmanos e vegetarianos.

O partido também cita o envolvimento financeiro de um empresário ultraconservador chamado Pierre-Edouard Stérin como evidência de uma motivação oculta: promover a agenda da direita radical.

Stérin, bilionário que fez fortuna com a Smartbox, empresa de vales-presente de experiências, criou um centro de estudos que defende ideias de direita, como restringir a imigração, proibir o aborto e promover a herança cristã da França.

"Se estivessem agindo de boa-fé, Le Canon Français nunca teria aceitado Stérin como investidor. Mas aceitaram, pegaram o dinheiro dele", diz Emma Fourreau, membro do Parlamento Europeu pela LFI.

"E é assim porque compartilham o mesmo ecossistema político, cujo objetivo é levar a direita radical ao poder."

No banquete de Colmar, realizado nos arredores da cidade, em um espaço enorme parecido com um galpão, essas acusações são prontamente rejeitadas.

Em uma atmosfera festiva, os convidados se sentam em mesas compridas, com 50 pessoas de cada lado. Muitos homens vestem o que se tornou uma espécie de uniforme do Canon Français: boinas e suspensórios. Algumas mulheres usam um traje tradicional do nordeste da França.

Há uma breve fala da organização, que lembra os convidados da "carta de princípios" assinada na compra do ingresso e que os obriga a se comportar com respeito e decoro. Então a diversão começa: um exército de garçons traz travessas de chucrute, depois queijos e o tradicional bolo kougelhopf — feito com manteiga, passas e amêndoas. O vinho corre solto.

Periodicamente, os comensais largam os garfos e se juntam em coro. Clássicos de artistas como Michel Delpech e Joe Dassin são os favoritos.

São canções de uma geração anterior, mas os participantes – que aparentam ter principalmente entre 20 e 30 anos – as conhecem de cor.

"Viemos por quatro coisas: ambiente, amigos, álcool e comida", diz um jovem, em uma resposta que se repete várias vezes. Ninguém quer falar de política, exceto para dizer que acham que toda a controvérsia é exagerada.

"Nada disso era um problema, mas aí Stérin se tornou acionista e isso deu à LFI uma desculpa para atacar. Não se esqueçam que há eleições no ano que vem", diz Quentin, de Besançon, no leste da França.

A multidão em Colmar era predominantemente – mas não exclusivamente – branca, e muitos disseram estar felizes por poderem celebrar de forma tradicional entre amigos. Mas a BBC não viu nenhum comportamento nem ouviu nenhuma linguagem que pudesse ser interpretada como ofensiva.

Le Canon Français é uma criação de dois empreendedores – Pierre-Alexandre de Boisse e Géraud de la Tour – que começaram a vender vinho pela internet para ajudar um amigo viticultor em dificuldades durante a pandemia de covid-19.

A partir daí, começaram a organizar eventos para arrecadar fundos para projetos de preservação do patrimônio – e o sucesso nessa iniciativa os levou aos banquetes.

De Boisse afirma que estão apenas revivendo uma antiga tradição francesa de jantares coletivos com boa comida local, que remonta à Idade Média.

Após a Revolução Francesa, que levou à abolição da monarquia, havia os banquetes republicanos – que marcaram a chegada do novo sistema. E, até recentemente, cada vila costumava ter seu banquete popular anual – uma espécie de festa popular.

"Hoje em dia, as pessoas perdem muito tempo sozinhas, em casa, nas redes sociais. Perderam o hábito de estarem juntas e conversarem", diz de Boisse. "O que nos dá mais prazer é ver o advogado sentado ao lado do padeiro, batendo um papo."

As acusações da esquerda claramente irritam de Boisse, que insiste que são infundadas.

"É claro que não podemos controlar a mente de todas as pessoas que vêm. E ocasionalmente, talvez alguém bêbado diga alguma besteira" afirma.

"Mas nossas regras são bem claras e estão estabelecidas na carta, que todos assinam ao comprar um ingresso", completa.

Ele diz que a LFI está errada ao afirmar que servem apenas carne de porco. Isso acontece regularmente – porque a charcutaria faz parte da tradição rural francesa – mas não exclusivamente.

E ele se irrita com as alegações de que uma saudação nazista foi vista em um banquete. "Conversei com o cara e ele disse que a acusação era um completo absurdo", diz ele.

Descrevendo-se como um católico da aristocracia empobrecida e um empresário, ele diz que seria ofensivo tanto à sua ética quanto ao seu senso de negócios excluir pessoas dos banquetes.

Quanto a Stérin, ele diz que nunca conheceu o investidor, que "comprou uma participação de 30% simplesmente porque percebeu que éramos muito lucrativos".

Para Fourreau, do LFI, os banquetes são "retrógrados – uma caricatura".

"Eles não representam a França moderna, que é um lugar rico em diversidade."

O partido dela está tentando fazer com que as autoridades locais parem com os banquetes e obteve um sucesso inicial na cidade de Quimper, na Bretanha.

Em Caen, onde um banquete foi realizado em abril, a polícia está conduzindo uma investigação preliminar sobre alegações de provocação racial por parte dos participantes.

De Boisse não nega que muitos – talvez a maioria – de seus frequentadores sejam provavelmente de direita ou direita radical. "Mas veja as eleições. É assim que cada vez mais pessoas no interior estão votando", diz ele.

"Veja bem, eu crio empregos, eu crio felicidade para as pessoas que vêm aos banquetes. Tudo bem, esses políticos não gostam do acionista, não gostam das pessoas que vêm aos banquetes, não gostam do meu nome – mas por que eles têm que nos atacar? Por que eles simplesmente não nos deixam em paz?"

¨      Velhos interesses, novas estratégias: como avaliar a última visita de Macron à África?

O presidente da França, Emmanuel Macron esteve no Egito, no Quênia e na Etiópia no mês passado. O objetivo, segundo analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, foi aumentar a zona de influência em países que não são francófonos, uma vez que Paris vem perdendo espaço no continente africano.

Na primeira metade do mês de maio, uma aparição de Macron pedindo silêncio durante uma apresentação no Quênia ganhou o noticiário ocidental, sendo, talvez, a grande manchete da passagem do mandatário pela África.

O que talvez tenha ficado em segundo plano para a mídia, foi a reunião com mais de 40 chefes de Estado Nairóbi, além do anúncio de cerca de €34 bilhões em investimentos no continente africano.

Especialistas ouvidos pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, avaliam o movimento francês como uma tentativa de redesenhar sua presença no continente. E o faz com urgência, porque sabe que está perdendo terreno.

A expulsão das tropas francesas do Mali, Burkina Faso e Níger, países do Sahel que historicamente estiveram sob forte influência de Paris, pode ser lida como o pano de fundo que explica a excursão francesa ao continente africano, diz Vitória França, mestranda em ciência política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e pesquisadora de Oriente Médio e Norte da África.

"A crise no Sahel e a falta de influência francesa nessa região é o ponto-chave para entender toda a movimentação da França em 2026".

<><> Por que o Quênia?

A escolha de Nairóbi como palco central da ofensiva diplomática francesa não foi por acaso. Diferentemente dos países do Sahel, o Quênia é uma ex-colônia britânica, com economia considerada dinâmica, estabilidade política relativa e um papel relevante como polo tecnológico e de segurança regional, segundo os analistas.

Para o professor Márcio Sette Fortes, professor de relações internacionais do Ibmec, o país representa uma âncora estratégica: "O Quênia se posicionou muito bem na questão de transição energética, há investimentos franceses em infraestrutura como portos e ferrovias, e existe um pacto de cooperação militar de longo prazo já delineado."

Lucien Agossou, doutor em relações Internacionais do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), reforça essa leitura ao apontar que o Quênia representa uma "nova África" para os olhos das potências ocidentais: estável, dinâmico e disputado por China, Rússia, Índia e países do Golfo.

"A França não quer se limitar às suas antigas colônias. Ela quer se aproximar do Quênia para ampliar sua presença na África Oriental e construir novas alianças", afirma.

Já em relação ao que o Quênia ganha, os especialistas apontam a diversificação de parceiros para o país africano. Agossou destaca que "é uma oportunidade que o Quênia tem que aproveitar para discutir com vários parceiros e não se alinhar atrás de um parceiro só".

Sette Flores recorda que Nairóbi sediou recentemente uma cúpula em busca de um parceiro estável e a França se apresentou como esse candidato a contribuir com avanços em larga escala, como modernização de infraestruturas e transição energética.

<><> Ampliação de influência esbarra pode esbarrar em China e Rússia?

O avanço da China, sobretudo com a Nova Rota da Seda é inerente. Pequim tornou-se o maior parceiro comercial do continente africano, concentrando investimentos em infraestrutura, mineração e combustíveis. A Rússia ocupa outro nicho: cooperação militar e influência no Sahel, exatamente de onde a França foi expulsa.

"São os dois grandes concorrentes da França na África hoje", afirma Vitória França. "Na presença militar e no Sahel, a Rússia tem maior prestígio, principalmente na África Oriental. A China, por sua vez, tem ganhado muito mais espaço em questões econômicas e geopolíticas."

Outros países que têm ampliado a presença no continente com a queda de influência francesa no Sahel e com as "rusgas com a Argélia" são Turquia e Índia, conforme apontam os analistas.

Agossou acrescenta que a vantagem chinesa é também de custo. "A presença chinesa para os países africanos é mais barata do que a presença francesa." Já Sette Fortes lembra que a entrada do Egito e da Etiópia nos BRICS sinaliza um desafio crescente à hegemonia ocidental no continente.

<><> Parcerias horizontais ou neocolonialismo?

A França ainda se manifesta no continente, sobretudo em suas ex-colônias de três formas, conforme aponta Sette Flores: política, militar e econômica. Um exemplo, segundo o analista é a presença do Franco CFA ainda utilizado por países como Senegal, Costa do Marfim, Camarões e Níger. A moeda tem suas reservas custodiadas em Paris, limitando a soberania monetária dessas nações.

De acordo com Vitória França, este é um modelo que Paris encontrou para "continuar presente no território africano". O desafio, agora, "é mudar essa retórica e se colocar mais como um aliado horizontal", acrescenta.

A analista aponta, ainda, que a França tenta dar uma guinada discursiva — Macron chegou a se autodeclarar "pan-africanista" durante a cúpula, frase que ela considera "problemática" — mas pondera que mudança retórica não equivale a mudança estrutural.

"A política externa francesa para a África é extremamente moldada a partir do colonialismo". Dessa forma, ela coloca que mesmo tentando, o presidente francês não consegue totalmente se desvincular de comportamentos que posicionam a França como um Estado superior.

Já Agossou relata que pelo aspecto de desenvolvimento francês em relação aos países africanos, os acordos tendem a serem verticais, com a própria França decidindo, "às vezes algumas políticas antes de dar o dinheiro". Ou seja, para ele, uma associação de igual para igual é vista como "muito difícil".

Fato é que, conforme os especialistas, se o tempo do colonialismo acabou, o espaço para o neocolonialismo está se esgotando e Paris precisa entender o sinal dos tempos para reeditar o protagonismo no continente africano.

¨      Política anti-imigração da Europa intensifica conflitos internos entre europeus, diz analista

Diversos países da Europa vêm recrudescendo medidas que visam limitar e até deportar imigrantes. No entanto, essas ações, motivadas muitas vezes pela insatisfação com a crise econômica que atravessa o continente, podem gerar efeitos colaterais inclusive entre cidadãos europeus, devido à assimetria na relação entre os Estados no âmbito do bloco.

Nesse sentido, Fabiana de Oliveira, mestre e doutora em relações internacionais pelo PROLAM/USP, explica em entrevista à Sputnik Brasil que a perseguição a grupos específicos de estrangeiros acaba ocultando um cenário ainda mais complexo: a migração intraeuropeia. Nela, o cidadão de um país menos abastado do continente migra para outro mais rico e sofre preconceito, embora também possua o passaporte europeu.

"Esse é o risco que as pessoas não percebem, porque há um alvo em comum, que é o imigrante árabe, islâmico e turco. Só que isso pode se voltar contra imigrantes de países mais pobres na Europa. Por exemplo, a Bulgária ingressou na União Europeia e é óbvio que trabalhadores búlgaros emigrem para a Alemanha ou França. Portanto, há condições para que esse sentimento se volte contra outros cidadãos europeus", disse.

Fabiana, especialista em temas relacionados à imigração e que já viveu na Inglaterra, relembra que a propaganda do Brexit, referendo que retirou o Reino Unido da União Europeia em 2020, era marcada por discursos sobre os impactos da migração de outros europeus para dentro do território britânico.

"Durante a campanha do Brexit no Reino Unido, em 2016, já existia muito dessa ideia de que o problema era culpa do polonês ou do romeno, por exemplo. Esse sentimento já estava presente", comenta.

<><> Movimentos contra a imigração influenciam a política

Outro ponto levantado por Fabiana é que o espaço institucional, ocupado por partidos que elegem representantes por sufrágio público ou votação indireta, acaba sendo dominado por figuras que dão voz a movimentos contra a presença de estrangeiros, antes restritos às ruas.

"Existe um mal-estar generalizado, amplo, que alcançou até mesmo países considerados mais estáveis, como a Suíça. As elites políticas não conseguem dar uma resposta rápida. O que há de mais simples para oferecer a esse eleitorado frustrado é a ideia de que a imigração está por trás de todos esses problemas", destaca.

A pesquisadora também ressalta que essa tendência não se restringe apenas a partidos da direita, uma vez que há até coligações da esquerda, por ambições eleitorais, acabam absorvendo essas pautas por estarem em alta no seio da população de seus respectivos países.

"Vou dar um exemplo bem simples. Na Espanha, há um partido pequeno chamado Frente Obrero, que tenta disputar o eleitorado de esquerda e se diferenciar do Vox, da extrema direita, dizendo que não é a favor de humilhar os imigrantes, mas sim de prendê-los e colocá-los em centros de detenção por tempo indeterminado", observa.

<><> Cidadãos da América Latina também serão afetados

A recente proposta suíça de limitar a população a 10 milhões até 2050 soma-se a um movimento mais amplo de endurecimento migratório na Europa, como em Portugal, cujas mudanças recentes aumentaram o tempo necessário para estrangeiros solicitarem cidadania; e, na Itália, o governo restringiu o acesso à cidadania por descendência, afetando especialmente o Brasil, entre outras comunidades da América Latina, como observa Fabiana.

"Quando há endurecimento das regras, a dificuldade aumenta para todos. Por exemplo, vão sendo impostas barreiras para os descendentes [europeus], e com isso o acesso ao passaporte fica restrito. Além disso, há também uma multiplicação de vistos que são muito frágeis e colocam os imigrantes, como os brasileiros, em uma situação de muita precariedade", conclui.

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Em um mundo cada vez mais globalizado, países que ainda carregam as chagas do colonialismo europeu enfrentam sérias dificuldades de desenvolvimento e continuam tendo a Europa, sua antiga metrópole, como referência para trabalhar. No entanto, o outrora idealizado modelo de bem-estar social europeu não apenas é questionado externamente, mas também passa a gerar profundas contradições econômicas e assimetrias entre os próprios europeus.

 

Fonte: Por Hugh Schofield, correspondente da BBC em Paris/Sputnik Brasil

 

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