Os
megabanquetes 'patrióticos' no centro de disputa entre direita e esquerda na
França
Três
mil e quinhentos franceses famintos
devoram travessas de embutidos e, de tempos em tempos, irrompem em um coro
barulhento.
Trata-se
da edição mais recente de um fenômeno gastronômico que vem se
espalhando pelo interior da França.
A
cidade de Colmar, na Alsácia — famosa por seu centro medieval com casas de
estrutura de madeira aparente — foi palco, no último fim de semana, de um
dos banquets géants (banquetes gigantes), enormes eventos
gastronômicos cuja popularidade no país se tornou repentinamente uma questão
política polêmica.
Organizados
por uma empresa chamada Le Canon Français (O Canhão Francês), os banquetes são
extremamente concorridos: por 81 euros (cerca de R$ 483), os participantes têm
direito a quatro pratos da gastronomia local, vinho à vontade e várias horas de
cantoria e camaradagem.
Mas a
festa não agrada a todos. Para o partido de esquerda radical La France
Insoumise (LFI, ou "França Insubmissa"), os banquetes têm um lado
obscuro.
A LFI
afirma ter evidências de cânticos racistas e de funcionários imigrantes sendo
insultados. Como a carne de porco aparece frequentemente no cardápio, o partido
diz que as festas são pensadas para excluir muçulmanos e vegetarianos.
O
partido também cita o envolvimento financeiro de um empresário ultraconservador
chamado Pierre-Edouard Stérin como evidência de uma motivação oculta: promover
a agenda da direita radical.
Stérin,
bilionário que fez fortuna com a Smartbox, empresa de vales-presente de
experiências, criou um centro de estudos que defende ideias de direita, como
restringir a imigração, proibir o aborto e promover a herança cristã da França.
"Se
estivessem agindo de boa-fé, Le Canon Français nunca teria aceitado Stérin como
investidor. Mas aceitaram, pegaram o dinheiro dele", diz Emma Fourreau,
membro do Parlamento Europeu pela LFI.
"E
é assim porque compartilham o mesmo ecossistema político, cujo objetivo é levar
a direita radical ao poder."
No
banquete de Colmar, realizado nos arredores da cidade, em um espaço enorme
parecido com um galpão, essas acusações são prontamente rejeitadas.
Em uma
atmosfera festiva, os convidados se sentam em mesas compridas, com 50 pessoas
de cada lado. Muitos homens vestem o que se tornou uma espécie de uniforme do
Canon Français: boinas e suspensórios. Algumas mulheres usam um traje
tradicional do nordeste da França.
Há uma
breve fala da organização, que lembra os convidados da "carta de
princípios" assinada na compra do ingresso e que os obriga a se comportar
com respeito e decoro. Então a diversão começa: um exército de garçons traz
travessas de chucrute, depois queijos e o tradicional bolo kougelhopf —
feito com manteiga, passas e amêndoas. O vinho corre solto.
Periodicamente,
os comensais largam os garfos e se juntam em coro. Clássicos de artistas como
Michel Delpech e Joe Dassin são os favoritos.
São
canções de uma geração anterior, mas os participantes – que aparentam ter
principalmente entre 20 e 30 anos – as conhecem de cor.
"Viemos
por quatro coisas: ambiente, amigos, álcool e comida", diz um jovem, em
uma resposta que se repete várias vezes. Ninguém quer falar de política, exceto
para dizer que acham que toda a controvérsia é exagerada.
"Nada
disso era um problema, mas aí Stérin se tornou acionista e isso deu à LFI uma
desculpa para atacar. Não se esqueçam que há eleições no ano que vem", diz
Quentin, de Besançon, no leste da França.
A
multidão em Colmar era predominantemente – mas não exclusivamente – branca, e
muitos disseram estar felizes por poderem celebrar de forma tradicional entre
amigos. Mas a BBC não viu nenhum comportamento nem ouviu nenhuma linguagem que
pudesse ser interpretada como ofensiva.
Le
Canon Français é uma criação de dois empreendedores – Pierre-Alexandre de
Boisse e Géraud de la Tour – que começaram a vender vinho pela internet para
ajudar um amigo viticultor em dificuldades durante a pandemia de covid-19.
A
partir daí, começaram a organizar eventos para arrecadar fundos para projetos
de preservação do patrimônio – e o sucesso nessa iniciativa os levou aos
banquetes.
De
Boisse afirma que estão apenas revivendo uma antiga tradição francesa de
jantares coletivos com boa comida local, que remonta à Idade Média.
Após
a Revolução Francesa, que levou à
abolição da monarquia, havia os banquetes republicanos – que marcaram a chegada
do novo sistema. E, até recentemente, cada vila costumava ter seu banquete
popular anual – uma espécie de festa popular.
"Hoje
em dia, as pessoas perdem muito tempo sozinhas, em casa, nas redes sociais.
Perderam o hábito de estarem juntas e conversarem", diz de Boisse. "O
que nos dá mais prazer é ver o advogado sentado ao lado do padeiro, batendo um
papo."
As
acusações da esquerda claramente irritam de Boisse, que insiste que são
infundadas.
"É
claro que não podemos controlar a mente de todas as pessoas que vêm. E
ocasionalmente, talvez alguém bêbado diga alguma besteira" afirma.
"Mas
nossas regras são bem claras e estão estabelecidas na carta, que todos assinam
ao comprar um ingresso", completa.
Ele diz
que a LFI está errada ao afirmar que servem apenas carne de porco. Isso
acontece regularmente – porque a charcutaria faz parte da tradição rural
francesa – mas não exclusivamente.
E ele
se irrita com as alegações de que uma saudação nazista foi vista em um
banquete. "Conversei com o cara e ele disse que a acusação era um completo
absurdo", diz ele.
Descrevendo-se
como um católico da aristocracia empobrecida e um empresário, ele diz que seria
ofensivo tanto à sua ética quanto ao seu senso de negócios excluir pessoas dos
banquetes.
Quanto
a Stérin, ele diz que nunca conheceu o investidor, que "comprou uma
participação de 30% simplesmente porque percebeu que éramos muito
lucrativos".
Para
Fourreau, do LFI, os banquetes são "retrógrados – uma caricatura".
"Eles
não representam a França moderna, que é um lugar rico em diversidade."
O
partido dela está tentando fazer com que as autoridades locais parem com os
banquetes e obteve um sucesso inicial na cidade de Quimper, na Bretanha.
Em
Caen, onde um banquete foi realizado em abril, a polícia está conduzindo uma
investigação preliminar sobre alegações de provocação racial por parte dos
participantes.
De
Boisse não nega que muitos – talvez a maioria – de seus frequentadores sejam
provavelmente de direita ou direita radical. "Mas veja as eleições. É
assim que cada vez mais pessoas no interior estão votando", diz ele.
"Veja
bem, eu crio empregos, eu crio felicidade para as pessoas que vêm aos
banquetes. Tudo bem, esses políticos não gostam do acionista, não gostam das
pessoas que vêm aos banquetes, não gostam do meu nome – mas por que eles têm
que nos atacar? Por que eles simplesmente não nos deixam em paz?"
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Velhos interesses, novas estratégias: como avaliar a
última visita de Macron à África?
O
presidente da França, Emmanuel Macron esteve no Egito, no Quênia e na Etiópia
no mês passado. O objetivo, segundo analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, foi
aumentar a zona de influência em países que não são francófonos, uma vez que
Paris vem perdendo espaço no continente africano.
Na
primeira metade do mês de maio, uma aparição de Macron pedindo silêncio durante
uma apresentação no Quênia ganhou o noticiário ocidental, sendo, talvez, a
grande manchete da passagem do mandatário pela África.
O que
talvez tenha ficado em segundo plano para a mídia, foi a reunião com mais de 40
chefes de Estado Nairóbi, além do anúncio de cerca de €34 bilhões em
investimentos no continente africano.
Especialistas ouvidos pelo
Mundioka,
podcast da Sputnik Brasil, avaliam o movimento francês como uma tentativa
de redesenhar sua presença no continente. E o faz com urgência, porque
sabe que está perdendo terreno.
A
expulsão das tropas francesas do Mali, Burkina Faso e Níger, países do Sahel
que historicamente estiveram sob forte influência de Paris, pode ser lida como
o pano de fundo que explica a excursão francesa ao continente africano,
diz Vitória França, mestranda em ciência política da Universidade Federal
do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e pesquisadora de Oriente Médio e Norte da
África.
"A
crise no Sahel e a falta de influência francesa nessa região é o ponto-chave
para entender toda a movimentação da França em 2026".
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Por que o Quênia?
A
escolha de Nairóbi como palco central da ofensiva diplomática francesa não foi
por acaso. Diferentemente dos países do Sahel, o Quênia é uma ex-colônia
britânica, com economia considerada dinâmica, estabilidade política relativa e
um papel relevante como polo
tecnológico e
de segurança regional, segundo os analistas.
Para o
professor Márcio Sette Fortes, professor de relações internacionais do
Ibmec, o país representa uma âncora estratégica: "O Quênia se posicionou
muito bem na questão de transição energética, há investimentos franceses em
infraestrutura como portos e ferrovias, e existe um pacto de cooperação militar
de longo prazo já delineado."
Lucien
Agossou, doutor em relações Internacionais do Programa de Pós-Graduação em
Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ),
reforça essa leitura ao apontar que o Quênia representa uma "nova
África" para os olhos das potências ocidentais: estável, dinâmico e
disputado por China, Rússia, Índia e países do Golfo.
"A
França não quer se limitar às suas antigas colônias. Ela quer se aproximar do
Quênia para ampliar sua presença na África Oriental e construir novas
alianças", afirma.
Já em
relação ao que o Quênia ganha, os especialistas apontam a diversificação de
parceiros para o país africano. Agossou destaca que "é uma oportunidade
que o Quênia tem que aproveitar para discutir com vários parceiros e não
se alinhar atrás de um parceiro só".
Sette
Flores recorda que Nairóbi sediou recentemente uma cúpula em busca de um
parceiro estável e a França se apresentou como esse candidato a contribuir com
avanços em larga escala, como modernização de infraestruturas e transição
energética.
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Ampliação de influência esbarra pode esbarrar em China e Rússia?
O
avanço da China, sobretudo com a Nova Rota da Seda é inerente. Pequim tornou-se
o maior parceiro comercial do continente africano, concentrando investimentos
em infraestrutura, mineração e combustíveis. A Rússia ocupa outro nicho: cooperação militar e influência no
Sahel, exatamente de onde a França foi expulsa.
"São
os dois grandes concorrentes da França na África hoje", afirma Vitória
França. "Na presença militar e no Sahel, a Rússia tem maior prestígio,
principalmente na África Oriental. A China, por sua vez, tem ganhado muito mais
espaço em questões econômicas e geopolíticas."
Outros
países que têm ampliado a presença no continente com a queda de influência francesa
no Sahel e
com as "rusgas com a Argélia" são Turquia e Índia, conforme apontam
os analistas.
Agossou
acrescenta que a vantagem chinesa é também de custo. "A presença chinesa
para os países africanos é mais barata do que a presença francesa." Já
Sette Fortes lembra que a entrada do Egito e da Etiópia nos BRICS sinaliza
um desafio crescente à hegemonia ocidental no continente.
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Parcerias horizontais ou neocolonialismo?
A
França ainda se manifesta no continente, sobretudo em suas ex-colônias de três
formas, conforme aponta Sette Flores: política, militar e econômica. Um
exemplo, segundo o analista é a presença do Franco
CFA ainda
utilizado por países como Senegal, Costa do Marfim, Camarões e Níger. A moeda
tem suas reservas custodiadas em Paris, limitando a soberania monetária dessas
nações.
De
acordo com Vitória França, este é um modelo que Paris encontrou para
"continuar presente no território africano". O desafio, agora,
"é mudar essa retórica e se colocar mais como um aliado horizontal",
acrescenta.
A
analista aponta, ainda, que a França tenta dar uma guinada discursiva — Macron
chegou a se autodeclarar "pan-africanista" durante a cúpula, frase
que ela considera "problemática" — mas pondera que mudança
retórica não equivale a mudança estrutural.
"A política externa
francesa para a África é extremamente moldada a partir do
colonialismo". Dessa forma, ela coloca que mesmo tentando, o presidente
francês não consegue totalmente se desvincular de comportamentos que posicionam
a França como um Estado superior.
Já
Agossou relata que pelo aspecto de desenvolvimento francês em relação aos
países africanos, os acordos tendem a serem verticais, com a própria França
decidindo, "às vezes algumas políticas antes de dar o dinheiro". Ou
seja, para ele, uma associação de igual para igual é vista como
"muito difícil".
Fato é
que, conforme os especialistas, se o tempo do colonialismo acabou, o espaço para o
neocolonialismo está se esgotando e Paris precisa entender o sinal dos
tempos para reeditar o protagonismo no continente africano.
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Política anti-imigração da Europa intensifica conflitos
internos entre europeus, diz analista
Diversos
países da Europa vêm recrudescendo medidas que visam limitar e até deportar
imigrantes. No entanto, essas ações, motivadas muitas vezes pela insatisfação
com a crise econômica que atravessa o continente, podem gerar efeitos
colaterais inclusive entre cidadãos europeus, devido à assimetria na relação
entre os Estados no âmbito do bloco.
Nesse
sentido, Fabiana de Oliveira, mestre e doutora em relações internacionais
pelo PROLAM/USP, explica em entrevista à Sputnik Brasil que a perseguição
a grupos específicos de estrangeiros acaba ocultando um cenário ainda mais
complexo: a migração intraeuropeia. Nela, o cidadão de um país menos abastado
do continente migra para outro mais rico e sofre preconceito, embora também
possua o passaporte europeu.
"Esse
é o risco que as pessoas não percebem, porque há um alvo em comum, que é o
imigrante árabe, islâmico e turco. Só que isso pode se voltar contra imigrantes
de países mais pobres na Europa. Por exemplo, a Bulgária ingressou na União
Europeia e é óbvio que trabalhadores búlgaros emigrem para a Alemanha ou
França. Portanto, há condições para que esse sentimento se volte contra
outros cidadãos europeus", disse.
Fabiana,
especialista em temas relacionados à imigração e que já viveu na Inglaterra,
relembra que a propaganda do Brexit, referendo que
retirou o Reino Unido da União Europeia em 2020, era marcada por discursos
sobre os impactos da migração de outros europeus para dentro do território
britânico.
"Durante
a campanha do Brexit no Reino Unido, em 2016, já existia muito dessa ideia
de que o problema era culpa do polonês ou do romeno, por exemplo. Esse
sentimento já estava presente", comenta.
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Movimentos contra a imigração influenciam a política
Outro
ponto levantado por Fabiana é que o espaço
institucional, ocupado
por partidos que elegem representantes por sufrágio público ou votação
indireta, acaba sendo dominado por figuras que dão voz a movimentos contra a
presença de estrangeiros, antes restritos às ruas.
"Existe
um mal-estar generalizado, amplo, que alcançou até mesmo países considerados
mais estáveis, como a Suíça. As elites políticas não conseguem dar uma resposta
rápida. O que há de mais simples para oferecer a esse eleitorado frustrado
é a ideia de que a imigração está por trás de todos esses problemas",
destaca.
A
pesquisadora também ressalta que essa tendência não se restringe apenas a
partidos da direita, uma vez que há até coligações da esquerda, por
ambições eleitorais, acabam absorvendo essas pautas por estarem em alta no seio
da população de seus respectivos países.
"Vou
dar um exemplo bem simples. Na Espanha, há um partido pequeno chamado
Frente Obrero, que tenta disputar o eleitorado de esquerda e se
diferenciar do Vox, da extrema direita, dizendo que não é a favor de humilhar
os imigrantes, mas sim de prendê-los e colocá-los em centros de detenção por
tempo indeterminado", observa.
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Cidadãos da América Latina também serão afetados
A
recente proposta suíça de limitar a população a 10 milhões até 2050 soma-se a
um movimento mais amplo de endurecimento migratório na Europa, como em
Portugal, cujas mudanças recentes aumentaram o tempo necessário para
estrangeiros solicitarem cidadania; e, na Itália, o governo restringiu o acesso
à cidadania por descendência, afetando especialmente o Brasil, entre outras
comunidades da América Latina, como observa Fabiana.
"Quando
há endurecimento das regras, a dificuldade aumenta para todos. Por exemplo, vão
sendo impostas barreiras para os descendentes [europeus], e com isso o acesso
ao passaporte fica restrito. Além disso, há também uma multiplicação de
vistos que são muito frágeis e colocam os imigrantes, como os brasileiros,
em uma situação de muita precariedade", conclui.
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Sputnik / Sputnik Brasil / Rennan Rebello
Em um
mundo cada vez mais globalizado, países que ainda carregam as chagas do
colonialismo europeu enfrentam sérias dificuldades de desenvolvimento e
continuam tendo a Europa, sua antiga
metrópole, como
referência para trabalhar. No entanto, o outrora idealizado modelo de bem-estar
social europeu não apenas é questionado externamente, mas também passa a gerar
profundas contradições econômicas e assimetrias entre os próprios europeus.
Fonte:
Por Hugh Schofield, correspondente da BBC em Paris/Sputnik Brasil

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