segunda-feira, 20 de julho de 2026

O golpe se voltou contra quem o desferiu

O calendário eleitoral avança. Nesta semana terá início a temporada de convenções partidárias e, com elas, haverá uma mudança formal, porém importante, no cenário da disputa. Daqui por diante, os políticos que disputarão cargos eletivos este ano poderão ser chamados de candidatos — algo que já eram há muito tempo, mas que não podiam dizer. A convenção nacional do PL, de Flávio Bolsonaro, será no sábado, 25 de julho. A do PT, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrerá na próxima semana, dia 2 de agosto.

Os candidatos não precisarão recorrer a subterfúgios para pedir voto ao eleitor. No Brasil é assim: o Código Eleitoral é rígido e estabelece uma série de restrições a quem vai disputar eleições. Mas a impressão que fica é a de que os postulantes aos cargos nem ligam para isso.

Até o dia 4 deste mês, por exemplo, Lula, Tarcísio Gomes de Freitas, de São Paulo, e os outros governadores que disputarão a reeleição participaram de dezenas de inaugurações de obras de suas gestões. Os eventos nada mais foram do que comícios. Eles falavam e agiam como candidatos, distribuíam tapinhas nas costas dos correligionários — só não podiam se apresentar como candidatos.

MALHA FINA

Mais de uma vez, nessas ocasiões, os limites da lei eleitoral foram ultrapassados. Dias atrás, a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo se manifestou favorável à aceitação de uma denúncia contra o presidente Lula. O motivo foi um pedido explícito de votos para as candidatas que apoiará na disputa pelo Senado em São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva — suas ex-ministras. A punição é multa de R$ 5.000 a R$ 25.000.

Será que o presidente está preocupado com isso? Não parece. Em 2024, Lula fez exatamente o mesmo: pediu votos antes da hora para o então candidato Guilherme Boulos, do Psol, que disputou a Prefeitura de São Paulo com o apoio do PT. Até hoje, mais de dois anos depois, não há registro do pagamento da multa, reduzida de R$ 20.000 para R$ 15.000.

São tantos os casos em que a Justiça parece inerte diante do descumprimento das normas eleitorais que, quando alguém cai na malha fina, é inevitável que o episódio atraia atenção. Na última segunda-feira, o ministro Alexandre de Moraes tomou decisões que atingem em cheio a candidatura (ou melhor, a pré-candidatura) de Flávio Bolsonaro.

O episódio girou em torno da carta do ex-presidente Jair Bolsonaro, lida por Flávio em suas redes sociais. Na tentativa de reorganizar as forças de apoio ao PL, o ex-presidente, que cumpre em regime domiciliar a pena de prisão a que foi condenado pelo STF, disse que seus apoiadores deveriam deixar as "possíveis diferenças" de lado e se unir em torno da candidatura de seu filho mais velho.

CONSEQUÊNCIAS INESPERADAS

A reação de Moraes, que cuida do caso, não tardou. Rigoroso, como costuma ser quando se trata de qualquer ação que envolva a família Bolsonaro, ele endureceu o jogo e proibiu Flávio de ter contato com o pai por 90 dias — o que os manterá afastados durante todo o processo eleitoral. Também solicitou à Justiça Eleitoral que avalie o possível descumprimento da lei por campanha eleitoral antecipada.

No calor dos acontecimentos, emergiu a suspeita de que a intenção de Flávio, ao divulgar amplamente a carta, foi justamente a de provocar a reação do ministro. Como se o golpe tivesse se voltado contra quem o desferiu. A decisão ampliou o alcance político da carta, conferiu relevância nacional ao episódio e recolocou o nome de Jair Bolsonaro no centro da campanha justamente às vésperas das convenções partidárias.

Os movimentos da política às vezes têm consequências estranhas. O contencioso comercial com os Estados Unidos, por exemplo, é um desastre para o Brasil. Na semana passada, o governo americano aplicou tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros — e é cada vez mais evidente que a decisão foi estimulada pela postura do Itamaraty, que, em vez de negociar, preferiu não conversar com Washington.

Assim como a decisão de Moraes pode acabar projetando ainda mais o nome de Flávio Bolsonaro, a decisão do governo de Donald Trump, que parece mirar o governo brasileiro, pode render dividendos eleitorais a Lula. Por essas e outras, a campanha deste ano promete fortes emoções. É esperar para ver.

¨      Tarifaço começa dia 22, número de Flávio na urna. Por Gilberto Menezes Côrtes

Não adianta o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fazer contorcionismos para atribuir a responsabilidade do tarifaço de 25%, imposto pelo USTR (Escritório de Comércio dos Estados Unidos), do governo Trump, a mais de 4 mil itens exportados pelo Brasil aos EUA, ao presidente Lula.

As digitais do candidato, que apoiou as medidas em junho do ano passado, quando Trump exigiu, pela sua rede social, "IMEDIATAMENTE", a suspensão do processo contra Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, estão presentes na própria data em que começa a contagem do tarifaço: 22 de julho.

Isso vai reavivar, na hora da votação na urna, em 4 de outubro, quem é, de fato, o instigador de medidas lesa-pátria contra o Brasil, pois o número do candidato do PL é 22.

A responsabilidade política é toda do clã Bolsonaro, que, capitaneado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, eleito pelo PSL em 2018, sentou praça no PL em 30 de novembro de 2021.

<><> Exceções não alteram as regras

Como em todos os tarifaços já ensaiados pelo governo Trump (o primeiro, de âmbito global, valeria a partir de abril de 2025, mas foi recuado diante do efeito bumerangue), há um prazo efetivo para que os importadores locais dos produtos desembarcados nos portos e aeroportos americanos paguem as novas tarifas. Isso exclui os produtos que estão em trânsito, por navios.

De outra parte, na economia globalizada que o presidente americano quer destruir em favor do MAGA, a indústria e o setor de serviços dos Estados Unidos dependem dos insumos importados. Por isso, por dependerem dos "chips" e terras raras fornecidas pela China, o rugido inicial de leão contra Xi Jinping se transformou em miado, com recuos gerais e negociações caso a caso.

Em agosto-setembro do ano passado, diante das pressões inflacionárias, a partir do café da manhã, os EUA foram abrindo isenções pragmáticas a produtos brasileiros, como resultado das negociações de representantes empresariais e governamentais dos dois países. Depois, a própria Suprema Corte americana derrubou o tarifaço.

<><> Mirando no Brasil

Mas a mira "na cabecinha" do Brasil, como diria o ex-aliado, ex-governador Wilson Witzel (PSL-RJ), que sofreu "impeachment" na Alerj, em 2021, foi instigada pelo clã Bolsonaro, representado nos EUA, desde fevereiro de 2025, pelo filho 03, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que perdeu o mandato por excesso de faltas, enquanto tramava contra a pátria junto ao Departamento de Estado chefiado por Marco Rubio, e o economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, general João Figueiredo.

A ambos, em duas ocasiões, Flávio Bolsonaro se juntou, em Washington, para tramar contra o Brasil. Em maio, depois de despencar nas pesquisas após as revelações de sua intimidade com Vorcaro [por sinal, esta semana, foi divulgada foto descontraída do senador, sem camisa, feita em 2022, ao lado do "sicário" de Daniel Vorcaro, Luiz Phillipi Mourão, que teria se suicidado em cela da Polícia Federal em março deste ano, indicando que os contatos seriam anteriores a 2024, como alega], para defender, ao lado de Trump, o tarifaço, negociações com o Pix e a inclusão do PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.

Ante a repercussão negativa, voltou em julho ao Departamento de Estado, depois de pedir, em carta ao USTR, para que os Estados Unidos suspendessem o tarifaço por três meses, “para não beneficiar Lula”, e aproveitou para municiar o secretário Marco Rubio contra o Brasil. Isso explicaria a grosseria do ataque ao “ego” de Lula pelo secretário de Trump, o maior dos ególatras.

Assim, na prática, os impactos nos consumidores americanos (que, no fundo, vão receber produtos remarcados pelas novas tarifas) fica para agosto.

<><> Impactos do tarifaço na reta final

Ou seja, o noticiário sobre os impactos do tarifaço – não só pela ótica das perdas de empresários e trabalhadores brasileiros dos setores mais atingidos (que se concentram em São Paulo, o estado de maior pujança econômica e de mais peso no colégio eleitoral), além das notícias vindas dos EUA - vai coincidir com a abertura da janela para que os partidos políticos confirmem suas chapas para a eleição presidencial e para os demais cargos em disputa este ano.

Nesta segunda-feira, 20 de julho, começa a contagem regressiva para a definição das chapas, cujo prazo se encerra em 5 de agosto.

Os impactos políticos dos noticiários negativos que se abateram sobre o candidato do PL desde 13 de maio, quando o site “Intercep Brasil” divulgou suas conversas de “irmão” com Daniel Vorcaro, para cobrar do então dono do Banco Master, que já tinha adiantado R$ 61 milhões, o restante dos R$ 134 milhões previstos para o filme “Dark Horse”, o “Azarão”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, são devastadores. E refletem nas pesquisas eleitorais

<><> A ironia do calendário

Não é devaneio ou mera especulação de alguns analistas políticos a suposição de mudança brusca na chapa do PL até 5 de agosto.

Aos sucessivos revezes de Flávio Bolsonaro, como o cerco da Polícia Federal a aliados políticos no Rio de Janeiro e outros estados ligados ao crime organizado (ironia, além das milícias, há vinculações ao Comando Vermelho e ao Terceiro Comando Puro, ainda não considerado “terrorista”) se somam os riscos da audiência marcada para o dia 28 de julho pelo ministro Alexandre de Moraes, no STF.

Trata-se do julgamento de crime de calúnia contra o presidente Lula, a quem acusara de ligações com o narcotráfico. Os casos geram a expectativa de que o senador, - ameaçado de derrota para Lula – tente manobra radical para evitar a retomada das investigações sobre a prática de “rachadinhas” de salários de nomeados em seu gabinete na Alerj.

O mandato de senador de Flávio Bolsonaro está valendo até 31 de janeiro de 2026. Foi por ter sido eleito senador, em 2018, e o pai presidente da República, que Jair Bolsonaro mexeu céus e terras para trancar as investigações e anular as provas de saques e depósitos em caixas eletrônicos colhidos pelo Ministério Público e a Polícia Civil do Estado Rio de Janeiro, e passar o exame à instância superior. O governo estadual, sob intervenção do presidente do Tribunal de Justiça do ERJ, desembargador Ricardo Couto, não deixa espaço a manipulações políticas dos aliados

O caso das “rachadinhas” motivou as desavenças que levaram ao “impeachment” de Witzel. Também custou a demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança de Bolsonaro, em 23 de abril de 2020, porque a Polícia Federal estava reabrindo o caso.

Flávio, se for eleito, promete o indulto ao pai, Jair Messias Bolsonaro, que está cumprindo pena de 27 anos em prisão domiciliar – quase suspensa pela mal explicada divulgação da “Carta aos brasileiros”, lida por Flávio em redes sociais. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, adiantou que o indulto poderia ocorrer em janeiro. Entretanto, em caso de derrota, Flávio Nantes Bolsonaro perde a imunidade a partir de 1º de fevereiro. Se as chances de derrota crescerem, é plausível que busque a proteção de um novo mandato no Senado ou na Câmara dos Deputados.

<><> Nas tarifas, Trump quer a Fifa, não ONU e OMC

Para o presidente americano, Donald Trump, que retirou os Estados Unidos dos principais acordos internacionais (como o do Clima), esvaziou a ONU e seus organismos internacionais (como a OMS e a OMC) e anunciou tarifaço contra o Brasil a partir de 22 de julho, o mundo ideal seria o da Copa do Mundo, gerido pela Fifa.
No jogo contra a Bósnia: o artilheiro Balogun, dos EUA, foi expulso, por jogo violento. E estaria suspenso no jogo, eliminatório, contra a Bélgica, dia 6 de julho. O presidente Trump apelou à Fifa e foi atendido: para Trump, “a Fifa corrigiu uma grande injustiça”. Mas os deuses do futebol não aceitam interferência e a Bélgica eliminou os EUA por 4 X1.

O arrazoado do USTR (o Escritório de Comércio dos Estados Unidos), equivalente ao nosso MDIC (Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior) para justificar o tarifaço de 25% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, com lista de exceção de mais de 11 mil itens (que pesam no bolso de seus consumidores ou vitais à indústria), como o café, carne bovina, laranja e suco de laranja, peixes, madeiras serradas, terras raras e peças e motores para aeronaves) é tão primário e grosseiro quanto a intervenção de Trump atendida por Giani Infantino, da Fifa.

Na verdade, a gênese do pacote americano traduz visão imperialista que não aceita concorrência no comércio, pois implicaria aceitar a perda em alguma área. Na agricultura, os EUA foram gigantes e líderes em quase todos os grãos, alimentos e produção de carnes passíveis de serem produzidos em território americano. A escala cresceu no século passado, quando as duas guerras mundiais afetaram a produção agrícola na Europa.

As exceções ditadas climáticas são claras como o cacau e o café e outros produtos que são inviáveis de produzir no solo ianque. Mas as geadas que atingiram os cafezais de São Paulo e Paraná em julho de 1975 mudaram o mapa da agricultura do Brasil. Atrás de clima mais ameno, o café se instalou no sul de Minas e no Triângulo mineiro. A cana-de-açúcar e a laranja ocuparam áreas que eram do café em SP.

E a produção de soja, iniciada no Rio Grande do Sul e Paraná, foi atraída para o Planalto Central, com sementes de soja, milho e algodão adaptadas pela Embrapa. Pastos foram substituídos por lavouras mecanizadas e a integração da produção de grãos com o confinamento de gado bovino para engorda provocou recordes de produção de grãos e carnes. Soja e milho são matérias-primas das rações para aves e suínos, cuja produção alimentou brasileiros e gerou excedentes exportáveis. O alvo da conquista do cerrado no governo Geisel (1974-79) era atender à demanda do Japão.
Na virada do século, o Brasil já era líder na exportação de carne de frango (desbancando os líderes EUA e o segundo lugar da França). O passo seguinte, com a entrada da China como grande comprador de proteínas e matérias-primas, foi erradicar a febre aftosa nos rebanhos bovinos e suínos para habilitar o Brasil como exportador dos dois tipos de carne.

A peste suína africana destruiu, na década passada, mais da metade da produção de carne de porco (a carne mais consumida na China). Isso abriu enorme espaço para carnes no mercado chinês. Os Estados Unidos não aproveitaram, porque seu rebanho bovino vem encolhendo (é menos da meta dos 220 milhões de cabeças no Brasil) e o país precisa importar carne para seus 340 milhões de consumidores.

Os pecuaristas americanos tentaram acusar os pecuaristas brasileiros de práticas desleais ou de conquista de florestas para pastos (o que fizeram no século 19). Mas a necessidade de segurar a inflação doméstica, deixou a carne bovina brasileira fora da lista: é vital à produção de hamburguers. É bom ficar atento a novas investidas.
Do mesmo modo, madeiras de pinus serradas foram isentas de taxas porque são vitais à indústria da construção de casas nos EUA. Idem para o suco de laranja (a produção da Flórida é insuficiente) e para as peças e motores para a aeronaves da Embraer, importantes para o mercado regional, assim como máquinas e tratores de uso industrial.

Mas o lado mais revelador do inconformismo americano com a perda de sua hegemonia econômica em diversas áreas é a crítica de que as instalações industriais no mundo estão com capacidade acima do consumo global. Ora, quem criou a pujança industrial nas economias emergentes após a primeira crise do petróleo, em 1973, foram os próprios Estados Unidos. Houve clara intenção de transferência da produção de bens com uso intensivo de energia (como o alumínio e o aço) para fora do território americano. Com o Brasil, acumulam saldo de mais de US$ 400 bilhões em 15 anos!

E o governo Nixon, ao abrir relações comerciais com a China, em 1972, o que, a partir da década de 1980 levou à crescente transferência de unidades de produção das multinacionais americanas nos chamados “tigres asiáticos”. As dimensões da China mostraram que as fábricas locais, produziam em muito maior escala. Com investimentos maciços em educação e a formação de engenheiros (enquanto os Estados Unidos privilegiam advogados para discussão de relações comerciais e patentes), a indústria americana ficou obsoleta e várias áreas na economia mundial (siderurgia e atividades que usam muito aço, como a construção naval e a indústria automobilística).

Querer que o mundo pague o preço pelo oportunismo americano que trocou o GATT pela OMC, porque era vantagem (nos anos 90) perder na corrente de comércio para ganhar nos fluxos financeiros, “royalties” e patentes) é igual tentar mandar no jogo como na Fifa (e não deu certo). O Brasil e outros países têm de recorrer aos painéis de controvérsia da Organização Mundial do Comércio.

 

Fonte: Por Nuno Vasconcellos, em O Dia/JB

 

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