O
golpe se voltou contra quem o desferiu
O
calendário eleitoral avança. Nesta semana terá início a temporada de convenções
partidárias e, com elas, haverá uma mudança formal, porém importante, no
cenário da disputa. Daqui por diante, os políticos que disputarão cargos
eletivos este ano poderão ser chamados de candidatos — algo que já eram há
muito tempo, mas que não podiam dizer. A convenção nacional do PL, de Flávio
Bolsonaro, será no sábado, 25 de julho. A do PT, do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, ocorrerá na próxima semana, dia 2 de agosto.
Os
candidatos não precisarão recorrer a subterfúgios para pedir voto ao eleitor.
No Brasil é assim: o Código Eleitoral é rígido e estabelece uma série de
restrições a quem vai disputar eleições. Mas a impressão que fica é a de que os
postulantes aos cargos nem ligam para isso.
Até o
dia 4 deste mês, por exemplo, Lula, Tarcísio Gomes de Freitas, de São Paulo, e
os outros governadores que disputarão a reeleição participaram de dezenas de
inaugurações de obras de suas gestões. Os eventos nada mais foram do que
comícios. Eles falavam e agiam como candidatos, distribuíam tapinhas nas costas
dos correligionários — só não podiam se apresentar como candidatos.
MALHA
FINA
Mais de
uma vez, nessas ocasiões, os limites da lei eleitoral foram ultrapassados. Dias
atrás, a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo se manifestou favorável à
aceitação de uma denúncia contra o presidente Lula. O motivo foi um pedido
explícito de votos para as candidatas que apoiará na disputa pelo Senado em São
Paulo, Simone Tebet e Marina Silva — suas ex-ministras. A punição é multa de R$
5.000 a R$ 25.000.
Será
que o presidente está preocupado com isso? Não parece. Em 2024, Lula fez
exatamente o mesmo: pediu votos antes da hora para o então candidato Guilherme
Boulos, do Psol, que disputou a Prefeitura de São Paulo com o apoio do PT. Até
hoje, mais de dois anos depois, não há registro do pagamento da multa, reduzida
de R$ 20.000 para R$ 15.000.
São
tantos os casos em que a Justiça parece inerte diante do descumprimento das
normas eleitorais que, quando alguém cai na malha fina, é inevitável que o
episódio atraia atenção. Na última segunda-feira, o ministro Alexandre de
Moraes tomou decisões que atingem em cheio a candidatura (ou melhor, a
pré-candidatura) de Flávio Bolsonaro.
O
episódio girou em torno da carta do ex-presidente Jair Bolsonaro, lida por
Flávio em suas redes sociais. Na tentativa de reorganizar as forças de apoio ao
PL, o ex-presidente, que cumpre em regime domiciliar a pena de prisão a que foi
condenado pelo STF, disse que seus apoiadores deveriam deixar as
"possíveis diferenças" de lado e se unir em torno da candidatura de
seu filho mais velho.
CONSEQUÊNCIAS
INESPERADAS
A
reação de Moraes, que cuida do caso, não tardou. Rigoroso, como costuma ser
quando se trata de qualquer ação que envolva a família Bolsonaro, ele endureceu
o jogo e proibiu Flávio de ter contato com o pai por 90 dias — o que os manterá
afastados durante todo o processo eleitoral. Também solicitou à Justiça
Eleitoral que avalie o possível descumprimento da lei por campanha eleitoral
antecipada.
No
calor dos acontecimentos, emergiu a suspeita de que a intenção de Flávio, ao
divulgar amplamente a carta, foi justamente a de provocar a reação do ministro.
Como se o golpe tivesse se voltado contra quem o desferiu. A decisão ampliou o
alcance político da carta, conferiu relevância nacional ao episódio e recolocou
o nome de Jair Bolsonaro no centro da campanha justamente às vésperas das
convenções partidárias.
Os
movimentos da política às vezes têm consequências estranhas. O contencioso
comercial com os Estados Unidos, por exemplo, é um desastre para o Brasil. Na
semana passada, o governo americano aplicou tarifas de 25% sobre uma série de
produtos brasileiros — e é cada vez mais evidente que a decisão foi estimulada
pela postura do Itamaraty, que, em vez de negociar, preferiu não conversar com
Washington.
Assim
como a decisão de Moraes pode acabar projetando ainda mais o nome de Flávio
Bolsonaro, a decisão do governo de Donald Trump, que parece mirar o governo
brasileiro, pode render dividendos eleitorais a Lula. Por essas e outras, a
campanha deste ano promete fortes emoções. É esperar para ver.
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Tarifaço começa dia 22, número de Flávio na urna. Por
Gilberto Menezes Côrtes
Não
adianta o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fazer contorcionismos para atribuir
a responsabilidade do tarifaço de 25%, imposto pelo USTR (Escritório de
Comércio dos Estados Unidos), do governo Trump, a mais de 4 mil itens
exportados pelo Brasil aos EUA, ao presidente Lula.
As
digitais do candidato, que apoiou as medidas em junho do ano passado, quando
Trump exigiu, pela sua rede social, "IMEDIATAMENTE", a suspensão do
processo contra Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, estão presentes na
própria data em que começa a contagem do tarifaço: 22 de julho.
Isso
vai reavivar, na hora da votação na urna, em 4 de outubro, quem é, de fato, o
instigador de medidas lesa-pátria contra o Brasil, pois o número do candidato
do PL é 22.
A
responsabilidade política é toda do clã Bolsonaro, que, capitaneado pelo
ex-presidente Jair Bolsonaro, eleito pelo PSL em 2018, sentou praça no PL em 30
de novembro de 2021.
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Exceções não alteram as regras
Como em
todos os tarifaços já ensaiados pelo governo Trump (o primeiro, de âmbito
global, valeria a partir de abril de 2025, mas foi recuado diante do efeito
bumerangue), há um prazo efetivo para que os importadores locais dos produtos
desembarcados nos portos e aeroportos americanos paguem as novas tarifas. Isso
exclui os produtos que estão em trânsito, por navios.
De
outra parte, na economia globalizada que o presidente americano quer destruir
em favor do MAGA, a indústria e o setor de serviços dos Estados Unidos dependem
dos insumos importados. Por isso, por dependerem dos "chips" e terras
raras fornecidas pela China, o rugido inicial de leão contra Xi Jinping se
transformou em miado, com recuos gerais e negociações caso a caso.
Em
agosto-setembro do ano passado, diante das pressões inflacionárias, a partir do
café da manhã, os EUA foram abrindo isenções pragmáticas a produtos
brasileiros, como resultado das negociações de representantes empresariais e
governamentais dos dois países. Depois, a própria Suprema Corte americana
derrubou o tarifaço.
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Mirando no Brasil
Mas a
mira "na cabecinha" do Brasil, como diria o ex-aliado, ex-governador
Wilson Witzel (PSL-RJ), que sofreu "impeachment" na Alerj, em 2021,
foi instigada pelo clã Bolsonaro, representado nos EUA, desde fevereiro de
2025, pelo filho 03, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que perdeu o
mandato por excesso de faltas, enquanto tramava contra a pátria junto ao
Departamento de Estado chefiado por Marco Rubio, e o economista Paulo
Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, general João Figueiredo.
A
ambos, em duas ocasiões, Flávio Bolsonaro se juntou, em Washington, para tramar
contra o Brasil. Em maio, depois de despencar nas pesquisas após as revelações
de sua intimidade com Vorcaro [por sinal, esta semana, foi divulgada foto
descontraída do senador, sem camisa, feita em 2022, ao lado do
"sicário" de Daniel Vorcaro, Luiz Phillipi Mourão, que teria se
suicidado em cela da Polícia Federal em março deste ano, indicando que os
contatos seriam anteriores a 2024, como alega], para defender, ao lado de Trump,
o tarifaço, negociações com o Pix e a inclusão do PCC e Comando Vermelho como
organizações terroristas.
Ante a
repercussão negativa, voltou em julho ao Departamento de Estado, depois de
pedir, em carta ao USTR, para que os Estados Unidos suspendessem o tarifaço por
três meses, “para não beneficiar Lula”, e aproveitou para municiar o secretário
Marco Rubio contra o Brasil. Isso explicaria a grosseria do ataque ao “ego” de
Lula pelo secretário de Trump, o maior dos ególatras.
Assim,
na prática, os impactos nos consumidores americanos (que, no fundo, vão receber
produtos remarcados pelas novas tarifas) fica para agosto.
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Impactos do tarifaço na reta final
Ou
seja, o noticiário sobre os impactos do tarifaço – não só pela ótica das perdas
de empresários e trabalhadores brasileiros dos setores mais atingidos (que se
concentram em São Paulo, o estado de maior pujança econômica e de mais peso no
colégio eleitoral), além das notícias vindas dos EUA - vai coincidir com a
abertura da janela para que os partidos políticos confirmem suas chapas para a
eleição presidencial e para os demais cargos em disputa este ano.
Nesta
segunda-feira, 20 de julho, começa a contagem regressiva para a definição das
chapas, cujo prazo se encerra em 5 de agosto.
Os
impactos políticos dos noticiários negativos que se abateram sobre o candidato
do PL desde 13 de maio, quando o site “Intercep Brasil” divulgou suas conversas
de “irmão” com Daniel Vorcaro, para cobrar do então dono do Banco Master, que
já tinha adiantado R$ 61 milhões, o restante dos R$ 134 milhões previstos para
o filme “Dark Horse”, o “Azarão”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro,
são devastadores. E refletem nas pesquisas eleitorais
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A ironia do calendário
Não é
devaneio ou mera especulação de alguns analistas políticos a suposição de
mudança brusca na chapa do PL até 5 de agosto.
Aos
sucessivos revezes de Flávio Bolsonaro, como o cerco da Polícia Federal a
aliados políticos no Rio de Janeiro e outros estados ligados ao crime
organizado (ironia, além das milícias, há vinculações ao Comando Vermelho e ao
Terceiro Comando Puro, ainda não considerado “terrorista”) se somam os riscos
da audiência marcada para o dia 28 de julho pelo ministro Alexandre de Moraes,
no STF.
Trata-se
do julgamento de crime de calúnia contra o presidente Lula, a quem acusara de
ligações com o narcotráfico. Os casos geram a expectativa de que o senador, -
ameaçado de derrota para Lula – tente manobra radical para evitar a retomada
das investigações sobre a prática de “rachadinhas” de salários de nomeados em
seu gabinete na Alerj.
O
mandato de senador de Flávio Bolsonaro está valendo até 31 de janeiro de 2026.
Foi por ter sido eleito senador, em 2018, e o pai presidente da República, que
Jair Bolsonaro mexeu céus e terras para trancar as investigações e anular as
provas de saques e depósitos em caixas eletrônicos colhidos pelo Ministério
Público e a Polícia Civil do Estado Rio de Janeiro, e passar o exame à
instância superior. O governo estadual, sob intervenção do presidente do
Tribunal de Justiça do ERJ, desembargador Ricardo Couto, não deixa espaço a
manipulações políticas dos aliados
O caso
das “rachadinhas” motivou as desavenças que levaram ao “impeachment” de Witzel.
Também custou a demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança de
Bolsonaro, em 23 de abril de 2020, porque a Polícia Federal estava reabrindo o
caso.
Flávio,
se for eleito, promete o indulto ao pai, Jair Messias Bolsonaro, que está
cumprindo pena de 27 anos em prisão domiciliar – quase suspensa pela mal
explicada divulgação da “Carta aos brasileiros”, lida por Flávio em redes
sociais. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, adiantou que o indulto
poderia ocorrer em janeiro. Entretanto, em caso de derrota, Flávio Nantes
Bolsonaro perde a imunidade a partir de 1º de fevereiro. Se as chances de
derrota crescerem, é plausível que busque a proteção de um novo mandato no
Senado ou na Câmara dos Deputados.
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Nas tarifas, Trump quer a Fifa, não ONU e OMC
Para o
presidente americano, Donald Trump, que retirou os Estados Unidos dos
principais acordos internacionais (como o do Clima), esvaziou a ONU e seus
organismos internacionais (como a OMS e a OMC) e anunciou tarifaço contra o
Brasil a partir de 22 de julho, o mundo ideal seria o da Copa do Mundo, gerido
pela Fifa.
No jogo contra a Bósnia: o artilheiro Balogun, dos EUA, foi expulso, por jogo
violento. E estaria suspenso no jogo, eliminatório, contra a Bélgica, dia 6 de
julho. O presidente Trump apelou à Fifa e foi atendido: para Trump, “a Fifa
corrigiu uma grande injustiça”. Mas os deuses do futebol não aceitam
interferência e a Bélgica eliminou os EUA por 4 X1.
O
arrazoado do USTR (o Escritório de Comércio dos Estados Unidos), equivalente ao
nosso MDIC (Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior) para
justificar o tarifaço de 25% sobre as exportações brasileiras para os Estados
Unidos, com lista de exceção de mais de 11 mil itens (que pesam no bolso de
seus consumidores ou vitais à indústria), como o café, carne bovina, laranja e
suco de laranja, peixes, madeiras serradas, terras raras e peças e motores para
aeronaves) é tão primário e grosseiro quanto a intervenção de Trump atendida
por Giani Infantino, da Fifa.
Na
verdade, a gênese do pacote americano traduz visão imperialista que não aceita
concorrência no comércio, pois implicaria aceitar a perda em alguma área. Na
agricultura, os EUA foram gigantes e líderes em quase todos os grãos, alimentos
e produção de carnes passíveis de serem produzidos em território americano. A
escala cresceu no século passado, quando as duas guerras mundiais afetaram a
produção agrícola na Europa.
As
exceções ditadas climáticas são claras como o cacau e o café e outros produtos
que são inviáveis de produzir no solo ianque. Mas as geadas que atingiram os
cafezais de São Paulo e Paraná em julho de 1975 mudaram o mapa da agricultura
do Brasil. Atrás de clima mais ameno, o café se instalou no sul de Minas e no
Triângulo mineiro. A cana-de-açúcar e a laranja ocuparam áreas que eram do café
em SP.
E a
produção de soja, iniciada no Rio Grande do Sul e Paraná, foi atraída para o
Planalto Central, com sementes de soja, milho e algodão adaptadas pela Embrapa.
Pastos foram substituídos por lavouras mecanizadas e a integração da produção
de grãos com o confinamento de gado bovino para engorda provocou recordes de
produção de grãos e carnes. Soja e milho são matérias-primas das rações para
aves e suínos, cuja produção alimentou brasileiros e gerou excedentes
exportáveis. O alvo da conquista do cerrado no governo Geisel (1974-79) era
atender à demanda do Japão.
Na virada do século, o Brasil já era líder na exportação de carne de frango
(desbancando os líderes EUA e o segundo lugar da França). O passo seguinte, com
a entrada da China como grande comprador de proteínas e matérias-primas, foi
erradicar a febre aftosa nos rebanhos bovinos e suínos para habilitar o Brasil
como exportador dos dois tipos de carne.
A peste
suína africana destruiu, na década passada, mais da metade da produção de carne
de porco (a carne mais consumida na China). Isso abriu enorme espaço para
carnes no mercado chinês. Os Estados Unidos não aproveitaram, porque seu
rebanho bovino vem encolhendo (é menos da meta dos 220 milhões de cabeças no
Brasil) e o país precisa importar carne para seus 340 milhões de consumidores.
Os
pecuaristas americanos tentaram acusar os pecuaristas brasileiros de práticas
desleais ou de conquista de florestas para pastos (o que fizeram no século 19).
Mas a necessidade de segurar a inflação doméstica, deixou a carne bovina
brasileira fora da lista: é vital à produção de hamburguers. É bom ficar atento
a novas investidas.
Do mesmo modo, madeiras de pinus serradas foram isentas de taxas porque são
vitais à indústria da construção de casas nos EUA. Idem para o suco de laranja
(a produção da Flórida é insuficiente) e para as peças e motores para a
aeronaves da Embraer, importantes para o mercado regional, assim como máquinas
e tratores de uso industrial.
Mas o
lado mais revelador do inconformismo americano com a perda de sua hegemonia
econômica em diversas áreas é a crítica de que as instalações industriais no
mundo estão com capacidade acima do consumo global. Ora, quem criou a pujança
industrial nas economias emergentes após a primeira crise do petróleo, em 1973,
foram os próprios Estados Unidos. Houve clara intenção de transferência da
produção de bens com uso intensivo de energia (como o alumínio e o aço) para
fora do território americano. Com o Brasil, acumulam saldo de mais de US$ 400
bilhões em 15 anos!
E o
governo Nixon, ao abrir relações comerciais com a China, em 1972, o que, a
partir da década de 1980 levou à crescente transferência de unidades de
produção das multinacionais americanas nos chamados “tigres asiáticos”. As
dimensões da China mostraram que as fábricas locais, produziam em muito maior
escala. Com investimentos maciços em educação e a formação de engenheiros
(enquanto os Estados Unidos privilegiam advogados para discussão de relações
comerciais e patentes), a indústria americana ficou obsoleta e várias áreas na
economia mundial (siderurgia e atividades que usam muito aço, como a construção
naval e a indústria automobilística).
Querer
que o mundo pague o preço pelo oportunismo americano que trocou o GATT pela
OMC, porque era vantagem (nos anos 90) perder na corrente de comércio para
ganhar nos fluxos financeiros, “royalties” e patentes) é igual tentar mandar no
jogo como na Fifa (e não deu certo). O Brasil e outros países têm de recorrer
aos painéis de controvérsia da Organização Mundial do Comércio.
Fonte:
Por Nuno Vasconcellos, em O Dia/JB

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