Vitória
de Lula pode ser estratégica para Trump, diz professor Guilherme Casarões
O
recente desentendimento entre Brasil e Estados Unidos em torno da prisão e
soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem em Orlando evidencia o
acesso que o bolsonarismo mantém ao governo de Donald Trump,
mesmo após a boa "química" entre o líder americano e o
presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), nota o especialista em relações internacionais
Guilherme Casarões, professor da Florida International University (EUA), em
entrevista à BBC News Brasil. Isso não significa, ressalta, que o episódio vá
escalar para uma crise diplomática, nem que Trump dará apoio expresso ao
senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) na eleição de outubro, quando o filho
do ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL) deve enfrentar o petista."A sensação
que eu tenho é de que o governo americano vai preferir jogar parado, porque, no
fim das contas, ainda que fosse muito interessante para o governo Trump ter um
aliado carnal, submisso aos Estados Unidos, eu não sei se é exatamente isso que
o Trump está procurando nesse momento", afirma Casarões, em referência à
aliança da família Bolsonaro com o americano.
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Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
·
O que significa a decisão do governo americano de
expulsar o policial federal que atuou na prisão do Ramagem?
Guilherme
Casarões – Não
é incomum que oficiais de outros países sejam retirados do território nacional
a pedido de um governo. Isso pode acontecer quando há alguma questão
diplomática envolvida, algum receio de que esses agentes estrangeiros possam
estar atuando de maneira ilegal. No caso de Brasil-Estados Unidos, eu não me
recordo de nenhum tipo de precedente, mas não é um absurdo jurídico, não é uma
ruptura diplomática ou algum tipo de agravamento diplomático. Me parece que a
decisão do governo americano foi muito reativa e tem a ver com o trabalho feito
por brasileiros que vivem nos Estados Unidos, como o jornalista Paulo
Figueiredo, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que têm acesso direto a membros da
Casa Branca e que conseguiram, a partir desse acesso, colocar uma outra versão
da história do ex-deputado Alexandre Ramagem, defendê-lo da acusação de que
ele, por estar nos Estados Unidos ilegalmente, por ter um mandado de prisão no
Brasil, deveria ser extraditado. Parece que corrigiram ali a situação dele,
que, aparentemente, tem um pedido de asilo pendente. Isso tudo mostra que a
Casa Branca ainda está muito permeável a essa pressão colocada pelo
bolsonarismo. A gente achou que isso tinha, de alguma maneira, se esvaído
depois do encontro entre o presidente Lula e o presidente Trump [em setembro],
a química que foi mutuamente declarada com relação aos dois presidentes, e,
aparentemente, não, ainda existe esse acesso que coloca uma pressão grande
sobre a Casa Branca para que ela reaja a situações entendidas como incômodos
para o bolsonarismo. Isso não quer dizer, necessariamente, que o governo Trump
vai escalar essa situação. Acho que o momento político nos Estados Unidos é um
momento muito difícil, porque envolve questões internas, externas, a guerra do
Irã, os impactos disso sobre a economia, sobre principalmente a inflação dos
combustíveis nos Estados Unidos. Então, dificilmente o Brasil vai se tornar uma
prioridade do governo americano.
·
E como avalia a resposta do governo Lula, com a decisão
de retirar as credenciais de trabalho de um policial americano que atuava no
Brasil junto à PF?
Casarões
– O
governo Lula decidiu finalmente aplicar a lógica da reciprocidade, que era algo
que já havia sido anunciado pelo presidente. Aparentemente, isso se deu porque
o governo americano não ofereceu ao Brasil nenhum tipo de explicação sobre a
ordem de que o delegado Marcelo Lino deixasse os Estados Unidos. Então, me
parece que foi algo percebido pelo governo como justificado: não foi uma
retaliação arbitrária, não foi uma tentativa de escalar a situação, mas sim o
reflexo de uma falta de explicação por parte do governo americano. O que a
gente espera daí pra frente é que ambos os governos esclareçam as suas
motivações, até como forma de evitar uma repercussão diplomática mais ampla
desse caso, que teria implicações importantes para o cenário eleitoral
brasileiro. De novo, esse tema parece muito mais importante para a disputa
política interna no Brasil do que para a Casa Branca. Não me parece ser uma
prioridade do governo americano, nesse momento em que os americanos estão
vivendo, ter uma escalada diplomática, tarifária que seja, contra o Brasil.
·
Qual pode ser o peso da relação Brasil-Estados Unidos
para a eleição deste ano?
Casarões
– Parodiando
a economista Maria da Conceição Tavares, as pessoas não comem soberania no café
da manhã e no almoço. Então, soberania não é exatamente um tema que pode
ancorar uma campanha eleitoral. Soberania, claro, é uma afirmação geral, uma
resposta política a uma ameaça externa ou algo percebido como ameaça externa,
mas o Lula não vai conseguir estruturar uma campanha à reeleição exclusivamente
ancorado no tema da soberania. Esse tema da relação com os Estados Unidos, ele
se manifesta nesse campo mais geral, mais abstrato, mas ele também tem
implicações para a vida real e para temas que são muito caros ao governo Lula
nesse momento, e eu destaco dois. O primeiro é a questão econômica, aquilo que
os americanos chamam de affordability, que, no Brasil, seria o poder de compra
do cidadão, e isso já tem sido afetado pela guerra no Irã. Isso pode ser
afetado ainda mais numa eventual retomada das tarifas contra o Brasil, o que eu
pessoalmente não acho que vai acontecer, porque também tem um efeito
inflacionário sobre os Estados Unidos. De todo modo, a mera ameaça que bagunça
o mercado financeiro, que gera insegurança jurídica, que gera incerteza
política, tem um potencial de prejudicar a campanha do presidente Lula à
reeleição e, enfim, a própria relação com os Estados Unidos, que sempre foi
muito essencial para a política externa brasileira.
·
Qual seria o segundo tema?
Casarões
– A
segurança pública. Existe outro tema transversal a tudo isso que é o da
classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas
estrangeiras [cogitada pelo governo Trump], que é um tema muito delicado da
perspectiva brasileira, porque abriria a possibilidade de violação de soberania
do Brasil para o suposto combate ao terrorismo internacional. O grande esforço
da diplomacia brasileira neste momento tem sido de evitar essa classificação e
até com o temor de que isso possa abrir um precedente à la Venezuela, que a
gente acompanhou no começo desse ano [quando o presidente Nicolás Maduro foi
deposto e levado aos EUA]. Então, no tema da segurança pública e do crime
organizado, eu acho que reside a grande vulnerabilidade do governo [Lula]. Primeiro,
porque, ainda que a gente saiba que existe uma divisão federativa de
competências policiais, o governo federal acaba sendo responsabilizado por todo
tipo de problema ligado ao combate ao crime. E a esquerda, no geral, tem muito
mais dificuldade de lidar com o tema da segurança pública do que a direita,
ainda que a gente possa também considerar que as soluções oferecidas pela
direita e, principalmente pelo bolsonarismo, não vão resolver o problema. De
todo modo, a gente percebe que, desde o retorno das relações bilaterais, a
química do Trump com Lula, um dos temas que, da perspectiva brasileira, sempre
foi estratégico incluir nas conversas, foi a cooperação no combate ao crime
organizado. Em abril de 2025, foi assinado um memorando de cooperação policial,
que foi inclusive o que permitiu a presença de um delegado como adido em Miami,
que resultou nessa detenção do Ramagem. E, em abril de 2026, foi assinado um
memorando de cooperação no caso de crimes financeiros. Ou seja, faz-se de tudo
para evitar a questão que seria mais delicada, que seria a nomeação de certas
facções do crime organizado no Brasil como agentes terroristas internacionais. Agora,
para a campanha do Flávio Bolsonaro, a gente tem que considerar o valor que
isso tem. Embora a política externa, como um grande tema de política pública,
não costume aparecer no debate eleitoral do dia a dia, entra muitas vezes na
conversa por vias tortas. Quando o ex-presidente Jair Bolsonaro dizia, lá em
2018, "a gente não pode eleger o PT porque senão o Brasil vira
Venezuela", traz uma referência de fora para embasar um discurso de
dentro. No caso dessa recente controvérsia com o governo americano, o que pode
acontecer? A campanha do Flávio Bolsonaro começar a acusar o presidente Lula e
o seu governo de serem cúmplices do crime organizado, de estarem querendo
minimizar os efeitos das ações americanas sobre o Comando Vermelho e o PCC por
ter alguma ligação com eles. Não necessariamente de maneira factual, porque,
ainda mais numa disputa polarizada e acirrada como essa, os fatos acabam
perdendo sua relevância, infelizmente. Mas o que a gente pode ver é a
apropriação de determinados símbolos, um boné escrito CPX [que o Lula usou na
eleição de 2018 e cuja sigla significa "complexo de comunidades", não
uma facção], para poder voltar à ideia de que existe um lado que é forte no
combate ao crime, que quer uma parceria com os Estados Unidos, uma cooperação
muito mais ampla, e o outro lado seria fraco. Mesmo que a relação com os
Estados Unidos não esteja diretamente implicada no debate eleitoral, ela vai
chegar por vias tortas, e isso pode ter um efeito na percepção do eleitor mais
ao centro, que ainda não se decidiu por Lula ou Flávio Bolsonaro. Então, acho
que vai ser algo muito calculado daqui para frente, para que a reação seja uma
defesa da soberania nacional, por óbvio, mas que não atrapalhe a relação
bilateral como um todo, num momento em que, para o Lula, manter uma boa imagem
junto aos Estados Unidos é crucial também.
·
Há uma percepção de que o Lula teve um ganho de
popularidade no ano passado justamente na época do tarifaço, quando ele reagiu
a Trump reforçando a soberania brasileira. Então, isso pode não se repetir
agora, é uma situação mais complexa?
Casarões
- É
bem mais complexo. Tem muitos caminhos pelos quais essa relação pode ser
instrumentalizada em direção às eleições de outubro. E eu vou além: na crise do
tarifaço, era muito claro que o Brasil era vítima de uma ação arbitrária por
parte dos Estados Unidos. Mesmo aqueles que acreditam que o Alexandre Morais
merecia ser sancionado por violar direitos humanos ou coisa do tipo, quer
dizer, mesmo no campo da direita, as tarifas não tiveram uma justificativa de
natureza comercial. E os impactos que começaram a ser observados por causa
dessas tarifas e a apreensão, tanto do mercado financeiro quanto no setor
produtivo, sobre o que aconteceria daí pra frente, isso tudo acabou gerando um
desgaste muito grande. O Brasil, naquele caso, era vítima muito clara de uma
ação considerada desproporcional, injusta, despropositada. É diferente da
situação de agora. Ainda que ela seja muito menor do ponto de vista
diplomático, ela envolve uma disputa de narrativa em que você tem, de um lado,
a Polícia Federal dizendo: "havia uma cooperação, nosso delegado atuou da
maneira como deveria atuar, e isso incorreu na detenção do Alexandre
Ramagem". E tem o outro lado dizendo: "sabe aquela perseguição sobre
a qual a gente sempre esteve falando? Do Alexandre de Morais contra cidadãos de
bem brasileiros? Aqui uma prova de que não passou de perseguição". Então,
a maneira como esse problema do Ramagem tem sido enquadrado é uma maneira que
coloca o governo Lula e, talvez, em junção com o STF, como os algozes, não mais
como as vítimas. Talvez essa mudança de enquadramento seja o que o bolsonarismo
esteja querendo construir para poder dizer: "olha, quem errou agora foi o
governo Lula e quem está agindo de maneira injustificada agora, ao sugerir, por
exemplo, a expulsão de agentes americanos no Brasil, é o próprio governo
Lula."
·
No caso das facções criminosas, pelo que entendi, o
senhor vê um duplo risco para Lula: se forem declaradas organizações
terroristas, seria uma derrota para Lula, e, se não forem, a campanha do Flávio
poderia atacar a resistência do governo Lula a essa ação?
Casarões
- Sim,
e a maneira de reduzir um pouco esses desafios é justamente de maneira proativa
se oferecer para cooperar com os Estados Unidos. E tudo indica que é o que o
governo Lula vem fazendo desde a primeira ligação telefônica entre os dois: o
tema do crime organizado já aparece na nota à imprensa [sobre a ligação].
Qual é
a questão por trás da nomeação como grupo terrorista? Isso é um problema real
porque são dois tipos penais fundamentalmente diferentes. Grupos de crime
organizado têm um modus operandi particular, têm objetivos muito específicos,
que, obviamente, têm que ser combatidos, mas a partir dos instrumentos
nacionais e internacionais que nos permitem combater o crime organizado. Isso é
uma coisa. Terrorismo virou uma categoria, sobretudo depois do 11 de setembro
de 2001, que deu aos Estados Unidos uma possibilidade de ingerência global
muito ampla. Ou seja, em nome do combate ao terrorismo, os Estados Unidos
muitas vezes se arvoram o poder de intervir em território estrangeiro sem
nenhum processo legal. A maneira, por exemplo, como Trump bombardeou
embarcações pequenas no mar do Caribe, num processo que escalou e culminou no
sequestro do Nicolás Maduro no começo de janeiro, foi toda ela ancorada na luta
contra o terrorismo. E aí, ao dizer que Comando Vermelho e PCC são grupos
terroristas, isso não só daria aos Estados Unidos a possibilidade de intervir
unilateralmente no Brasil, não necessariamente sequestrar o presidente da
República, mas certamente fazer ações militares contra o território brasileiro,
numa flagrante violação de soberania, mas, mais do que isso, as implicações,
inclusive financeiras, de mudar a classificação, são enormes. Qualquer empresa
que possa ter, em algum pedaço da cadeia produtiva, alguma outra empresa que
possa ter ligações com o Comando Vermelho, com o PCC, por maneiras indiretas,
essa empresa pode ser proibida de operar nos Estados Unidos, vender para os
Estados Unidos. Agora, imagina como é isso ser discutido no contexto de
eleições, em que as mensagens têm que ser transmitidas em uma questão de
segundos, é um vídeo de rede social. Qualquer elaboração que produza um pouco
mais de reflexão do que poucos segundos, ela fica interditado no debate
eleitoral. E aí tudo se transforma numa discussão de grandes estereótipos. E é
justamente nesses estereótipos que eu intuo que o bolsonarismo queira atuar,
dizendo aquilo que parece até mais simples e lógico na cabeça do brasileiro que
não está tão bem informado: "olha, o Lula tá defendendo o PCC e o Comando
Vermelho, os Estados Unidos querem apertar o combate a esses grupos, o Lula
está dizendo não. Logo, o Lula tem alguma ligação com esses grupos. E, se eles
são terroristas aos olhos americanos, a gente também pode chamar o Lula de
terrorista". Quer dizer, é uma lógica absolutamente torta, mas ela pode
desembocar num problema real.
·
Está em andamento, também, uma investigação comercial
aberta pelo governo Trump contra o Brasil no ano passado. A expectativa é que
termine nos próximos meses, podendo gerar desdobramentos perto da eleição. Qual
é sua expectativa sobre isso?
Casarões
- Essa
investigação fez parte do pacote original de ataques contra o Brasil [que
começa] lá em julho de 2025: a suspensão de visto de autoridades brasileiras,
as tarifas, a investigação com base na seção 301 da Lei de Comércio Americano,
e as sanções da Lei Magnitsky. Essas investigações tiveram uma repercussão
muito grande no Brasil, porque a gente estava no auge da crise e, sobretudo,
porque tocava em questões que são muito sensíveis a determinados grupos de
brasileiros, em alguns casos, sobretudo aos mais pobres. A investigação tocava
no tema do etanol, que é uma questão importante, porque quando sobe o preço da
gasolina, o etanol acaba sendo o caminho de muita gente continuar abastecendo
seu carro. O Brasil é uma nação de carros flex. Um outro tema que apareceu foi
o de falsificação de produtos, e cita-se abertamente a Rua 25 de Março de São
Paulo como um centro de comércio de produtos falsificados. Isso é complicado
porque isso pega um setor de varejo importante no Brasil, porque a 25 de março
muitas vezes supre a loja do interior de São Paulo, do interior de Minas
Gerais, do interior do Rio de Janeiro, mesmo de grandes capitais. E o mais
delicado de tudo nessa investigação, o tal do Pix. O Lula tem feito uma defesa
muito ampla do Pix, até porque a gente entende os benefícios econômicos gerados
pelo sistema integrado. Eu estou morando nos Estados Unidos e o Pix dá um baile
em qualquer sistema bancário que a gente tenha por aqui. Mas, mais do que isso,
o governo Bolsonaro é quem reivindica a paternidade do Pix, ainda que não tenha
sido criado ali exatamente, ele foi [desenvolvido a partir do governo Michel
Temer pelo Banco Central e] lançado durante o governo Bolsonaro, mas o fato é
que o Pix é um tema transpartidário. O Pix é um tema que pega todo mundo. Então,
a grande questão dessas investigações é que, se elas chegam à conclusão de que
o Brasil está violando interesses empresariais ou comerciais americanos em
todas essas áreas, aí fica muito fácil defender o lado brasileiro dessa
história. Se os legisladores americanos e, sobretudo, os burocratas do
Departamento de Comércio chegarem à conclusão de que algumas coisas violam e
algumas não e deixam o Pix de fora, isso pode tornar a coisa um pouco mais
complicada [para o governo Lula reagir]. Mas eu tampouco sei se hoje quem
trabalha no departamento de comércio americano está totalmente inteirado sobre
essas nuances. Então, pode ser que simplesmente façam um relatório acusando o
Brasil de fazer um monte de coisa, e aí o governo Lula vai ter uma situação
oportuna pra dizer "não, olha, vocês estão querendo acabar com milhões de
empregos informais que ainda fazem a roda da economia girar". Agora, que
fique claro, tarifa e sanção não são exatamente a mesma coisa. Elas se parecem
nos efeitos gerados, mas, nesse caso, o que o governo americano poderia fazer,
é impor sanções comerciais ao Brasil em determinados setores, seja de impedir a
entrada de produtos brasileiros nos Estados Unidos, mas por uma decisão de
natureza da lei do comércio. É diferente de aplicar uma tarifa generalizada por
uma decisão unilateral.
·
Havia uma expectativa de que Lula e Trump se encontrariam
em março, mas isso não ocorreu, em meio a outras prioridades para os Estados
Unidos, como a guerra contra o Irã. Seria importante para Lula esse encontro?
Casarões
- Para
o presidente Lula, é importante manter uma boa relação com Trump. Seria
importante ter essa visita, desde que transcorresse de maneira tranquila e
harmoniosa. Em outubro do ano passado, quando começou a se cogitar uma visita
do Lula, logo depois da Assembleia Geral da ONU, à Casa Branca, muitos
especulavam que essa visita poderia ser uma pegadinha, uma armadilha para o
Lula, e que o Trump poderia dispensar ao presidente brasileiro o mesmo
tratamento que havia dispensado ao Zelensky, da Ucrânia, e ao Ramaphosa, da
África do Sul. Foram reuniões muito constrangedoras, uma humilhação pública
generalizada. Eu não acho que o Trump tenha sequer argumentos para colocar o
Lula nesse tipo de saia justa, mas, da parte do governo brasileiro, acho que
isso também é parte do cálculo: "a gente quer uma foto com o Trump, essa
foto seria valiosa, por exemplo, pra neutralizar uma parte importante da
narrativa da campanha do Flávio Bolsonaro, segundo a qual, ele é o único
político que tem uma boa relação com o presidente americano... agora, tudo vai
depender do clima do que está rolando do lado de lá". Então, se esse
encontro acontecer num contexto em que há vários pontos de crise que podem ser
explorados pelo Trump, pelo [vice-presidente dos EUA] JD Vance, pelo
[secretário de Estado] Marco Rubio, numa sessão de humilhação pública ao Lula,
isso ficaria muito mal e poderia ter um peso eleitoral importante. Agora, se
houver a percepção de que essa conversa vai ser tranquila, ela vai simplesmente
reafirmar a química, ela não vai comprometê-la, aí seria uma oportunidade para
o governo Lula. Mas o timing vai ficando cada vez pior, porque em algum momento
a gente sabe que vai estar muito próximo da eleição, e o Trump também tem
eleições [para o Congresso americano] de meio de mandato em novembro. Quer
dizer, a gente vai estar próximo dos ciclos eleitorais de cada país e isso
torna praticamente inviável qualquer possibilidade de encontro bilateral de
grande magnitude. E, de novo, toda essa questão é muito mais importante para o
Brasil do que para o governo americano. Então, se os americanos ficarem esses
próximos seis meses sem falar nada sobre o Brasil, eles não vão perder
absolutamente nada. Agora é o Brasil que tem que controlar em que medida ele
quer a participação direta ou indireta dos Estados Unidos nessa conversa
eleitoral.
·
Considerando como Trump já atuou em eleições de outros
países, qual sua expectativa sobre algum outro tipo de interferência no pleito
brasileiro? Ele poderia, por exemplo, declarar apoio a Flávio Bolsonaro?
Casarões
- Eu
diria que o Trump está calejado depois de um ano e meio quase de governo,
porque, em praticamente todos os países onde ele apoiou abertamente uma
candidatura, essa candidatura perdeu. E o exemplo mais visível disso aconteceu
agora, há poucos dias, na Hungria [com a derrota de Viktor Orbán]. Então, acho
que o governo Trump vai ser muito cauteloso ao declarar apoio. O fato de Flávio
Bolsonaro ter ido à conferência da CPAC [importante fórum do movimento
conservador americano], por exemplo, o fato de haver inúmeras fotos do Eduardo
Bolsonaro com Trump, com membros da alta cúpula da Casa Branca, eu acho que
isso já vai poder ser mobilizado pelo lado bolsonarista de maneira sistemática
até as eleições sem que o Trump precise fazer mais absolutamente nada com
relação a isso, porque o apoio já está subentendido. A única forma pela qual
Trump poderia reequilibrar esse lugar que os Estados Unidos ocupam na conversa
eleitoral é se ele tiver o encontro com o Lula e se esse encontro for bom. Mas,
de novo, essa possibilidade tem se tornado cada vez mais remota. A sensação que
eu tenho é de que o governo americano vai preferir jogar parado, porque, no fim
das contas, ainda que fosse muito interessante para o governo Trump ter um
aliado carnal, submisso, aos Estados Unidos, eu não sei se é exatamente isso
que o Trump está procurando nesse momento. O caso do Brasil é especial porque o
Brasil tem um impacto geopolítico muito grande na América do Sul e o Trump tem
uma renovada abordagem com relação à América do Sul e à América Latina, que
ficou conhecida como corolário Trump. Nesse contexto, um Brasil forte, um
Brasil com algum diálogo, por exemplo, com a Venezuela, um Brasil que ainda tem
alguma ascendência regional relevante, pode ser tão estratégico quanto ter um
aliado submisso.A gente tem que levar em conta também que, independentemente da
preferência da Casa Branca, neste momento é uma eleição muito próxima [entre
Lula e Flávio Bolsonaro]. Então, os Estados Unidos muito dificilmente vão ser
os fiéis da balança sobre o resultado dessas eleições. E, enfim, corre o risco
de o Lula ainda assim ganhar, e aí o Trump vai perder um potencial aliado
estratégico, seja para conter a expansão chinesa na região, seja para
estabilizar a Venezuela no médio prazo. E certamente não é isso que o Trump
quer.
·
O que seria exatamente o corolário Trump?
Casarões
- O
corolário Trump foi uma doutrina enunciada no mais recente documento da
Estratégia da Segurança Nacional, que foi lançado em dezembro de 2025, em que
se enuncia, a cada quatro anos, o grande quadro geopolítico do mundo a partir
da percepção norte americana e as estratégias norte-americanas para lidar com
esse mundo.Nesse último documento, chamou a atenção que a América Latina ganhou
prioridade nominal e a América Latina foi enquadrada a partir do que o próprio
Trump chamou de um renascimento da Doutrina Monroe, ao qual o documento somou o
corolário Trump, que é a possibilidade de os Estados Unidos controlarem a
infraestrutura, os fluxos de pessoas e as decisões políticas da América Latina
como parte do quintal do hemisfério que pertence ali, estrategicamente, aos
Estados Unidos.Tudo isso tem a ver com a tentativa de combate à China na
América Latina, mas também mostra que os Estados Unidos se sentem muito livres,
inclusive pela nomeação de grupos de crime organizado como grupos terroristas,
de intervir de maneira direta em situações políticas na América Latina, em nome
dos interesses norte-americanos e em nome de supostos interesses hemisféricos.
Fonte:
BBC News Brasil

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