sábado, 25 de abril de 2026

Carlos Wagner: Eleitos presidentes, bolsonaristas juram anistiar os golpistas. Como vão fazer?

A grande imprensa brasileira está deixando passar batido uma história que merece ser melhor esclarecida para os leitores. Dei-me conta disso na quinta-feira (16), quando o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), 61 anos, lançou a sua pré-candidatura a presidente da República nas eleições de outubro. Sem a menor cerimônia, ele disse que, caso seja eleito, vai anistiar os envolvidos na tentativa de um golpe de estado, que consistiu em uma série de ações violentas praticadas a partir de novembro de 2022 com o objetivo de espalhar insegurança, e que tiveram seu auge em 8 janeiro de 2023. Na ocasião, seguidores do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). No total, 1,4 mil pessoas foram presas, sendo que 1,2 mil foram responsabilizadas criminalmente. Outras 552 fizeram acordos com a Justiça. Em janeiro de 2026, ainda estavam presas 174 pessoas. Entre os presos estão o ex-presidente Bolsonaro, que foi condenado a 27 anos de prisão, e 37 ministros e funcionários de alto escalão do seu governo (27 são militares da ativa, reserva e reformados). Somam mais de 10 mil páginas os relatórios da investigação feita pela Polícia Federal (PF) e as sentenças dos julgamentos realizados pela Primeira Turma do STF. Além de toda essa documentação, graças às novas tecnológicas de comunicação estão disponíveis, ao apertar de uma tecla no celular, centenas de horas de vídeos, documentários, reportagens e páginas de livros sobre o assunto.

Ou seja, é muita coisa para ser varrida por decreto para debaixo do tapete. Se a anistia for concedida, haverá uma forte reação na opinião pública, acreditam muitos estudiosos. Lembro que pesquisas do DataFolha (61%) e do PoderData (64%) mostram que a população é contra o perdão. Os parlamentares bolsonaristas já tentaram enfiar um projeto de lei de anistia garganta abaixo da população e fracassaram. Tiveram que engolir o “PL da Dosimetria”, uma lei que altera o Código Penal reduzindo penas e facilitando a progressão de regime de condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito. A dosimetria foi aprovada pelo Congresso e teve partes vetadas pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PL), 80 anos, que concorre à reeleição. Está marcada para 30 de abril, no Congresso, a apreciação dos vetos de Lula. Frente ao tamanho da “encrenca”, espanta a tranquilidade com que ex-governador de Minas anunciou a sua intenção de anistiar os golpistas, caso seja eleito presidente. Mas ele não foi o único. Bem antes, o ex-governador de Goiás e médico Ronaldo Caiado, 76 anos, candidato a presidente pelo PSD, já vinha reforçando a sua oferta de anistia aos golpistas. Enquanto isso, outro candidato, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, indicado pelo pai, o ex-presidente Bolsonaro, para substituí-lo na corrida presidencial, advertiu que caso o eleito aprovasse um projeto de anistia e o STF o derrubasse, poderia dar confusão para o lado dos ministros. Apenas para contextualizar: até o momento, a disputa presidencial está polarizada entre Lula e Flávio. Como dizem os mineiros: “vamos parar o trem aqui” e explicar para os leitores o que se segue. O presidente do Brasil tem o poder de assinar um decreto anistiando pessoas envolvidas em atentados contra a democracia?

Lembro que nos Estados Unidos o presidente Donald Trump (republicano), 79 anos, assumiu o seu segundo mandato em 25 de janeiro de 2025 e nos dias seguintes anistiou mais de 1,5 mil dos seus seguidores que estavam presos pela invasão e depredação do Capitólio (o prédio do Congresso) em 6 de janeiro de 2021. Seis pessoas morreram e várias ficaram feridas quando os partidários de Trump tentaram impedir a sessão do Congresso que ratificaria a vitória do democrata Joe Biden, 81 anos, nas eleições de novembro de 2020. Falando de maneira grosseira: o 8 de janeiro no Brasil seguiu o roteiro do 6 de janeiro americano. A oposição a Trump resmungou contra a anistia. Mas não pôde fazer nada porque as leis americanas amparam a decisão do presidente. Temos que explicar ao nosso leitor como a legislação brasileira trata do assunto. A anistia, no Brasil, é concedida pelo Congresso, promulgando uma lei que apaga o crime e seus efeitos. Já o indulto, dado pelo presidente da República, perdoa somente a pena. Lembro que em maio de 2023 os ministros do STF anularam um decreto do ex-presidente Bolsonaro que concedeu indulto ao ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro Daniel Silveira, 43 anos, que fora condenado a oito anos de cadeia por ter atentado contra o Estado Democrático de Direito. Ele voltou para a prisão. No Brasil, como nos demais países democráticos, as leis que preservam o Estado Democrático de Direito são um cipoal, um emaranhado, que precisa ser explicado direitinho para o leitor não ser vítima de mentiras. A disputa política brasileira é polarizada, portanto uma fagulha pode iniciar um grande incêndio. Temos publicado dezenas de matérias informando que se houver anistia aos golpistas os ministros do STF a derrubarão porque é contra a lei. Dentro dessa óptica, não podemos deixar passar batido as promessas de anistia sem contextualizá-las. No mínimo, precisamos indagar a quem está propondo a anistia como fará para aprová-la e executá-la. Em outros tempos, quando não existiam as atuais tecnologias de comunicação, as mentiras precisavam ser repetidas muitas vezes para se tornarem verdades na opinião pública.

Hoje, por mais insignificante que sejam, mentiras se tornam verdades em questão de minutos pela bem organizada e lubrificada “indústria de fake news”. Daí a importância de ser feito o contraponto, que pode ser uma frase explicando ao leitor que o candidato “exagera”. Vou lembrar um fato. Em 2013, como se tivesse saído do nada, explodiram grandes manifestações públicas nos quatro cantos do Brasil que ficaram conhecidas como “Jornada de Junho” – matérias na internet. Aqui cabe a especulação. A história da anistia pode ser o pavio para detonar alguma coisa semelhante a 2013? Sabe-se lá. Fato é o seguinte. O Brasil já avançou muito entre os países civilizados em termos de consolidação da democracia. Voltar a viver em um país onde o “golpe de estado” é uma possibilidade dentro da disputa política é um grande recuo na história. “É um absurdo”, como disse um velho amigo professor de história. A anistia, é opinião de muita gente esclarecida, é uma “porta aberta” para que se repita o que aconteceu em 1964: o golpe de estado que mergulhou o Brasil numa ditadura militar por 21 anos, até 1985, e deixou um rastro de mortos, torturados, desaparecidos e uma esculhambação na economia que levou a uma hiperinflação que infernizou a vida do brasileiro por mais de uma década. A regra do jogo é simples. Quem ganha as eleições, governa. Quem perde, vai para casa se organizar para a próxima campanha. Como se diz nas mesas dos botecos dos jornalistas calejados pelas lides reporteiras: “É simples assim”.

•        A imprensa, o 8 de janeiro de 2023 e a pauta dos debates nas eleições presidenciais

Um dos deveres da imprensa é não deixar que caiam no esquecimento os ataques contra a democracia brasileira. Muitas pessoas morreram, foram torturadas e perderam os seus empregos para resgatá-la dos golpistas de 1964. Uma das maneiras de preservá-la é incluir na cobertura das eleições de 2026 perguntas aos candidatos sobre a tentativa de golpe de estado que aconteceu no final de 2022 e teve o seu episódio mais visível em 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas radicalizados que estavam acampados na frente de unidades militares se encontraram na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), e dali saíram quebrando tudo viram pela frente no Palácio do Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso. É fundamental para o eleitor ser informado do que os candidatos pensam sobre o episódio. Lembro que mais de 1,5 mil envolvidos na tentativa de golpe foram presos, julgados e condenados, entre eles o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre uma pena de 27 anos na “Papudinha”, uma unidade prisional que fica no 19º Batalhão da Polícia Militar, dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. Nas eleições, em 4 de outubro, 150 milhões de brasileiros estarão aptos a votar. No primeiro turno serão disputados os cargos de deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República. O segundo turno será em 25 de outubro. Dois candidatos à Presidência já são conhecidos: o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que buscará a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, filho do ex-presidente. A estimativa é que pelo menos 10 candidatos concorram a presidente.

Sobre a tentativa de golpe existe uma abundância de reportagens e documentos oficiais disponíveis na internet. Portanto, não vou falar sobre o assunto. Julgo que será mais útil para os jovens repórteres que estarão envolvidos na cobertura do dia a dia das eleições se focarmos a nossa conversa no caminho que percorremos para sermos incluídos entre os países democráticos do mundo. Ele foi longo, demorado e cheio de armadilhas. Em 1964, uma parcela importante das Forças Armadas comprometidas com a extrema direita e os interesses dos Estados Unidos deu um golpe de estado, derrubando o então presidente, João Goulart (1919 – 1976), o Jango, gaúcho de São Borja. Eu tinha 14 anos e morava em Encruzilhada do Sul, pequena cidade na Serra do Sudeste, no interior do Rio Grande do Sul, onde a água congela nos canos durante o inverno. Lembro-me da minha mãe, a dona Loni, sentada em um sofá lendo o jornal que trazia na capa fotos de canhões e tanques. Fui saber o significado daquelas fotos pelo Dico, o mais velho da nossa turma e seguidor de Leonel Brizola (1922 – 2004), o inimigo número um dos golpistas. Três anos antes, em 1961, após a renúncia do presidente Jânio Quadros, Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, havia se entrincheirado no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, liderando um movimento que ficou conhecido como Legalidade, que buscava garantir, contra a vontade dos militares, a posse de Jango na Presidência da República. Além de pertencerem ao mesmo partido, o antigo PTB, Brizola era cunhado de Jango. Durante toda a minha adolescência convivi com pessoas assombradas pelo medo de serem presas pelos agentes do regime. Muitos dos que foram presos acabaram sendo torturados, mortos ou desapareceram. Parte dessa história é contada em filmes como Ainda Estou Aqui, baseado no caso real da prisão e desaparecimento, no Rio de Janeiro, do deputado Rubens Paiva (1929 – 1971), e Agente Secreto, uma ficção sobre um professor em Recife (PE) durante a ditadura. Nos anos 70, a barra era pesada. Lembro-me bem porque entrei na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas fui ter ideia do tamanho da encrenca que era a ditadura militar em 1975, quando comecei a trabalhar de “faz-tudo” na Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal), importante órgão da chamada “imprensa alternativa”, que desafiava os militares publicando reportagens denunciando a barbárie. Foi a convivência com os jornalistas na Coojornal que me influenciou a pedir a transferência do curso de Letras para a Fabico, a Faculdade de Jornalismo da UFRGS.

Em 1979, quando comecei a trabalhar como repórter em redação de jornal, o regime estava em decadência. Lembro-me que, na época, as conversas entre os jornalistas eram sobre a prisão, tortura e morte do colega Vladimir Herzog (1937 – 1975) pelos agentes do Doi-Codi, um dos órgãos de repressão da ditadura, em 25 de outubro de 1975, em São Paulo. No ano passado fez 50 anos do assassinato de Herzog – matérias na imprensa. Meses depois de entrar na redação, em 28 de agosto de 1979, foi assinada a Lei 6.683/1979, que ficou conhecida como Lei da Anistia. A legislação perdoou os crimes políticos cometidos entre 1961 e 1979. Permitiu o retorno dos exilados que viviam no estrangeiro e deu perdão para os agentes do estado envolvidos em crimes de tortura, prisões ilegais e sumiço de presos políticos. Vou voltar a falar da Lei da Anistia mais adiante. Em 1985, os militares foram substituídos no governo pelos civis. E, em 1988, foi publicada a atual Constituição. Aqui é o seguinte: o cerne da Constituição foi fechar as portas para não permitir que se repetisse o que aconteceu em 1964. Mesmo assim aconteceu a tentativa de golpe de 2022. Eu particularmente não acreditava que o ex-presidente Bolsonaro ia se envolver em tal evento. Classificava as palavras dele contra a democracia como bravatas para ganhar os votos e a simpatia dos saudosistas de 1964. Voltando à anistia. Ao contrário dos países vizinhos, como Uruguai, Argentina e Chile, onde os militares que derrubaram governos democráticos e instalaram regimes ditatoriais foram punidos com pesadas penas de prisão, a anistia brasileira deixou os golpistas livres. Isso facilitou muito o trabalho de pregação da volta do regime militar por parte do ex-presidente e de outros políticos de carreira. Traduzido: “Vamos fazer que não dá nada”. Desta vez deu cadeia. Muito mais que isso. Pesquisas mostram que a maioria da população brasileira é contra a anistia para os envolvidos na tentativa de golpe de 2022.

Para arrematar a nossa conversa. Vou acrescentar, por sugestão de um velho repórter que conheci durante as coberturas dos conflitos agrários nos anos 90, a resposta dada por Daniel Vorcaro, 42 anos, dono do Banco Master, envolvido em um escândalo de R$ 47 bilhões, durante o seu interrogatório conduzido pela delegada federal Janaina Palazzo. Perguntado pela delegada a respeito da sua influência entre os políticos e autoridades, ele assim respondeu: “Eu queria dizer o seguinte, se tenho tantas relações políticas como estão dizendo, e se tivesse pedido a ajuda destes políticos, eu não estaria aqui de tornozeleira, não teria sido preso e estaria com a minha família, que está sofrendo com a situação”. A resposta do colega sobre as palavras de Vorcaro: “Ele estaria exatamente onde está porque o Brasil não é uma República de Bananas”.

•        A desinformação não é um erro – é o funcionamento do sistema. Por Cleyton Douglas Vital

Durante anos, consolidou-se a ideia de que a desinformação representa uma espécie de falha no sistema midiático — um desvio corrigível com mais verificação, mais letramento ou mais regulação. Essa leitura, embora confortável, revela-se cada vez mais insuficiente. O que se observa hoje não é um acidente pontual, mas uma engrenagem em pleno funcionamento. A desinformação deixou de ser exceção para se tornar estrutura.

Ao contrário do que se costuma afirmar, não estamos diante de um ambiente comunicacional contaminado por conteúdos falsos que escaparam ao controle. Estamos, antes, diante de um ecossistema que favorece, distribui e amplifica determinadas formas de conteúdo — independentemente de sua veracidade — desde que estas cumpram um critério central: a capacidade de captar e reter atenção. Nesse sentido, a desinformação não rompe com a lógica midiática contemporânea; ela opera exatamente no seu interior.

A centralidade da atenção como recurso econômico ajuda a compreender esse cenário. No contexto do chamado capitalismo de vigilância, descrito por Zuboff (2019), o valor da informação não reside apenas no seu conteúdo, mas na sua capacidade de gerar interação, previsibilidade e comportamento. Conteúdos que provocam indignação, medo ou choque tendem a circular mais rapidamente — e, por isso, tornam-se mais valiosos dentro dessa lógica. A desinformação, nesse quadro, não é um problema técnico: é um ativo funcional.

Essa dinâmica não se limita às plataformas digitais. O próprio campo jornalístico, como já demonstrava Bourdieu (1997), encontra-se atravessado por pressões econômicas e simbólicas que condicionam o que é produzido e como circula. A disputa por visibilidade, audiência e relevância impõe ritmos acelerados e incentiva escolhas editoriais orientadas pelo impacto imediato. Nesse contexto, a fronteira entre informar e capturar atenção torna-se cada vez mais difusa.

É aqui que a leitura de Debord (1997) ganha atualidade renovada. Se, na sociedade do espetáculo, a mediação da realidade por imagens já constituía uma forma de distanciamento do real, hoje assistimos a uma intensificação desse processo. A circulação de conteúdos deixa de depender de sua correspondência com os fatos e passa a ser determinada por sua capacidade de se tornar visível, compartilhável e emocionalmente mobilizador. A verdade, nesse cenário, não desaparece — mas deixa de ser central.

No entanto, reduzir a desinformação a uma questão tecnológica ou econômica seria igualmente simplificador. Há uma dimensão de poder que atravessa todo esse processo. Como sugeria Foucault (1979), a verdade não é um dado absoluto, mas o resultado de regimes discursivos que definem o que pode ser dito, por quem e com que efeitos. A desinformação, nesse sentido, não apenas distorce a realidade: ela participa ativamente na produção de determinadas “verdades” sociais.

Essa produção não é neutra. Ela incide de forma desigual sobre diferentes grupos sociais, contribuindo para a construção de ameaças, inimigos e zonas de suspeição. Os trabalhos de Cohen (2002) ajudam a compreender como determinados discursos midiáticos amplificam medos e produzem “pânicos morais” que legitimam respostas sociais e institucionais desproporcionais. Em contextos marcados por desigualdade, esses processos tendem a recair sobre populações já vulnerabilizadas.

É nesse ponto que a articulação com autores como Wacquant (2009) e Mbembe (2018) se torna particularmente relevante. A desinformação não apenas circula — ela seleciona, reforça e legitima narrativas que incidem sobre certos corpos e territórios. Jovens, pobres e racializados tornam-se, com frequência, alvos privilegiados de discursos que os associam à ameaça, ao desvio ou ao perigo. Nesse sentido, a desinformação opera também como tecnologia de gestão social.

Curiosamente, o público não é apenas vítima desse processo. Como argumenta Jenkins (2009), vivemos em um ambiente em que os próprios usuários participam ativamente da circulação e legitimação dos conteúdos. Compartilhar, comentar ou reagir tornou-se parte integrante da experiência midiática. Isso significa que a desinformação não se impõe apenas de cima para baixo — ela é também reproduzida horizontalmente, muitas vezes sem mediação crítica.

Diante desse cenário, torna-se insuficiente insistir em soluções centradas exclusivamente na verificação de fatos ou na educação midiática. Embora importantes, essas estratégias atuam sobre os efeitos e não sobre as causas. O problema não reside apenas na existência de conteúdos falsos, mas na estrutura que os torna eficazes, visíveis e rentáveis.

Talvez o ponto mais desconfortável dessa discussão seja precisamente este: combater a desinformação implica questionar as bases do próprio sistema midiático contemporâneo. Enquanto a lógica da atenção continuar a organizar a produção e a circulação da informação, a verdade permanecerá subordinada a critérios de visibilidade e impacto.

Nesse sentido, a pergunta que se impõe não é apenas como combater a desinformação, mas até que ponto estamos dispostos a repensar o modelo que a sustenta. Porque, no limite, a desinformação não é um erro a corrigir — é um resultado a compreender.

 

Fonte: Observatório da Imprensa

 

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