sábado, 25 de abril de 2026

Amorim: ’Quando se matam os negociadores, restam apenas os guerreiros’

O assessor especial da Presidente da República, Celso Amorim, usou uma reunião entre especialistas e membros de governos de todo o mundo para lançar um alerta: “quando se matam os negociadores, restam apenas os guerreiros”.

Sua declaração ocorreu diante dos assassinatos por parte dos governos dos EUA e de Israel de lideranças iranianas. Na última sexta-feira, na Turquia, Amorim participou do Fórum Diplomático de Antalya, em que representantes de governos, especialistas e acadêmicos fizeram uma análise do contexto geopolítico global, com ênfase nos principais desafios à paz e à estabilidade internacional.

Em sua fala, que o ICL Notícias publica em sua íntegra, o brasileiro conta como um esforço entre Turquia e Brasil tentou abrir caminhos para que a crise nuclear iraniana fosse solucionada de forma diplomática.

Dias depois, já em Istambul, Amorim se encontrou com os ex-ministros das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoğlu, e do Irã, Manouchehr Mottaki, justamente seus interlocutores no acordo de 2010 que selou um acordo nuclear. O pacto seria, dias depois, rejeitado pelos EUA, apesar de cumprir rigorosamente o que os americanos exigiam.

Amorim ainda aproveitou sua viagem para manter um encontro com o israelense Daniel Levy e com o palestino Wadah Khanfar.

Amorim também participou de um debate sobre a mediação de conflitos internacionais e o papel de novos arranjos de cooperação para a promoção da paz. Ele esteve ao lado de Mohammed bin Abdulaziz Al Khulaifi, Ministro de Estado do Qatar, e Rosemary A. DiCarlo, Subsecretária-Geral das Nações Unidas para Assuntos Políticos e de Consolidação da Paz.

<><>  Eis o discurso completo do diplomata brasileiro:

“Em vez de discutir essa questão teoricamente, vou me referir à história da Declaração de Teerã.

No final de 2009, o Brasil e a Turquia iniciaram um esforço para contribuir com uma solução para a questão do programa nuclear iraniano. Eu era ministro das Relações Exteriores na época, trabalhando para o presidente Lula.

Naquele momento, o problema parecia muito mais simples. Basicamente, envolvia a troca de 1.200 kg de urânio pouco enriquecido por 120 kg de combustível.

Esse acordo de troca deveria ser uma medida para gerar confiança.

Em uma reunião com o presidente Lula, em julho de 2009, o presidente Obama mencionou a questão. Ele disse, em resumo, três coisas: “1) o programa nuclear iraniano é atualmente a ameaça mais séria à paz e à segurança; 2) tentei contato com os iranianos, mas não obtive resposta; 3) preciso de amigos que possam conversar com aqueles com quem não consigo conversar”.

Negociar com os iranianos, juntamente com nossos amigos da Turquia, nunca foi fácil. Eles tinham processos internos de tomada de decisão complexos e cada pequeno passo exigia tempo, esforço e paciência.

Os EUA também tinham suas hesitações. Em certo momento, após uma reunião trilateral, envolvendo Lula, Erdogan e Obama, em Washington, à margem de uma Conferência de Segurança Nuclear, estávamos inclinados a desistir de nossos esforços.

Para nossa surpresa, alguns dias depois, Obama escreveu a Lula e Erdogan reiterando os pontos essenciais de um gesto de construção de confiança por parte do Irã.

Isso se referia à quantidade de urânio enriquecido a ser enviada para fora do país, o cronograma para que isso ocorresse e a localização precisa fora do Irã onde o urânio deveria ser armazenado. O Irã também deveria escrever à Agência Internacional de Energia Atômica reafirmando sua contribuição.

Encorajados pela carta de Obama, viajamos para Teerã.

Após uma maratona de negociações, os presidentes Lula, Erdogan e Ahmadinejad assinaram a Declaração de Teerã em 17 de maio de 2010, que foi saudada por figuras como Mohamad El Baradei, ex-diretor-geral da AIEA, e Tom Pickering, ex-subsecretário de Estado dos EUA. O jornal Le Monde considerou o dia histórico.

Provavelmente foi mais fácil para o Irã fazer concessões ao Brasil e à Turquia, dois países em desenvolvimento que inspiravam confiança, do que em uma negociação direta com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

No entanto, em junho, o Conselho de Segurança, com o apoio das potências nucleares, votou uma resolução impondo novas sanções ao Irã.

Brasil e Turquia votaram contra a resolução. Embora isso não tenha tido efeito prático, para nós foi uma questão de honra.

Anos depois, um ex-alto funcionário do governo Obama admitiu, em uma conversa privada, que a iniciativa Brasil-Turquia foi uma espécie de porta de entrada para o JCPOA.

Essa história de confiança quebrada me fez sentir total empatia pelo choque expresso pelo ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, quando a guerra eclodiu em meio a negociações diplomáticas.

O Paquistão agora desempenha um papel importante, e me junto àqueles que oram por seu sucesso.

Gostaria também de fazer uma breve menção aos assassinatos políticos. Quando pessoas como Larijani ou Kharrazi, que poderiam estar dispostas a negociar, são mortas, restam apenas aqueles dispostos a usar a força. Em outras palavras, quando se matam os negociadores, restam apenas os guerreiros.

Neste mundo frágil, precisamos de mais pessoas que construam pontes e facilitem o diálogo entre os países.

O ingrediente essencial de qualquer negociação é a confiança. Quando a confiança é quebrada, as chances de se chegar a um acordo são mínimas”.

¨      Irã denuncia na ONU uso de territórios vizinhos por forças dos EUA e Israel

O embaixador do Irã nas Nações Unidas, Amir Saeed Iravani, enviou carta ao secretário-geral da ONU e ao presidente do Conselho de Segurança denunciando o uso de territórios vizinhos por forças hostis contra seu país. O diplomata lembrou que todos os Estados têm a obrigação internacional de impedir que seu solo seja explorado para atos de agressão contra outros.

Iravani conclamou os líderes do Catar, do Kuwait, do Bahrein, dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita a barrarem imediatamente o uso de suas instalações e espaço aéreo em operações militares contra o Irã. Segundo o portal Mehr News, aviões e drones americanos e israelenses — incluindo os modelos MQ-9, MQ-4C, P-8A, AWACS, B-1, F-22, F-15, F-16 e F-35 — decolaram desses países para bombardear alvos iranianos.

Os ataques iniciados pelos Estados Unidos e por Israel em 28 de fevereiro provocaram a morte de altos comandantes e oficiais iranianos. Desde então, os países do Golfo teriam autorizado o emprego contínuo de suas bases e corredores aéreos para novas investidas — o que o Irã considera uma clara violação de sua soberania.

Em resposta, as Forças Armadas iranianas executaram cem ondas de ataques retaliatórios contra posições estratégicas dos EUA e de Israel em toda a região. Teerã qualificou todas essas operações como bem-sucedidas e como prova da robustez de sua capacidade defensiva.

O Paquistão atuou como mediador e conseguiu estabelecer um cessar-fogo de duas semanas, iniciado em 8 de abril, após quarenta dias de hostilidades. A primeira rodada de conversações entre o Irã e os Estados Unidos não resultou em nenhum acordo concreto.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prorrogou unilateralmente a trégua e declarou que esperava uma proposta iraniana para nova rodada de diálogos em Islamabad. O governo de Teerã manifestou reservas, afirmando que as demandas americanas e o bloqueio naval tornam improvável qualquer avanço nas negociações.

A denúncia formal de Iravani sublinha a determinação do Irã em responsabilizar os vizinhos que facilitam agressões externas contra seu território. O embaixador defendeu que a estabilidade regional exige estrito cumprimento dos princípios de boa vizinhança e não interferência nos assuntos internos dos Estados.

O episódio expõe o nível de tensão persistente no Oriente Médio e as complexas dinâmicas de alianças na região. Teerã segue reafirmando sua soberania e sua disposição de responder a qualquer ameaça vinda do exterior.

¨      Líbano se divide sobre negociações diretas com Israel em Washington

O Líbano está profundamente dividido sobre as negociações diretas com Israel que ocorrem em Washington.

Enquanto parte da população vê o diálogo como única saída viável para encerrar o conflito, outros setores defendem que a resistência armada liderada pelo Hezbollah é o único caminho para garantir a soberania nacional. O impasse reflete feridas abertas por uma ofensiva israelense que deixou rastros visíveis de destruição em todo o país.

Segundo o Al Jazeera, desde o início de março mais de 2.200 pessoas foram mortas e aproximadamente 1,2 milhão foram forçadas a deixar suas casas. Israel mantém a ocupação de partes do sul do Líbano e criou uma zona de exclusão de 10 quilômetros ao norte da fronteira.

Os embaixadores do Líbano e de Israel participam das discussões em Washington ao lado do secretário de Estado americano, Marco Rubio. O governo libanês, liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam, exige a prorrogação do cessar-fogo e a retirada completa das forças israelenses como condições prévias para qualquer avanço.

O Hezbollah rejeita veementemente as conversas diretas e defende a resistência armada como única garantia da soberania libanesa. A organização organizou visitas guiadas para jornalistas às cidades devastadas de al-Mansouri, Majdal Zoun e Qlaileh, onde a destruição causada pela ofensiva israelense é quase completa, e convocou protestos em Beirute contra o que classifica como uma negociação desigual.

O advogado Fouad Debs alertou que o Líbano chega a essas negociações sem poder real de barganha. Ele defende que o país deveria recorrer a vias jurídicas internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, em vez de aceitar um acordo que tende a favorecer Israel.

As tensões internas se intensificaram depois que o governo declarou ilegais as ações militares do Hezbollah posteriores aos ataques de março. O Hezbollah, fundado em 1982 durante a invasão israelense, manteve seu arsenal após o Acordo de Taif com o argumento central de resistir à ocupação no sul do país.

Parte da sociedade libanesa passou a defender uma solução diplomática diante do agravamento da guerra e do grande número de deslocados. Jad Shahrour, da Fundação Samir Kassir, argumenta que negociar não equivale a normalizar relações com Israel, mas representa uma tentativa de recuperar o controle estatal sobre o território nacional.

Shahrour reconhece que o Líbano possui pouca margem de manobra diante do poderio militar israelense e da influência americana nas tratativas. Ele adverte que a ausência de diálogo pode levar a nova escalada, atingir Beirute e agravar ainda mais a tragédia humanitária.

A maioria dos libaneses demonstra pouca confiança na boa-fé de Israel ou na neutralidade dos Estados Unidos, diante das violações constantes do cessar-fogo. O pesquisador Mohanad Hage Ali, do Carnegie Middle East Center, recomenda que o Líbano defina claramente seus próprios parâmetros de negociação para evitar o enfraquecimento do Estado e o isolamento de aliados regionais contrários à ocupação.

Hage Ali considera que uma postura equilibrada poderia produzir resultados mais duradouros, apesar das críticas internas imediatas. As conversas em Washington revelam um país dividido entre as pressões pela via diplomática e as demandas por continuidade da resistência armada contra a ocupação israelense no sul.

¨      Líbano rejeita acordo com Israel sem retirada total das tropas

O primeiro-ministro do Líbano, Nawaf Salam, afirmou que seu governo não assinará qualquer acordo com Israel enquanto o texto não incluir a retirada completa de todas as tropas israelenses do território libanês.

Salam rejeitou de forma categórica a proposta de criação de uma zona tampão que permaneceria sob controle israelense no sul do Líbano. O premiê argumentou que tal medida bloquearia o retorno dos civis deslocados e comprometeria os esforços de reconstrução das vilas destruídas pelos bombardeios.

O presidente do Líbano, Joseph Aoun, reforçou a determinação nacional ao declarar que o engajamento em diálogos não equivale a concessões inaceitáveis. Aoun enfatizou a necessidade de que qualquer solução respeite integralmente o direito internacional e preserve a integridade territorial do país.

As autoridades libanesas deixaram claro que não tolerarão presença militar estrangeira dentro de suas fronteiras reconhecidas internacionalmente. O foco do executivo em Beirute consiste em recuperar a soberania plena sobre todas as localidades impactadas pelos anos de confrontos.

Uma segunda rodada de negociações entre representantes do Líbano e de Israel está agendada para ocorrer em Washington, conforme o Departamento de Estado norte-americano. Os encontros acontecerão no nível de embaixadores e buscam encontrar pontos de convergência em meio às posições divergentes das duas partes.

O Hezbollah tem cumprido os termos do cessar-fogo em vigor na região fronteiriça. O grupo reiterou que não aceitará termos que possam ser interpretados como legitimação da presença militar israelense em solo soberano libanês.

A firmeza de Nawaf Salam espelha o sentimento predominante entre as forças políticas libanesas sobre a questão da ocupação. Observadores internacionais acompanham atentamente o desenrolar das conversações, que podem definir o futuro da estabilidade no sul do Líbano.

Milhares de famílias libanesas forçadas a deixar suas residências no sul aguardam o desfecho das tratativas diplomáticas. A reconstrução das áreas devastadas só poderá avançar após a confirmação da retirada integral das forças israelenses do território.

Os Estados Unidos mantêm seu papel de mediador nas discussões entre Beirute e Tel Aviv. A administração do presidente Donald Trump tenta conciliar as exigências israelenses com as demandas libanesas por soberania completa.

O impasse atual revela as dificuldades inerentes à busca por um acordo abrangente na região. Especialistas em Oriente Médio alertam que, sem avanços concretos, o risco de nova escalada permanece presente apesar dos esforços diplomáticos.

A posição libanesa reforça o princípio de que a soberania nacional não pode ser objeto de barganha. Salam e sua equipe diplomática continuam a defender essa linha como condição básica para qualquer entendimento futuro com o lado israelense.

O desenvolvimento desses eventos atrai atenção global pelo potencial impacto na dinâmica mais ampla do Oriente Médio. Autoridades em Beirute permanecem otimistas quanto à possibilidade de alcançar uma solução que atenda aos interesses fundamentais do povo libanês sem comprometer sua independência territorial.

¨      Irã adverte que dará ‘lição mais dura’ a EUA e Israel se atacarem novamente

O porta-voz do Comando Central das Forças Khatam al Anbiya do Irã, Ebrahim Zolfaghari, afirmou que as Forças Armadas da República Islâmica estão em total prontidão para responder a qualquer nova agressão dos Estados Unidos ou de Israel. O militar declarou que Teerã dará uma ‘lição mais dura’ caso o país seja alvo de novos ataques.

Zolfaghari destacou que as forças iranianas se mantêm em alerta máximo, com alvos previamente designados para possíveis contraofensivas. Ele garantiu que qualquer ação militar contra o Irã receberá uma resposta imediata e contundente.

O porta-voz classificou Israel como um Estado sionista assassino de crianças. Suas declarações surgiram em meio às crescentes tensões provocadas por ameaças recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Trump intensificou o tom contra Teerã nas últimas semanas. Zolfaghari transmitiu uma mensagem clara de que o Irã não permanecerá inerte diante de novas hostilidades.

Conforme reportou o portal RT, o comandante enfatizou a prontidão operacional das unidades sob seu comando. A advertência sinaliza a determinação iraniana em proteger sua segurança nacional.

A declaração de Zolfaghari reforça o padrão de dissuasão mantido pela liderança militar iraniana. O país demonstra disposição para enfrentar qualquer desafio imposto por potências externas.

Analistas interpretam o comunicado como indicativo de que o equilíbrio de forças na região permanece delicado. A retórica empregada busca evitar que eventuais planos de ataque se concretizem.

O Oriente Médio segue sob vigilância internacional devido ao potencial de escalada entre as partes envolvidas. Teerã insiste em seu direito legítimo à autodefesa diante das ameaças que enfrenta.

 

Fonte: Por Jamil Chade, para ICL Notícias/O Cafezinho

 

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