Amorim:
’Quando se matam os negociadores, restam apenas os guerreiros’
O
assessor especial da Presidente da República, Celso Amorim, usou uma reunião
entre especialistas e membros de governos de todo o mundo para lançar um
alerta: “quando se matam os negociadores, restam apenas os guerreiros”.
Sua
declaração ocorreu diante dos assassinatos por parte dos governos dos EUA e de Israel de
lideranças iranianas. Na última sexta-feira, na Turquia, Amorim participou
do Fórum Diplomático de Antalya, em que
representantes de governos, especialistas e acadêmicos fizeram uma análise do
contexto geopolítico global, com ênfase nos principais desafios à paz e à
estabilidade internacional.
Em sua
fala, que o ICL Notícias publica em sua íntegra, o brasileiro conta como um
esforço entre Turquia e Brasil tentou abrir caminhos para que a crise nuclear
iraniana fosse solucionada de forma diplomática.
Dias
depois, já em Istambul, Amorim se encontrou com os ex-ministros das Relações
Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoğlu, e do Irã, Manouchehr Mottaki,
justamente seus interlocutores no acordo de 2010 que selou um acordo nuclear. O
pacto seria, dias depois, rejeitado pelos EUA, apesar de cumprir rigorosamente
o que os americanos exigiam.
Amorim
ainda aproveitou sua viagem para manter um encontro com o israelense Daniel
Levy e com o palestino Wadah Khanfar.
Amorim
também participou de um debate sobre a mediação de conflitos internacionais e o
papel de novos arranjos de cooperação para a promoção da paz. Ele esteve ao
lado de Mohammed bin Abdulaziz Al Khulaifi, Ministro de Estado do Qatar, e
Rosemary A. DiCarlo, Subsecretária-Geral das Nações Unidas para Assuntos
Políticos e de Consolidação da Paz.
<><> Eis o discurso completo do diplomata
brasileiro:
“Em
vez de discutir essa questão teoricamente, vou me referir à história da
Declaração de Teerã.
No
final de 2009, o Brasil e a Turquia iniciaram um esforço para contribuir com
uma solução para a questão do programa nuclear iraniano. Eu era ministro das
Relações Exteriores na época, trabalhando para o presidente Lula.
Naquele
momento, o problema parecia muito mais simples. Basicamente, envolvia a troca
de 1.200 kg de urânio pouco enriquecido por 120 kg de combustível.
Esse
acordo de troca deveria ser uma medida para gerar confiança.
Em
uma reunião com o presidente Lula, em julho de 2009, o presidente Obama
mencionou a questão. Ele disse, em resumo, três coisas: “1) o programa nuclear
iraniano é atualmente a ameaça mais séria à paz e à segurança; 2) tentei
contato com os iranianos, mas não obtive resposta; 3) preciso de amigos que
possam conversar com aqueles com quem não consigo conversar”.
Negociar
com os iranianos, juntamente com nossos amigos da Turquia, nunca foi fácil.
Eles tinham processos internos de tomada de decisão complexos e cada pequeno
passo exigia tempo, esforço e paciência.
Os
EUA também tinham suas hesitações. Em certo momento, após uma reunião
trilateral, envolvendo Lula, Erdogan e Obama, em Washington, à margem de uma
Conferência de Segurança Nuclear, estávamos inclinados a desistir de nossos
esforços.
Para
nossa surpresa, alguns dias depois, Obama escreveu a Lula e Erdogan reiterando
os pontos essenciais de um gesto de construção de confiança por parte do Irã.
Isso
se referia à quantidade de urânio enriquecido a ser enviada para fora do país,
o cronograma para que isso ocorresse e a localização precisa fora do Irã onde o
urânio deveria ser armazenado. O Irã também deveria escrever à Agência
Internacional de Energia Atômica reafirmando sua contribuição.
Encorajados
pela carta de Obama, viajamos para Teerã.
Após
uma maratona de negociações, os presidentes Lula, Erdogan e Ahmadinejad
assinaram a Declaração de Teerã em 17 de maio de 2010, que foi saudada por
figuras como Mohamad El Baradei, ex-diretor-geral da AIEA, e Tom Pickering,
ex-subsecretário de Estado dos EUA. O jornal Le Monde considerou o dia
histórico.
Provavelmente
foi mais fácil para o Irã fazer concessões ao Brasil e à Turquia, dois países
em desenvolvimento que inspiravam confiança, do que em uma negociação direta
com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
No
entanto, em junho, o Conselho de Segurança, com o apoio das potências
nucleares, votou uma resolução impondo novas sanções ao Irã.
Brasil
e Turquia votaram contra a resolução. Embora isso não tenha tido efeito
prático, para nós foi uma questão de honra.
Anos
depois, um ex-alto funcionário do governo Obama admitiu, em uma conversa
privada, que a iniciativa Brasil-Turquia foi uma espécie de porta de entrada
para o JCPOA.
Essa
história de confiança quebrada me fez sentir total empatia pelo choque expresso
pelo ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, quando a guerra
eclodiu em meio a negociações diplomáticas.
O
Paquistão agora desempenha um papel importante, e me junto àqueles que oram por
seu sucesso.
Gostaria
também de fazer uma breve menção aos assassinatos políticos. Quando pessoas
como Larijani ou Kharrazi, que poderiam estar dispostas a negociar, são mortas,
restam apenas aqueles dispostos a usar a força. Em outras palavras, quando se
matam os negociadores, restam apenas os guerreiros.
Neste
mundo frágil, precisamos de mais pessoas que construam pontes e facilitem o
diálogo entre os países.
O
ingrediente essencial de qualquer negociação é a confiança. Quando a confiança
é quebrada, as chances de se chegar a um acordo são mínimas”.
¨
Irã denuncia na ONU uso de territórios vizinhos por
forças dos EUA e Israel
O
embaixador do Irã nas Nações Unidas, Amir Saeed Iravani, enviou carta ao
secretário-geral da ONU e ao presidente do Conselho de Segurança denunciando o
uso de territórios vizinhos por forças hostis contra seu país. O diplomata
lembrou que todos os Estados têm a obrigação internacional de impedir que seu
solo seja explorado para atos de agressão contra outros.
Iravani
conclamou os líderes do Catar, do Kuwait, do Bahrein, dos Emirados Árabes
Unidos e da Arábia Saudita a barrarem imediatamente o uso de suas instalações e
espaço aéreo em operações militares contra o Irã. Segundo o portal Mehr News, aviões e drones
americanos e israelenses — incluindo os modelos MQ-9, MQ-4C, P-8A, AWACS, B-1,
F-22, F-15, F-16 e F-35 — decolaram desses países para bombardear alvos
iranianos.
Os
ataques iniciados pelos Estados Unidos e por Israel em 28 de fevereiro
provocaram a morte de altos comandantes e oficiais iranianos. Desde então, os
países do Golfo teriam autorizado o emprego contínuo de suas bases e corredores
aéreos para novas investidas — o que o Irã considera uma clara violação de sua
soberania.
Em
resposta, as Forças Armadas iranianas executaram cem ondas de ataques
retaliatórios contra posições estratégicas dos EUA e de Israel em toda a
região. Teerã qualificou todas essas operações como bem-sucedidas e como prova
da robustez de sua capacidade defensiva.
O
Paquistão atuou como mediador e conseguiu estabelecer um cessar-fogo de duas
semanas, iniciado em 8 de abril, após quarenta dias de hostilidades. A primeira
rodada de conversações entre o Irã e os Estados Unidos não resultou em nenhum
acordo concreto.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prorrogou unilateralmente a trégua
e declarou que esperava uma proposta iraniana para nova rodada de diálogos em
Islamabad. O governo de Teerã manifestou reservas, afirmando que as demandas
americanas e o bloqueio naval tornam improvável qualquer avanço nas
negociações.
A
denúncia formal de Iravani sublinha a determinação do Irã em responsabilizar os
vizinhos que facilitam agressões externas contra seu território. O embaixador
defendeu que a estabilidade regional exige estrito cumprimento dos princípios
de boa vizinhança e não interferência nos assuntos internos dos Estados.
O
episódio expõe o nível de tensão persistente no Oriente Médio e as complexas
dinâmicas de alianças na região. Teerã segue reafirmando sua soberania e sua
disposição de responder a qualquer ameaça vinda do exterior.
¨
Líbano se divide sobre negociações diretas com Israel em
Washington
O
Líbano está profundamente dividido sobre as negociações diretas com Israel que
ocorrem em Washington.
Enquanto
parte da população vê o diálogo como única saída viável para encerrar o
conflito, outros setores defendem que a resistência armada liderada pelo
Hezbollah é o único caminho para garantir a soberania nacional. O impasse
reflete feridas abertas por uma ofensiva israelense que deixou rastros visíveis
de destruição em todo o país.
Segundo
o Al Jazeera, desde o início de março mais de 2.200 pessoas foram mortas e
aproximadamente 1,2 milhão foram forçadas a deixar suas casas. Israel mantém a
ocupação de partes do sul do Líbano e criou uma zona de exclusão de 10
quilômetros ao norte da fronteira.
Os
embaixadores do Líbano e de Israel participam das discussões em Washington ao
lado do secretário de Estado americano, Marco Rubio. O governo libanês,
liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam, exige a prorrogação do cessar-fogo
e a retirada completa das forças israelenses como condições prévias para
qualquer avanço.
O
Hezbollah rejeita veementemente as conversas diretas e defende a resistência
armada como única garantia da soberania libanesa. A organização organizou
visitas guiadas para jornalistas às cidades devastadas de al-Mansouri, Majdal
Zoun e Qlaileh, onde a destruição causada pela ofensiva israelense é quase
completa, e convocou protestos em Beirute contra o que classifica como uma
negociação desigual.
O
advogado Fouad Debs alertou que o Líbano chega a essas negociações sem poder
real de barganha. Ele defende que o país deveria recorrer a vias jurídicas
internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, em vez de aceitar um
acordo que tende a favorecer Israel.
As
tensões internas se intensificaram depois que o governo declarou ilegais as
ações militares do Hezbollah posteriores aos ataques de março. O Hezbollah,
fundado em 1982 durante a invasão israelense, manteve seu arsenal após o Acordo
de Taif com o argumento central de resistir à ocupação no sul do país.
Parte
da sociedade libanesa passou a defender uma solução diplomática diante do
agravamento da guerra e do grande número de deslocados. Jad Shahrour, da
Fundação Samir Kassir, argumenta que negociar não equivale a normalizar
relações com Israel, mas representa uma tentativa de recuperar o controle
estatal sobre o território nacional.
Shahrour
reconhece que o Líbano possui pouca margem de manobra diante do poderio militar
israelense e da influência americana nas tratativas. Ele adverte que a ausência
de diálogo pode levar a nova escalada, atingir Beirute e agravar ainda mais a
tragédia humanitária.
A
maioria dos libaneses demonstra pouca confiança na boa-fé de Israel ou na
neutralidade dos Estados Unidos, diante das violações constantes do
cessar-fogo. O pesquisador Mohanad Hage Ali, do Carnegie Middle East Center,
recomenda que o Líbano defina claramente seus próprios parâmetros de negociação
para evitar o enfraquecimento do Estado e o isolamento de aliados regionais
contrários à ocupação.
Hage
Ali considera que uma postura equilibrada poderia produzir resultados mais
duradouros, apesar das críticas internas imediatas. As conversas em Washington
revelam um país dividido entre as pressões pela via diplomática e as demandas
por continuidade da resistência armada contra a ocupação israelense no sul.
¨
Líbano rejeita acordo com Israel sem retirada total das
tropas
O
primeiro-ministro do Líbano, Nawaf Salam, afirmou que seu governo não assinará
qualquer acordo com Israel enquanto o texto não incluir a retirada completa de
todas as tropas israelenses do território libanês.
Salam
rejeitou de forma categórica a proposta de criação de uma zona tampão que
permaneceria sob controle israelense no sul do Líbano. O premiê argumentou que
tal medida bloquearia o retorno dos civis deslocados e comprometeria os
esforços de reconstrução das vilas destruídas pelos bombardeios.
O
presidente do Líbano, Joseph Aoun, reforçou a determinação nacional ao declarar
que o engajamento em diálogos não equivale a concessões inaceitáveis. Aoun
enfatizou a necessidade de que qualquer solução respeite integralmente o
direito internacional e preserve a integridade territorial do país.
As
autoridades libanesas deixaram claro que não tolerarão presença militar
estrangeira dentro de suas fronteiras reconhecidas internacionalmente. O foco
do executivo em Beirute consiste em recuperar a soberania plena sobre todas as
localidades impactadas pelos anos de confrontos.
Uma
segunda rodada de negociações entre representantes do Líbano e de Israel está
agendada para ocorrer em Washington, conforme o Departamento de Estado
norte-americano. Os encontros acontecerão no nível de embaixadores e buscam
encontrar pontos de convergência em meio às posições divergentes das duas
partes.
O
Hezbollah tem cumprido os termos do cessar-fogo em vigor na região fronteiriça.
O grupo reiterou que não aceitará termos que possam ser interpretados como
legitimação da presença militar israelense em solo soberano libanês.
A
firmeza de Nawaf Salam espelha o sentimento predominante entre as forças
políticas libanesas sobre a questão da ocupação. Observadores internacionais
acompanham atentamente o desenrolar das conversações, que podem definir o
futuro da estabilidade no sul do Líbano.
Milhares
de famílias libanesas forçadas a deixar suas residências no sul aguardam o
desfecho das tratativas diplomáticas. A reconstrução das áreas devastadas só
poderá avançar após a confirmação da retirada integral das forças israelenses
do território.
Os
Estados Unidos mantêm seu papel de mediador nas discussões entre Beirute e Tel
Aviv. A administração do presidente Donald Trump tenta conciliar as exigências
israelenses com as demandas libanesas por soberania completa.
O
impasse atual revela as dificuldades inerentes à busca por um acordo abrangente
na região. Especialistas em Oriente Médio alertam que, sem avanços concretos, o
risco de nova escalada permanece presente apesar dos esforços diplomáticos.
A
posição libanesa reforça o princípio de que a soberania nacional não pode ser
objeto de barganha. Salam e sua equipe diplomática continuam a defender essa
linha como condição básica para qualquer entendimento futuro com o lado
israelense.
O
desenvolvimento desses eventos atrai atenção global pelo potencial impacto na
dinâmica mais ampla do Oriente Médio. Autoridades em Beirute permanecem
otimistas quanto à possibilidade de alcançar uma solução que atenda aos
interesses fundamentais do povo libanês sem comprometer sua independência
territorial.
¨
Irã adverte que dará ‘lição mais dura’ a EUA e Israel se
atacarem novamente
O
porta-voz do Comando Central das Forças Khatam al Anbiya do Irã, Ebrahim
Zolfaghari, afirmou que as Forças Armadas da República Islâmica estão em total
prontidão para responder a qualquer nova agressão dos Estados Unidos ou de
Israel. O militar declarou que Teerã dará uma ‘lição mais dura’ caso o país
seja alvo de novos ataques.
Zolfaghari
destacou que as forças iranianas se mantêm em alerta máximo, com alvos
previamente designados para possíveis contraofensivas. Ele garantiu que
qualquer ação militar contra o Irã receberá uma resposta imediata e
contundente.
O
porta-voz classificou Israel como um Estado sionista assassino de crianças.
Suas declarações surgiram em meio às crescentes tensões provocadas por ameaças
recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Trump
intensificou o tom contra Teerã nas últimas semanas. Zolfaghari transmitiu uma
mensagem clara de que o Irã não permanecerá inerte diante de novas
hostilidades.
Conforme
reportou o portal RT, o comandante
enfatizou a prontidão operacional das unidades sob seu comando. A advertência
sinaliza a determinação iraniana em proteger sua segurança nacional.
A
declaração de Zolfaghari reforça o padrão de dissuasão mantido pela liderança
militar iraniana. O país demonstra disposição para enfrentar qualquer desafio
imposto por potências externas.
Analistas
interpretam o comunicado como indicativo de que o equilíbrio de forças na
região permanece delicado. A retórica empregada busca evitar que eventuais
planos de ataque se concretizem.
O
Oriente Médio segue sob vigilância internacional devido ao potencial de
escalada entre as partes envolvidas. Teerã insiste em seu direito legítimo à
autodefesa diante das ameaças que enfrenta.
Fonte:
Por Jamil Chade, para ICL Notícias/O Cafezinho

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