sábado, 25 de abril de 2026

Clima – desastre à vista!

Enquanto o mundo é atingido por uma grande crise energética provocada pela guerra no Oriente Médio, as questões de energia, clima e descarbonização num contexto de incertezas assumem um papel destacado na conjuntura política em todo o mundo. Mas os cidadãos ainda não perceberam suficientemente os benefícios que poderiam obter de uma saída das energias fósseis.

A ideia de precisar menos de petróleo e buscar energias renováveis vem se consolidando, apesar do predomínio ainda dominante dos combustíveis fósseis no mundo. Um passo importante nessa direção vem sendo dado pela China que é o maior produtor mundial de energia renovável, instalando mais painéis solares e turbinas eólicas do que o resto do mundo todo.

Pela primeira vez, as energias renováveis produziram mais eletricidade do que o carvão em 2025. E, pela quinta vez apenas desde o início do século XXI, a produção de eletricidade proveniente do conjunto dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás) diminuiu muito ligeiramente (-0,2).

A sétima edição da Revisão Mundial da Eletricidade, publicada em 21/4/2026 pelo grupo de reflexão Ember, com sede em Londres, e divulgada pelo jornal Le Monde, mostra que o desenvolvimento espetacular da energia solar e eólica continua em escala mundial. O setor energético atravessa uma crise de magnitude inédita provocada pela guerra no Oriente Médio, que ilustra os riscos econômicos e de soberania ligados à dependência do petróleo e do gás – além dos riscos climáticos.

Este estudo baseia-se, em particular, em dados de 91 países que representam 93% da demanda mundial de eletricidade. Segundo esses números, a produção de energia renovável, especialmente a solar, permitiu atender à totalidade do aumento do consumo de eletricidade. O crescimento da energia limpa já é uma realidade, mas ainda insuficiente para enfrentar os riscos do aquecimento global.

Os cientistas e diversas organizações internacionais não cansam de advertir sobre as consequências de o aquecimento global ultrapassar 1,5°C, o que já está correndo. As principais são as seguintes:

Eventos extremos mais frequentes e intensos: ondas de calor mais longas e mortais, secas prolongadas e crises hídricas, chuvas intensas com enchentes e deslizamentos, maior vulnerabilidade de cidades costeiras.

Elevação do nível do mar: derretimento acelerado de geleiras e calotas polares, inundação de áreas costeiras e ilhas, migração forçada de populações (refugiados climáticos).

Colapso de ecossistemas: morte de recifes de coral (quase total acima de 2 °C), perda de biodiversidade na Amazônia, extinção de espécies incapazes de se adaptar rapidamente.

Impactos na agricultura e alimentação: redução da produtividade agrícola, aumento do preço dos alimentos, maior risco de insegurança alimentar global.

Riscos à saúde humana: expansão de doenças tropicais, aumento de mortes por calor extremo, poluição do ar agravada. Os alertas de calor extremo triplicaram nos últimos 35 anos. Mais de 62 mil pessoas morreram de calor na Europa em 2024, segundo informações publicadas em Nature Medicine em setembro de 2025.

Impactos econômicos e geopolíticos: prejuízos bilionários com desastres naturais, tensões por recursos (água, alimentos, energia), instabilidade política em regiões vulneráveis.

A crise atual pode constituir uma oportunidade de lembrar o quão urgente é organizar essa transição das energias fósseis para as renováveis. Afinal, o homem é o único animal que destrói seu habitat e coloca em risco, com suas ações, as condições de sua sobrevivência no planeta pela destruição da biodiversidade e pelas mudanças climáticas. Se nada for feito, um colapso da civilização humana no planeta está no campo das possibilidades.

<><> Benefícios da descarbonização da economia

Por outro lado, descarbonizar significa reduzir drasticamente o uso de combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás) e substituir por energia limpa. Entre os benefícios da descarbonização, destacam-se os seguintes: (i) estabilização do clima: limita o aquecimento global, reduz a frequência de eventos extremos, evita cenários irreversíveis (pontos de não retorno). (ii) Melhoria da saúde pública: menos poluição do ar, menos doenças respiratórias, redução de mortes prematuras.

(iii) Crescimento econômico sustentável: novos empregos em energia renovável, inovação tecnológica, menor dependência de combustíveis fósseis. (iv) Segurança energética: países passam a depender menos de importação de petróleo, maior autonomia com solar, eólica e outras fontes. (v) Preservação ambiental: proteção de florestas e oceanos, conservação da biodiversidade, menor degradação de solos e recursos naturais. (vi) Justiça social e qualidade de vida: menos impactos sobre populações vulneráveis, cidades mais limpas, silenciosas e saudáveis.

Assim, a descarbonização não é só uma questão ambiental – é também econômica, sanitária e estratégica. No que se refere ao Brasil, os efeitos já são visíveis e tendem a se intensificar se o aquecimento global ultrapassar 1,5 °C.

<><> Impactos do aquecimento global no Brasil

Risco de “savanização” da Amazônia: a floresta depende da própria umidade que gera. Com mais calor e desmatamento, pode atingir um “ponto de não retorno” e partes da Amazônia podem virar uma vegetação mais seca, tipo cerrado. A consequências seriam as seguintes: perda massiva de biodiversidade, redução das chuvas em grande parte do país, emissões enormes de carbono (agravando ainda mais o problema).

Mudanças no regime de chuvas: Sudeste e Sul com chuvas mais intensas e irregulares Nordeste com secas mais frequentes e severas. Isso já aparece em crises recentes em cidades como São Paulo e Porto Alegre. As consequências são mais enchentes e deslizamentos, crises de abastecimento de água, impacto direto na agricultura.

Agricultura sob pressão: o Brasil é uma potência agrícola, mas muito dependente do clima. As mudanças climáticas podem produzir queda de produtividade de soja, milho e café, mudança das áreas adequadas para cultivo, mais pragas e doenças. Como resultado, teremos alimentos mais caros e perda de competitividade internacional, ameaçando o modelo neoextrativista do agronegócio.

Elevação do nível do mar: cidades costeiras ficam vulneráveis, como Rio de Janeiro, Recife, Salvador. As consequências seriam inundações permanentes ou frequentes, erosão de praias, danos à infraestrutura urbana e turística.

Aumento de eventos extremos: ondas de calor mais intensas (já batendo recordes), incêndios florestais no Pantanal e Amazônia, tempestades mais violentas. No que se refere a desmatamento, no mundo, entre 2001 e 2024, houve uma perda de 5,17 milhões de km2 de cobertura arbórea, ou cerca de 13% da cobertura arbórea global em 2000, sendo que 87% dessa perda no período se deve à agropecuária tropical, aos incêndios florestais e à extração de madeira.

No Brasil, apenas em 2024, o fogo consumiu cerca de 300 mil km2 da cobertura vegetal, mais da metade da qual na Amazônia. As queimadas recordes de 2024 resultam da combinação da expansão agrícola e pecuária, degradação de florestas e secas prolongadas provocadas pelas mudanças climáticas (Luiz Marques, Crises Sócio ambientais, Jornal da Unicamp, 15/4/2026).

Impactos na saúde: expansão de doenças como dengue e zica, mais mortes por calor extremo, piora da qualidade do ar (queimadas).

<><> Oportunidades para o Brasil com a descarbonização

O Brasil tem importantes vantagens que não podem ser ignoradas. As principais são as seguintes: (i) Potência em energia limpa: grande uso de hidrelétricas, enorme potencial em solar e eólica, possibilidade de se tornar líder global em energia renovável. (ii) Bioeconomia da Amazônia: uso sustentável da floresta (fármacos, alimentos, cosméticos), geração de renda sem desmatamento.

(iii) Agricultura de baixo carbono: técnicas como integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de pastagens degradadas, produzir mais, emitindo menos. (iv) Hidrogênio verde e novos mercados: produção de combustível limpo para exportação, atração de investimentos internacionais. (v) Geração de empregos: energia renovável, reflorestamento, infraestrutura sustentável

As informações acima sobre consequências, benefícios, impactos e oportunidades apontam para a conclusão de que o Brasil pode ser muito prejudicado pelo aquecimento global (especialmente pela Amazônia e pelas chuvas), mas também pode ser um dos maiores beneficiados da transição verde, se agir estrategicamente. O Brasil está ao mesmo tempo entre os mais vulneráveis e os mais bem posicionados para liderar soluções.

<><> Vem aí um Super El Niño

Os alertas recentes do ClimaInfo e do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) apontam para o desenvolvimento de um “Super El Niño” a partir do segundo semestre de 2026. A previsão é de um aquecimento anormal e agressivo nas águas do Pacífico, com potencial para ser o evento mais intenso dos últimos 140 anos. Esse El Niño vai operar em um planeta com oceanos que já estão superaquecidos pelo acúmulo histórico de gases de efeito estufa.

O Brasil será cortado por extremos violentos, sofrendo um verdadeiro “desastre térmico”. No Norte e Nordeste, teremos seca severa, estiagem agrícola e forte atraso no ciclo hidrológico da Amazônia, aumentando muito a possibilidade de explosão de incêndios florestais. No Sul, ocorrerá o extremo oposto: previsão de tempestades catastróficas e chuvas muito acima da média, acendendo o alerta vermelho para inundações e deslizamentos de terra.

No Centro-Oeste e Sudeste, veremos ondas de calor extremas e prolongadas, baixa umidade e falta de chuva. Além do colapso na saúde humana com as noites superaquecidas, o agro e o abastecimento hídrico sofrerão grande impacto. O auge desses impactos climáticos está previsto para novembro próximo, justamente o mês das eleições no Brasil.

Discutir o impacto no Brasil do aquecimento global, da descarbonização da economia, das consequências desastrosas do desmatamento, incêndios florestais, secas, inundações, é discutir o futuro do país. Infelizmente, essas questões de vital importância provavelmente não serão discutidas na campanha eleitoral este ano.

Os partidos de esquerda no governo Lula assumiram uma posição centrista, priorizando acordos com a direita para barrar a extrema direita. Serão surpreendidos pelos desastres ambientais previstos para novembro, às vésperas da eleição.

Ideias para um projeto político nacional de desenvolvimento com sustentabilidade, com crescimento econômico, proteção ambiental, redução das desigualdades sociais, desenvolvimento educacional e cultural, servem em geral para enfeitar discursos, e às vezes, nem mesmo isso.

Os partidos políticos no Brasil não têm um projeto para o futuro do país, que vive dividido entre pequenos avanços e a permanente ameaça de retrocesso. É o que veremos nessa campanha eleitoral a ser disputada entre Lula e o emissário de Donald Trump que, se vier a vencer – o que a meu ver é improvável, mas não impossível – tornará o país uma colônia dos EUA.

Nesse caso, entre muitos outros retrocessos anunciados, socioeconômicos, educacionais, políticos, culturais etc., o novo presidente tornará o negacionismo climático de Donald Trump uma política oficial do governo brasileiro.

 

Fonte: Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda

 

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