Eleições:
Para quê as IAs poderiam ser úteis
A
inteligência artificial (IA) assumiu importância central no debate
contemporâneo sobre o futuro das democracias em todo o mundo. No ciclo
eleitoral de 2026, no Brasil, o tema ganhou ainda mais relevância em virtude da
capacidade dessas ferramentas de ampliar a velocidade, a escala, a
personalização e a credibilidade aparente dos conteúdos divulgados. O problema
com potencial para afetar a integridade informacional do processo eleitoral
reside: na produção de mensagens, na opacidade dos algoritmos, na baixa
transparência das plataformas e na dificuldade de responsabilizar atores que
difundem conteúdos enganosos, manipulados ou descontextualizados.
Do
ponto de vista analítico, existem pelo menos quatro modalidades de uso da IA em
contextos eleitorais democráticos:
1)
produção sintética de conteúdos, como textos, imagens, áudios e vídeos;
2)
sistemas conversacionais e mecanismos de recomendação, como chatbots,
assistentes de IA e buscadores generativos;
3) usos
analíticos, organizacionais e operacionais por campanhas, plataformas, meios de
comunicação e instituições eleitorais; e
4) usos
cívicos e institucionais orientados à ampliação do acesso à informação, à
transparência, à acessibilidade e à participação pública.
Essa
classificação genérica permite avaliar com mais precisão quando a IA pode
fortalecer a democracia e quando tende a fragilizá-la.
Em uma
perspectiva positiva, a IA pode contribuir para o fortalecimento democrático
quando empregada de modo a ampliar o acesso a informações eleitorais
confiáveis, facilitar a compreensão de regras e programas, traduzir conteúdos
para diferentes idiomas, produzir recursos de acessibilidade, apoiar a checagem
de fatos, qualificar a moderação de conteúdo e melhorar a gestão administrativa
das eleições. Entretanto, relatórios recentes da Organização das Nações Unidas
para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e da Organização para a Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destacam precisamente esse caráter
ambivalente: as mesmas tecnologias que podem ampliar a informação e a
participação social também podem contribuir para intensificar desinformação, falta
de transparência e violência política, sobretudo em períodos eleitorais.
No
campo da comunicação, campanhas e candidaturas podem utilizar IA para redação
assistida, adaptação da linguagem, organização de bases de informação,
monitoramento de tendências, planejamento de comunicação e produção de peças
digitais. O emprego destes usos, em si, não é necessariamente antidemocrático.
Tornam-se, de fato, problemáticos quando ocultam processos de mediação
tecnológica, simulam pessoas reais, exploram perfis falsos, reforçam
discriminações ou são mobilizados para produzir deliberadamente contextos
enganosos. Por essa razão, a transparência no uso da tecnologia e a
responsabilização de quem produz e impulsiona conteúdos são dimensões centrais
da integridade eleitoral em qualquer país de base democrática.
Já em
uma perspectiva negativa, a IA pode ser empregada para criar ou manipular
conteúdos com aparência de autenticidade, intensificar campanhas de
desinformação, produzir deepfakes, disseminar assédio e violência política,
inclusive de gênero, automatizar ataques coordenados e focalizados, amplificar
discursos de ódio e explorar vulnerabilidades cognitivas e emocionais do
conjunto e, em especial, de parcelas do eleitorado.
Em
democracias francamente polarizadas, esses usos reduzem sobremaneira o custo de
produção de conteúdo enganoso, aceleram sua circulação em amplas redes e
dificultam a distinção entre crítica política legítima, sátira, propaganda e
fraude informacional deliberada. De fato, a IA tende a profissionalizar e
baratear a disputa por atenção, engajamento e enquadramento narrativo,
favorecendo quem combina volume, repetição, segmentação e circulação coordenada
em múltiplas plataformas, especialmente em ambientes de mensagens privadas e de
redes de vídeos curtos. Instaura-se, portanto, uma dinâmica intensificada de
geração contínua de conteúdos assistidos por IA. Esses materiais passam a
desempenhar um papel central na definição das pautas cotidianas e na mobilização
do engajamento nas redes sociais e em outros espaços de interação social.
No
Brasil, episódios recentes mostram que atores governistas e oposicionistas já
incorporaram, em graus distintos, linguagens, formatos e repertórios associados
à IA em suas estratégias digitais. No atual contexto pré-eleitoral, percebe-se
que tanto o Governo quanto o Partido dos Trabalhadores (PT) têm se
reposicionado no ambiente digital4. Neste mês de abril, após vários ataques à
imagem do presidente Lula nas redes sociais por meio de conteúdos gerados por
IA, intensificaram-se o investimento e a participação em plataformas como o
WhatsApp, o Instagram e o TikTok. Assim, nas últimas duas semanas, cresceram
tanto os conteúdos que retiram o candidato à presidência da República, Flávio
Bolsonaro, da sua zona de conforto, relembrando episódios como o da “rachadinha”,
quanto os de impulsionamento de agendas cruciais para ampliar o alcance de
propostas centrais do Governo junto à população, como o fim da escala 6×1. A IA
não é utilizada apenas no contra-ataque; também é vista como uma aposta para
ampliar a adesão às políticas governamentais.
É
importante salientar que o Governo já demonstrou sua capacidade de utilizar a
IA para superar situações difíceis em momentos complexos, o que gerou efeitos
positivos na avaliação do Governo e do Presidente Silva. Cabe relembrar a
rápida reação do governo diante da resistência do Congresso Nacional ao aumento
do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), a partir da qual foram elaborados
enquadramentos que simplificaram e tornaram mais visível a disputa política em
torno da tributação e das políticas sociais. Também em 2025, o uso da IA foi
altamente útil quando implementado rapidamente para criar conteúdos que
contrapuseram-se às imposições de taxação das exportações brasileiras para os
EUA, impostas por Donald Trump e apoiadas pela família do ex-presidente da
República Jair Messias Bolsonaro.
Por
outro lado, a extrema-direita tem demonstrado evidências de estratégias
permanentes e consistentes de investimento em desinformação e na deterioração
da imagem de seus adversários. Um aspecto relevante de preocupação é a
constituição de estruturas organizadas de mobilização digital que articulam
treinamento informal, padronização de comandos, replicação em massa e
coordenação distribuída por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais.
Nesses arranjos, a IA funciona menos como ferramenta isolada e mais como
infraestrutura para acelerar a propaganda, a militância digital e, em alguns
casos, a manipulação. A combinação entre conteúdo sintético, lógica algorítmica
de recomendação e circulação em redes fechadas tende a aumentar a dificuldade
de monitoramento público e de resposta institucional em tempo hábil. Assim, o
uso de conteúdos gerados artificialmente, de fácil replicação, tende a ampliar
e potencializar a polarização política, mas, sobretudo, a prática de ações que
fragilizam a dinâmica democrática.
Em
conjunto, estes fatos ajudam a compreender, inclusive, por que pode haver
dissociação entre indicadores objetivos e percepções sociais sobre temas como a
economia, a corrupção, a segurança ou as políticas públicas. Um exemplo é a
comemoração, pelo Governo Federal, do baixo desemprego, da queda do dólar, da
valorização da bolsa de valores e da inflação sob controle, mas com percepção,
entre cidadãos e cidadãs, de que a economia piorou, como indicado no último
levantamento da Quaest Pesquisa e Consultoria. Mensagens contínuas que
enfatizam a crise, o aumento dos preços e o endividamento contribuem
sobremaneira para a ampliação de uma visão negativa do governo federal e da
vida cotidiana. Nesse contexto, observa-se o recurso recorrente a estereótipos
e à mobilização de afetos na esfera pública, muitas vezes associado à
circulação de violências simbólicas e de desinformação.
Ressalta-se
que a IA não cria sozinha essas percepções, mas pode intensificar sua produção,
circulação e adaptação a públicos específicos, inclusive por meio de testes
rápidos de linguagem, imagens emocionalmente carregadas, simplificação de
conflitos complexos e repetição automatizada de enquadramentos que reforçam
crenças prévias. Em termos democráticos, o risco maior é a deterioração da
esfera pública informacional, bem como a fragilização das condições mínimas
para a deliberação baseada em fatos.
Uma
modalidade particularmente sensível a ser considerada é o uso de plataformas
conversacionais para consultas sobre regras eleitorais, comparação de
candidaturas, interpretação de propostas e busca de orientação política.
Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Grok e outras podem oferecer respostas úteis,
mas também podem apresentar informações incompletas, desatualizadas, enviesadas
ou excessivamente assertivas. Quando uma pessoa passa a terceirizar a mediação
informacional a sistemas privados, cujos critérios de priorização e de
formulação de respostas são pouco transparentes, amplia-se o poder de
intermediação de grandes empresas de tecnologia na formação de preferências
políticas. Ainda assim, esses sistemas podem ter utilidade pública quando
orientados por fontes oficiais e consistentes, com limites de escopo e
mecanismos de correção e auditoria.
Por
isso, é importante reconhecer os usos da IA com potencial de fortalecimento
democrático, bem como os de fragilização. Para o Brasil de 2026, a agenda
estratégica combina pelo menos 6 frentes: transparência, responsabilização,
integridade informacional, proteção contra violência política digital,
regulação proporcional e fortalecimento da alfabetização digital da população.
O campo progressista precisa tanto se apropriar destes usos potenciais quanto
ampliar seu empoderamento na utilização da tecnologia, na capacidade de
comunicação e na difusão de informações, sempre de forma ética, priorizando a
regulação responsável da IA no campo da política.
Não há
um único efeito da IA sobre as democracias. Seu impacto depende do contexto, da
finalidade, do desenho institucional e da capacidade regulatória. Questões como
o ator que a utiliza, a finalidade do uso, o grau de transparência, os
mecanismos de controle social e institucional, as salvaguardas regulatórias e a
capacidade coletiva de educação midiática e digital tornam-se cada vez mais
centrais para um país que se diz democrático.
Fonte:
Por Carmen Leitão, em Outras Palavras

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