sábado, 25 de abril de 2026

Eleições: Para quê as IAs poderiam ser úteis

A inteligência artificial (IA) assumiu importância central no debate contemporâneo sobre o futuro das democracias em todo o mundo. No ciclo eleitoral de 2026, no Brasil, o tema ganhou ainda mais relevância em virtude da capacidade dessas ferramentas de ampliar a velocidade, a escala, a personalização e a credibilidade aparente dos conteúdos divulgados. O problema com potencial para afetar a integridade informacional do processo eleitoral reside: na produção de mensagens, na opacidade dos algoritmos, na baixa transparência das plataformas e na dificuldade de responsabilizar atores que difundem conteúdos enganosos, manipulados ou descontextualizados.

Do ponto de vista analítico, existem pelo menos quatro modalidades de uso da IA em contextos eleitorais democráticos:

1) produção sintética de conteúdos, como textos, imagens, áudios e vídeos;

2) sistemas conversacionais e mecanismos de recomendação, como chatbots, assistentes de IA e buscadores generativos;

3) usos analíticos, organizacionais e operacionais por campanhas, plataformas, meios de comunicação e instituições eleitorais; e

4) usos cívicos e institucionais orientados à ampliação do acesso à informação, à transparência, à acessibilidade e à participação pública.

Essa classificação genérica permite avaliar com mais precisão quando a IA pode fortalecer a democracia e quando tende a fragilizá-la.

Em uma perspectiva positiva, a IA pode contribuir para o fortalecimento democrático quando empregada de modo a ampliar o acesso a informações eleitorais confiáveis, facilitar a compreensão de regras e programas, traduzir conteúdos para diferentes idiomas, produzir recursos de acessibilidade, apoiar a checagem de fatos, qualificar a moderação de conteúdo e melhorar a gestão administrativa das eleições. Entretanto, relatórios recentes da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destacam precisamente esse caráter ambivalente: as mesmas tecnologias que podem ampliar a informação e a participação social também podem contribuir para intensificar desinformação, falta de transparência e violência política, sobretudo em períodos eleitorais.

No campo da comunicação, campanhas e candidaturas podem utilizar IA para redação assistida, adaptação da linguagem, organização de bases de informação, monitoramento de tendências, planejamento de comunicação e produção de peças digitais. O emprego destes usos, em si, não é necessariamente antidemocrático. Tornam-se, de fato, problemáticos quando ocultam processos de mediação tecnológica, simulam pessoas reais, exploram perfis falsos, reforçam discriminações ou são mobilizados para produzir deliberadamente contextos enganosos. Por essa razão, a transparência no uso da tecnologia e a responsabilização de quem produz e impulsiona conteúdos são dimensões centrais da integridade eleitoral em qualquer país de base democrática.

Já em uma perspectiva negativa, a IA pode ser empregada para criar ou manipular conteúdos com aparência de autenticidade, intensificar campanhas de desinformação, produzir deepfakes, disseminar assédio e violência política, inclusive de gênero, automatizar ataques coordenados e focalizados, amplificar discursos de ódio e explorar vulnerabilidades cognitivas e emocionais do conjunto e, em especial, de parcelas do eleitorado.

Em democracias francamente polarizadas, esses usos reduzem sobremaneira o custo de produção de conteúdo enganoso, aceleram sua circulação em amplas redes e dificultam a distinção entre crítica política legítima, sátira, propaganda e fraude informacional deliberada. De fato, a IA tende a profissionalizar e baratear a disputa por atenção, engajamento e enquadramento narrativo, favorecendo quem combina volume, repetição, segmentação e circulação coordenada em múltiplas plataformas, especialmente em ambientes de mensagens privadas e de redes de vídeos curtos. Instaura-se, portanto, uma dinâmica intensificada de geração contínua de conteúdos assistidos por IA. Esses materiais passam a desempenhar um papel central na definição das pautas cotidianas e na mobilização do engajamento nas redes sociais e em outros espaços de interação social.

No Brasil, episódios recentes mostram que atores governistas e oposicionistas já incorporaram, em graus distintos, linguagens, formatos e repertórios associados à IA em suas estratégias digitais. No atual contexto pré-eleitoral, percebe-se que tanto o Governo quanto o Partido dos Trabalhadores (PT) têm se reposicionado no ambiente digital4. Neste mês de abril, após vários ataques à imagem do presidente Lula nas redes sociais por meio de conteúdos gerados por IA, intensificaram-se o investimento e a participação em plataformas como o WhatsApp, o Instagram e o TikTok. Assim, nas últimas duas semanas, cresceram tanto os conteúdos que retiram o candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, da sua zona de conforto, relembrando episódios como o da “rachadinha”, quanto os de impulsionamento de agendas cruciais para ampliar o alcance de propostas centrais do Governo junto à população, como o fim da escala 6×1. A IA não é utilizada apenas no contra-ataque; também é vista como uma aposta para ampliar a adesão às políticas governamentais.

É importante salientar que o Governo já demonstrou sua capacidade de utilizar a IA para superar situações difíceis em momentos complexos, o que gerou efeitos positivos na avaliação do Governo e do Presidente Silva. Cabe relembrar a rápida reação do governo diante da resistência do Congresso Nacional ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), a partir da qual foram elaborados enquadramentos que simplificaram e tornaram mais visível a disputa política em torno da tributação e das políticas sociais. Também em 2025, o uso da IA foi altamente útil quando implementado rapidamente para criar conteúdos que contrapuseram-se às imposições de taxação das exportações brasileiras para os EUA, impostas por Donald Trump e apoiadas pela família do ex-presidente da República Jair Messias Bolsonaro.

Por outro lado, a extrema-direita tem demonstrado evidências de estratégias permanentes e consistentes de investimento em desinformação e na deterioração da imagem de seus adversários. Um aspecto relevante de preocupação é a constituição de estruturas organizadas de mobilização digital que articulam treinamento informal, padronização de comandos, replicação em massa e coordenação distribuída por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais. Nesses arranjos, a IA funciona menos como ferramenta isolada e mais como infraestrutura para acelerar a propaganda, a militância digital e, em alguns casos, a manipulação. A combinação entre conteúdo sintético, lógica algorítmica de recomendação e circulação em redes fechadas tende a aumentar a dificuldade de monitoramento público e de resposta institucional em tempo hábil. Assim, o uso de conteúdos gerados artificialmente, de fácil replicação, tende a ampliar e potencializar a polarização política, mas, sobretudo, a prática de ações que fragilizam a dinâmica democrática.

Em conjunto, estes fatos ajudam a compreender, inclusive, por que pode haver dissociação entre indicadores objetivos e percepções sociais sobre temas como a economia, a corrupção, a segurança ou as políticas públicas. Um exemplo é a comemoração, pelo Governo Federal, do baixo desemprego, da queda do dólar, da valorização da bolsa de valores e da inflação sob controle, mas com percepção, entre cidadãos e cidadãs, de que a economia piorou, como indicado no último levantamento da Quaest Pesquisa e Consultoria. Mensagens contínuas que enfatizam a crise, o aumento dos preços e o endividamento contribuem sobremaneira para a ampliação de uma visão negativa do governo federal e da vida cotidiana. Nesse contexto, observa-se o recurso recorrente a estereótipos e à mobilização de afetos na esfera pública, muitas vezes associado à circulação de violências simbólicas e de desinformação.

Ressalta-se que a IA não cria sozinha essas percepções, mas pode intensificar sua produção, circulação e adaptação a públicos específicos, inclusive por meio de testes rápidos de linguagem, imagens emocionalmente carregadas, simplificação de conflitos complexos e repetição automatizada de enquadramentos que reforçam crenças prévias. Em termos democráticos, o risco maior é a deterioração da esfera pública informacional, bem como a fragilização das condições mínimas para a deliberação baseada em fatos.

Uma modalidade particularmente sensível a ser considerada é o uso de plataformas conversacionais para consultas sobre regras eleitorais, comparação de candidaturas, interpretação de propostas e busca de orientação política. Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Grok e outras podem oferecer respostas úteis, mas também podem apresentar informações incompletas, desatualizadas, enviesadas ou excessivamente assertivas. Quando uma pessoa passa a terceirizar a mediação informacional a sistemas privados, cujos critérios de priorização e de formulação de respostas são pouco transparentes, amplia-se o poder de intermediação de grandes empresas de tecnologia na formação de preferências políticas. Ainda assim, esses sistemas podem ter utilidade pública quando orientados por fontes oficiais e consistentes, com limites de escopo e mecanismos de correção e auditoria.

Por isso, é importante reconhecer os usos da IA com potencial de fortalecimento democrático, bem como os de fragilização. Para o Brasil de 2026, a agenda estratégica combina pelo menos 6 frentes: transparência, responsabilização, integridade informacional, proteção contra violência política digital, regulação proporcional e fortalecimento da alfabetização digital da população. O campo progressista precisa tanto se apropriar destes usos potenciais quanto ampliar seu empoderamento na utilização da tecnologia, na capacidade de comunicação e na difusão de informações, sempre de forma ética, priorizando a regulação responsável da IA no campo da política.

Não há um único efeito da IA sobre as democracias. Seu impacto depende do contexto, da finalidade, do desenho institucional e da capacidade regulatória. Questões como o ator que a utiliza, a finalidade do uso, o grau de transparência, os mecanismos de controle social e institucional, as salvaguardas regulatórias e a capacidade coletiva de educação midiática e digital tornam-se cada vez mais centrais para um país que se diz democrático.

 

Fonte: Por Carmen Leitão, em Outras Palavras

 

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