sábado, 25 de abril de 2026

As teorias da conspiração sobre 'cientistas desaparecidos' nos EUA que deixam famílias perplexas

O desaparecimento e a morte de ao menos dez pessoas ligadas a pesquisas sensíveis nos Estados Unidos têm atraído a atenção de investigadores amadores na internet e, agora, de autoridades federais. Para os parentes das vítimas, as especulações em torno desses acontecimentos são "repugnantes".

Carl Grillmair "riria" das teorias conspiratórias sobre sua morte, afirma sua viúva, Louise Grillmair. "Acho que é um absurdo completo. Quero dizer, há fatos, e eles estão disponíveis."

Seu marido, de 67 anos, foi morto a tiros em fevereiro na casa do casal em Llano, na Califórnia, nos EUA.

O suspeito de matar Grillmair, Freddy Snyder, de 29 anos e morador da região, foi acusado de homicídio e invasão de propriedade e deve comparecer à Justiça na próxima semana para a audiência inicial.

Apesar da prisão do suspeito, Grillmair aparece com destaque em teorias conspiratórias sobre as mortes e os desaparecimentos de cerca de dez pessoas ligadas a laboratórios com acesso a informações sigilosas ou trabalhos científicos.

Esses casos costumam ser agrupados sob o rótulo de "cientistas desaparecidos", mas a lista inclui uma assistente administrativa, um general da Força Aérea, um engenheiro e um zelador, e abrange diversas áreas, da pesquisa sobre exoplanetas à indústria farmacêutica.

Os investigadores amadores na internet sugeriram que os casos podem estar conectados, o que levou o Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA e o FBI (a polícia federal americana) a anunciarem investigações, apesar de outras explicações já estabelecidas e das tentativas dos familiares de conter a histeria em torno dos casos.

A esposa de Grillmair, Louise, acredita que o marido foi alvo de um plano de vingança equivocado.

Meses antes do crime, um homem teria "entrado [na propriedade do casal] com um rifle", alegando estar caçando coiotes. Segundo ela, seu marido o orientou a seguir até uma área próxima.

O homem também vinha causando problemas em outras casas da região, afirma. Um morador chegou a ligar para o número de emergência (911, nos EUA). Grillmair não fez a ligação, mas sua esposa acredita que o suspeito o culpou por isso, já que o seu comportamento vinha "escalando".

Duas semanas antes do crime, o mesmo homem voltou com um taco de beisebol, mas foi embora sem causar mais problemas naquele dia, segundo ela.

Então, em 16 de fevereiro, ele voltou e supostamente atirou fatalmente em Grillmair, um astrônomo renomado do centro de ciência e dados IPAC, do California Institute of Technology (Caltech), voltado à astronomia e à ciência planetária.

"Achamos que [ele] veio para se vingar, acreditando que Carl [Grillmair] havia feito a ligação para o 911", afirma Louise.

Ela diz que o falecido marido era "provavelmente a pessoa mais gentil que já pisou na face da Terra".

Os céticos têm contestado as teorias mirabolantes em torno das mortes.

"A força de trabalho dos EUA com acesso a informações ultrassecretas nas áreas aeroespacial e nuclear é de cerca de 700 mil pessoas", escreveu o jornalista científico, investigador e desmascarador de pseudociências Mick West em 16 de abril, em sua página no Substack, plataforma de publicações de newsletters e artigos na internet.

"A mortalidade esperada ao longo de 22 meses prevê cerca de 4.000 mortes, aproximadamente 70 homicídios e cerca de 180 suicídios. A lista tem 10… As mortes são reais. O luto das famílias é real. O padrão não é."

Louise Grillmair também afirma que, embora seu marido fosse rir da especulação de que as mortes estariam ligadas, ele também "provavelmente recorreria a dados estatísticos" para refutar as teorias conspiratórias.

A esposa do general reformado da Força Aérea William Neil McCasland — o mais graduado e mais conhecido entre os desaparecidos da lista — recorreu ao Facebook na semana seguinte ao desaparecimento do marido, em 27 de fevereiro, de sua casa no Novo México, nos EUA, para "esclarecer parte da desinformação em circulação".

Mesmo em sua ligação para o 911 (o número de emergência nos EUA), três horas após retornar de uma consulta médica e descobrir que o marido havia desaparecido, Susan McCasland Wilkerson disse ter "indícios de que ele pode ter planejado não ser encontrado".

Ela disse ao atendente que o marido havia desligado o celular e o deixado em casa, mas levado sua arma, embora ele "normalmente não" carregue uma.

Ela também afirmou que o marido vinha sofrendo recentemente de ansiedade, perda de memória de curto prazo e insônia, e que ele "dizia que, se sua mente e seu corpo continuassem a se deteriorar, não queria viver assim".

No Facebook, uma semana depois, ela escreveu que, embora McCasland tivesse tido acesso, durante a sua carreira na Força Aérea, a "alguns programas e informações altamente sigilosos", ele havia se aposentado "há quase 13 anos e, desde então, possui apenas autorizações de segurança muito comuns. Parece bastante improvável que ele tenha sido levado para que lhe extraíssem segredos muito desatualizados".

Ela também reconheceu que McCasland havia atuado como consultor não remunerado para o projeto To The Stars (Para as Estrelas, em tradução livre), do vocalista da banda Blink-182 Tom DeLonge, enquanto o grupo buscava investigar óvnis e outros temas.

Mas seu marido "não tem nenhum conhecimento especial sobre corpos extraterrestres ou destroços do acidente de Roswell armazenados em Wright-Patt", escreveu Susan.

Ela se referia à Base Aérea de Wright-Patterson, em Ohio, nos EUA, que, segundo teorias sobre óvnis, poderia abrigar restos de origem extraterrestre provenientes de destroços incomuns encontrados por um fazendeiro em Roswell, no Novo México, nos EUA, em 1947.

Abordando as teorias conspiratórias com ironia, Susan escreveu: "A esta altura, sem absolutamente nenhum sinal dele, talvez a melhor hipótese seja a de que os alienígenas o teleportaram para a nave-mãe. No entanto, não houve nenhum registro de uma nave pairando sobre as montanhas Sandia."

Oito meses antes do desaparecimento de McCasland, também no Novo México, mas a cerca de 220 km, em Taos, uma assistente administrativa do Laboratório Nacional de Los Alamos desapareceu.

A família de Melissa Casias também se manifestou sobre o caso no Facebook, novamente indicando que ela teria partido voluntariamente. As declarações pouco diminuíram o interesse de conspiracionistas pelo caso dela.

"Foram as seis semanas mais difíceis de nossas vidas sem você", escreveu seu marido, Mark Casias, no Facebook em agosto de 2025. "Eu e Sierra estamos cada dia mais preocupados com você. Acreditamos que você esteja bem, mas não entendemos por que não entrou em contato."

Outros casos, como o de Grillmair, tinham explicações simples e diretas.

O físico do Massachusetts Institute of Technology (MIT) Nuno Loureiro foi assassinado por um ex-colega de turma, que também foi preso por outros homicídios na Universidade Brown, e confessou os crimes em gravações de vídeo posteriormente encontradas pelas autoridades.

Outro pesquisador desapareceu de sua casa no mês seguinte à morte dos pais, que faleceram com poucas horas de diferença: o pai sofreu um ataque cardíaco fatal em seus braços logo após a morte da mãe.

O corpo do filho do casal foi encontrado mais tarde em um lago, e sua esposa contou à imprensa dos EUA o quanto o marido, filho único, estava profundamente abalado após a morte dos pais.

Outro cientista morreu de "doença cardiovascular arteriosclerótica" aos 59 anos, segundo laudo do legista de 2023.

Louise Grillmair disse que as explicações não parecem ser suficientes para deter os conspiracionistas. Ela própria chegou a ser "procurada por muitos deles" em busca de sua opinião.

"Eu disse: 'Bem, posso fazer melhor do que dar uma opinião'", afirma. "Eu tenho os fatos."

A especulação, diz ela, é "desrespeitosa com a memória deles".

Outros familiares ouvidos pela BBC chamaram as teorias de "terríveis" e "repugnantes", afirmando que elas agravam o sofrimento das famílias, mas preferiram não falar publicamente para não dar ainda mais visibilidade às histórias.

Para Louise Grillmair, que conheceu o marido em uma aula de astrofísica, o ideal seria que ele fosse lembrado não apenas por seu trabalho científico inovador, mas também por seu caráter generoso e solidário.

"Ele ajudava qualquer pessoa que precisasse", diz. "Por exemplo, ele sofreu dois acidentes de carro bastante graves… e não acreditava em processar judicialmente ninguém. Quero dizer, foi culpa dos outros motoristas, e mesmo assim ele se recusava a entrar na Justiça."

Seu obituário descreve Grillmair como "um piloto entusiasta, que voava em pequenas aeronaves e planadores que ele mesmo possuía e mantinha em sua casa; ele aceitava com prazer os pedidos para voar com ele".

"Amigos e colegas lembram que ele adorava atividades ao ar livre, dirigir tratores e fazer reparos e outros trabalhos de construção em sua casa, onde também mantinha um pequeno observatório com vários telescópios."

Sua esposa acrescenta que ele "tinha um padrão moral muito elevado… ele praticava o que pregava".

¨      Por que as pessoas acreditam em teorias da conspiração

Hillary Clinton comandava uma rede global de tráfico de crianças de uma pizzaria em Washington? Não.

George W. Bush orquestrou um plano para derrubar as Torres Gêmeas e matar milhares de pessoas em 2001? Tampouco.

Mas por que algumas pessoas acreditam que sim? E o que as teorias da conspiração dizem sobre a maneira como vemos o mundo?

As teorias da conspiração estão longe de ser um fenômeno novo. Elas são uma presença constante nos bastidores há pelo menos 100 anos, diz o professor Joe Uscinski, autor do livro American Conspiracy Theories ("Teorias da Conspiração Americanas", em tradução livre).

Elas também são mais difundidas do que você imagina.

"Todo mundo acredita em pelo menos uma e provavelmente em algumas", diz ele. "E a razão é simples: há um número infinito de teorias da conspiração por aí. Se fôssemos fazer um questionário sobre todas elas, todo mundo vai assinalar algumas opções."

Esse cenário não se restringe aos EUA. Em 2015, uma pesquisa da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, mostrou que a maioria dos britânicos marcava uma das opções quando apresentada a uma lista de cinco teorias - que variavam da existência de um grupo secreto que controlava eventos mundiais ao contato com extraterrestres.

Isso sugere que, ao contrário da crença popular, o típico teórico da conspiração não é um homem de meia-idade que vive no porão da casa da mãe usando um chapéu de papel alumínio (que protegeria contra o controle mental realizado por satélites do governo e extraterrestres).

"Quando você realmente olha para os dados demográficos, a crença em conspirações transpõe classes sociais, gênero e idade", afirma o professor Chris French, psicólogo da Universidade Goldsmiths, em Londres.

Da mesma forma, seja você de esquerda ou direita, provavelmente vai acreditar em tramas contra você.

"Os dois lados são iguais em termos de pensamento conspiratório", diz Uscinski.

"As pessoas que acreditam que Bush explodiu as Torres Gêmeas eram em sua maioria democratas. Já as pessoas que achavam que Obama tinha falsificado sua própria certidão de nascimento eram em sua maioria republicanas - mas eram números pares dentro de cada partido."

<><> Teorias da conspiração

- A teoria de que o homem não pisou na Lua levou a explicações detalhadas refutando as alegações.

- A tese de que o criminoso de guerra nazista Rudolf Hess foi substituído por um sósia na cadeia foram desmentidas pelo DNA fornecido por um parente distante dele.

- Rumores sustentam a teoria de que os músicos Paul McCartney, Beyoncé e Avril Lavigne foram trocados por clones.

- Algumas versões do mito dos Illuminati sugerem que celebridades e políticos são membros do grupo que controlaria o mundo.

Para entender por que somos tão atraídos pela noção de forças obscuras que controlam eventos políticos, precisamos focar na psicologia por trás das teorias da conspiração.

"Somos muito bons em reconhecer padrões e regularidades. Mas às vezes exageramos nisso - achamos que vemos sentido e significado quando realmente não há", diz French.

"Nós também supomos que quando algo acontece, acontece porque alguém ou algo fez aquilo acontecer por um motivo."

Basicamente, vemos algumas coincidências em torno de grandes eventos e, em seguida, inventamos uma história sobre eles.

Essa história se torna uma teoria da conspiração porque contém "mocinhos" e "vilões" - sendo estes últimos responsáveis por todas as coisas de que não gostamos.

<><> Culpando políticos

Em muitos aspectos, é como a política cotidiana.

Costumamos culpar os políticos por acontecimentos negativos, mesmo quando esses eventos estão além do controle deles, diz o professor Larry Bartels, cientista político da Universidade Vanderbilt, nos EUA.

"As pessoas vão recompensar ou punir cegamente o governo por bons ou maus momentos sem realmente ter uma compreensão clara de se ou como as políticas do governo contribuíram para esses resultados", acrescenta.

Isso é verdade mesmo quando eventos que parecem pouco relacionados ao governo dão errado.

"Um exemplo que analisamos em detalhes foi uma série de ataques de tubarão na costa de Nova Jersey em 1916", afirma Bartels.

"Esta foi a base, bem mais tarde, para o filme Tubarão. Descobrimos que houve uma queda muito significativa no apoio ao presidente [Woodrow] Wilson nas áreas que foram mais afetadas pelos ataques de tubarão."

O papel de "nós" e "eles" nas teorias da conspiração também pode ser encontrado em grupos políticos mais tradicionais.

No Reino Unido, o referendo sobre a saída da União Europeia deu origem a dois grupos praticamente do mesmo tamanho: um a favor e outro contra a permanência no bloco.

"As pessoas sentem que pertencem ao grupo, mas isso também significa que as pessoas sentem um certo antagonismo em relação a quem faz parte do outro grupo", diz a professora Sara Hobolt, da Universidade London School of Economics (LSE), em Londres.

Os grupos contra e a favor do Brexit às vezes interpretam o mundo de maneira diferente. Por exemplo, confrontados com fatos econômicos idênticos, os que eram a favor da permanência no bloco são mais propensos a dizer que a economia está tendo um desempenho ruim, enquanto aqueles que defendiam a saída afirmam que ela está tendo um desempenho favorável.

As teorias da conspiração são apenas mais uma parte disso.

"No período que antecedeu o referendo, aqueles que defendiam a saída acreditavam estar no lado que sairia derrotado e eram mais propensos a pensar que o referendo poderia ser fraudado", sinaliza Hobolt.

"E isso realmente mudou depois que saiu o resultado do referendo, porque naquele momento quem estava no lado perdedor era o grupo a favor da permanência."

<><> Sem solução

Pode não ser muito animador saber que as teorias da conspiração estão tão inseridas no pensamento político. Mas não deveria ser surpreendente.

"Muitas vezes, o caso é que estamos construindo nossas crenças de maneira que sustentem o que queremos que seja verdade", diz Bartels.

E ter mais informações ajuda pouco.

"As pessoas mais sujeitas a essas distorções são as que estão prestando mais atenção", diz ele.

Para muita gente, há poucas razões para acertar os fatos políticos, já que seu voto individual não afetará a política do governo.

"Não há nenhum custo por estar errado sobre suas convicções políticas", completa Bartels.

"Se me faz sentir bem pensar que Woodrow Wilson deveria ter sido capaz de prevenir os ataques de tubarão, então o retorno psicológico de manter essas opiniões provavelmente será muito maior do que qualquer penalidade que eu possa sofrer se as opiniões estiverem erradas."

No fim das contas, queremos nos sentir confortáveis, e não certos.

É por isso que as teorias conspiratórias vêm e vão, mas também por que a conspiração sempre será parte das histórias que contamos sobre eventos políticos.

 

Fonte: BBC News

 

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