sábado, 25 de abril de 2026

A guerra com o Irã distancia ainda mais Trump dos recursos de terras raras dos países emergentes

As reservas mundiais de elementos de terras raras, cobiçados e essenciais para a indústria tecnológica e o setor de energias renováveis, estão cada vez mais distantes dos Estados Unidos. A agressividade geopolítica de Donald Trump está limitando inexoravelmente o acesso dos EUA a esses minerais para as economias emergentes conhecidas como BRICS, que detêm 84,9% das reservas globais.

Se os Estados Unidos já não tinham acesso a elementos de terras raras da China (o gigante asiático detém 49%) e da Rússia (4,2%), chegar a um acordo com o Brasil, que possui a segunda maior reserva mundial (23%), parece difícil após o conflito Irã-Contras. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva insinuou no ano passado que estaria aberto a negociar o acesso às suas reservas de terras raras com os Estados Unidos. No entanto, o conflito no Oriente Médio não só adiou o encontro já anunciado entre Lula e Trump na Casa Branca, como também alterou a trajetória geopolítica do Brasil.

Durante sua recente visita oficial à Espanha, Lula assinou um “memorando de entendimento sobre minerais críticos” (incluindo os 17 elementos de terras raras) com o governo de Pedro Sánchez. O documento, obtido pelo elDiario.es, prevê “explorar caminhos para a transferência de tecnologia, exploração, pesquisa e desenvolvimento, refino, reciclagem e transformação de minerais críticos”, entre outras coisas.

O memorando entre a Espanha e o Brasil tem a mesma validade jurídica que os recentemente assinados entre o país sul-americano e a Índia e a Coreia do Sul. Os acordos firmados com os três países vão além dos elementos de terras raras, abrangendo minerais estratégicos como lítio, cobalto, cobre e níquel, dos quais o Brasil possui reservas abundantes.

“Esses são insumos de grande importância econômica, tecnológica e geopolítica. O controle desses insumos e de sua tecnologia coloca quem os detém na vanguarda da economia global”, disse Luisa Guitarrari, pesquisadora do Centro de Estudos de Energia da influente Fundação Getúlio Vargas, ao elDiario.es.

A recente visita de Lula à Alemanha, onde participou da Hannover Messe (a maior feira industrial do mundo) e assinou dez acordos oficiais com o chanceler alemão Friedrich Merz, fortaleceu a possibilidade de um acordo estratégico sobre minerais críticos entre o Brasil e a União Europeia. O chanceler Merz afirmou que "existem oportunidades significativas na extração de certos metais" e que "a Alemanha está preparada para apoiar o Brasil com conhecimento tecnológico e experiência". No entanto, o memorando assinado em Barcelona coloca a Espanha, e não a Alemanha, em uma posição privilegiada dentro da União Europeia, pois permite o direcionamento de investimentos do bloco.

As reservas brasileiras de terras raras, avaliadas em € 4 trilhões — o equivalente a 186% do PIB do país em 2024, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) — podem ser fundamentais para o desenvolvimento tecnológico da União Europeia. O controle da China sobre a extração, o refino e a comercialização desses minerais críticos — essenciais para as indústrias automotiva, de eletrônica avançada, de defesa, de energias renováveis, de robótica e de inteligência artificial — já causou retrocessos no setor industrial alemão.

<><> Índia e Brasil

O início turbulento do ano geopolítico, marcado pelo sequestro do então presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, sinalizou uma ruptura na tênue reaproximação que vinha ocorrendo entre Brasília e Washington. Poucos dias antes do início do escândalo Irã-Contras, Brasil e Índia assinaram um memorando de entendimento em Nova Déli sobre elementos de terras raras e minerais críticos. “O progresso da Índia em setores de ponta, como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração espacial, é notável. Isso cria muitas oportunidades de cooperação com o Brasil”, declarou Lula após a assinatura do acordo.

Para o país sul-americano, o memorando com a Índia é fundamental, já que, apesar de possuir a segunda maior reserva mundial de elementos de terras raras, sua exploração ainda está em estágios iniciais. “Para o Brasil, o acordo traz investimento, tecnologia e acesso a mercados. Para o BRICS, sinaliza um amplo consenso para construir uma cadeia de suprimentos para o Sul Global independente do Ocidente. Reforça a credibilidade do BRICS como um bloco econômico alternativo”, disse Vivek Mishra, diretor do programa estratégico do think tank Observer Research Foundation (ORF), com sede em Nova Déli, ao elDiario.es. Este especialista acredita que o acordo garante à Índia um fluxo direto de minerais para “setores críticos como semicondutores (vitais para chips eletrônicos ), veículos elétricos, energia renovável e indústria bélica”.

Os 17 minerais de terras raras possuem características insubstituíveis, o que os torna essenciais para a fabricação de smartphones, computadores, componentes de computador, telas de LED e painéis solares, entre outros. Enquanto são necessários 100 gramas de elementos de terras raras para fabricar um carro, um veículo elétrico requer entre um e quatro quilos, de acordo com o relatório "Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil".

Este estudo posiciona o Brasil como um dos países em posição privilegiada para controlar o “novo petróleo estratégico” na economia global, dadas as suas vastas reservas de elementos de terras raras, níquel, cobre, lítio, cobalto, grafite e nióbio. No entanto, o relatório “Brasil na Era dos Minerais Críticos”, da consultoria PwC, identifica desafios logísticos, regulatórios e tecnológicos que o país sul-americano enfrenta. Segundo o relatório, o Brasil deve ir além do modelo voltado para a exportação e criar valor agregado internamente.

<><> Trump, à espreita

Luisa Guitarrari, da Fundação Getúlio Vargas, considera estratégicos os recentes acordos de mineração de terras raras entre o Brasil e outros países. “O Brasil ainda não explorou totalmente seu potencial, seja por falta de investimento ou de conhecimento em mapeamento geológico. Não sabemos o quão viável é a exportação das reservas”, afirma a especialista. Para complicar ainda mais a situação do Brasil, o governo dos Estados Unidos assinou recentemente um memorando de entendimento com o estado de Goiás, região que abriga a única planta de processamento de elementos de terras raras pesados ​​fora da Ásia. Esses elementos recebem esse nome por possuírem os maiores números atômicos da tabela periódica, o que os torna os mais difíceis de extrair.

Impulsionado pelo ex-governador conservador Rolando Caiado, que já anunciou sua candidatura à presidência para as eleições de outubro, o acordo com os Estados Unidos irritou o governo Lula. O Executivo brasileiro questionou a autoridade do governo regional e minimizou um acordo "sem força legal". A batalha também vem do setor privado: a empresa americana Rare Earth acaba de anunciar a compra da brasileira Serra Verde, que controla a planta de Goiás, segundo a CNN.

Após o distanciamento de Lula em relação a Washington, a batalha geopolítica por terras raras e minerais críticos sugere um dilema no horizonte: o Brasil optará por direcionar a maior parte de seus minerais críticos para os países do BRICS ou para a União Europeia? Em janeiro, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, afirmou, após uma reunião com Lula no Rio de Janeiro, que a assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia poderia ser um precursor de um acordo sobre terras raras.

¨      Guerra no Irã acelera duelo EUA-China pelo futuro da energia

Nos bastidores da atual guerra no Golfo Pérsico as duas maiores economias do mundo, China e EUA, agora disputam o desenho e o domínio da arquitetura energética global do futuro.

Seja qual for o desfecho do conflito, a normalização dos mercados globais de energia pode demorar anos. Nesta semana, a Agência Internacional de Energia (AIE) classificou a crise provocada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz como a mais grave já registrada. Para analistas ouvidos pela DW, o choque nos preços dos combustíveis reacende o risco da dependência dos combustíveis fósseis e pode dar novo impulso à transição para fontes renováveis.

De um lado, os EUA sob Donald Trump, aceleram a produção de petróleo e gás e buscam manter viva a era dos combustíveis fósseis. De outro, a China investe na transição para a energia elétrica e avançam sobre o mercado de painéis solares, sistemas de armazenamento de energia e carros elétricos "made in China".

"Nos Estados Unidos, é clara a agenda de dominância energética, fortemente baseada nos mercados de energia fóssil, que busca usar a riqueza do país em petróleo e gás como instrumento de política externa. Isso chega ao ponto de tentar controlar outros países ricos em recursos, como a Venezuela — suas reservas, produção e exportações", afirma o especialista em energia Andreas Goldthau, à DW.

"Do outro lado, temos a China, que aposta fortemente na descarbonização, no setor de tecnologias limpas (energias renováveis e energia nuclear, nota da redação) e na redução das importações de petróleo e gás. Isso não é apenas uma questão de política climática, mas de segurança econômica", diz Goldthau, diretor da Willy Brandt School of Public Policy da Universidade de Erfurt.

<><> China avança sobre mercado global de renováveis

Segundo Goldthau, os chineses perceberam com clareza a dependência externa de seu modelo econômico e reagiram de acordo. "A China é a maior investidora em energias renováveis e tecnologias limpas. Hoje, lidera as tecnologias necessárias para a transição energética", afirma.

Na outra ponta, o país lidera há anos a lista de maiores emissores globais de CO2. Ainda assim, seja em redes elétricas inteligentes, energia solar ou eólica, pouco funciona sem produtos e componentes chineses, incluindo terras raras. "Eles avançaram muito, inclusive em eletrolisadores [para a produção de hidrogênio verde] e sistemas de armazenamento por baterias. A lista é longa. Fazem isso para criar resiliência, mas também para alcançar maior autossuficiência e soberania", diz Goldthau.

Hoje, segundo análises da AIE e da consultoria McKinsey, entre 60% e 70% de todos os carros elétricos do mundo são fabricados na China. Com a desaceleração do crescimento econômico, surgiram grandes excedentes de capacidade, cada vez mais direcionados às exportações, sobretudo para a Europa.

<><> Sucesso do programa "Made in China 2025"

Também nas principais tecnologias verdes, Pequim concentra poder. A China controla cerca de 80% da cadeia global de suprimentos da energia fotovoltaica. Em alguns segmentos fundamentais para a fabricação de chips, como a produção de wafers de silício, essa fatia ultrapassa 95%. De acordo com o Global EV Outlook, da AIE, somente no primeiro semestre de 2025 o país instalou mais infraestrutura para energia solar do que o resto do mundo somado.

A participação chinesa na produção global de turbinas eólicas também cresceu de forma acelerada. Segundo dados da World Wind Energy Association (WWEA) e da Bloomberg New Energy Finance (BloombergNEF), cerca de 72% do mercado mundial de novas turbinas eólicas em 2025 esteve nas mãos da China. Oito dos dez maiores fabricantes do mundo já são chineses, como Goldwind e Envision.

Entre 2020 e 2025, as exportações chinesas de tecnologias verdes mais do que quadruplicaram. Em 2025, o setor de energia limpa respondeu por mais de um terço do crescimento total do PIB do país, segundo cálculos do think tank energético Ember.

<><> Política de "dominância energética"

No sentido oposto, os EUA sob Donald Trump freiam o avanço das energias renováveis e aceleram a expansão das fontes fósseis. "Drill, baby, drill" ("Perfure, bebê, perfure"), repetia Trump a seus apoiadores ainda na campanha eleitoral. Perfurar sem parar também é o lema do secretário de Energia, Chris Wright, fundador e ex-CEO da Liberty Energy, uma das maiores empresas de fracking da América do Norte.

"Não é segredo que os EUA sob Trump seguem uma política de 'dominância energética'. Ela é conduzida de forma explícita", diz Henning Gloystein, especialista em energia do escritório londrino da consultoria Eurasia Group. "A dominância deve ser alcançada com o aumento da produção doméstica de petróleo e gás e a ampliação das exportações. Para isso, os EUA buscam controle sobre ativos estrangeiros, como na Venezuela e, possivelmente, no Irã."

<><> Revolução do fracking transforma os EUA em exportadores

Em cerca de duas décadas, os Estados Unidos deixaram de ser o maior importador mundial de petróleo e gás para liderar como maior exportador global de gás e um dos principais exportadores de petróleo. Isso foi possível graças à chamada "revolução do xisto", que combina o fracking (fraturamento) hidráulico com a perfuração horizontal.

Juntas, as técnicas permitem perfurar trechos maiores da rocha, liberando grandes volumes de óleo e gás antes inacessíveis. O processo elevou drasticamente a produção de petróleo no país. "Hoje, os Estados Unidos produzem mais petróleo do que a Arábia Saudita e a Rússia juntas e mais gás natural do que Rússia, Irã e China somados — assegurando seu papel como líder energético global incontestável", afirma a Casa Branca em seu site.

<><> Tarifas mais baixas em troca de energia fóssil dos EUA

Para Trump, o petróleo é antes de tudo um instrumento de poder geopolítico, defende Gloystein, do Eurasia Group. Isso se reflete na forma como os EUA negociam com seus parceiros comerciais. "No ano passado, os americanos disseram: em troca de tarifas mais baixas, a Europa precisa comprar mais petróleo e gás dos Estados Unidos", lembra ele. O mesmo ocorreu com outros parceiros, como Japão e Índia.

Já neste ano, o presidente americano também sugeriu aos países afetados pelo bloqueio em Ormuz também comprarem petróleo dos EUA. Para isso, Washington aposta em contratos de fornecimento de longo prazo. "Quando uma empresa alemã procura gás liquefeito nos EUA, o fornecedor diz: a partir de 2028 podemos entregar de dois a três milhões de toneladas por ano, em um contrato de 20 anos. Assim, o gás fica incorporado aos sistemas alemães por décadas. Os americanos atuam de forma muito ativa", explica Gloystein.

<><> Petróleo e gás versus transição verde

"Os Estados Unidos são a maior fonte de crescimento da produção mundial de petróleo", afirma Fatih Birol, diretor da IEA, em Paris. Porém, "segurança energética no século 21 não significa apenas disponibilidade de petróleo e gás, mas também a diversificação das cadeias de suprimento de tecnologias limpas", pontuou.

Nesse aspecto, a China está à frente. A revolução do fracking deu aos EUA independência energética e maior peso geopolítico. Objetivo semelhante é perseguido por Pequim com a liderança global em tecnologias verdes. O caminho ainda é longo — o carvão responde por cerca de 60% do consumo total de energia do país.

Gloystein e Goldthau concordam que a tendência global aponta para as energias renováveis. Resta saber quem sairá vencedor: a dominância energética fóssil dos EUA ou o "Estado eletrificado" impulsionado por Pequim.

"Se eu tivesse que apostar agora", diz Goldthau, "apostaria no 'Estado eletrificado', que não apenas busca controlar o abastecimento com fontes domésticas e, em grande parte, renováveis, mas também desenvolve as tecnologias de que os outros países precisam".

 

Fonte: El Diário/DW Brasil

 

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