Luiz
Filgueiras: O governo Lula e o neoliberalismo
“O
projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e
insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à
ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de
esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade.
Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o
sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora
como antissistema… Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro.
Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se
veja como progressista. Ela quer o que nós propomos” (Luiz Inácio Lula da
Silva).
A
citação acima, foi extraída de um discurso do Presidente do Brasil, proferido
em Barcelona, na Espanha, no dia 18 de abril do presente ano, quando de sua
participação na primeira edição do evento Mobilização Progressista Global
(MPG). O encontro reuniu ativistas e organizações de esquerda de diferentes
partes do mundo com o objetivo de defender a democracia com justiça social e
combater o avanço das forças autoritárias de extrema direita.
Um
discurso semelhante, de mesmo teor, já tinha sido feito por Lula no dia 24 de
setembro de 2025, quando da segunda edição do evento “Em Defesa da Democracia e
Contra o Extremismo”. Realizado em paralelo à Assembleia Geral das Nações
Unidas, é um Fórum Internacional em defesa das instituições democráticas e
contra a desinformação, o discurso de ódio e a desigualdade social. Com a
participação de 30 países, Brasil, Chile, Espanha, Colômbia e Uruguai estiveram
na mesa principal.
Nesse
Fórum, Lula perguntou o seguinte: “o que fazemos hoje, como estamos exercendo a
democracia em nossos países”, e respondeu explicitamente que “a gente ganha as
eleições com discurso de esquerda e quando começa a governar atende muito mais
os interesses de nossos inimigos do que dos nossos amigos”. A preocupação maior
é com “a cobrança do mercado e a necessidade de contentar o mercado e os
adversários”, além de “dar resposta ao que a imprensa pública sobre nós”.
Ademais,
nesse mesmo discurso de 2025, enfatiza que o Partido dos Trabalhadores era
organizado (no passado mesmo) em núcleos por local de trabalho, moradia e
estudo. Não analisa o porquê disso ter sido abandonado pelo Partido,
posteriormente, mas pergunta: “o que eu fiz na Presidência da República; o que
eu fiz para fortalecer a organização popular e social?”. A sua resposta
genérica e sintética, estendida para a esquerda latino-americana: “abandonamos
a organização dos trabalhadores e do povo”.
A
importância dos dois discursos tem três razões fundamentais: (i) Foram
proferidos pelo responsável maior dos cinco Governos do PT e de seus aliados
eleitorais de ocasião; (ii) Declara, sem meias palavras, que os governos de
esquerda “sucumbiram à ortodoxia”, na condição de “gerentes das mazelas do
neoliberalismo”, “praticando austeridade” e “abrindo mão de políticas públicas
em nome da governabilidade”, em suma, “nós nos tornamos o sistema”. (iii) Ambos
se referem à esquerda latino-americana e mundial, e não apenas a do Brasil.
Nesses
discursos, Lula resume uma questão essencial para entendermos a ascensão do
neofascismo em todo mundo, e a própria conjuntura política atual, qual seja: o
“transformismo” dos Partidos Socialistas, Socialdemocratas e Trabalhistas,
iniciado a partir da década de 1980, após a ascensão e hegemonia do
neoliberalismo – primeiro nos países imperialistas depois nos países
periféricos, de capitalismo dependente.
A
adesão ativa ao ideário do adversário (a direita neoliberal) ou a sua aceitação
passiva criou um vácuo político na representação dos trabalhadores e do povo
que, na incapacidade (por várias razões) das correntes mais à esquerda
preencherem, abriu as portas para a ascensão da extrema direita neofascista.
Dificilmente
se pode discordar desse diagnóstico feito por Lula duas vezes,
independentemente dos dois campos políticos em disputa hoje na esquerda
brasileira, quais sejam: os que acusam os Governos do PT de neoliberais, com a
adoção do Novo Arcabouço Fiscal (NAF) e o Banco Central independente, e os que
os defendem, discriminando a adoção de políticas sociais, que abrandam os
efeitos do neoliberalismo e promovem uma melhora nas condições de vida das
classes trabalhadoras.
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O padrão de desenvolvimento capitalista liberal-periférico
O que
está subjacente aos discursos de Lula é a constituição desde o início dos anos
1990, e sua permanência até hoje, de um padrão de desenvolvimento capitalista
que denomino de “liberal-periférico”, que tem as seguintes
características principais:
A
relação capital/trabalho: teve a sua assimetria aumentada a favor do primeiro,
em razão da reestruturação produtiva e da abertura comercial – que implicaram o
crescimento do desemprego estrutural, do trabalho informal, da terceirização e
da precarização do trabalho em todas as suas dimensões. Como consequência, a
capacidade de organização, mobilização e negociação dos sindicatos se reduziu
dramaticamente.
As
relações intercapitalistas: em razão da abertura comercial-financeira e das
privatizações, foram redefinidas, alterando-se a posição e a importância
relativa das distintas frações do capital no processo de acumulação e na
dinâmica macroeconômica: o capital financeiro (nacional e internacional) passou
a ocupar posição dominante, deslocando a antiga hegemonia do capital
industrial; o capital estatal perdeu relevância em favor do capital
estrangeiro; e fortaleceram-se grandes grupos econômicos nacionais produtores/exportadores
de commodities e o agronegócio.
A
inserção internacional do país na nova divisão internacional do trabalho: se
alterou para pior, aumentando a sua vulnerabilidade externa estrutural. De um
lado, a pauta de exportação do país se reprimarizou e se aprofundou o processo
de desindustrialização iniciado ainda na década de 1980. De outro, cresceu
dramaticamente a sua dependência financeira, fragilizando o Estado e reduzindo
fortemente a sua capacidade de fazer política macroeconômica. Tudo isso
decorreu da abertura comercial-financeira que também alimentou a
desindustrialização do país e o crescimento da dívida pública – esta, como em
outros países periféricos, transformou-se em plataforma de acumulação para o
capital financeiro internacional.
O papel
e a importância do Estado: no processo de acumulação e na dinâmica
macroeconômica, se alteraram – em virtude do processo de privatização e da
abertura financeira. O Estado fragilizou-se financeiramente e perdeu capacidade
de regular a economia e de operacionalizar políticas macroeconômicas e de apoio
à produção – apesar do seu resgate momentâneo pelos governos Lula e Dilma
Rousseff.
Bloco
no poder: em razão de todas essas mudanças, e ao mesmo tempo alimentando-as,
constituiu-se um novo bloco no poder, sob a hegemonia absoluta, num primeiro
momento, do capital financeiro e da burguesia cosmopolita, que passou a ditar
as políticas fundamentais do Estado. Posteriormente, como condição de
sobrevivência do próprio padrão de desenvolvimento capitalista
liberal-periférico, cresceu a importância do agronegócio e da indústria
produtora de commodities, com o protagonismo da burguesia interna.
Em
suma, o padrão é neoliberal porque foi constituído a partir da abertura
comercial e financeira, das privatizações e da desregulação da economia, com a
clara hegemonia do capital financeiro – frente às demais frações do capital. E
é periférico porque o neoliberalismo assume características específicas nos
países capitalistas dependentes, que o torna mais regressivo ainda quando
comparado a sua agenda e à forma como é operacionalizado nos países
capitalistas centrais.
Do
ponto de vista da dinâmica macroeconômica, a característica fundamental desse
padrão de desenvolvimento capitalista, que aprofundou estruturalmente a
dependência tecnológica, financeira e do conhecimento do país, se expressa na
sua extrema instabilidade e grande vulnerabilidade externa estrutural – que
acompanham de perto as alterações cíclicas da economia internacional. Esse
padrão de desenvolvimento, com as características estruturais aqui mencionadas,
iguala todos os governos brasileiros que se sucederam a partir de 1990.
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As sucessivas fases do padrão liberal-periférico
Desde a
sua constituição, no começo da década de 1990, o padrão liberal-periférico
passou por seis momentos distintos, quais sejam:
Uma
fase inicial de transição, bastante turbulenta, de ruptura com o padrão de
substituição de importações e implantação das primeiras ações concretas de
natureza neoliberal, com o começo da hegemonia do capital financeiro (governo
Fernando Collor).
Uma
fase de ampliação e consolidação da nova ordem econômico-social neoliberal, com
a implementação do Plano Real e das reformas neoliberais, na qual se amplia e
consolida-se a hegemonia absoluta do capital financeiro no interior do bloco no
poder (primeiro governo FHC).
Uma
fase iniciada com o fim da âncora cambial em 1999 e a adoção do tripé
macroeconômico, na qual se fortalece o capital produtor-exportador de
commodities – que amplia seu espaço no bloco no poder por ser vital para
reduzir a instabilidade do modelo (segundo governo FHC e primeiro governo
Lula).
Uma
fase na qual se amplia a presença da burguesia interna no interior do bloco no
poder, em articulação com o Estado; com este último voltando a ter um papel
ativo e mais direto no processo econômico e na arbitragem dos interesses das
distintas frações do capital (segundo governo Lula e governo de Dilma
Rousseff).
Os
governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, de recomposição da hegemonia
absoluta do capital financeiro e da burguesia cosmopolita, com uma nova onda de
reformas neoliberais e a volta do tripé macroeconômico em sua versão rígida.
E, por
fim, o terceiro governo Lula, de manutenção, mais uma vez, do tripé
macroeconômico em sua versão rígida, mas com o retorno das políticas sociais já
implementadas durante os governos Lula 1 e 2, mas que sofreram um processo de
desidratação para caber dentro desse regime de política macroeconômica.
Ao
longo dessas seis momentos, o padrão liberal-periférico sofreu três inflexões,
que além de reconfigurar parcialmente o bloco no poder, provocou alterações
circunstanciais em sua dinâmica – a partir da adoção de distintos regimes de
política macroeconômica, diretamente relacionados às mudanças na conjuntura
econômica internacional, quais sejam: a âncora cambial do Plano Real no
primeiro governo FHC; o tripé macroeconômico (metas de inflação, superávit
fiscal primário e câmbio flutuante) rígido no segundo governo FHC e em parte do
primeiro governo Lula; esse mesmo tripé flexibilizado no segundo governo Lula e
no primeiro governo Dilma; e a retomada e aplicação desse tripé em sua versão
rígida nos governos Dilma 2, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula 3.
Esses
distintos regimes, cujas vigências dependem decisivamente da conjuntura
internacional e que refletem prioridades e vantagens diferentes no que se
refere às distintas frações do capital, e um maior ou menor espaço para
contemplar interesses populares, sempre implicam em alguma acomodação do bloco
no poder. Portanto, são esses regimes de política macroeconômica que
diferenciam os governos de FHC, Michel Temer e Jair Bolsonaro, de um lado, e os
governos de Lula e Dilma de outro – apesar de todos eles se assemelharem do
ponto de vista do predomínio do Padrão de desenvolvimento capitalista
liberal-periférico, seja através de sua promoção ativa (comportamento dos
primeiros) seja por meio de uma adaptação passiva (os segundos). Essa adaptação
foi maior no 3º governo Lula, pressionado pelas forças
neofascistas-neoliberais, o que o levou a adotar o NAF (o Teto de Gasto de
Temer-Bolsonaro flexibilizado) e a manter o tripé macroeconômico em sua versão
rígida.
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Conclusão
O
argumento fundamental apresentado neste texto foi o de que, apesar dos
distintos regimes de política macroeconômica, adotados desde o início dos anos
1990, e de algumas inflexões ocorridas no bloco no poder, não se alteraram as
características essenciais do padrão de desenvolvimento capitalista brasileiro
– forma concreta de expressão da doutrina e do programa neoliberal no Brasil.
Portanto, o Padrão de desenvolvimento capitalista liberal-periférico é uma
variedade histórica específica de neoliberalismo, no preciso sentido de que o
neoliberalismo realmente existente é também produto das características da
formação econômico-social que o incorpora.
Ao
longo da trajetória do Padrão de desenvolvimento capitalista
liberal-periférico, forjou-se um consenso básico entre as distintas frações do
capital, apesar das diferentes posições que ocupam no processo de acumulação
capitalista, sobre os seguintes pontos:
(i) A
abertura comercial e financeira da economia, com a sua consequente
internacionalização, é uma das condições obrigatórias de inserção do país na
nova ordem dominada pelo capital financeiro.
(ii) A
dominância do capital financeiro e o processo de financeirização da economia
não podem, no essencial, ser questionados; portanto, a adaptação à nova ordem
capitalista é o único caminho a ser trilhado pelas distintas frações de classe
e pelos capitais individuais.
(iii) A
continuação do processo de privatização – com a consequente redução do Estado
no âmbito produtivo – deve continuar, tanto através das privatizações dos novos
investimentos na área de infraestrutura do país, quanto através da venda das
empresas públicas ainda existentes.
(iv) A
desregulamentação do mercado de trabalho e a flexibilização da legislação
trabalhista devem ser aprofundadas, na linha da “prevalência do negociado sobre
o legislado”.
(v)
Todas as reformas neoliberais, sempre em pauta, e a redução das políticas
sociais a um mínimo possível, são defendidas como pré-condições para a redução
do “custo Brasil” e o desenvolvimento do capitalismo brasileiro.
Desse
modo, na atualidade, mais do que nunca, não há qualquer possibilidade de
construção política de um projeto nacional, de caráter capitalista
(Neodesenvolvimentista ou assemelhado), vir a ser concebido e dirigido por
qualquer fração da burguesia brasileira; em virtude de sua absoluta
incapacidade de expressar e incorporar econômica e politicamente, os interesses
diferenciados do conjunto da sociedade brasileira, em especial os das classes
trabalhadoras. Em particular, a sua fração dominante, a burguesia cosmopolita,
não consegue e nem aceita conviver com uma melhor distribuição de renda; a
necessidade de superexploração do trabalho está entranhada em seu ethos de
classe e na subjetividade de seus integrantes.
Do
ponto de vista conjuntural, é forçoso reconhecer que as circunstâncias
políticas enfrentadas pelo 3º Governo Lula são muito piores do que as que
prevaleceram em seus governos anteriores. Não é necessário aqui detalhar a
gravidade da ascensão do neofascismo-bolsonarismo e do empoderamento do
Congresso Nacional através das emendas parlamentares (secretas ou não), com o
enfraquecimento do presidencialismo.
Além
disso, também é forçoso reconhecer que a trajetória do 3º Governo Lula não pode
ser explicada sem considerar suas decisões e vontade políticas; apesar de
forças objetivas neoliberais também circunscreverem as alternativas possíveis.
Portanto, reconhecer que o 3º Governo Lula se aproximou, na prática, mais do
ideário neoliberal, não é uma mera acusação política e moral.
Contudo,
as suas políticas sociais e externa, que de fato o diferenciam dos governos de
FHC, Michel Temer e Jair Bolsonaro, não o absolvem de suas escolhas políticas,
aceitando o tempo todo a famosa “correlação de forças” que insulou no
Parlamento a disputa política contra o neofascismo-neoliberalismo.
Dito
tudo isso, em especial destacando-se os dois discursos de Lula, é óbvio que o
momento, mais uma vez, é de se buscar a unidade e a organização das classes
trabalhadoras e da esquerda contra o neoliberalismo-neofascismo. Eleger Lula
tornou-se, mais do que nunca, fundamental. Mas, está cada vez mais claro que a
prioridade do combate à extrema direita não pode se descolar do combate ao
neoliberalismo, pois estão ambos cada vez mais unidos contra a democracia e a
destruição dos direitos sociais-trabalhistas e na subordinação ao imperialismo.
Perder de vista esse fato nos levará, no máximo, a continuar lutando sem sair
do lugar.
A
natureza autoritária do neoliberalismo, já anunciada em 1944 por Friedrich
Hayek em seu livro O caminho da servidão (ao defender a
prioridade da “liberdade” do capital em relação à democracia) e no seu apoio na
década de 1970 ao regime fascista e à ditadura de Augusto Pinochet no Chile,
escancarou-se de vez na nova fase do capitalismo e do imperialismo: um regime
de acumulação mundial sob a dominância financeira.
A
democracia tornou-se, definitivamente, um estorvo para o capitalismo
financeirizado. A sua defesa e permanência, com um caráter cada vez mais
favorável às classes trabalhadores e a maioria da população, passou a ser
responsabilidade, essencialmente, das forças de esquerda e democráticas.
Fonte:
A Terra é Redonda

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