'Família
Bolsonaro não deve se meter nas eleições do Rio, porque só apresentam ladrão',
diz deputado ex-bolsonarista
Declaradamente
de direita e bolsonarista arrependido, o deputado federal Otoni de Paula
(PSD-RJ) tem chamado atenção por críticas abertas a seu campo político.Em
outubro, por exemplo, condenou a megaoperação
policial que deixou mais de 100 mortos em duas comunidades do
Rio de Janeiro, evento que ampliou o apoio ao então governador Cláudio Castro
(PL), agora condenado
pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por desviar recursos da máquina pública
para bancar cabos eleitorais em 2022.
Em
entrevista à BBC News Brasil, ele diz que a operação não passou de
"teatro" para distrair a opinião pública e encobrir conexões entre
facções criminosas e autoridades fluminenses.Na sua visão, o Rio de Janeiro já
se tornou um "narcoestado" onde "não se tem mais pudor de
roubar", e a família Bolsonaro teria
responsabilidade direta pela atual crise, já que apoiou os últimos dois
governadores eleitos — além de Castro, recém-condenado pelo TSE, Wilson Witzel,
que sofreu impeachment em 2021, acusado de corrupção. "Eu não tenho dúvida
nenhuma de que Flávio Bolsonaro faz parte dessa quadrilha. E o ex-presidente
Jair Messias Bolsonaro é responsável por essa quadrilha que acabou com o estado
do Rio de Janeiro", critica. "Eu votei no Wilson Witzel porque ele
pediu. Eu votei no Cláudio Castro porque ele pediu. E em nenhum momento o
ex-presidente Bolsonaro veio a público para admitir sequer que errou",
reforça.
Otoni
diz ainda que "seria até digno a família Bolsonaro não se meter mais nas
eleições do Rio, porque eles só apresentam ladrão". Esse cenário, diz, é
que o leva a apoiar o ex-prefeito carioca, Eduardo Paes (PSD), ao governo do
Rio, no que trata como um alinhamento inesperado com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT). Sua aliança, porém, vem de antes, quando apoiou a reeleição
de Paes como prefeito e obteve a nomeação de seu filho, Otoni de Paula Filho,
como secretário municipal da Cidadania e Família. Já na disputa do Palácio do
Planalto, mantém seu desejo por um governo de direita e apoia o ex-governador
Ronaldo Caiado (PSD), apesar de discordar de sua promessa por ampla anistia
para os condenados por golpe de Estado.
Procurado
pela BBC News Brasil por meio de sua assessoria, Flávio Bolsonaro não respondeu
às acusações de Otoni contra si e seu pai. A reportagem também não obteve
retorno da assessoria de Cláudio Castro. Já o ex-governador Wilson Witzel disse
que Otoni se tornou o principal articulador de sua perseguição depois que
recusou nomear "nomes absurdos" indicados por ele para comandar
secretarias, delegacias e batalhões de polícia na sua gestão. "Sabotou meu
governo, minou minha relação com o presidente Bolsonaro e foi o responsável por
colocar Castro na cadeira de governador", acusou. "Hoje finge ser
oposição, quando sempre foi governo. Otoni é uma serpente, tal qual seu chefe,
Eduardo Paes. Traiu a igreja, traiu o eleitor, traiu Bolsonaro e, não demora,
vai trair Lula", continuou.
Leia a
seguir os principais trechos da entrevista de Otoni à BBC News Brasil.
Parlamentar evangélico, ele também defende o papel dos pastores no combate
ao machismo e
à cultura do
estupro. "A igreja peca quando não debate esse assunto, e já há
comprovações de que uma parte considerável das mulheres violentadas está em
nossas igrejas. E, quem as violentou, uma parte são aqueles que se dizem de
Deus, que defendem a família, que são cristãos", diz o deputado.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
O senhor protocolou um pedido ao Ministério Público
Federal (MPF) de intervenção federal no Rio de Janeiro, o que daria a
administração do Estado ao governo Lula. Por que defende essa medida?
Otoni
de Paula - Entrei
com esse pedido devido à gravidade do que está acontecendo, embora soubesse que
esta intervenção federal não seria algo aceito pelo governo federal, porque não
quer colocar a mão naquela confusão, ainda mais em ano eleitoral. A imoralidade
política passou a ser moralidade. Não se tem mais pudor de roubar. Uma
quadrilha tomou o Estado, e o cabeça dessa quadrilha é o ex-governador Cláudio
Castro. Ele nunca teria condição de ser governador do Estado. Ascendeu por
conta da queda do Wilson Witzel e, para se manter no governo, faz o que nenhum
gestor poderia fazer: ele não divide apenas o poder, porque o poder precisa ser
dividido para governar, isso é da democracia, mas ele divide a autoridade.
Ele
loteia as secretarias, e cada um começa a fazer conforme bem lhe parece. Você
tem cinco secretários investigados e presos no governo Cláudio Castro. Tem o
conluio entre ele e o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar,
que passou a ter com ele [após romperem] uma relação de ameaça, em que Bacelar
fazia ameaças, e o próprio ex-governador contava até para seus opositores que
tinha medo do Bacellar. E aí se descobre depois que esse Bacellar é um braço do
Comando Vermelho na política do Rio de Janeiro. A política do Rio está tão
destruída moralmente que relatórios da Polícia Federal dão conta de que mais de
40 deputados estaduais têm alguma associação com o crime organizado e foram
eleitos por conta da associação direta ou indireta com o crime. Por isso é que
pedi essa intervenção federal.
[Nota
da redação: Seis secretários ou subsecretários do governo Cláudio Castro foram
presos no exercício do cargo ou após deixarem suas funções, acusados de ligação
com grupos criminosos: Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário de
Esporte e Lazer; Allan Turnowski, ex-secretário de Polícia Civil; Rodrigo
Bacellar, ex-secretário de Estado de Governo e ex-presidente da Alerj; Raphael
Montenegro, ex-secretário de Administração Penitenciária, além de dois
subsecretários da mesma pasta. Todos negam as acusações.]
[Nota
da redação: Procurado pela BBC News Brasil, o advogado Daniel Bialski, que
defende Bacellar, repudiou as falas de Otoni sobre seu cliente:
"Desconheço essas calúnias e, se de fato ele falou isso, terá que provar
ou será processado". A reportagem também pediu posicionamento a Cláudio
Castro por meio de sua assessoria, mas não houve resposta.]
·
Há risco do Rio se tornar um narcoestado?
Otoni
de Paula - O
Rio de Janeiro já é um narcoestado. O crime já se aparelhou da máquina pública,
a partir do momento em que denúncias e mais denúncias comprovam e mostram que
existe um conluio de comandantes de batalhões da Polícia Militar com o Comando
Vermelho ou com as milícias. Que existem delegacias hoje no estado do Rio de
Janeiro que têm influência total de facções criminosas. Você não pode denunciar
um miliciano, porque pode estar denunciando um miliciano com outro miliciano
que está sentado ali [na delegacia]. Quando o Estado se confunde com o crime, o
crime com o Estado, isso é o quê? Isso é o narcoestado.
·
Então, não é só no Poder Legislativo. No Executivo
também?
Otoni
de Paula - Sem
dúvida alguma. O crescimento do Comando Vermelho assustador começa no governo
Wilson Witzel e vai até o governo Cláudio Castro. Qual foi a compreensão do
governo Witzel? Se você perguntar: "Otoni, você tem prova sobre a sua
fala?". Quem tem que ter prova é a polícia, certo? Mas eu posso ver pela
dinâmica do processo. O que eles entenderam? Que era mais fácil ter um conluio,
uma união de interesses entre o Estado e a facção criminosa: "Olha, se a
facção criminosa é territorial no Rio de Janeiro, ficará muito mais fácil de eu
fazer política quando me alio a essa facção: aqui só entra o fulano, aqui só
entra o beltrano". E, quando esse tipo de acordo é na esfera do Executivo,
bem, você nunca vai perder o poder. E aí você faz aquele teatro, entra na
favela, tiro na favela. A maior prova foi essa megaoperação que houve lá no
Complexo da Penha e do Alemão, que o governador [Cláudio Castro] achou
maravilhoso, mas nitidamente o Doca [Edgar Alves Andrade, líder do Comando
Vermelho] foi avisado.
Sabe
quem foram os 117 mortos? Temos inocentes ali, recebi essa denúncia, e bandidos
que vieram de outros Estados e que estavam tendo proteção no Complexo da Penha
e no Complexo do Alemão. Eles ficaram de bucha, sem experiência, trocando tiro
com a polícia, morreram facilmente. E o Doca? E seus comparsas? Foram todos
embora, foram avisados. Fui o único deputado de direita, até porque pertenço à
Comissão de Direitos Humanos, a denunciar o que aconteceu ali e a violência
policial, não só na casa dos moradores, mas também na execução sumária de
muitos criminosos. Sou a favor de que bandido que troca tiro com a polícia...
Entre morrer o policial e esse bandido, que morra o bandido. O que não vou
aceitar é uma polícia que faça justiça com as próprias mãos. Como vi
fotografias, gente decapitada, que tomou tiro à queima-roupa. No outro dia, o
tráfico estava lá.
·
O senhor tem acompanhado como está essa comunidade meses
após a operação? Tem expectativa de alguma punição a esses possíveis abusos
policiais?
Otoni
de Paula - Tenho
estado na comunidade. Está do jeito que estava antes daquele fatídico dia. A
boca de fumo está no mesmo lugar. O tráfico impõe seu regime da mesma forma. Esperança
de que alguma coisa seja esclarecida? Na verdade, não, esperança nenhuma. O
próprio Ministério Público disse à Suprema Corte que não recebeu nenhuma
filmagem das câmaras corporais da própria Polícia Militar. Eles têm algumas
imagens da Polícia Civil, que não participou diretamente do que aconteceu.
A quem
interessa não esclarecer esse assunto senão aqueles que impuseram aquela
mortandade em nome da eleição, da política, de serem aplaudidos por aqueles que
aplaudem quem faz de caixões palanque eleitoral? Tanto que Cláudio Castro era
um ilustre desconhecido, embora fosse governador do Estado, um fenômeno que só
acontece no Rio de Janeiro, e passou a ser conhecido naquele momento.
·
O senhor apontou uma dificuldade para se vencer eleição
no Rio de Janeiro sem acordos com facções. O candidato do seu partido ao
governo do Rio, o ex-prefeito Eduardo Paes, foi derrotado em 2018 por Witzel,
quando teve dificuldades em conseguir votos no interior do Estado e na Baixada
Fluminense. Como mudar isso?
Otoni
de Paula - Continuo
crítico do Eduardo, mas, nesse momento, eu o apoio para salvar meu Rio. Quem
questiona meu apoio diz: "Você se diz de direita, mas está apoiando um
soldado do Lula". Bem, não é porque o Lula gosta de picanha e eu gosto
também que vou deixar de comer picanha. Meu interesse no Eduardo Paes é que ele
hoje é o único personagem da política do Rio de Janeiro que posso dizer que não
está envolvido com corrupção ou com crime organizado. E é gestor. E precisamos,
no Estado do Rio de Janeiro, ter um choque de gestão.
·
Quais são suas críticas ao Paes?
Otoni
de Paula - Ele
foi muito lento na área de segurança em relação a ter Guarda Municipal armada,
que não está ali para fazer o papel da polícia, mas para combater os pequenos
crimes. É uma crítica que tive a ele, e outras críticas que possa ter, nesse
momento, eu as deixo de lado. Primeiro, repito, é um baita gestor. A saúde
financeira da Prefeitura está a anos-luz da do Estado do Rio de Janeiro, que
está falido, vivendo quase uma insolvência fiscal. E tem moral para governar.
Ele governa com pulso firme. Então, ele tem como dar um choque de gestão e de
autoridade no Estado. Quando alguém diz que ele é soldado de Lula, digo o
seguinte: prefiro votar em um soldado de Lula do que em um representante de uma
quadrilha. A despeito de eu não ter nada contra o Douglas Ruas [deputado
estadual candidato ao governo pelo PL], ele não tem experiência de gestão. E,
acima de tudo, ele topou entregar o nome dele para representar uma quadrilha
que vem dilapidando o Rio de Janeiro. Por mais respeito que tenha ao Ruas, ele
passa a ser o representante da quadrilha que quebrou meu Estado.
·
Ele tem o apoio de Flávio Bolsonaro. Flávio está
associado também a essa quadrilha?
Otoni
de Paula - Não
tenho dúvida nenhuma de que Flávio Bolsonaro faz parte dessa quadrilha. E o
ex-presidente Jair Messias Bolsonaro é responsável por essa quadrilha que
acabou com o Estado do Rio de Janeiro. Votei no Wilson Witzel porque ele pediu.
Votei no Cláudio Castro porque ele pediu. E, em nenhum momento, Bolsonaro veio
a público para admitir sequer que errou. Seria até digno a família Bolsonaro
não se meter mais nas eleições do Rio, porque eles só apresentam ladrão. As
últimas indicações de secretários na segurança pública passaram pelo senhor
Flávio Bolsonaro. Quem quebrou o Rio de Janeiro foi a direita, não foi a
esquerda. A última de esquerda que governou o Rio de Janeiro foi Benedita da
Silva [do PT, entre abril e dezembro de 2002], e assim mesmo governou foi o
finalzinho do mandato do Garotinho [que havia renunciado para disputar a
Presidência da República]. Esquece. Então, todos os governos do Rio de Janeiro
foram governos de direita. Eu posso ter crítica à esquerda, mas não sou
desonesto intelectual.
·
O senhor está apoiando o ex-governador Ronaldo Caiado
(PSD) à Presidência, mas, em um eventual segundo turno entre Flávio Bolsonaro e
Lula, em quem o senhor votaria?
Otoni
de Paula - Como
eu creio que o Caiado vai estar no segundo turno, sou Caiado.
·
Caiado já prometeu, se eleito, a anistia a todos os
condenados pelo 8 de Janeiro, incluindo Jair Bolsonaro. Como vê essa promessa?
Otoni
de Paula - Caiado
errou. Não tem como negar que houve uma tentativa de golpe de Estado. Não dá
para colocar tudo na conta de Alexandre de Moraes. Houve testemunhos do alto
escalão das Forças Armadas, a ponto de um dos oficiais dizer ao presidente da
República que, se ele continuasse com aquele assunto, receberia voz de prisão. Em
nenhum momento do depoimento do Bolsonaro ao ministro Alexandre de Moraes, ele
negou. Pelo contrário, ele disse que, sim, teve minuta [de golpe], que teve
papel. Ele fala: "Só não teve execução". Mas não teve porque não teve
competência. Você pode questionar o atropelamento do devido processo legal. O
que não se pode questionar é a realidade: houve uma tentativa de golpe de
Estado.
Agora,
quando admito que houve uma tentativa de golpe de Estado, eu separo os mentores
intelectuais dessa tentativa, que é aquele primeiro escalão, da massa que
esteve aqui em Brasília fazendo depredações. Por isso, votarei para a derrubada
do veto [de Lula ao PL] da dosimetria.
·
Com a promessa de anistia ampla, Caiado não perde força
como uma terceira via? Não se coloca no campo bolsonarista?
Otoni
de Paula - Não,
ele é uma terceira via. Ele errou estrategicamente, porque quem defende a
anistia ampla, geral e irrestrita só vota no Flávio Bolsonaro, nunca vai votar
nele. E ele errou a partir do exemplo que ele deu de JK [Juscelino Kubitschek],
porque a história mostra que, quando JK fez a anistia [a militares golpistas na
década de 1950], aquele mesmo grupo tentou dar o golpe de novo. Mas sei qual é
a intenção do governador Caiado: pacificar. Só que a anistia ampla, geral e
irrestrita não vai pacificar o país. O que vai pacificar é a lei que vai
desestimular que alguém tente fazer o que tentaram agora.
·
O senhor foi muito crítico à operação policial no Alemão
e na Penha. Caiado celebrou essa operação. Um eventual governo dele não
fortaleceria ações como essa?
Otoni
de Paula - Como
estou procurando uma solução na direita, me torno refém da escolha do Caiado, e
não é só por uma questão partidária, porque sou PSD como ele. É porque, como
acho a outra opção horrorosa, que é o Flávio, me agarro no Caiado, embora tendo
essas observações. Não concordo com tudo o que ele fala, diz ou pensa. Talvez
tenha um desejo [de Caiado] de diferenciar a esquerda e a direita. Às vezes, o
político é levado a marcar o território que nem ele acredita. Porque não
acredito que Caiado, sendo uma pessoa inteligente, ache que o problema da
segurança pública do Rio se resolve com tiro, porrada e bomba. Por exemplo,
enquanto a gente está aqui, houve a maior apreensão de maconha da história no
Brasil [no Complexo da Maré, em 7 de abril]. Tudo com o quê? Inteligência.
·
Como avalia o governo Lula?
Otoni
de Paula -
Na área econômica, é um governo perdulário, que não tem compromisso com o
amanhã. Economicamente, estamos indo bem. O problema é fiscal, é essa
bomba-relógio que o governo Lula está deixando para quem vai comandar a nação
no próximo ano. Essa é a minha crítica. Tenho elogios? Tenho. Lula é um cara
humano, com todas as diferenças que tenho com ele. Lula é um camarada que faz
uma política sincera voltada para aqueles que mais precisam. Coisa que a
direita abandonou. Infelizmente, a direita brasileira resolveu ser um espectro
político que defende a elite, o empresariado. Eu defendo também o empresariado,
a partir do momento em que defendo que o Estado tem que atrapalhar o menos
possível o empresário, mas a direita perdeu a conexão com o povo. A sorte da
direita é que a esquerda também perdeu com o trabalhador, porque, na cabeça da
esquerda, o trabalhador ainda é o da CLT, do sindicato. Ela não consegue ter
diálogo com o atual cenário de hoje, com o empreendedorismo, com as novas
formas de atividade trabalhista de hoje. Essa é a sorte da direita. Mas a
direita perdeu essa conexão com o trabalhador, tanto que vai votar contra
[acabar com] a escala 6x1, que eu votarei a favor. "Ah, mas vai quebrar o
Brasil". Não vai quebrar, esquece. É você dar direito a uma mãe solo,
porque, quando ela levanta de manhã para ir trabalhar, o filho está dormindo,
quando ela volta, o filho está dormindo. E o único dia de folga dela não é para
cuidar do filho, é para arrumar tudo que na semana ela não conseguiu arrumar.
Quem vota contra [acabar com] a escala 6x1 e ainda diz que defende a família,
que família é essa? Ou seja, dá as costas ao trabalhador. Mas quem vai pagar
essa conta? Todos nós. O empresário é que não paga. Ele vai pegar isso [o
aumento de custo] e distribuir na sociedade. E a gente vai pagar, como sempre
paga. Ou seja, derrubando a escala 6x1 ou não derrubando, vai ter aumento de
preço. Como sempre tem, isso é o capitalismo.
·
O senhor já foi bolsonarista e se arrependeu, mas as
pesquisas mostram que o eleitor evangélico, hoje, votaria em peso em Flávio
Bolsonaro. Por que esse apoio e a rejeição a Lula?
Otoni
de Paula - Primeiro,
quero até louvar, porque o Flávio... Existem algumas expressões que vocês
talvez não compreendam muito, porque fazem parte do nosso evangeliquês. E uma
dessas expressões é que, quando alguém sai da igreja, ela se desviou e, quando
ela volta, é porque voltou para Jesus, se reconciliou. Que bom que o senador
Flávio voltou para Jesus. Que bom, porque ele tinha se desviado, não é? Ele
ficou quase oito anos desviado.
·
O senhor quer dizer sem frequentar a igreja?
Otoni
de Paula - Sim,
me diz uma igreja no Rio que ele frequentou? Me diz qual o lugar em que ele
toma ceia ou a eucaristia católica? Onde ele congregou? Quem é o pastor dele?
Mas, à véspera de uma eleição, ele se reconciliou, e eu não estou aqui para
julgar. Ainda bem que ele fez isso. Agora, por que Lula tem tanta rejeição? Por
uma única questão: a esquerda resolveu abraçar o progressismo identitário, que
nunca foi uma pauta de esquerda. A esquerda sempre foi das pautas trabalhistas,
humanitárias. E, de um tempo para cá, o progressismo identitário encontrou na
esquerda o berço dos seus interesses, a agenda woke. Essa agenda é
que afasta o conservador de Lula, porque ele acaba se confundindo com isso,
apesar, e eu sou muito criticado quando afirmo isso, de Lula ser tudo menos
progressista. Lula é um cara conservador, como todo cara que vem de movimento
sindical. Verdade seja dita, em todos os anos de Lula no poder, nenhuma pauta
progressista avançou vindo do governo federal. Avançaram na Suprema Corte. Lula
nunca mandou pauta de aborto para essa Casa. Nunca mandou pauta de liberação de
drogas. Nunca mandou casamento entre pessoas do mesmo sexo. Pautas que, para o
conservadorismo, são horripilantes.
·
Dentro dessa agenda que o senhor chamou de progressismo
identitário, hoje está em debate um projeto de lei que criminaliza a misoginia.
Apoiadores dizem que é uma medida importante para combater a discriminação e a
violência contra a mulher. Por que é contra esse projeto?
Otoni
de Paula – Primeiro,
sou um dos claros defensores que combatem aqui nesta Casa a violência contra a
mulher. Faço parte da Comissão da Mulher. Nestas duas últimas legislaturas,
nunca se votaram tantos projetos em defesa e proteção da mulher. Acontece o
seguinte: equiparar misoginia a racismo sem uma definição clara nem sequer do
que é misoginia ou do que seria uma fala misógina... Por exemplo, uma
jornalista citou como uma fala misógina, que daria de dois a cinco anos de
detenção, quando um homem diz para uma mulher: "Você está de TPM
hoje?". A mesma fala que a relatora Soraya Thronicke também usou como
exemplo de misoginia que pode gerar cadeia.Portanto, é um tema importante, mas
que, se não for deliberado com cuidado, vai atender a uma pauta apenas
feminista. O feminismo é tão perigoso quanto o machismo, porque são duas faces
da mesma moeda. É o machismo que agride a mulher, e o feminismo tenta agredir o
homem na sua masculinidade e colocar que todo homem é criminoso e violento. Não
sou contra [a proposta]. Sou contra esse projeto que saiu do Senado de forma
não muito debatida e não muito aprofundada, que deixa a condição de crime ou
não na cabeça de qualquer juiz. Hugo Motta já disse que não debate esse ano,
porque está muito polêmica, a gente está em véspera de eleição, mas, quando for
colocado para ser debatido na Câmara, terei um imenso prazer em contribuir para
que não se mate o projeto, mas que se o aperfeiçoe.
·
O senhor equiparou o feminismo ao machismo. O feminismo
foi um movimento de luta pelos direitos das mulheres. Conquistou o direito ao
voto, o direito à educação, o direito ao trabalho fora de casa.
Otoni
de Paula – Sim,
esse feminismo eu aplaudo e terá sempre meu apoio.
·
Então não seria equivocado dizer que feminismo e machismo
são faces da mesma moeda, enquanto na verdade o feminismo seria uma forma de
combater a opressão causada pelo machismo?
Otoni
de Paula – Sua
colocação foi muito boa, e também concordo com ela. Acontece que, infelizmente,
houve uma desvirtuação, de um tempo para cá, do que é o feminismo. Esse
feminismo que lutou e luta e tem que lutar pelo direito da mulher passou a
lutar, claramente, contra o homem, como se todo homem fosse violento, machista,
como se todo homem fosse fazer algum tipo de violência contra a mulher. É este
feminismo que comparo a esse machismo intolerante e violento contra a mulher.
·
O senhor já disse que criminalizar a misoginia poderia
ferir a liberdade religiosa. Quando o STF criminalizou a homofobia, também
havia esse temor, mas isso não ocorreu. Há mesmo esse risco?
Otoni
de Paula – Sou
autor de uma proposta para que se abra um debate público do papel da igreja na
defesa e na proteção da mulher e contra o feminicídio. A igreja peca quando não
debate esse assunto, e já há comprovações de que uma parte considerável das
mulheres violentadas está em nossas igrejas. E quem as violentou, uma parte,
são aqueles que se dizem de Deus, que defendem a família, que são cristãos.
Qual é o papel do pastor nesse momento, em que a cultura do estupro, da
violência e do machismo tem matado tantas mulheres? O papel desse pastor é
fundamental, de discutir isso na casa do Senhor, porque esta não é uma pauta de
direita, não é uma pauta de esquerda, é uma pauta humanitária, de vida. Então,
como que entendi que isso poderia criminalizar pregações? Existem alguns textos
bíblicos que também contribuíram, a má interpretação deles e a má pregação
também contribuíram para algum nível de violência contra a mulher.
Principalmente quando se faz uma abordagem hierárquica da relação homem e
mulher. Porque quando a Bíblia, e esse é um texto que pode ser mal
interpretado, e aí também a minha preocupação [sobre a criminalização da
misoginia]... Quando a Bíblia diz que "a mulher é sujeita ao marido,
vírgula", aí o texto continua, "e vós, maridos, amai as vossas
mulheres como Cristo amou a Igreja, dando a elas a sua própria vida". Na
ideia de Paulo, você tem para a formação de um lar essa mulher que é submissa e
esse homem que é o protetor. Agora, a submissão ali não é hierárquica, é estar
debaixo da mesma missão. Ou seja, um casal não pode ter duas visões. Para que
um casamento seja estabelecido, ambos têm que estar debaixo da mesma missão. E
aí Paulo fala isso sobre a mulher. Esse é um texto clássico que pode ser mal
interpretado e que podem falar que a Igreja está fazendo algum discurso que
gera violência contra a mulher. Então, só pra gente ser bem, assim, equilibrado
aqui: entendo que algumas pessoas podem usar, sim, textos bíblicos para
promover violência. E também que um projeto de lei como este pode pegar essas
más interpretações da Bíblia, que são discursos mal interpretados, e condenar
todo o livro, todo o meio cristão, colocando nele uma pecha que não existe.
·
E como isso deve ocorrer na prática? O pastor deve falar
disso na pregação?
Otoni
de Paula – Ele
deve usar a Bíblia para combater a discriminação. Em primeiro lugar, tem que
usar a Bíblia como arma de reconciliação entre homem e mulher. Tem que mostrar,
na Bíblia, que não existe para Deus diferença entre homem e mulher. Tem que
mostrar na Bíblia que Jesus tinha um exército de homens com ele, mas resolveu,
ao ressuscitar, se revelar a uma mulher. Ele tem que dizer no culto que aquela
cambada de homens, e eu falo isso com muito respeito, aqueles discípulos e
apóstolos que andaram com Jesus e que não trabalhavam fora, porque exerciam
100% o ministério, quem os sustentava eram mulheres. Que, quando Deus, de
acordo com nossa fé, cria a mulher a partir do homem. Ele poderia tirar, dentro
da nossa visão bíblica, a mulher de qualquer parte do homem: da cabeça, do pé,
mas ele tira do lado. E aquilo ali é algo maravilhoso, era Deus dizendo: "Ela
não estará nem em cima nem embaixo. Ela vai estar ao lado". Quem está ao
lado não é menor hierarquicamente. Tanto que, de acordo com a Bíblia, quando o
primeiro homem olha para a mulher, Eva, ele fica deslumbrado e diz: "Essa
agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne". Ali, não há nenhum
princípio hierárquico, "essa agora será minha empregada, essa agora será
minha faxineira, essa agora será a mãe dos meus filhos". Não, essa agora
será osso dos meus ossos e carne da minha carne. Ninguém maltrata seu próprio
osso, sua própria carne. Então, os pastores precisam usar a Bíblia como ferramenta
de combate à violência contra a mulher, porque esta é a proposta bíblica. O que
passa disso é má interpretação da Bíblia Sagrada.
Fonte:
Por Mariana Schreiber, da BBC News Brasil em Brasília

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