Palantir:
por que o crescimento do poder global da empresa de IA causa preocupação?
Sempre
que você se conecta à internet, alguém está coletando as informações que você
vai deixando, seja o seu provedor, o servidor da página que você está visitando
ou o navegador usado durante o acesso.
Todas
estas informações ajudam as empresas a compreender melhor o comportamento dos
seus clientes e projetar estratégias e produtos que atendam melhor às
necessidades dos consumidores.
Da
mesma forma, os dados podem ser empregados para localizar indivíduos
considerados como ameaça. Foi o que fizeram os Estados Unidos para encontrar o
bunker de Osama Bin Laden (1957-2011) no Paquistão.
E
também servem para identificar e definir alvos militares, como faz atualmente o
exército israelense no Irã. Mas, para que as informações sejam úteis, a sua
coleta pura e simples não é suficiente.
A
quantidade cada vez maior de dados produzidos na Web todos os dias (estimados
em cerca de 400 milhões de terabytes) faz com que as organizações precisem usar
programas especializados, alimentados por inteligência artificial, para poder
coletá-los, organizá-los e, por fim, interpretar o que eles podem revelar.
Atualmente,
a maioria dos especialistas em cibersegurança concorda que não existe no mundo
um software de análise de dados que possa ser comparado, em termos de
complexidade e alcance, com o da companhia americana Palantir, especialmente em
relação à segurança e à inteligência militar.
No
final do ano passado, o colunista do jornal The New York Times Michael
Steinberger publicou o livro The Philosopher in the Valley: Alex Karp,
Palantir, and the Rise of the Surveillance State ("O filósofo no Vale:
Alex Karp, a Palantir e a ascensão do estado de vigilância", em tradução
livre).
Ele
defende que parte do sucesso da empresa se deve ao fato de ter desenvolvido sua
tecnologia lado a lado com os serviços de inteligência dos Estados Unidos.
"A
reviravolta para a Palantir foi o recebimento de fundos da In-Q-Tel, que foi o
braço de investimento de capital da CIA", a Agência Central de
Inteligência dos Estados Unidos, explica Steinberger à BBC News Mundo, o
serviço em espanhol da BBC.
"Além
do investimento, que foi imenso, os engenheiros da Palantir tiveram acesso aos
analistas da CIA e, por isso, conseguiram desenvolver o software lado a lado
com eles."
Tudo
isso faz com que as ferramentas da Palantir sejam largamente utilizadas por
diversas agências do governo americano. E não apenas pelos órgãos de
inteligência, como a CIA, o FBI (Escritório Federal de Investigações) e a NSA
(Agência Nacional de Segurança).
Entidades
de saúde dos Estados Unidos, como os Centros de Controle de Doenças (CDC), e
agências migratórias, como o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega), também
fazem uso dos programas da Palantir.
O ICE
emprega atualmente essas ferramentas para identificar e localizar imigrantes
procurados para detenção e deportação.
"O
trabalho do ICE ao lado da Palantir começou em um momento de crise, algo típico
em relação à Palantir", explica Steinberger.
"Eles
cobram bastante pelos seus serviços e muitas organizações acreditam que podem
economizar, se desenvolverem um software in-house. Mas, quando chega a crise,
eles decidem experimentar."
"Foi
o que aconteceu com o ICE em 2014", relembra ele.
"Quando
um agente da DEA [a Agência de Combate às Drogas dos Estados Unidos] foi morto
no México e o governo precisava encontrar os assassinos, eles recorreram à
Palantir, que reuniu uma grande quantidade de dados em poucos dias e permitiu
que eles encontrassem o assassino com muita facilidade."
Para
podermos entender o papel desempenhado atualmente pela Palantir no setor
militar americano, é preciso retornar à criação da empresa e ao momento
histórico que forneceu diretamente sua razão de ser: os atentados terroristas
de 11 de setembro de 2001.
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Do PayPal ao governo dos Estados Unidos
No
final dos anos 1990, a internet passava por um seus períodos de maior e mais
rápida expansão.
No que
viria a ser conhecido como o "boom das ponto com", milhares de
empreendedores se aventuraram a lançar negócios na rede.
Muitas
empresas que, hoje, são imensos conglomerados digitais começaram naquela época.
Uma delas foi o PayPal, talvez a plataforma de pagamentos digitais mais
conhecida do mundo.
Ela
surgiu da fusão de duas empresas distintas. Uma delas era a Confinity, do então
jovem investidor Peter Thiel. A outra foi a X.com, de Elon Musk, hoje principal
acionista da Tesla e do X (antigo Twitter).
Naquela
época, a segurança das transações online estava começando a ser desenvolvida. E
o PayPal passou a ser o site preferido dos golpistas, graças ao anonimato que
ele proporcionava.
Em
resposta, o sócio de Thiel e um dos fundadores da Confinity (depois, PayPal),
Max Levchin, se concentrou no desenvolvimento de um software que, por meio de
algoritmos, pudesse garantir a segurança das transações ocorridas dentro da
plataforma, para poder liberar todo o potencial das compras via internet.
O
software recebeu o nome de Igor, o mesmo do golpista russo que se tornaria o
primeiro a cair com a nova ferramenta. O sucesso foi tanto que o software
conseguiu reduzir as fraudes nas transações para menos de 0,5%, colocando o
PayPal na vanguarda do comércio online.
Como
era de se esperar, o sucesso da ferramenta também chamou a atenção das
autoridades americanas. O FBI se interessou e começou a trabalhar com a equipe
de segurança do PayPal em investigações de fraude.
Até que
veio o dia 11 de setembro de 2001, quando tudo mudou.
"Uma
forma de ver os atentados de 11 de setembro é que eles constituíram uma falha
de integração de dados", segundo Steinberger. "E, de fato, o
relatório da Comissão do 11 de Setembro afirmou exatamente isso."
"Houve
uma falha na hora de conectar os pontos, que conduziu àquela tragédia. A CIA
dispunha de informações, o FBI dispunha de informações, mas eles não se
comunicavam entre si. A informação não era compartilhada."
Para
Peter Thiel, ficou claro que, frente a este problema de organização de dados, o
Igor poderia ser muito útil para os diferentes serviços de inteligência
americanos. Por isso, ele começou a buscar uma forma de entrar em contato com a
CIA.
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'CEO filósofo'
Quando
Thiel começou a buscar o capital necessário para desenvolver o projeto que
tinha em mente, ele se encontrou novamente com Alex Karp.
Ambos
eram bons amigos na Faculdade de Direito da Universidade Stanford, nos Estados
Unidos, mesmo estando em polos opostos do debate ideológico. Thiel é um
conservador devoto e Karp, um progressista convicto, filho de um casal
inter-racial.
Sua
amizade se baseou principalmente no descontentamento gerado pela educação que
recebiam em uma das melhores universidades do país, pela paixão comum pelo
xadrez e pelas discussões acaloradas sobre temas profundos.
Karp é
doutor em filosofia alemã e foi aluno do filósofo Jürgen Habermas (1929-2026).
Quando se reencontraram após os atentados de 2001, Thiel o recrutou para ajudar
a conseguir investidores para o empreendimento. E ficou surpreso com a sua
paixão pelo projeto.
O nome
Palantir é uma homenagem às pedras mágicas da saga de livros O Senhor dos
Anéis. Elas davam a quem as possuísse o poder de ver o mesmo que seus inimigos.
A
associação com a obra de J. R. R. Tolkien (1892-1973) é tão forte que os
funcionários da empresa se denominam palantirianos e alguns dos seus
escritórios são adornados com runas élficas.
Apesar
da sua falta de experiência no campo militar, os diretores da empresa decidiram
fazer de Karp seu CEO (diretor-executivo), por ter visão mais clara do que eles
desejavam fazer com a Palantir.
Mesmo
tendo sido criado em um lar progressista, no Estado americano da Califórnia, e
estudado filosofia na Alemanha, as ideias de Karp "evoluíram" com o
passar do tempo, segundo Steinberger. "Elas se aproximaram da forma como
Peter Thiel observa o mundo."
"Karp
fala cada vez menos da defesa da democracia liberal e mais da defesa do
Ocidente como entidade cultural. Esta sempre foi a controversa postura de
Thiel, que afirma não acreditar que a liberdade (em referência à liberdade
econômica) e a democracia sejam compatíveis."
Karp
também defende a superioridade militar e tecnológica dos Estados Unidos como
"o fator de dissuasão mais importante" do mundo atual.
"As
guerras são travadas com tecnologia", declarou Karp durante um fórum
recente em Washington, sobre o início dos ataques dos Estados Unidos e Israel
ao Irã.
"Se
observamos a operação 'Martelo da Meia-Noite' [o ataque americano à
infraestrutura nuclear iraniana em 2025], a operação na Venezuela [que capturou
Nicolás Maduro] ou a operação que estamos vendo no Irã, veremos uma sociedade
totalmente dominadora", prosseguiu ele, "e esta sociedade é a
nossa."
"Sempre
discuto com meus amigos intelectuais quando me perguntam 'mas não seria melhor
um sistema de normas em que todos sejam iguais?' e eu respondo: 'Sim, claro. Na
teoria. Mas, neste mundo, somos nós ou é a China ou a Rússia.'"
Recentemente,
a Palantir publicou nas redes um resumo de 22 pontos das ideias apresentadas
por Karp no seu livro A República Tecnológica: Tecnologia, Política e o Futuro
do Ocidente (Ed. Intrínseca, 2025), que muitos descreveram como o manifesto da
empresa.
Os
pontos refletem algumas das ideias mais polêmicas do pensamento libertário
americano, como a declaração de que, embora "algumas culturas tenham
produzido avanços fundamentais, outras continuam sendo disfuncionais e
regressivas", ou que os países ocidentais "devem resistir à tentação
superficial de um pluralismo vazio e oco".
Para
Karp, "uma era de dissuasão — a era atômica — está terminando e uma nova
era de dissuasão, baseada na inteligência artificial, está a ponto de
começar" e "se um soldado da marinha americana pedir um fuzil melhor,
devemos construí-lo e o mesmo se aplica ao software".
A
publicação do manifesto gerou grandes polêmicas nas redes sociais. Muitos
comentários expressaram repúdio e preocupação.
A
parlamentar britânica Victoria Collins declarou que a lista parecia fruto dos
"desvarios de um supervilão".
"É
preciso entender um ponto sobre a Palantir", destaca Steinberger.
"Ela foi política desde o princípio."
"Ela
foi fundada para ajudar o governo de Washington a combater a guerra contra o
terrorismo. Isso gerou a ideia de que 'estamos ajudando o governo dos Estados
Unidos e seus aliados a defender seu modo de vida'."
Desde o
princípio, a empresa se comprometeu a não vender sua tecnologia para países
como a China ou a Rússia, considerados adversários geopolíticos dos Estados
Unidos.
"Atualmente,
não há dúvida sobre essa concorrência, mas, em 2007 ou 2008, era um tanto
atrevido sair dizendo que você não iria oferecer seus produtos no mercado que
mais crescia no mundo."
Por
outro lado, a empresa oferece seus serviços a países alinhados às políticas
americanas, como Israel.
"Eles
sempre se consideraram os guardiões do Ocidente", segundo Steinberger.
"Esta é uma ideia básica da empresa desde a fundação."
"No
livro, falo sobre a relação da Palantir com o Mossad [o serviço de inteligência
de Israel], que entrou em contato com eles em meados dos anos 2000 e é cliente
da empresa desde então. E, depois [do ataque do Hamas] de 7 de outubro de 2023,
as IDF [Forças Armadas de Israel] basicamente disseram 'precisamos do seu
produto'."
Outros
países que empregam as ferramentas da Palantir incluem o Reino Unido (dos
serviços de saúde até o Ministério da Defesa), Ucrânia, França, Canadá,
Alemanha, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
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Estado de vigilância?
Mais de
duas décadas se passaram desde a fundação da Palantir e seus produtos se
transformaram em uma poderosa arma para os Estados Unidos e seus aliados.
A
Palantir desenvolveu as ferramentas que levaram à morte de Osama Bin Laden em
2011 e foram um componente fundamental para a retirada das tropas americanas do
Afeganistão em 2021.
Além
disso, seu sistema de integração de dados Maven é empregado atualmente para
identificar alvos militares no Irã e operar os drones deslocados pelos Estados
Unidos para a região.
A
Palantir também é a empresa encarregada de desenvolver o software do "Domo
de Ouro", um dos projetos mais emblemáticos do segundo mandato de Donald
Trump: um sistema de mísseis antiaéreos similar ao "Domo de Ferro" de
Israel, capaz de proteger o país contra qualquer tipo de ameaça, incluindo
mísseis nucleares.
Paralelamente,
a Palantir oferece serviços a empresas civis, como a Airbus, Panasonic, Merck e
até para a equipe de Fórmula 1 da Ferrari, para gestão e análise dos seus
dados.
Devido
exatamente a esta versatilidade das suas ferramentas, a Palantir defende que os
organismos reguladores do governo, não a própria empresa, devem ser
responsáveis por impor limites aos usos da sua tecnologia.
Em
entrevista à BBC, o diretor da Palantir no Reino Unido e no continente europeu,
Louis Mosley, explicou que o software da empresa foi projetado para sempre
exigir um ser humano para tomar decisões.
"É
assim que ele está programado atualmente", garante Mosley.
Mas
muitos críticos destacaram que a velocidade de análise e previsões dessas
ferramentas pode levar a erros de confirmação por parte dos usuários.
"Esta
priorização da velocidade e da escala, além do uso da força, deixa muito pouco
tempo para a verificação significativa dos seus objetivos, a fim de assegurar
que não sejam incluídos acidentalmente alvos civis", declarou à BBC a
professora Elke Schwarz, da Universidade Queen Mary de Londres.
Mas,
para Mosley, "na verdade, esta é uma questão para nossos clientes
militares. São eles que decidem o marco normativo que determina quem pode tomar
qual decisão."
Mesmo
com todas as críticas e preocupações geradas pela sua tecnologia, a Palantir
está avaliada em mais de US$ 380 bilhões (cerca de R$ 1,9 trilhão) e continua
aumentando.
"Aqui,
surge a questão do grau de responsabilidade que recai sobre a Palantir em
relação ao uso que é feito do seu produto", destaca Michael Steinberger.
"E esta é uma questão muito real neste momento, por exemplo, em referência
às suas relações com o ICE."
"A
Palantir tem alguma responsabilidade pelos abusos que estão sendo cometidos?
Eles têm conhecimento disso? Se forem perpetrados crimes de guerra com essa
tecnologia, a Palantir tem alguma responsabilidade?", questiona o
colunista do The New York Times.
"Estas
são algumas das questões que a empresa está enfrentando. E são perguntas que
atingem diretamente o centro das controvérsias que rodeiam a Palantir",
conclui Steinberger.
Fonte:
Por Rafael Abuchaibe, da BBC News Mundo

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