A
síndrome da sociedade do reconhecimento facial
É
natural das pessoas temerem a feiura, porque ela infelizmente é fonte de
zombarias, discriminação social e em alguma casos isolamento forçado. A feiura
algumas vezes é equiparada a um defeito moral ou mesmo indício lombrosiano de
criminalidade inata. Outras vezes é a beleza que esconde e feiura moral e a
criminosa. Mas mesmo quando uma pessoa feia é virtuosa, a situação dela não
melhora porque no mundo fenomênico a aparência é a essência do ser.
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O rosto
cola à pessoa. Através das características dela a pessoa é conhecida pelas
demais, exceto pelas pessoas que tem uma doença rara que as impede de
distinguir as faces das pessoas para reconhecer cada uma delas.
Atributo
pessoal indistinguível, o rosto é objeto de proteção legal. Ninguém pode usar o
rosto de outra pessoa para obter lucro, muito embora as Big Techs façam isso
diariamente com uma naturalidade imensa. O que permite essa exceção é a
autorização que as próprias pessoas dão para as Big Techs ao compartilhar suas
fotos pessoais.
Num
passado distante essas fotos foram usadas para treinar sistemas de
reconhecimento facial. A princípio isso parecia uma boa ideia. Depois as
pessoas começaram a perceber que era perigoso permitir que empresas privadas e
Estados utilizassem esses recursos tecnológicos. Mas a verdade é que o
reconhecimento facial continuou a se espalhar por todas as grandes cidades e
depois delas ele se propagou para as cidades pequenas. Essa tecnologia se
tornou uma realidade onipresente e em algum momento ninguém mais conseguia
ficar em casa ou sair na rua sem ser “visto” por diversos sistemas de
vigilância privados e públicos.
Em
alguns países existir social e economicamente significava ser facialmente
reconhecível. Ser designado como “não reconhecível” pelo sistema, uma punição
administrativa comum algumas vezes imposta para delitos civis e crimes leves,
outras vezes uma consequência automática da falta de dinheiro no banco ou
cancelamento do crédito bancário, significava ser rebaixado à condição de não
pessoa. Isso porque a pessoa não podia fazer nada, nem mesmo comprar passagem
de trem ou de avião ou mesmo pagar pelo almoço num restaurante barato.
Num
mundo em que o rosto diz quem você é, em tese não faria diferença ser feio ou
bonito. O sistema de reconhecimento facial não faz valorações estéticas, ele
apenas liga uma pessoa particular ao conjunto de dados que a representa num
data center privado ou no data center estatal.
Os
primeiros lugares imaginados dessa forma foram o Inferno, o Purgatório e o
Paraíso, da Divina Comédia de Dante, porque o Deus que vê tudo em todos os
lugares e em todos os momentos distribui punições e recompensas de acordo com
os vícios e as virtudes. Ele não precisa ponderar cada decisão porque o sistema
da vida após a morte foi, de certa forma, programado, como dizemos hoje, para
funcionar corretamente, reconhecendo cada indivíduo e enviando-o ao lugar que
lhe cabe. Na Comédia de Dante, o reconhecimento é total, ontológico, não apenas
facial. O inferno de um sistema político real baseado em reconhecimento facial
é o rosto que é computado erroneamente por algum motivo, o rosto que foi
modificado e não pode ser computado e, claro, a adulteração não autorizada do
banco de dados.
Nesse
contexto, era natural que os cirurgiões plásticos fossem rigorosamente
monitorados. Afinal, em razão de suas habilidades eles podiam interferir no
funcionamento do sistema fazendo-o reconhecer como a pessoa A pobre como outra
pessoa, a pessoa B rica por exemplo. Eles eram obrigados a documentar
fotograficamente todas as pessoas que atendiam antes e depois da cirurgia. Tudo
era depois agregado ao banco de dados oficial, para que a pessoa operada A com
novo rosto fosse reconhecido como a pessoa A em qualquer lugar. As modificações
feitas no sistema público de reconhecimento facial eram imediatamente
repassadas aos sistemas privados, para que a pessoas não sofresse algum tipo de
constrangimento.
Todavia,
sempre que um sistema político ou econômico, ou mesmo tecnológico, coloca nas
mãos de alguém um poder excepcional as possibilidades de fraude criminosa se
tornaram uma realidade. Cirurgiões plásticos gananciosos começaram a trabalhar
para quadrilhas de modificação de personalidade e dando origem à criação do
Esquadrão Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Face Crimes.
Esses
caras eram especialistas na arte do disfarce, da infiltração, do hackeamento de
computadores e é claro monitoravam todas as clínicas de cirurgia plástica com
bugs. Os cirurgiões plásticos sabiam da existência do Esquadrão Policial
Especial de Prevenção e Repressão dos Face Crimes então eles não cometiam
crimes nos seus locais de trabalho. Aqueles que prestavam serviços às
quadrilhas trabalhavam em consultórios improvisados, geralmente instalados em
favelas miseráveis.
Para
ser honesto, é preciso lembrar que nem sempre o trabalho desses cirurgiões
visava lucro. Alguns deles cometiam crimes por razões políticas, porque
existiam lutadores da liberdade que lutavam pelo fim da opressão facial. Mas
nas sociedades dominadas de cima a baixo pelo reconhecimento facial a
resistência política significava imediato banimento do sistema, um tipo de
exclusão que se tornava permanente e lembrado em qualquer lugar a qualquer
momento sempre que o rosto do dissidente fosse visto por uma câmera.
Pessoas
desesperadas as vezes mutilavam seus rostos simulando acidentes apenas para não
serem reconhecidos. Esses casos não eram tratados pelo Esquadrão Policial
Especial de Prevenção e Repressão dos Crimes Faciais, mas pela polícia comum.
Sempre que o sistema identificava uma face desfigurada por cicatrizes recentes
que não podia ser atribuída a alguém o sistema gerava um alerta. E, então os
policiais comuns iam palmilhar onde aquele rosto mutilado havia sido marcado
como “irreconhecível, mas sem dados computáveis”. A pessoa era então
apreendida, identificada por outros meios e o novo rosto dela era acrescentado
ao banco de dados. Os casos de reincidência eram sempre dramáticos, os de
tatuagens feitos no rosto despertavam grande suspeita.
Assim
como os cirurgiões, os tatuadores também eram vigiados de perto Esquadrão
Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Face Crimes. Tatuar rostos era
estritamente proibido, exceto se a pessoa conseguisse uma autorização judicial
prévia. Caso em que o procedimento todo no consultório do tatuador era
semelhante ao dos cirurgiões plásticos. O sistema tecnológico-político,
econômico e social tinha horror à apenas duas coisas: os casos de “erros de
reconhecimento facial por falsificação causada mediante cirurgia plástica” e os
casos de “irreconhecível, mas sem dados computáveis”.
O
Código Penal de uma sociedade inevitavelmente refletirá as necessidades
impostas pela tecnologia que predomina e permite a validação de todos os atos
públicos e privados. Mutilação do próprio rosto ou do rosto de outrem será
crime grave: 10 anos de prisão. Apropriar-se da identidade facial de alguém por
meio de cirurgia plástica não autorizada será crime gravíssimo: 20 anos de
prisão. Operar o rosto de alguém ou tatuá-lo sem autorização: 10 anos de
prisão, cassação da licença profissional e, em última instância, indenização
equivalente ao dano causado. Alterar maliciosamente bancos de dados faciais: 15
anos de prisão e amputação de dedos. Danificar ou destruir câmeras instaladas
em locais públicos ou abertos ao público: 2 a 3 anos de prisão, dependendo da
importância estratégica do local para a polícia, além da perda dos dados
faciais computáveis pelo dobro da pena. O uso de máscaras é proibido: multa de
US$ 10.000. Usar máscara com o rosto de outra pessoa: 4 anos de prisão.
Lembre-se, cidadão: seu rosto não lhe pertence, ele pertence ao sistema.
Usar
máscaras era proibido, pena de multa de 10 mil dólares. Usar máscaras com o
rosto de outra pessoa podia causar prisão por 10 anos. Em situações
excepcionais (baile de máscara, carnaval), poderia haver dispensa da obrigação
de não usar máscara. Mas nesses casos todas as pessoas eram reconhecidas
facialmente antes e depois do evento e qualquer discrepância nos dados era
imediatamente resolvida, sendo que a pena nesses casos era em dobro porque
havia ocorrido má-fé para com a generosidade do estado que permitiu o uso
recreativo de máscaras em ambientes livres de reconhecimento facial por tempo
determinado.
Ser
dono da própria face era motivo de orgulho no passado. Não ser dono dela por
algum tempo no presente se tornou uma necessidade psicológica, então esses
eventos (bailes de máscara e carnaval) se tornaram muito importantes. Talvez
até mais importantes do que havia sido.
Nas
sociedades do reconhecimento facial, os espiões eram agentes estatais com
dispensa parcial ou total de reconhecimento facial. Assim eles podiam não ser
vistos onde deveriam estar. E raramente eles eram reconhecidos pelas outras
pessoas, porque de fato as habilidades naturais de reconhecimento facial haviam
declinado desde que essa atividade passou a ser ostensivamente realizada por
câmeras conectadas de alguma maneira aos data centes oficiais e privados.
O
espião era um criminoso com liberdade para matar seu próprio rosto no sistema.
Ele poderia até matar o rosto de alguém temporariamente, desde que isso se
tornasse indispensável ao que ele havia designado para fazer. Esse grande poder
não vinha sem um fardo: o espião que usasse mal seu acesso ao sistema de
reconhecimento facial não perdia apenas o emprego. Ele geralmente perdia a vida
também. Não, ele não era fuzilado. Ele apenas passava a ser reconhecido como
alguém eternamente indesejável pelo sistema.
Nesse
ponto o leitor deve estar se perguntando quando a história vai começar e quem
são os personagens dela. Todavia, a história chegou ao fim porque o personagem
dela foi delineado de maneira consistente.
Em um
sistema de vigilância total, onde o reconhecimento facial é a regra e há
câmeras por toda parte, ninguém consegue escapar de ser visto pelo sistema o
tempo todo, pois o acesso ou a negação de acesso a produtos e serviços depende
disso. Rebeldes e revolucionários nessa sociedade são hackers ou simplesmente
candidatos a punições automatizadas.
Ninguém
escapa de ser visto, mas alguém vestindo uma fantasia tipo Homem-Aranha, de
corpo inteiro, incluindo a cabeça, feita de tecido espelhado, seria um “rosto
não computável”. Algo que se assemelhe a um ser humano com um “rosto não
computável” pode disparar alarmes no sistema, mas se um hacker alterasse a
rotina para que o “rosto não computável” detectado fosse considerado
irrelevante e descartável, o revolucionário vestido dessa forma seria o homem
invisível. Ele seria visto por outras pessoas, mas o sistema não o veria.
Esse
criminoso perigoso pode fazer qualquer coisa sem ser identificado, processado,
condenado e preso. Vestindo sua fantasia de corpo inteiro feita de tecido
espelhado, ele será algo que existe muito além da capacidade do sistema de
identificá-lo. Ele está vivo, mas é um fantasma computacional. Ele não é
invisível, mas não pode ser visto pelas câmeras. O status ontológico do “rosto
não computável” é distinto de qualquer coisa já concebida ou imaginada por
qualquer escritor. Ele sem dúvida terá uma vida dupla, mas uma de suas vidas
será paradoxalmente notável justamente porque ele não tem rosto.
O deus
de Dante vê tudo e todos o tempo todo, em todos os lugares, mas um poderoso
sistema de reconhecimento facial não é Deus. Ele é cegado pelo terrível homem
invisível com um “rosto não computável”.
Dinanzi
a me no fuor cose create
se non
eterne, e io eterna Duro.
Lasciate
ogne speranza, voi ch’intrate
Nell’inferno
del riconoscimento facciale,
solo chi non può mai essere visto è al sicuro.
Fonte:
Por Fábio de Oliveira Ribeiro, no Jornal GGN

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