quarta-feira, 29 de abril de 2026

Carlos Enrique Ruiz Ferreira: O voto da juventude

As recentes pesquisas eleitorais para 2026 revelam números e tendências preocupantes para a democracia brasileira. E, como disse Thomas Hobbes, “a natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa tendência para chover durante vários dias seguidos”.

Vivemos sob o signo de um mau tempo para a democracia brasileira. A história política recente, incluída a tentativa de um golpe de Estado, e as opções eleitorais dos últimos anos não deixam margens a dúvidas. Mas dentre as últimas pesquisas de intenção de voto presidencial, parece que um dos temas delicados ainda não mereceu, por parte dos analistas, toda a reflexão necessária: o voto da juventude.

Os dados da Pesquisa Atlas/Bloomberg para as Eleições Presidenciais do Brasil – 2026, de janeiro e, a mais recente, de março, destacam esses números, revelando um calcanhar de Aquiles para a corrida eleitoral que se aproxima. Trata-se do fenômeno da juventude neoconservadora.

É hora de traçar as estratégias e táticas, tendo em conta as múltiplas variáveis nesse tempo-espaço Brasil/Mundo. Sabemos que há existe uma margem de previsibilidade com relação à votação a Lula e ao bolsonarismo; a tarefa recai em encontrar os nichos, os segmentos sociais e demográficos do eleitorado brasileiro, que podem votar pela democracia, saindo da indecisão ou mudando de lado. Partimos da premissa de que um desses estratos é a juventude brasileira, muito embora ela se apresente conservadora.

Apenas como introdução ao debate, alguns números são estarrecedores. No cenário que repete os candidatos de 2022, de janeiro de 2026, Jair Bolsonaro atinge 46,6% pontos percentuais em intenção de votos na faixa de 16 a 24 anos e 56,3% na idade de 25 a 34. Para a mesma faixa etária, Lula da Silva amarga 16,7% naquela e 33,4% nesta.

A partir desse contexto, o intuito deste artigo é observar os dados relativos a essas faixas etárias e analisá-los. Para tanto, os campos da história e da ciência política nos auxiliam. Ao longo do percurso, ressaltaremos algumas variáveis e elementos que podem ajudar a complexificar e explicar melhor o fenômeno da juventude conservadora, para uma agenda futura de pesquisa. Por fim, e não menos importante, nos preocuparemos em alertar e instigar as forças políticas democráticas para a necessidade de disputar com mais inteligência política os eleitores jovens e recém-adultos e para a criação de políticas públicas, a longo prazo, de educação para os direitos humanos e democracia.

<><> A polarização contemporânea

O fenômeno da ultradireita global constituiu-se como uma realidade indelével e, tudo indica, resguarda uma estabilidade sociocultural, ou seja, seguirá com força política expressiva nos próximos anos. O mau tempo da democracia.

No Brasil, o bolsonarismo sensibilizou toda uma cultura reacionária, colonialista e conservadora, presente, quer se queira quer não, na gênese sociocultural do brasileiro (como ensinam autores da estirpe de Marilena Chaui e Jessé de Souza). Nesse sentido, Bolsonaro não trouxe nada novo, mas, sobretudo, mobilizou valores conservadores, e muitas vezes violentos e criminosos, preexistentes.

Por outro lado, a cultura progressista e de esquerda não perdeu sua robustez. Pelo contrário, revela resiliência. Cumpre enfatizar que o primeiro governo petista estabeleceu uma mudança tectônica no comportamento eleitoral. Para além dos eleitores fiéis da esquerda, Lula conquistou, em boa medida, o coração e mentes da população mais pobre.

Carlos Alberto e Lucio Rennó defendem que: “Foi na eleição de 2006 que a população mais pobre passou a votar de maneira incisiva no candidato do Partido dos Trabalhadores para presidente”. André Singer sustentou que “foi em 2006 que ocorreu o duplo deslocamento de classe que caracteriza o realinhamento brasileiro e estabeleceu a separação política entre ricos e pobres” e que o “lulismo (…) é (…) o encontro de uma liderança (…) com uma fração de classe, o subproletariado.

A força do Partido dos Trabalhadores não pode ser desprezada. Ele detém o segundo maior número de filiados, perdendo apenas para o MDB. O PT venceu cinco eleições presidenciais do total de 9, desde a redemocratização. Ainda, nas últimas eleições de 2022, o PT emplacou 4 de governadores, empatado com o União Brasil. Atrás deles estiveram o MDB, PSB e PSDB, com 3 cada.  Também, nesta última eleição, a maior bancada da Câmara foi a do PL, com quase 100 deputados federais, seguida pela do PT, com pouco menos de 70. No Senado o PT ficou em terceiro lugar, perdendo para o PL e União Brasil.

<><> Os cenários eleitorais de 2026

Dentre as pesquisas eleitorais existentes, a que mais possibilita uma análise mais aprofundada sobre a juventude (e sobre as faixas etárias) é a da Altas/Bloomberg, nos concentraremos nas que foram divulgadas em janeiro e outra em março deste ano.

Tertium non datur, os jovens e recém adultos brasileiros, a contar pelas opções eleitorais, são politicamente conservadores ou, como preferimos, neoconservadores.

Os eleitores das faixas etárias 16-24 e 25-34 anos optam por candidatos da extrema direita. Lula perde em todos os cenários nessas faixas etárias para seu principal oponente. Não obstante, a pior performance se observa no segmento de 16 a 24 anos. Lula amarga quase 30 pontos percentuais negativos em relação a Jair Bolsonaro na pesquisa de janeiro. Seu índice melhora significativamente na pesquisa de março, perdendo para o ex-presidente por 21,3 pontos.

Outro dado considerável é que Jair Bolsonaro mantém sua liderança política. Ele vence, com boa margem, de todos os outros possíveis candidatos da direita ou extrema direita, inclusive seu filho e, assim, cristaliza sua força no cenário nacional.

Note-se que a performance de Flávio Bolsonaro não se alterou substancialmente de janeiro para março, quando já se tinha muito mais clareza de que seu pai não disputaria as eleições. A hipótese preliminar é que seu teto é menor do que de seu pai, a se testar nas próximas pesquisas.

Renan Santos, um nanico quando se computam os dados gerais – de todas as faixas etárias – não é desprezível no recorte da juventude. Pelo contrário, revela não só adesão como uma adesão resiliente. Se Flávio Bolsonaro cresce de forma irrisória de janeiro a março no público de 16 a 24 anos, com minguados 1,1%, Renan Santos cresceu 9,6% e Lula 4,6%. Quando vamos para a faixa 25 a 34 anos, Flávio decresceu 3,7%, Renan cresceu 1,5 e Lula 3 pontos.

De toda forma, tendo em conta ambas as pesquisas e as faixas etárias, fica claro que o presidente Lula encontra sua maior dificuldade entre o eleitorado jovem. Não expusemos aqui os números relativos as demais faixas etárias, que constam nas pesquisas, mas é relevante considerar que nas outras idades, ou seja, a partir dos 35 anos, Lula vence em todos os cenários contra seu maior adversário. Mas cumpre pensar: quais são as possibilidades de disputar melhor os votos dos jovens?

<><> O fenômeno da juventude neoconservadora

“O problema das gerações é importante o suficiente para merecer consideração séria. É um dos guias indispensáveis para a compreensão da estrutura dos movimentos sociais e intelectuais” (Karl Mannheim).

Nos deparamos com o fato de que o Brasil possui uma juventude neoconservadora significativa. Ela é eleitora do bolsonarismo e se identifica com candidatos da extrema direita e/ou vê com muitas ressalvas o presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores.

O conservadorismo se caracteriza como um fenômeno social que cultua os valores do passado, entendendo-os como superiores aos progressistas e contemporâneos. Ou seja, reflete “ideias e atitudes que visam à manutenção do sistema político existente (…), apresentando-se como contraparte das forças inovadoras”. No Brasil, trata-se de uma disputa em relação aos valores ligados à “família” e “religião”, tendo como paradigmas conexos as questões de gênero, comportamento sexual e afetivo e raça.

Boa parte das pessoas conservadoras entende que seu núcleo de ideias e valores são superiores a outros e, geralmente, acabam menosprezando culturas diferentes. Em sua extremidade, atacam pessoas que se pautem por valores mais abertos, diversos e livres, consumando intolerâncias e violências que, muitas vezes, se enquadram como crimes. No Brasil contemporâneo, a cultura neoconservadora procura naturalizar uma série de violências contra os direitos humanos e a Constituição Federal (chegando ao cume de propor anistiar atos de lesa pátria e tentativa de golpe de Estado).

Por fim, devemos considerar que o neoconservadorismo – em escala nacional e mundial – se ampara e se difunde largamente através do ativismo digital, com uma sofisticação e eficiência no uso das tecnologias de informação e comunicação. Grandes corporações utilizam-se de uma diversidade de mídias sociais e redes digitais para divulgar determinadas narrativas políticas e mobilizar bases sociais, usando táticas de guerra híbrida. Os jovens, nativos digitais, estão no centro desse ecossistema digital algorítmico.

Como fenômeno recente e de significativo impacto social, a existência de uma juventude neoconservadora merece a realização de estudos e pesquisas mais densas, para que se entenda seus fatores determinantes. Beatriz Besem (2024), defende que, embora haja certos padrões observáveis, o “conservadorismo é multifacetado e requer uma abordagem interseccional, considerando os contextos sociais e os marcadores sociais da diferença”.

Ou seja, há uma série de elementos e de variáveis que precisam ser considerados para que se compreenda melhor esse fenômeno e segmento etário. Pretendemos voltar a esse tema em outra ocasião, discutindo, por exemplo: a influência da vida social digital; a participação sociopolítica da juventude em partidos e movimentos; a influência de uma específica história do tempo presente; o peso da religião, da educação, e as intersecções de gênero, raça, renda e nível de escolaridade.

<><> Os desafios

Ao fim e ao cabo, temos dois grandes desafios pela frente. Um mais imediato, que compete à disputa eleitoral presidencial. Como melhor disputar os corações e mentes desses jovens que se apresentam como neoconservadores? Não é impossível, e, nesse campo, os temas do aborto, família, gênero e religião serão decisivos.

Quais devem ser as posturas e acenos de Lula para esse estrato etário? Quando nos acostamos à compreensão de André Singer de que o “lulismo existe sob o signo da contradição”, que persiste uma “Conservação e mudança, reprodução e superação, (…) num mesmo movimento”, precisamos considerar que o presidente possui características que o permitem dialogar para além das fronteiras eleitorais progressistas e de esquerda. Esse é um de seus grandes trunfos, e será determinante na campanha que se aproxima.

O trabalhador-sindicalista consegue criar uma identificação com setores, senão conservadores, tradicionalistas. Mas, para que esse embate eleitoral com a juventude tenha êxito, será necessária toda uma revolução na utilização do ecossistema digital algorítmico. O presidente precisará disputar e reenquadrar valores aproximando-se desse público sem descaracterizar seu programa histórico. Ao passo, é necessário enfatizar as ações realizadas para o público jovem e traçar uma agenda propositiva que dialogue claramente com as demandas contemporâneas (educação, emprego, saúde mental, segurança e mobilidade social, em especial).

Por outro lado, a longo prazo, as forças políticas e educacionais democráticas devem conferir ao fenômeno da juventude neoconservadora um status de maior relevância. É necessário, em primeiro lugar, realizar um diagnóstico amplo e preciso sobre a juventude brasileira. Logo, será imperativo a criação de políticas públicas educacionais (desde o ensino fundamental até o superior) para conter e mitigar a existência de ideias que por muitas vezes violentam os direitos humanos e a Constituição brasileira.

Como diz Marilena Chauí, um Estado democrático só se concretiza com uma sociedade democrática. Nesse sentido, as recentes pesquisas eleitorais nos mostram um cenário preocupante que é preciso considerar e, por certo, promover sua transformação.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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