Carlos
Enrique Ruiz Ferreira: O voto da juventude
As
recentes pesquisas eleitorais para 2026 revelam números e tendências
preocupantes para a democracia brasileira. E, como disse Thomas Hobbes, “a
natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa
tendência para chover durante vários dias seguidos”.
Vivemos
sob o signo de um mau tempo para a democracia brasileira. A história política
recente, incluída a tentativa de um golpe de Estado, e as opções eleitorais dos
últimos anos não deixam margens a dúvidas. Mas dentre as últimas pesquisas de
intenção de voto presidencial, parece que um dos temas delicados ainda não
mereceu, por parte dos analistas, toda a reflexão necessária: o voto da
juventude.
Os
dados da Pesquisa Atlas/Bloomberg para as Eleições Presidenciais do Brasil –
2026, de janeiro e, a mais recente, de março, destacam esses números, revelando
um calcanhar de Aquiles para a corrida eleitoral que se aproxima. Trata-se do
fenômeno da juventude neoconservadora.
É hora
de traçar as estratégias e táticas, tendo em conta as múltiplas variáveis nesse
tempo-espaço Brasil/Mundo. Sabemos que há existe uma margem de previsibilidade
com relação à votação a Lula e ao bolsonarismo; a tarefa recai em encontrar os
nichos, os segmentos sociais e demográficos do eleitorado brasileiro, que podem
votar pela democracia, saindo da indecisão ou mudando de lado. Partimos da
premissa de que um desses estratos é a juventude brasileira, muito embora ela
se apresente conservadora.
Apenas
como introdução ao debate, alguns números são estarrecedores. No cenário que
repete os candidatos de 2022, de janeiro de 2026, Jair Bolsonaro atinge 46,6%
pontos percentuais em intenção de votos na faixa de 16 a 24 anos e 56,3% na
idade de 25 a 34. Para a mesma faixa etária, Lula da Silva amarga 16,7% naquela
e 33,4% nesta.
A
partir desse contexto, o intuito deste artigo é observar os dados relativos a
essas faixas etárias e analisá-los. Para tanto, os campos da história e da
ciência política nos auxiliam. Ao longo do percurso, ressaltaremos algumas
variáveis e elementos que podem ajudar a complexificar e explicar melhor o
fenômeno da juventude conservadora, para uma agenda futura de pesquisa. Por
fim, e não menos importante, nos preocuparemos em alertar e instigar as forças
políticas democráticas para a necessidade de disputar com mais inteligência
política os eleitores jovens e recém-adultos e para a criação de políticas
públicas, a longo prazo, de educação para os direitos humanos e democracia.
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A polarização contemporânea
O
fenômeno da ultradireita global constituiu-se como uma realidade indelével e,
tudo indica, resguarda uma estabilidade sociocultural, ou seja, seguirá com
força política expressiva nos próximos anos. O mau tempo da democracia.
No
Brasil, o bolsonarismo sensibilizou toda uma cultura reacionária, colonialista
e conservadora, presente, quer se queira quer não, na gênese sociocultural do
brasileiro (como ensinam autores da estirpe de Marilena Chaui e Jessé de
Souza). Nesse sentido, Bolsonaro não trouxe nada novo, mas, sobretudo,
mobilizou valores conservadores, e muitas vezes violentos e criminosos,
preexistentes.
Por
outro lado, a cultura progressista e de esquerda não perdeu sua robustez. Pelo
contrário, revela resiliência. Cumpre enfatizar que o primeiro governo petista
estabeleceu uma mudança tectônica no comportamento eleitoral. Para além dos
eleitores fiéis da esquerda, Lula conquistou, em boa medida, o coração e mentes
da população mais pobre.
Carlos
Alberto e Lucio Rennó defendem que: “Foi na eleição de 2006 que a população
mais pobre passou a votar de maneira incisiva no candidato do Partido dos
Trabalhadores para presidente”. André Singer sustentou que “foi em 2006 que
ocorreu o duplo deslocamento de classe que caracteriza o realinhamento
brasileiro e estabeleceu a separação política entre ricos e pobres” e que o
“lulismo (…) é (…) o encontro de uma liderança (…) com uma fração de classe, o
subproletariado.
A força
do Partido dos Trabalhadores não pode ser desprezada. Ele detém o segundo maior
número de filiados, perdendo apenas para o MDB. O PT venceu cinco eleições
presidenciais do total de 9, desde a redemocratização. Ainda, nas últimas
eleições de 2022, o PT emplacou 4 de governadores, empatado com o União Brasil.
Atrás deles estiveram o MDB, PSB e PSDB, com 3 cada. Também, nesta última eleição, a maior bancada
da Câmara foi a do PL, com quase 100 deputados federais, seguida pela do PT,
com pouco menos de 70. No Senado o PT ficou em terceiro lugar, perdendo para o
PL e União Brasil.
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Os cenários eleitorais de 2026
Dentre
as pesquisas eleitorais existentes, a que mais possibilita uma análise mais
aprofundada sobre a juventude (e sobre as faixas etárias) é a da
Altas/Bloomberg, nos concentraremos nas que foram divulgadas em janeiro e outra
em março deste ano.
Tertium
non datur, os jovens e recém adultos brasileiros, a contar pelas opções
eleitorais, são politicamente conservadores ou, como preferimos,
neoconservadores.
Os
eleitores das faixas etárias 16-24 e 25-34 anos optam por candidatos da extrema
direita. Lula perde em todos os cenários nessas faixas etárias para seu
principal oponente. Não obstante, a pior performance se observa no segmento de
16 a 24 anos. Lula amarga quase 30 pontos percentuais negativos em relação a
Jair Bolsonaro na pesquisa de janeiro. Seu índice melhora significativamente na
pesquisa de março, perdendo para o ex-presidente por 21,3 pontos.
Outro
dado considerável é que Jair Bolsonaro mantém sua liderança política. Ele
vence, com boa margem, de todos os outros possíveis candidatos da direita ou
extrema direita, inclusive seu filho e, assim, cristaliza sua força no cenário
nacional.
Note-se
que a performance de Flávio Bolsonaro não se alterou substancialmente de
janeiro para março, quando já se tinha muito mais clareza de que seu pai não
disputaria as eleições. A hipótese preliminar é que seu teto é menor do que de
seu pai, a se testar nas próximas pesquisas.
Renan
Santos, um nanico quando se computam os dados gerais – de todas as faixas
etárias – não é desprezível no recorte da juventude. Pelo contrário, revela não
só adesão como uma adesão resiliente. Se Flávio Bolsonaro cresce de forma
irrisória de janeiro a março no público de 16 a 24 anos, com minguados 1,1%,
Renan Santos cresceu 9,6% e Lula 4,6%. Quando vamos para a faixa 25 a 34 anos,
Flávio decresceu 3,7%, Renan cresceu 1,5 e Lula 3 pontos.
De toda
forma, tendo em conta ambas as pesquisas e as faixas etárias, fica claro que o
presidente Lula encontra sua maior dificuldade entre o eleitorado jovem. Não
expusemos aqui os números relativos as demais faixas etárias, que constam nas
pesquisas, mas é relevante considerar que nas outras idades, ou seja, a partir
dos 35 anos, Lula vence em todos os cenários contra seu maior adversário. Mas
cumpre pensar: quais são as possibilidades de disputar melhor os votos dos
jovens?
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O fenômeno da juventude neoconservadora
“O
problema das gerações é importante o suficiente para merecer consideração
séria. É um dos guias indispensáveis para a compreensão da estrutura dos
movimentos sociais e intelectuais” (Karl Mannheim).
Nos
deparamos com o fato de que o Brasil possui uma juventude neoconservadora
significativa. Ela é eleitora do bolsonarismo e se identifica com candidatos da
extrema direita e/ou vê com muitas ressalvas o presidente Lula e o Partido dos
Trabalhadores.
O
conservadorismo se caracteriza como um fenômeno social que cultua os valores do
passado, entendendo-os como superiores aos progressistas e contemporâneos. Ou
seja, reflete “ideias e atitudes que visam à manutenção do sistema político
existente (…), apresentando-se como contraparte das forças inovadoras”. No
Brasil, trata-se de uma disputa em relação aos valores ligados à “família” e
“religião”, tendo como paradigmas conexos as questões de gênero, comportamento
sexual e afetivo e raça.
Boa
parte das pessoas conservadoras entende que seu núcleo de ideias e valores são
superiores a outros e, geralmente, acabam menosprezando culturas diferentes. Em
sua extremidade, atacam pessoas que se pautem por valores mais abertos,
diversos e livres, consumando intolerâncias e violências que, muitas vezes, se
enquadram como crimes. No Brasil contemporâneo, a cultura neoconservadora
procura naturalizar uma série de violências contra os direitos humanos e a
Constituição Federal (chegando ao cume de propor anistiar atos de lesa pátria e
tentativa de golpe de Estado).
Por
fim, devemos considerar que o neoconservadorismo – em escala nacional e mundial
– se ampara e se difunde largamente através do ativismo digital, com uma
sofisticação e eficiência no uso das tecnologias de informação e comunicação.
Grandes corporações utilizam-se de uma diversidade de mídias sociais e redes
digitais para divulgar determinadas narrativas políticas e mobilizar bases
sociais, usando táticas de guerra híbrida. Os jovens, nativos digitais, estão
no centro desse ecossistema digital algorítmico.
Como
fenômeno recente e de significativo impacto social, a existência de uma
juventude neoconservadora merece a realização de estudos e pesquisas mais
densas, para que se entenda seus fatores determinantes. Beatriz Besem (2024),
defende que, embora haja certos padrões observáveis, o “conservadorismo é
multifacetado e requer uma abordagem interseccional, considerando os contextos
sociais e os marcadores sociais da diferença”.
Ou
seja, há uma série de elementos e de variáveis que precisam ser considerados
para que se compreenda melhor esse fenômeno e segmento etário. Pretendemos
voltar a esse tema em outra ocasião, discutindo, por exemplo: a influência da
vida social digital; a participação sociopolítica da juventude em partidos e
movimentos; a influência de uma específica história do tempo presente; o peso
da religião, da educação, e as intersecções de gênero, raça, renda e nível de
escolaridade.
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Os desafios
Ao fim
e ao cabo, temos dois grandes desafios pela frente. Um mais imediato, que
compete à disputa eleitoral presidencial. Como melhor disputar os corações e
mentes desses jovens que se apresentam como neoconservadores? Não é impossível,
e, nesse campo, os temas do aborto, família, gênero e religião serão decisivos.
Quais
devem ser as posturas e acenos de Lula para esse estrato etário? Quando nos
acostamos à compreensão de André Singer de que o “lulismo existe sob o signo da
contradição”, que persiste uma “Conservação e mudança, reprodução e superação,
(…) num mesmo movimento”, precisamos considerar que o presidente possui
características que o permitem dialogar para além das fronteiras eleitorais
progressistas e de esquerda. Esse é um de seus grandes trunfos, e será
determinante na campanha que se aproxima.
O
trabalhador-sindicalista consegue criar uma identificação com setores, senão
conservadores, tradicionalistas. Mas, para que esse embate eleitoral com a
juventude tenha êxito, será necessária toda uma revolução na utilização do
ecossistema digital algorítmico. O presidente precisará disputar e reenquadrar
valores aproximando-se desse público sem descaracterizar seu programa
histórico. Ao passo, é necessário enfatizar as ações realizadas para o público
jovem e traçar uma agenda propositiva que dialogue claramente com as demandas
contemporâneas (educação, emprego, saúde mental, segurança e mobilidade social,
em especial).
Por
outro lado, a longo prazo, as forças políticas e educacionais democráticas
devem conferir ao fenômeno da juventude neoconservadora um status de maior
relevância. É necessário, em primeiro lugar, realizar um diagnóstico amplo e
preciso sobre a juventude brasileira. Logo, será imperativo a criação de
políticas públicas educacionais (desde o ensino fundamental até o superior)
para conter e mitigar a existência de ideias que por muitas vezes violentam os
direitos humanos e a Constituição brasileira.
Como
diz Marilena Chauí, um Estado democrático só se concretiza com uma sociedade
democrática. Nesse sentido, as recentes pesquisas eleitorais nos mostram um
cenário preocupante que é preciso considerar e, por certo, promover sua
transformação.
Fonte:
A Terra é Redonda

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