Escrever
é esperançar
Eric
Arthur Blair nasce em 25 de junho de 1903, na região de Bengala, Índia. Já no
primeiro livro, Na pior em Paris e Londres, de 1933, assina George Orwell. O
sobrenome vem do rio Orwell, que corre no Leste da Inglaterra. O prenome
homenageia George Washington, líder dos patriotas na Guerra de Independência
dos Estados Unidos. O anti-imperialismo do famoso escritor justifica a escolha
do pseudônimo. Cada um sabe onde amarra o sapato.
Em
1949, publica o romance 1984 após refletir sobre as ameaças do totalitarismo,
sintetizado no nazismo e stalinismo. Redige as páginas finais entre períodos de
internação com uma tuberculose. Morre em 21 de janeiro de 1950 em Londres,
ainda aos 46 anos.
Em Por
que escrevo, George Orwell elenca quatro motivos para escrever em tempos
sombrios:
(i) “Puro egoísmo”. O desejo de ser visto como
inteligente, de ser tema das conversas alheias, de ser lembrado, de se vingar
dos adultos que o desdenharam criança, etc.
(ii) “Entusiasmo estético”. A percepção da
beleza no mundo externo e das palavras dispostas com correção, junto ao prazer
com o impacto de sons no ritmo da narrativa e da experiência.
(iii)
“Impulso histórico”. O desejo de ver as coisas como são, de descobrir os fatos
e preservá-los para a posteridade. Brasil: Nunca mais, com Prefácio do saudoso
Dom Paulo Evaristo Arns, tem tal sentido. Em época da Pós-Verdade (Post Truth)
e das fake news essa é uma obrigação moral. (iv) “Propósito político”. O termo
“político” em acepção ampla traduz o desejo de impelir o mundo em uma direção
para alterar a concepção dos outros quanto ao que deveriam almejar para a
sociedade – o socialismo participativo.
A
travessia das motivações do “eu” e seus fantasmas interiores até um “nós”
direcionado para a coletividade, com uma igualdade republicana e uma democracia
social, estetiza afetos e historiciza gestos. Assim, os textos assumem o tom
afirmativo radical da liberdade e o porvir instala-se na própria dimensão do
presente, para barrar o neofascismo, o pesadelo agourento de nossos dias.
A
extrema direita na Europa e nos EUA evoca um nacionalismo exacerbado e
expansionista. Na América Latina e no Brasil utiliza símbolos nacionais, em
especial a bandeira, e oculta o complexo de vira-lata da elite neoliberal. A
nação vira entreposto comercial de potências de vulto. Ao oferecer as terras
raras brasileiras aos interesses norte-americanos, a famiglia que usa a
política como uma profissão comete uma traição lesa-pátria de corar frades de
vitral. Sua única e exclusiva vocação é delinquir e enriquecer.
O país
do extrativismo das riquezas naturais e da exportação de commodities manteve no
desgoverno a disposição subalterna de suprir as megametrópoles, em detrimento
do mercado nativo. As privatizações entreguistas das Refinarias Reman
(Amazônia), Clara Camarão (Rio Grande do Norte) e Landulpho Alves (Bahia)
trazem prejuízos ao retirar o patrimônio público de áreas tão estratégicas – o
controle do refino e da distribuição do petróleo.
A mídia
corporativa abraça as utopias reacionárias que zelam pelas hierarquias
tradicionais de gênero, raça e classe, adotando mais do que a hipocrisia social
no relacionamento com a opinião pública. O gozo aumenta em face do sofrimento
da população com os bombardeios que empoderam a indústria armamentista e a
gentrificação dos territórios em conflito. O passeio de foguete dos bilionários
na pandemia, para se divertir fora da gravidade, ilustra bem o nonsense. “Na
sociedade atual a ideologia dominante é o cinismo”, dispara um filósofo. Haja
despudor na Rede Globo.
A
política que busca o bem comum é fiel à tradição que recende a transparência.
Em contrapartida, a politicagem atende ambições individuais e de grupos para
explorar vantagens sob uma suposta legalidade. É o que se constata em um
Congresso que se arroga as atribuições do regime presidencialista e que pratica
as “emendas parlamentares impositivas”. Eis o vil mentor dos escândalos de
corrupção de grosso calibre que atingem o INSS e o Banco Master. Há que sempre
cortar o mal pela raiz, reza o ditado.
“Combater
os abusos promovidos pela ascensão da direita obtusa passa por desmontar seu
arsenal palavroso, identificando atrás da aparente inovação e espontaneidade os
elementos de cálculo, de falsificação histórica e de perpetuação de elementos
coloniais”, sublinham com acuidade os editores da Expressão Popular ao
prefaciar o ensaio Dialética do marxismo cultural.
A
escrita é um ato de resistência ao eclipse do trabalho pelas big techs e o
rentismo que garantem ao establishment a impunidade por seus crimes, recorrendo
ao método usual: trocar a veracidade pela falsidade. O lawfare é apontada aos
críticos do status quo no desvio de responsabilidades. Régua e compasso
obedecem aos valores estadunidenses e à labirintite de um palhaço sociopata.
A
palavra serve de substrato da política entendida na condição grega de politiká
(“assuntos da pólis”). A ferramenta linguística municia a luta ideológica,
ergue barricadas nos espaços públicos e constrói os laços de solidariedade pela
práxis. Sem a palavra, os conflitos perduram indefinidos; não se convertem em
consensos absolutos e sequer relativos. Cai então um silêncio de morte.
Os
escritos permitem ao particular via poesia e ao universal na forma de panfleto
ou artigo dialogar com a multidão. Fazem com que os indivíduos apareçam como o
sintoma clínico de uma Era, qual a depressão na canção de Noah Kahan ou a
explosão na Fé cega, faca amolada de Milton Nascimento. Despem contradições
para realçar la verità effettuale della cosa e superar a alienação tóxica do
sistema. O que será, será, seja à prestação seja à vista.
O
Estado e as instituições sociais são modificáveis com programa e organização,
em um movimento amplo de ação palavrial pela persuasão. Ao interpelar a vida
privada do indivíduo burguês, o ser social incita à cidadania. Se
escrevinhadores inspiram projetos, sujeitos da história contemporânea surgem no
universalismo dos embates por direitos, a começar pelo tardio fim da escala 6 x
1.
O livre
mercado coloca a pata na dinâmica socioeconômica para alijar a vontade geral. A
antipolítica pretende um horizonte refém perpétuo da mais-valia. Daí incentivar
uma desconfiança com a política e os políticos in totum para pintar todos de
malfeitores. Conforme o prócer do atraso na FIESP, Paulo Skaf: “É bom que o
lado liberal, a direita, tenha bons nomes nessas eleições. Flávio é um
Bolsonaro mais jovem que toma vacina, que não fala palavrão, equilibrado”. A
desfaçatez é a tatuagem das entidades patronais.
Já a
democracia enquanto alavanca de novos direitos está ao lado de Luiz Inácio Lula
da Silva (presidente) e de Geraldo Alckmin (vice). Para a esquerda e os
progressistas, escrever é esperançar.
Fonte:
Por Luiz Marques, em A Terra é Redonda

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