Tarcísio
já paga bônus a PMs em ano eleitoral maior do que a todos os outros servidores
juntos
O
governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem mantido, em 2026, o
privilégio dado a policiais militares ao longo do mandato com a distribuição da
“bonificação por resultados”, um adicional salarial vinculado ao cumprimento de
metas.
A
poucos meses de disputar a reeleição, ele já distribuiu, somente este ano, R$
440 milhões para os integrantes da Polícia Militar do Estado de São Paulo
(PMESP) — o valor pago a todos os outros servidores do Estado juntos é menor do
que isso. A promessa de Tarcísio é alcançar ainda um valor de R$ 609 milhões a
ser pago para policiais em 2026.
Conforme
mostrou a Ponte em uma série de reportagens iniciada no ano passado, Tarcísio
tem pago a bonificação em maior valor e de maneira mais rápida para PMs na
comparação com outros servidores, inclusive em relação a policiais civis e
técnico-científicos.
Além
disso, o bônus tem sido pago aos servidores com base em metas que só são
definidas após o prazo no qual deveriam ter sido cumpridas, o que abre evidente
margem para manipulação e uso político do dinheiro que será distribuído.
Especialistas
e servidores ouvidos pela Ponte já afirmavam ver robustos indícios de que a
bonificação tem sido usada não como um incentivo por méritos e para a
eficiência da máquina pública, mas de modo arbitrário e político — como um
agrado a uma das bases do governador no estado, os policiais, e também como um
aceno ao eleitorado que preza pela militarização da segurança pública.
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PMs receberam o dobro do que correspondem no funcionalismo
Os
policiais civis e técnico-científicos, que, assim como os militares, respondem
à Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP), não receberam valor algum
de bonificação por resultados este ano.
As
outras 22 secretarias estaduais receberam, juntas, R$ 397,3 milhões do início
do ano à última sexta-feira (17/4), conforme consta no Portal da Transparência
do Poder Executivo do Estado de São Paulo. Foram R$ 42,5 milhões a menos do que
receberam os militares.
O
estado de São Paulo tem atualmente cerca de 494,2 mil servidores públicos, dos
quais 80,6 mil são policiais militares (o equivalente a 16,3% do total). Desde
o início de seu mandato, Tarcísio dedicou à Polícia Militar, ainda assim, 34,3%
do que já gastou com a bonificação por resultados, o que significou quase R$
1,3 bilhão de um total de R$ 3,7 bilhões.
Se o
governador tivesse repassado aos policiais militares um valor equivalente à sua
representatividade no funcionalismo público, eles teriam recebido R$ 665,9
milhões a menos — ou seja, menos da metade do que o montante efetivamente pago.
Já a
Secretaria da Saúde, por exemplo, com 43,1 mil servidores, teria tido direito a
R$ 180,3 milhões a mais — esse dado e de outras secretarias foram tabulados
pela Ponte
Somente
a Secretaria da Educação teve uma fatia maior do bônus já pago por Tarcísio
(39,5%), com R$ 1,5 bilhão. No entanto, essa é justamente a maior pasta do
governo estadual, com 227,8 mil trabalhadores (46,1% do total).
Além
disso, no primeiro ano de mandato de Tarcísio, ele precisou quitar R$ 192,8
milhões de bonificação para a Educação que haviam sido empenhados pelo
governador anterior, Rodrigo Garcia (PSDB), e que não foram pagos no prazo
esperado, em 2022.
Se
considerados, portanto, apenas os valores empenhados por Tarcísio para o bônus
(ou seja, reservados no orçamento público por decisão dele), a PM abocanhou
32,4% do total (o equivalente a R$ 1,25 bilhão), enquanto a Secretaria de
Educação teve apenas 32,7% (R$ 1,27 bilhão).
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Tarcísio paga bonificação a policiais militares com maior rapidez
Para
que a bonificação seja paga aos servidores de cada secretaria, uma Comissão
Intersecretarial da Bonificação por Resultados (CIBR) deve publicar no Diário
Oficial do Estado de São Paulo (DOE-SP) uma deliberação com as metas a serem
cumpridas em determinado período.
O
benefício só pode ser pago, no entanto, após uma segunda publicação no DOE-SP,
na qual a própria secretaria ou autarquia envolvida divulga uma nota técnica em
que detalha quais objetivos foram ou não alcançados, a partir de um cálculo
feito por uma comissão setorial do próprio órgão.
Não há
na legislação um calendário unificado de pagamento, o que faz com que algumas
secretarias tenham um processo mais rápido do que outras. Nesse processo, a
PMESP também tem sido privilegiada.
Em
2026, os policiais militares já receberam uma bonificação relativa a metas
cumpridas no ano passado. A deliberação com os objetivos dos PMs foi publicada
no DOE-SP em 24 de março deste ano, enquanto a nota técnica consolidando
resultados saiu três dias depois.
As
demais autarquias e secretarias só tiveram as metas de 2025 publicadas na
última sexta, um dia após a Ponte ter questionado a Casa Civil sobre a
prioridade dada à Polícia Militar.
Ainda
não foram publicadas, no entanto, as notas técnicas referentes a esses órgãos,
o que permitiria que o bônus fosse efetivamente pago aos demais servidores,
conforme a Ponte identificou a partir de um levantamento próprio de portarias e
resoluções publicadas no DOE-SP.
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Governador já vinculou bonificação a contenção de greves
No
último dia 10, o governo Tarcísio anunciou que pretende pagar agora em abril R$
1 bilhão em bonificação para a Educação. O anúncio veio na mesma data em que o
Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp)
votaria a continuidade ou não de uma greve iniciada no dia anterior — a
paralisação acabou sendo encerrada.
O
governador já havia usado essa estratégia anteriormente. A bonificação de 2024
dos servidores da Educação só foi paga no dia 25 de abril de 2025, para quando
o Apeoesp, a maior entidade sindical da rede estadual de ensino, previa já há
três semanas realizar uma greve.
Também
no ano passado, a Secretaria da Saúde estabeleceu, em 29 de agosto, os
objetivos de seus servidores para 2024. Já a nota técnica do que foi alcançado
naquele ano só foi publicada no DOE-SP em 21 de janeiro de 2026, quase cinco
meses depois.
A
consolidação desses resultados da Saúde só veio após intensa mobilização dos
servidores. Conforme noticiou a Ponte, o governo Tarcísio chegou a prometer que
faria o pagamento do bônus em setembro do ano passado, promessa que não foi
cumprida. À época, o anúncio buscava conter uma greve prevista para junho pelo
Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde do Estado de São Paulo
(SindSaúde-SP).
Desde
2008, quando a bonificação passou a ser adotada em São Paulo, entidades
sindicais afirmam haver um uso político dela, que varia em valor e rapidez a
depender da conjuntura.
Além
disso, o bônus não está incorporado ao salário e, portanto, não reflete em
outros vencimentos, como a aposentadoria — em razão disso, ele é visto como uma
manobra para não repor perdas salariais, nem estruturar carreiras no
funcionalismo público.
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Política de bônus tem metas questionadas e transparência frágil
Conforme
mostrou a Ponte, o bônus dado aos policiais ignora, entre os critérios exigidos
para a recompensa, o combate a crimes como tráfico de drogas, estupro,
estelionato, sequestro, lesão corporal seguida de morte e posse ilegal de arma
de fogo, entre outros.
A Ponte
também revelou que, no governo Tarcísio, a bonificação por resultados tem sido
paga sem transparência sobre dados simples, como o número de pessoas
contempladas e o valor ao qual cada uma teve direito.
O
Portal da Transparência do Poder Executivo paulista mostra apenas dados totais
de quanto foi empenhado, liquidado e pago com o bônus de 2022 para cá, sem
detalhar, por exemplo, qual período de metas cumpridas está contemplado pelos
valores ali mencionados.
A
divisão da bonificação cedida a cada secretaria não é igualitária entre os
servidores vinculados a ela, conforme relatam os trabalhadores — eles são
avisados pelo governo estadual apenas sobre o que foi pago a si próprio, mas
trocam informações de maneira informal.
Em
tentativas via Lei de Acesso à Informação (LAI) feitas desde março do ano
passado, a Ponte também não conseguiu obter o detalhamento do gasto, o que tem
sido negado pela gestão Tarcísio. Em geral, o governo alega nas respostas que a
solicitação exigiria “trabalho adicional de análise”.
É
possível saber apenas que, em 2026, cada policial pôde receber até R$ 15.205,20
de bônus, o equivalente a 120 Unidades Básicas de Valor (UBV), conforme o
governador definiu em um decreto.
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Reajuste salarial para policiais no limite da lei eleitoral
Ainda
em 2026, Tarcísio já sancionou um projeto de lei que reestrutura carreiras e dá
um reajuste linear de 10% às polícias Militar, Civil e Técnico-Científica.
Somente este ano, isso deverá custar R$ 1 bilhão aos cofres públicos. Nos
próximos dois anos, o impacto chegará a R$ 1,75 bilhão.
A
sanção de Tarcísio ao projeto se deu no dia 2 de abril, após o texto ter sido
aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) em regime
de urgência. A legislação eleitoral proíbe a concessão de aumento a servidores
nos seis meses anteriores às eleições, exceto para a reposição de perdas
inflacionárias, prazo que passou a ser contado em 7 de abril.
Servidores
de outras pastas tiveram um último reajuste com Tarcísio em junho do ano
passado, de 5%, ocasião em que policiais também foram contemplados.
Há um
entendimento entre os policiais, ainda assim, que a categoria é desvalorizada
se comparado ao que é pago pelas polícias de outros estados. A insatisfação é
maior entre os militares de baixa patente, os praças, que são submetidas a
jornadas mais exaustivas e cumprem expediente expostos nas ruas.
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O que diz o governo Tarcísio
A Ponte
questionou a Casa Civil do governo Tarcísio se entende que policiais militares
têm sido privilegiados com o bônus, se eles têm dado mais resultados do que
outros servidores estaduais, se pretende equiparar as recompensas entre todos
os servidores e se compreende que a definição de metas após o prazo para
cumprimento delas abre margem para manipulação.
Em
resposta, a pasta chefiada pelo secretário Nerylson Lima, que auxilia
diretamente o governador, limitou-se a dizer que a bonificação por resultados
tem “o objetivo de promover o desenvolvimento organizacional a partir da
evolução positiva dos indicadores de cada órgão”. E afirmou que “a distinção
dos diferentes modelos de bonificação atende às especificidades de cada área de
atuação”.
A Casa
Civil ainda comunicou, embora não tenha sido questionada, que “a diferença de
valores pagos à Polícia Militar e à Polícia Civil está diretamente vinculado ao
tamanho dos contingentes de cada corporação”. Os números não sustentam, no
entanto, essa alegação.
Os
integrantes da SSP-SP, excluídos os policiais militares, correspondem a 6% dos
servidores estaduais e receberam 8,5% do montante já pago por Tarcísio com o
bônus. Se tivessem recebido mais que o dobro do que representam no
funcionalismo, assim como foi com a PM, teriam tido direito a R$ 153 milhões a
mais.
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Leia a íntegra do que diz a Casa Civil
O
Programa de Bonificação por Resultados – BR é uma política de Estado adotada há
quase 20 anos em São Paulo com o objetivo de promover o desenvolvimento
organizacional a partir da evolução positiva dos indicadores de cada órgão. A
distinção dos diferentes modelos de bonificação atende às especificidades de
cada área de atuação, conforme estabelecidos nas leis estaduais e decretos que
regulam as medidas. Em relação às forças de segurança, a bonificação é aplicada
em função da redução dos índices criminais e à atuação direta no policiamento
ostensivo, principal fator de impacto nesses indicadores e realizada pela PM. É
importante ressaltar, ainda, que a diferença de valores pagos à Polícia Militar
e à Polícia Civil está diretamente vinculado ao tamanho dos contingentes de
cada corporação. Os dados referentes aos pagamentos de bonificação no Estado de
São Paulo são transparentes e estão disponíveis no site
https://www.sggd.sp.gov.br/br.
Fonte:
Ponte Jornalismo

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