A
Conjuração Mineira e suas luzes
Imaginem
Vila Rica. Mês de maio, por volta de 8 horas da noite. Tudo ermo. Alguém – não
se sabe se homem ou mulher – foi visto caminhando pelas vielas. Vestia capa
preta comprida, um chapelão desabado sobre os olhos. Levava uma lanterna e
tinha pressa. Foi à casa de Cláudio Manuel da Costa e o avisou da porta que a
Conjuração tinha sido descoberta, Tiradentes estava preso, e eles corriam
perigo. Na casa de Gonzaga, deixou recado com Antônia da Costa, negra forra que
cuidava dos afazeres domésticos. Na urgência de informar ao tenente-coronel
Domingos de Abreu Vieira sobre a prisão de Tiradentes, errou de endereço,
encontrou uma porta entreaberta e entrou no vizinho. No topo da escada
deparou-se com a esposa do dono da casa, percebeu o engano, praguejou baixinho
e precipitou-se para a rua. Desapareceu no ar como a neblina. Nunca mais se
soube dele.
O
“Embuçado”, nome pelo qual o personagem ficou conhecido, percorreu Vila Rica
possivelmente na noite de 17 de maio de 1789 alertando que a Conjuração tinha
sido descoberta. Esse foi o primeiro movimento anticolonial da América
portuguesa de fôlego no campo das idéias e o primeiro a adaptar um projeto
claramente republicano. Essa Conjuração – disso às vezes nos esquecemos –
antecedeu a Revolução Francesa.
Os
conjurados esquadrinharam um repertório político e intelectual cosmopolita que
mobilizava autores próprios da tradição republicana, com influência formadora
sobre suas duas matrizes modernas, a norte-americana e a francesa. Como
ocorreu, por exemplo, no caso de Montesquieu que estava na estante de pelo
menos três bibliotecas decisivas para a construção do repertório dos
conjurados.
Também
alimentaram seu projeto político com temas característicos do Humanismo Cívico
– em especial, o pensamento da primeira geração de humanistas, de Petrarca a
Alberti. E naturalmente, muitos conjurados identificavam-se com o repositório
originário da cultura política portuguesa – a natureza pactária de sua
Monarquia, por exemplo.
E
introduziram argumentos de autonomia retirados de suas próprias tradições.
Como, por exemplo, o propósito de reatualizar o pacto político com a Coroa
portuguesa, reavivando a mitologia em torno do auto-engrandecimento dos
paulistas, durante o levante Emboaba, sob a justificativa de que haviam
conquistado e ocupado a capitania para o Império. Aliás, como disse com todas
as letras, Cláudio Manuel da Costa, no poema “Vila Rica”: “(…) Estas
conquistas,/A quem se deverá mais que aos Paulistas?”
Mas
quando foi preciso alinhavar escolhas e construir soluções para planejar o
cenário de ruptura com Portugal e dar forma política a um novo tipo de governo
nas Minas, eles acrescentaram a esse repertório o composto inédito de formas de
pensar e de agir surgidas da Revolução Americana. Vitoriosa, a Revolução
Americana encontrava-se, nos anos que antecederam a Conjuração Mineira, em
pleno processo de criação institucional, buscando construir estruturas
republicanas de governo capazes de expressar os princípios que os colonos
haviam defendido na luta contra o Império britânico.
O
entendimento do atributo da soberania foi o fermento da Conjuração mineira.
Supõe a criação de uma comunidade territorial com comando interno e autonomia
em relação às potencias estrangeiras, a fundação de um corpo político próprio –
o Estado – e a capacidade de criar, alterar e revogar suas leis. “As Minas
podiam viver independentes do governo de Portugal”, explicava entusiasmado, o
alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em 1789, utilizando um
argumento que prometia muito e cheirava a pólvora: “[As Minas] eram um país,
como não havia outro, que tinham todas as riquezas em si e que não precisavam
doutro país para sua subsistência (…) poderiam ser uma República e conseguir a
liberdade […]”
Os
conjurados mineiros infundiram à palavra “liberdade”, um afeto político que
expressa mais do que um propósito de poder. Em um de seus depoimentos durante
os interrogatórios da Devassa, Luis de Toledo Pisa, confessou seu delito
sustentado por esse afeto. Ele confirmou a adesão à Conjuração porque a
participação na vida pública era algo extraordinário e, quando alguém toma
parte na execução de uma ação política, abre para si uma dimensão nova e
exaltante da experiência humana. “A liberdade era amável”, resumiu.
O amor
pela liberdade comprometeu os conjurados com um afeto que faz exigências
políticas. Ele se manifesta numa presteza de partilhar o mundo com outros
homens. Foi a base para incluir, na pauta do debate político das Minas, outro
princípio formulado pela matriz do republicanismo norte-americano: a
positivação de direitos considerados inerentes ao indivíduo e aplicáveis a
todos, exclusivamente por conta de seu status como seres humanos.
Mas o
problema era muito maior. Os direitos estavam emaranhados com a escravidão.
Faltou aos conjurados o pensamento antiescravocrata. Eles temiam interferir no
sistema escravista por razões econômicas; mas, também por medo de que qualquer
alteração nesse sistema servisse para fomentar a insurreição escrava.
Apesar
disso, a Conjuração Mineira conseguiu debater sobre a escravidão sem separá-la
de uma reflexão política. A escravidão era a contraface da liberdade – e, com
esse argumento, Alvarenga Peixoto abriu uma brecha inesperada de discussão com
Álvares Maciel. Se você declarar livres os escravizados nascidos nas Minas,
dispostos a portar armas contra Portugal e em apoio à Conjuração, Alvarenga
argumentou, isso não servia apenas para resolver o problema estratégico do
número de homens necessários ao levante militar; serviria também para
distinguir o que significa viver sob grilhões ou em um estado de liberdade – e
Alvarenga apostava nisso para afastar a ameaça do potencial levante de escravos
anunciado por Álvares Maciel.
As
ideas da Conjuração trafegaram, pela capitania, a partir de três centros
nervosos de transmissão: as Comarcas de Vila Rica, Rio das Mortes e Serro do
Frio. As idéias se movimentavam e as informações se espalhavam de boca em boca
e por dentro da estrutura social graças à singularidade de um ambiente urbano
em que públicos distintos se cruzavam e andavam ombro a ombro por toda a parte.
As idéias circularam e encontraram adesão entre os membros da elite econômica –
fazendeiros, comerciantes, contratadores – além dos letrados – poetas, médicos,
naturalistas, engenheiros – dos padres e cônegos, e dos militares de variada
patente. Mas, circulavam também entre a faixa mais heterogênea da população e
tinham o poder de erodir a lealdade de mineradores, pequenos comerciantes,
músicos, artesãos, clérigos, tropeiros ou lavradores, para com a Coroa
portuguesa.
Nós não
sabemos a data precisa em que a Conjuração tomou forma. Provavelmente em algum
momento entre 1781 – o ano em que estudantes mineiros e cariocas, em Coimbra,
criaram uma associação secreta e juraram dedicação à causa da soberania da
colônia – e 1788, quando o projeto de criar uma República nas Minas passou a
ser expressamente debatido em reuniões realizadas na capitania.
O
gatilho que deflagrou a Conjuração combinava fatores de natureza distinta –
político e administrativa, econômica e cultural –, com capacidade de impacto
variada, mas capaz de atingir todas as camadas da estrutura social da
capitania. Existia, de longa data, o rigor de uma política metropolitana que
desconsiderava a realidade da queda da produção do ouro e descartava a criação
de projetos alternativos para a exploração do potencial econômico das Minas.
E havia
fatores de natureza conjuntural. O desastre político representado pela
administração do governador Luís da Cunha Meneses que afastou a elite local das
possibilidades lucrativas oferecidas pelo contrabando e, no lugar, instalou
seus apaniguados.
O outro
fator: a imposição da “Derrama” – o tributo cobrado por Lisboa no intento de
completar as 100 arrobas da cota anual de ouro devida à Coroa e que incidia
sobre toda a população. Num momento de recessão provocado pelo declínio da
produção do ouro, Portugal insistia na imposição da “Derrama”.
Ninguém
sabia ao certo como seria a cobrança, mas havia muita especulação; e era o caso
de fazer as contas: se Lisboa resolvesse cobrar todas as parcelas atrasadas, a
fatura poderia sair por volta de oito toneladas de ouro – em torno de 46 g. de
ouro para serem pagas pelos homens livres da capitania. Já a cobrança da dívida
dos contratadores subia a 5,1 toneladas de ouro. Era possível identificar
sinais de um desastre iminente; o ar estava carregado de rumores e a
temperatura política chegou ao ponto de ebulição.
A
Conjuração teria início com um motim – marcado para ocorrer no mês de
fevereiro, em Vila Rica, quando fosse imposta a Derrama. Uma vez vitoriosos, os
conjurados deflagrariam a rebelião por toda a capitania. Isso incluía o anúncio
de uma nova política – a declaração de independência das Minas – e a definição
dos instrumentos necessários para sua implantação sob a forma da República.
Os
conjurados sustentaram seu planejamento militar baseado na premissa de que
estratégica e logisticamente Portugal estava em desvantagem: não seria fácil,
nem barato, manter o deslocamento de tropas através do Atlântico e, em seguida,
por terra, para o interior da América portuguesa. A posição estratégica das
Minas – entre o litoral e o interior e entre o Rio de Janeiro e Salvador – e a
proteção natural das montanhas permitiam a montagem de um sistema defensivo em
profundidade que incluía duas pontas. Uma, o fechamento das “bocas” das Minas:
o “Caminho Velho” e o “Caminho Novo” pelos conjurados da Comarca do Rio das
Mortes; o “Caminho dos Currais do São Francisco” pelos conjurados da Comarca do
Serro do Frio.
A
outra, a utilização do recuo tático e da “guerra do mato”, que hoje chamamos
por guerrilha, nas montanhas do Distrito Diamantino onde imperavam os
garimpeiros, as quadrilhas de salteadores e os contrabandistas – para azar da
Coroa, boa parte envolvida no emaranhado de relações sediciosas estabelecidas
por Padre Rolim. Era um planejamento que guardava semelhança estratégica e
parecia inspirar-se no êxito norte-americano na Guerra de Independência. A
expectativa não era a de vencer no campo militar e expulsar as tropas
portuguesas; era a de exaurir Portugal, inclusive economicamente, forçando
Lisboa a negociar.
Em
1789, a Conjuração Mineira fracassou. Entre março e junho de 1789, ocorreram as
delações e, a partir de então, uma parte dos conjurados foi presa. Sobrevieram
as Devassas, os interrogatórios, a morte suspeita de Cláudio Manuel da Costa, o
desterro na África, a prisão perpétua em Portugal para réus eclesiásticos e o
enforcamento de Tiradentes.
Cabe
lembrar. Conjuração é um tipo de conspiração: a disposição de depor o
governante, tentar tomar a liberdade e chegar ao poder pelo caminho encurtado
da ação violenta. Inconfidência é crime de lesa majestade de primeira cabeça –
significa ser infiel ao soberano, traição contra a vida do rei ou de seus
representantes e contra a segurança do Estado português.
Uma vez
esmagada a Conjuração Mineira, sobraram as ideias e a “estranha potência das
palavras”, definiu Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência. “América”,
“Pátria”, “Autogoverno”, “Liberdade”, “República” firmaram-se no centro de uma
linguagem do mundo público. E continuaram a ser falada, em voz alta, no Rio de
Janeiro, em 1794, e em Salvador, em 1798 – as Conjurações do Rio de Janeiro e
Baiana.
E
então, no dia 3 de março de 1817, a República foi proclamada no Brasil – no
Recife. Em 3 de maio, a República do Crato foi instalada, no Ceará. Começava o
ciclo revolucionário da Independência – “A nossa outra independência”, como
definiu o historiador Evaldo Cabral de Mello.
Muito
obrigada.
Fonte:
Por Heloísa Starling, em Outras Palavras

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