História
sem historiadores
Dia 21
de abril de 2026, feriado nacional no Brasil. Dia em homenagem a Joaquim José
da Silva Xavier (1746-1789), popularmente conhecido como Tiradentes. Um dia
para rememorar, no tempo cíclico da cultura política nacional, o desejo de
liberdade propagandeado pelos Inconfidentes Mineiros (1788-1789), que buscavam
libertar a colônia brasileira (ou seria apenas Minas Geras?) dos mandos e
desmandos da Metrópole portuguesa.
Após o
almoço, ao ligar a televisão, começava o Jornal Hoje, telejornal vespertino da
Rede Globo de televisão transmitido para todo o país. Entre uma informação
internacional e outra, entre notícias de acidentes em rodovias federais, a
fiscalização do descarte correto de resíduos em Fortaleza e assaltos em São
Paulo, foram exibidas as seguintes matérias:
Mato
Grosso do Sul: A tradição da rapadura resiste em engenhos de madeira
construídos à mão. Em uma área tida como uma das maiores produtoras de
cana-de-açúcar do país, a fabricação artesanal foi apresentada como um
“mergulho no tempo” e uma valorização da tradição.
Em
Brasília, o Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal (PF)
validou a autenticidade de anotações identificadas em um livro raro, publicado
em língua francesa no século XVIII. O laboratório de criminalística da PF
confirmou que as anotações contidas no livro (a chamada marginalia) eram de
autoria de Tiradentes. O laudo é um triunfo da técnica pericial, mas o processo
encerrou-se na análise grafológica e físico-química; a interpretação das ideias
do mártir da Inconfidência e o peso político de suas notas ficaram sem análise.
Ainda
na Capital da República, outra matéria divulgou que o Arquivo Público de
Brasília realiza o restauro de registros fílmicos antigos antes e depois da
construção da cidade, “devolvendo a cor original das imagens” perdidas com o
tempo. O trabalho somente é possível graças a um equipamento importado dos
Estados Unidos, adquirido recentemente pela instituição.
No
Centro Cultural São Francisco, em João Pessoa, o destaque foi a recuperação de
seis nichos de azulejos portugueses, datados do século XVIII, localizados no
muro do adro da Igreja de São Francisco. A matéria, detalhou o minucioso
trabalhado da equipe de restauração, mostrando “todos os detalhes e todas as
etapas de recuperação dos painéis”. Entretanto, não foram abordados os
significados iconográficos nem as mensagens teológicas e sociais por trás das
peças.
Por
fim, em Recife, foi exibida a material sobre a casa de Clarice Lispector que
pode virar museu. O sobrado, localizado na Praça Maciel Pinheiro – onde a
escritora nascida na Ucrânia e radicada no Brasil morou na infância e início da
adolescência –, encontra-se atualmente abandonado. Por iniciativa de
interessados que criaram a Associação Casa Clarice Lispector, busca-se
pressionar os poderes instituídos para a criação de um museu em homenagem à
escritora. A associação possui um projeto aprovado na Lei Rouanet para captar
recursos voltados à criação do museu.
Foram
cinco matérias abordando temas históricos em diferentes regiões e cidades do
país, com grande destaque para os equipamentos e as técnicas utilizadas para a
preservação e para a confirmação da autenticidade pretérita, mas em nenhuma das
reportagens exibidas havia uma historiadora ou um historiador, nem foi feita
menção a esse profissional.
Isso
não significa dizer que essas histórias sejam falsas, ou que a histórias desses
locais eram falhas ou ruins por uma eventual falta de uma historiadora ou
historiador na equipe de pesquisa, no quadro de funcionários ou no grupo de
prestadores de serviços.
Todavia,
chama atenção como vivemos um momento em que o conhecimento histórico desfruta
de uma presença quase ubíqua, pois temos a história como elemento principal em
filmes, séries, HQs, podcasts, músicas, videoclipes e memes, isso sem falar nos
suportes tradicionais: livros, jornais e revistas. Entretanto, o mais
surpreendente de toda essa situação é a grande valorização da história e o
desprezo ou, em alguns casos, a exclusão dos profissionais da área.
Em
síntese, no Brasil, mesmo com a regulamentação da profissão de historiador,
experimentamos um fenômeno crescente, que agora ganha contornos mais complexos
com a ascensão da Inteligência Artificia, similar ao que está acontecendo em
outros partes do mundo, ou seja, vivenciamos a história sem historiadores.
Fonte:
Por Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos, em A Terra é Redonda

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