sábado, 25 de abril de 2026

História sem historiadores

Dia 21 de abril de 2026, feriado nacional no Brasil. Dia em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier (1746-1789), popularmente conhecido como Tiradentes. Um dia para rememorar, no tempo cíclico da cultura política nacional, o desejo de liberdade propagandeado pelos Inconfidentes Mineiros (1788-1789), que buscavam libertar a colônia brasileira (ou seria apenas Minas Geras?) dos mandos e desmandos da Metrópole portuguesa.

Após o almoço, ao ligar a televisão, começava o Jornal Hoje, telejornal vespertino da Rede Globo de televisão transmitido para todo o país. Entre uma informação internacional e outra, entre notícias de acidentes em rodovias federais, a fiscalização do descarte correto de resíduos em Fortaleza e assaltos em São Paulo, foram exibidas as seguintes matérias:

Mato Grosso do Sul: A tradição da rapadura resiste em engenhos de madeira construídos à mão. Em uma área tida como uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar do país, a fabricação artesanal foi apresentada como um “mergulho no tempo” e uma valorização da tradição.

Em Brasília, o Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal (PF) validou a autenticidade de anotações identificadas em um livro raro, publicado em língua francesa no século XVIII. O laboratório de criminalística da PF confirmou que as anotações contidas no livro (a chamada marginalia) eram de autoria de Tiradentes. O laudo é um triunfo da técnica pericial, mas o processo encerrou-se na análise grafológica e físico-química; a interpretação das ideias do mártir da Inconfidência e o peso político de suas notas ficaram sem análise.

Ainda na Capital da República, outra matéria divulgou que o Arquivo Público de Brasília realiza o restauro de registros fílmicos antigos antes e depois da construção da cidade, “devolvendo a cor original das imagens” perdidas com o tempo. O trabalho somente é possível graças a um equipamento importado dos Estados Unidos, adquirido recentemente pela instituição.

No Centro Cultural São Francisco, em João Pessoa, o destaque foi a recuperação de seis nichos de azulejos portugueses, datados do século XVIII, localizados no muro do adro da Igreja de São Francisco. A matéria, detalhou o minucioso trabalhado da equipe de restauração, mostrando “todos os detalhes e todas as etapas de recuperação dos painéis”. Entretanto, não foram abordados os significados iconográficos nem as mensagens teológicas e sociais por trás das peças.

Por fim, em Recife, foi exibida a material sobre a casa de Clarice Lispector que pode virar museu. O sobrado, localizado na Praça Maciel Pinheiro – onde a escritora nascida na Ucrânia e radicada no Brasil morou na infância e início da adolescência –, encontra-se atualmente abandonado. Por iniciativa de interessados que criaram a Associação Casa Clarice Lispector, busca-se pressionar os poderes instituídos para a criação de um museu em homenagem à escritora. A associação possui um projeto aprovado na Lei Rouanet para captar recursos voltados à criação do museu.

Foram cinco matérias abordando temas históricos em diferentes regiões e cidades do país, com grande destaque para os equipamentos e as técnicas utilizadas para a preservação e para a confirmação da autenticidade pretérita, mas em nenhuma das reportagens exibidas havia uma historiadora ou um historiador, nem foi feita menção a esse profissional.

Isso não significa dizer que essas histórias sejam falsas, ou que a histórias desses locais eram falhas ou ruins por uma eventual falta de uma historiadora ou historiador na equipe de pesquisa, no quadro de funcionários ou no grupo de prestadores de serviços.

Todavia, chama atenção como vivemos um momento em que o conhecimento histórico desfruta de uma presença quase ubíqua, pois temos a história como elemento principal em filmes, séries, HQs, podcasts, músicas, videoclipes e memes, isso sem falar nos suportes tradicionais: livros, jornais e revistas. Entretanto, o mais surpreendente de toda essa situação é a grande valorização da história e o desprezo ou, em alguns casos, a exclusão dos profissionais da área.

Em síntese, no Brasil, mesmo com a regulamentação da profissão de historiador, experimentamos um fenômeno crescente, que agora ganha contornos mais complexos com a ascensão da Inteligência Artificia, similar ao que está acontecendo em outros partes do mundo, ou seja, vivenciamos a história sem historiadores.

 

Fonte: Por Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos, em A Terra é Redonda

 

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