quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Cresce entre jovens índice de ansiedade no Brasil

De acordo com análise da Folha de S.Paulo a partir de dados da Raps (Rede de Atenção Psicossocial) do SUS de 2013 a 2023,  pela primeira vez no Brasil, os números de casos entre pessoas com 10 a 19 anos superaram os dos adultos. Enquanto a incidência de transtornos de ansiedade entre pessoas com mais de 20 anos está 112,5 a cada 100 mil habitantes, este número salta para 125,8 entre jovens de dez a 14 anos e alcança 157 entre adolescentes. Essa mudança coloca os jovens na dianteira de uma crise de saúde mental que escalou de forma alarmante, superando os adultos em 2022.

A psicóloga Laryssa Galvão ressalta que o quadro é responsável por afetar, não apenas o bem-estar emocional dos jovens, mas também seu desempenho acadêmico e suas relações pessoais. Por conta deste quadro, a especialista aponta que entender as causas e os impactos desse fenômeno é crucial para oferecer o suporte necessário e promover um desenvolvimento saudável durante a adolescência.

"Embora a maioria dos adolescentes desfrute de boa saúde mental, diversas transformações físicas, emocionais e sociais, como exposição à pobreza, abuso ou violência, podem aumentar a vulnerabilidade deles a problemas de saúde mental. Por isso, é essencial promover o equilíbrio psicológico e protegê-los de experiências adversas e fatores de risco que possam prejudicar sua capacidade de se desenvolver plenamente", alerta.

Os adolescentes podem experimentar uma variedade de sintomas ao lidar com a ansiedade, como dificuldades para adormecer ou insônia, sentimentos frequentes de inquietação ou nervosismo, dores de cabeça, dificuldade de concentração, desconfortos abdominais ou sensação de náusea.

"Além disso, você pode se sentir irritável, suar excessivamente, ter batimentos cardíacos acelerados, formigamento nas mãos ou sensação de tontura. Outro sintoma comum é a dificuldade em controlar preocupações persistentes ou pensamentos intrusivos, além de evitar situações cotidianas por causarem ansiedade. Esses sinais indicam a importância de buscar apoio para gerenciar a ansiedade e promover o bem-estar mental", pontua a psicóloga.

De acordo com o último grande mapeamento global de transtornos mentais, realizado pela Organização Mundial da Saúde, o Brasil possui a população com a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo. Aproximadamente 9,3% dos brasileiros sofrem de ansiedade patológica. Em seguida, aparece o Paraguai (7,6%), Noruega (7,4%), Nova Zelândia (7,3%) e Austrália (7%).

A especialista esclarece que a ansiedade frequentemente surge de uma combinação entre fatores genéticos (histórico familiar) e ambientais (eventos de vida). "Os transtornos de ansiedade são comuns e afetam muitas pessoas. A melhor atitude que você pode tomar é compartilhar seus sentimentos com alguém de confiança. Conversar com pais ou responsáveis, professores, amigos ou outro adulto próximo, além de consultar um médico. Eles podem oferecer suporte e ajudá-lo a encontrar estratégias para lidar com isso", observa.

Já sobre o tratamento, Laryssa explica que deve existir a oferta de serviços por equipes supervisionadas e treinadas para lidar com as necessidades específicas dos adolescentes, enquanto a prescrição de medicamentos psicotrópicos deve ser cuidadosa e reservada apenas para casos de saúde mental moderada a grave.

"Quando as intervenções psicossociais se mostrarem ineficazes e forem clinicamente recomendadas, sempre com consentimento informado. O tratamento deve ser supervisionado por especialistas e acompanhado de perto para mitigar potenciais efeitos adversos", alerta.

 

•        Transformação digital na saúde revoluciona a divulgação de médicos com novas estratégias de marketing

Impactando os mais diversos setores do mercado, a transformação digital está transformando a área da saúde. Com a criação de novas tecnologias e o aumento do uso da internet, médicos e clínicas passaram a adotar novas estratégias para se conectar com pacientes e promover seus serviços.

Consultas online, telemedicina e agendamentos digitais tornaram-se comuns, criando uma demanda por maior presença online por parte dos profissionais de saúde. A adaptação a essas mudanças não é apenas uma questão de conveniência, mas uma necessidade para manter a competitividade e atrair novos pacientes.

Segundo um levantamento do New York Times, em 2022, os gastos em publicidade de saúde nos EUA foram de US$22,4 bilhões. Espera-se que esse valor aumente para US$29,2 bilhões até 2028.

De acordo com Eduardo Rodriguez, CEO da M.SEO Marketing, agência com foco na área da saúde, o marketing digital oferece uma variedade de ferramentas e estratégias que podem ajudar médicos a se destacarem no mercado. “A criação de sites otimizados para motores de busca como Google, a produção de páginas informativas para o público em geral, blogs educativos e o uso de mídias sociais para engajamento com pacientes são apenas algumas das inúmeras possibilidades. Essas estratégias aumentam a visibilidade, além de estabelecer credibilidade e confiança entre os pacientes”, revela.

<><> A nova fronteira da divulgação

O especialista em marketing e comunicação acredita que as redes sociais têm um papel crucial na divulgação de médicos e clínicas. “Plataformas como Instagram, Facebook e LinkedIn permitem que os profissionais de saúde compartilhem informações, publiquem depoimentos de pacientes e interajam diretamente com o público. Postagens regulares, vídeos educativos e lives atraem seguidores e transformam visitantes em pacientes”, afirma.

O SEO (search engine optimization) é uma estratégia fundamental para que médicos sejam encontrados facilmente em buscas online. “Produzir conteúdo de qualidade, como artigos para blogs e vídeos informativos, além de implementações de tecnologia e códigos específicos aplicados estrategicamente ao site, ajudam a melhorar o seu posicionamento nos motores de busca e atrai tráfego orgânico para os sites dos profissionais de saúde. Além disso, responder a perguntas frequentes e fornecer informações úteis estabelece o médico como uma autoridade no assunto”, declara.

Para Eduardo, as avaliações online são um fator decisivo na escolha de um profissional de saúde. “Sites de avaliação e feedback de pacientes são consultados por muitos antes de agendar uma consulta. Incentivar pacientes satisfeitos a deixarem avaliações positivas pode aumentar significativamente a credibilidade e atrair novos usuários”, pontua.

<><> O futuro do marketing na medicina

Segundo o CEO, a transformação digital na saúde é uma realidade inevitável, e o marketing digital está no centro dessa mudança. “Médicos e clínicas que adotam essas estratégias se adaptam às novas demandas, encontrando novas oportunidades de crescimento e engajamento com pacientes. Implementar de vez essas ferramentas é um movimento indispensável para o sucesso no setor”, finaliza.

 

Fonte: Carmen Comunicação/Carolina Lara Comunicação

 

Medellín, um laboratório do urbanismo social

Nasci em Medellín, na Colômbia, e tenho vivido boa parte dos meus 62 anos nesta cidade. Disso, talvez o leitor deduza: estou habituado a viver em um país em guerra. Um país tomado por guerrilhas rurais e urbanas, por grupos paramilitares, por gangues de narcotraficantes de enorme poderio bélico e tudo o que essa mistura explosiva costuma gerar: medo e sangue, em razão de milhares de mortes violentas todos os anos.

A Colômbia é uma das nações com maior iniquidade do mundo: o índice de Gini, que mede a concentração de renda, foi, em 2023, de 0.546 (quanto mais alto, pior). Houve uma ligeira melhora na comparação com o ano anterior, em que o país marcou 0.556 pontos. A Colômbia registrou, no ano passado, uma taxa de mortes violentas de 25,7 por 100 mil habitantes, o que nos alçou à posição de número 12 dentre as nações com maiores índices de violência da América Latina e Caribe. O Brasil ficou na 16ª posição.

Medellín já foi símbolo do pior: teve, durante vinte anos, a mais alta taxa de mortes violentas do mundo. Em 1991, o número de homicídios chegou a 6700, uma taxa de 383 casos por 100 mil habitantes, dezoito por dia. Foram mais de 66 mil mortes violentas em duas décadas. O cartel liderado por Pablo Escobar ostentava o título de maior grupo criminoso do planeta.

Medellín, hoje, não é mais símbolo do pior, muito pelo contrário: de uns anos para cá, tem sido reconhecida como uma cidade-exemplo mundo afora. Em 2016, ganhou o que alguns chamam de “o Nobel das cidades”: o prêmio Lee Kuan Yew World City, em razão de suas profundas mudanças sociais, educativas, culturais e urbanas. As metrópoles que chegaram à final desse prêmio foram Auckland, Sydney, Toronto e Viena. Em 2013, Medellín já havia conquistado o prêmio de “cidade mais inovadora” do mundo, em disputa, na derradeira etapa, contra Nova York e Tel Aviv.

Esses e outros prêmios vêm nos convertendo em referência para muitas metrópoles, que nos tomam como modelo. Insistimos, porém, que, mais do que modelos, somos um laboratório social e urbano, pois levamos três décadas ensaiando soluções estruturais e conjunturais para as nossas imensas pobreza e desigualdade, para as nossas atrozes violências políticas e urbanas.

Conseguimos uma diminuição radical em nossas taxas de homicídio nos últimos trinta anos. Como foi possível? Graças a ambiciosos projetos público-privados-comunitários e ao entendimento de que Medellín tinha que se converter no que é atualmente: um exemplo de que é possível superar, de maneira coletiva, o fracasso social de uma cidade. Mudamos de pele. Por sorte – e não sem enormes dificuldades –, estamos mudando também de alma.

O que ocorre na Colômbia não é o mesmo que na Europa, onde a desigualdade social se manifesta de formas mais amenas e a violência é menor. Não se trata, aqui, de um simples projeto de melhoramento de bairros. Trata-se de um caminho para aprimorar as cidades e, com isso, as mazelas de nosso país. Nossa ferramenta, nesse processo, foi e segue sendo o urbanismo social.

Quando se fala em urbanismo social, é normal que as pessoas prestem mais atenção à primeira parte da expressão: “urbanismo”. Afinal, é um substantivo, a essência do que se quer dizer. A palavra “social”, um adjetivo, é tomada como mero complemento, uma qualificação. Isso se reflete nos projetos focados em comunidades pobres: antes de qualquer coisa, discutem-se obras físicas. O que proponho, a partir de agora, é que seja dada a mesma força às duas palavras. É preciso entender que o social, tanto quanto o urbanismo, é essencial na transformação das cidades.

Durante muito tempo, em Medellín, nós dissemos que precisávamos de projetos físicos, urbanos, que dessem resultados sociais. Com o passar do tempo, notei que estávamos equivocados. Aquilo que realmente queríamos soava parecido com isso, mas era na verdade uma inversão: um projeto de transformação social, educativa e cultural que desse resultados urbanos.

O que sempre buscamos foi ampliar a inclusão e a coesão social em nossas cidades, costumeiramente excludentes e indiferentes. Por isso, constatamos que, no urbanismo, as obras físicas devem sempre estar submetidas ao projeto social, e não o contrário. É preciso pensar a sociedade em todas as suas dimensões – educativas, culturais, ambientais, esportivas, recreativas, de saúde, econômicas, de gênero – e moldar com base nelas um projeto urbanístico.

Sempre que Medellín é lembrada em foros urbanísticos, vangloriam-se seus avanços puramente físicos: a arquitetura de nossos novos edifícios públicos, os parques-bibliotecas, as Unidades de Vida Articulada (UVA), os colégios, os centros culturais, os jardins infantis. Por trás desse urbanismo fotogênico, no entanto, corre um profundo trabalho social, educativo, cultural, de comunicação pública e de construção de uma nova história de cidade. É nisso que reside a verdadeira transformação de Medellín.

Muitos projetos de urbanismo social fracassam devido ao fato de serem projetos meramente urbanos, onde o social é um fraco complemento, convertido em simples ferramenta ocasional. Penso que a Habitat III (Quito, 2016), conferência das Nações Unidas sobre o desenvolvimento urbano sustentável, se equivocou ao definir uma Nova Agenda Urbana mundial, pois a urgência deveria ser projetar uma Nova Agenda Social Mundial. Como seria uma cidade projetada a partir de uma perspectiva social, que almeje a convivência e a coesão de todas as classes?

Quem quer que ande hoje por Medellín pode fazê-lo seguindo o mapa das transformações. Sem que tenhamos planejado isso, nos tornamos a cidade com maior turismo estrangeiro da Colômbia e um dos principais destinos para nômades digitais. Um dos motivos para isso é que em Medellín se pode andar por todos os cantos, incluindo os bairros que durante anos foram impenetráveis devido aos alarmantes índices de violência. Essa paisagem de transformações inclui o “mapa das maravilhas”: edifícios e equipamentos públicos de alta qualidade em termos de arquitetura e de impacto na vida cotidiana das comunidades.

Tudo o que é público deve contribuir para a equidade social. O acesso a equipamentos e serviços públicos de qualidade foi uma das fórmulas empregadas em Medellín: aumentou-se a cobertura de fornecimento de água, esgoto, energia, telefonia e gás; mais ruas foram asfaltadas; e instalou-se equipamentos educativos, culturais, esportivos e recreativos de máxima excelência em todas as regiões da cidade. O sistema de mobilidade pública virou um elemento de integração territorial. O sistema de metrô, em funcionamento desde 1995 e sem o qual não teríamos boa parte das dinâmicas sociais e culturais de Medellín, inclui duas linhas de trem, uma transvia (VLT), seis metrocables (teleféricos urbanos) e várias linhas de Metroplus (BRT, com integração ao metrô). Um detalhe de extraordinária relevância: o melhor transporte público em Medellín está justamente nas zonas de maior pobreza.

Nestes tempos em que o urbanismo social anda na moda, acho importante frisar que essa política não se faz por meio de um mero “retoque” em bairros pobres. Não se trata de embelezar uma favela. Urbanismo social não é Photoshop. Seu impacto, mais do que estético, é ético. Ele é chave para que alcancemos profundas transformações sociais em nossas cidades.

Uma das grandes dificuldades da gestão municipal, tanto na Colômbia quanto em outros países, é conseguir fazer com que haja integração de todo o gabinete – ou seja, articular as secretarias de modo que elas deixem de trabalhar somente em sua própria dimensão setorial (de saúde, educação, cultura) e se coordenem também de forma territorial. Em Medellín, estruturamos em 2004 os PUI, Projetos Urbanos Integrais, uma ferramenta que busca precisamente o trabalho conjunto, com objetivos compartilhados, de todas as instâncias municipais. Os PUI tiveram um bom antecedente nos anos 1990: o Primed, Programa Integral de Melhoramento de Bairros Informais de Medellín. O Primed, por sua vez, se inspirou, e muito, no programa Favela-Bairro, implementado no Rio de Janeiro no início daquela década, e que depois de alguns anos passou a ter apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Para definir em quais bairros de Medellín deveríamos implantar os PUI, levamos em conta quatro critérios:

•          Menor índice de desenvolvimento humano;

•          Maior índice de violência;

•          Maior densidade populacional (especialmente, maior quantidade de crianças com menos de 6 anos);

•          Que a localidade em questão representasse algo de especial para a cidade, por sua história, ou porque trouxesse à tona algum feito relevante. Bairros que gerassem nas pessoas a sensação de que, “se foi possível aqui, pode ser em qualquer outro lugar”.

A característica principal dos PUI é a simultaneidade das intervenções: vários grandes projetos urbanos e sociais são conduzidos ao mesmo tempo. Os PUI, além disso, permitem que o poder público tenha um diagnóstico preciso dos bairros e de seus problemas. Com isso, o programa se converte em uma ferramenta para conhecer, reconhecer, valorizar e potencializar o que já existe na cidade. Os projetos não são desenhados em um escritório de engenheiros e arquitetos – são pensados por profissionais de todas as áreas, com participação constante da comunidade.

Os PUI não buscam melhor a qualidade de vida em um bairro apenas, mas num conjunto de bairros – as “comunas”, como dizemos na Colômbia. Entre seus objetivos está promover a conexão urbana e social dessas áreas com o restante da cidade, e vice-versa. Coesão urbana e social deveria ser um critério, sempre, no urbanismo social. Trata-se de integrar, de conectar, e não de intervir em um bairro para mantê-lo como um gueto social e cultural. Não podemos pensar a cidade de forma desarticulada.

Nos Projetos Urbanos Integrais de Medellín, foi fundamental a construção de edifícios públicos de alta qualidade arquitetônica. Eles se tornaram símbolo dos processos de transformação da cidade; uma nova referência de dignidade. São prédios que resultaram de concursos nacionais e internacionais, assim como das oficinas de projetos da EDU, a Empresa de Desenvolvimento Urbano de Medellín. Centenas de profissionais de arquitetura e engenharia têm sido formados pela EDU, e seu trabalho se faz perceber na geografia não apenas de Medellín, mas também de outras cidades pelo mundo.

Vinte anos atrás, os edifícios mais importantes de Medellín pertenciam à iniciativa privada ou a organizações religiosas, especialmente a católica. Que hoje sejam as edificações públicas as mais visadas é uma das conquistas da cidade. E é especialmente relevante que esses edifícios estejam localizados em bairros onde era impensável que houvesse investimentos dessa natureza.

A maioria desses novos edifícios públicos – que hoje são os nossos cartões-postais – é formada por centros educativos e culturais. Entre eles estão dez biblioteca-parques, 21 UVAs, a Casa da Música, o Centro de Desenvolvimento Cultural de Moravia, a Biblioteca de EPM (Empresas Públicas de Medellín), 34 jardins infantis do programa Buen Comienzo, vinte colégios públicos de alta qualidade, o Rota N (edifício-base de nossos desenvolvimentos tecnológicos), o Centro da Quarta Revolução Industrial (no lugar onde durante 120 anos funcionou uma prisão para mulheres), o Museu de Arte Moderna (que é privado, mas tem sua sede principal em um prédio público que foi durante anos parte da siderúrgica da cidade), o Mova – Centro de Inovação para Professores, o Museu Casa da Memória, a Plaza Mayor (centro de convenções), parques arborizados e muito mais.

Todas essas edificações são parte da busca por inclusão social; dão à cultura e à educação um papel preponderante na transformação de nossa sociedade. Não são meteoritos de concreto caídos do céu: são fruto de um longo processo de participação popular, de acordos, de valorização das identidades territoriais e de “concertações” entre muitas áreas do governo municipal, sem contar alianças com empresas, fundações privadas e centenas de organizações comunitárias.

O trabalho conjunto em favor da cidade foi a chave principal da transformação de Medellín. Por isso o que ocorreu aqui chama tanto a atenção de outras metrópoles. E por isso temos insistido para que não olhem só o que temos feito, mas também, e especialmente, como temos feito; tudo o que há por trás de cada uma dessas obras, tudo o que conforma nossos projetos.

Nossa arquitetura simbólica, recheada de significado social, tem inspirado projetos que hoje são muito relevantes em outras cidades, com os Compaz (Centros Comunitários da Paz), de Recife, as Usinas da Paz, de Belém, os Nido (Núcleos de Innovación y Desarrollo de Oportunidades), na Argentina, e as Utopías (Unidades de Transformación y Organización para la Inclusión y la Armonía Social), de Iztapalapa, na Cidade do México.

Temos ainda muito o que fazer na América Latina, uma das regiões com maior iniquidade e violência do mundo. Um urbanismo social que não se limite ao estético e se empenhe em transformações éticas – pois, como sociedade, não podemos mais tolerar uma vida tão desigual – é ferramenta indispensável para alcançarmos maior dignidade para todos os que habitam a maior das invenções humanas: as cidades.

 

Fonte: Por Jorge Melguizo,  na revista Piauí

 

Assassinato 'flagrante' de Haniya 'pode ter cruzado a linha vermelha', adverte ex-oficial da CIA

O movimento Hamas já prometeu vingar-se após o chefe do gabinete político do grupo militante palestino, Ismail Haniya, ter sido assassinado em Teerã.

O assassinato de Ismail Haniya "teve claramente o apoio e conhecimento prévio dos Estados Unidos e do Reino Unido," disse em entrevista à Sputnik Larry Johnson, ex-agente da Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA.

"Digo isso porque também temos notícias, que chegam agora, de que navios de guerra dos EUA e do Reino Unido estão a caminho do Mediterrâneo. Em um dos navios americanos provavelmente está uma Unidade Expedicionária de Fuzileiros", disse Johnson.

Então, a situação "agora aumentou as tensões na região além do que eram, mesmo após o ataque ao consulado iraniano em abril", segundo ele.

Em resposta a esse ataque, o Irã "enviou uma mensagem muito clara para Israel de que, no futuro, quaisquer novas provocações como esta seriam enfrentadas com força, e agora tanto o Hezbollah como o Irã foram incitados a responder e Israel está calculando que pode suportar os golpes", acrescentou o ex-oficial de inteligência da CIA.

"Isso é extremamente perigoso. [...] Este ataque [contra Haniya] foi tão descarado que não acho que haverá qualquer contenção por parte do Irã ou do Hezbollah. Acho que isso pode ter realmente cruzado a linha vermelha. É extremamente preocupante porque isso tem a característica de ser capaz de sair fora do controle. E tem mesmo, estamos agora em uma situação de esperar para ver", enfatizou Johnson.

Anteriormente, o grupo militante palestino Hamas confirmou em um comunicado que Haniya foi morto no que o Hamas disse ser um ataque israelense em sua residência em Teerã, após ele ter participado da tomada de posse do novo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian.

¨      Rússia condena veementemente assassinato do líder político do Hamas em Teerã

Moscou condena veementemente o assassinato do líder político do movimento palestino Hamas Ismail Haniya, na sequência do ataque de projétil ao prédio onde estava alojado em Teerã, informa o comunicado emitido nesta quarta-feira (31) pelo Ministério das Relações Exteriores da Rússia.

É de salientar que o ataque foi realizado quando o líder do Hamas se encontrava no Irã, com convite oficial para participar da cerimônia de posse do presidente iraniano eleito, Masoud Pezeshkian, diz a nota.

A chancelaria russa aponta para o impacto negativo do assassinato de Haniya nas negociações entre o Hamas e Israel.

"Os organizadores deste assassinato político estavam claramente conscientes das perigosas consequências que esta ação teria para toda a região. Não há dúvida de que o assassinato de Ismail Haniya terá um impacto muito negativo no progresso dos contatos indiretos entre o Hamas e Israel no âmbito dos quais eram conduzidas negociações sobre condições mutuamente aceitáveis do cessar-fogo na Faixa de Gaza", detalha o comunicado.

A chancelaria exorta mais uma vez todas as partes envolvidas "a mostrar moderação e abandonar passos que poderiam levar a uma degradação dramática da situação de segurança na região, e provocar um confronto armado em larga escala", conclui a declaração do ministério.

O Hamas confirmou nesta quarta-feira (31) que o chefe do gabinete político do movimento palestino, Ismail Haniya, se hospedava em uma residência de veteranos no norte de Teerã e foi morto ao ser atingido por um "objeto no ar".

¨      Irã jura vingança pelo assassinato de líder do Hamas; Israel diz estar pronto para todos os cenários

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, alertou nesta quarta-feira (31) que vingar o assassinato do líder do Hamas, Ismail Haniya, é "dever de Teerã", uma vez que o assassinato ocorreu na capital iraniana.

Khamenei emitiu uma mensagem após a morte de Haniya em Teerã. O aiatolá ofereceu suas condolências à Ummah, ou ao mundo mulçumano, à frente de resistência e à nação palestina pelo martírio do "valente líder e proeminente mujahid".

"O regime sionista criminoso e terrorista, com esta medida, preparou o terreno para uma punição severa para si mesmo. Consideramos a vingança de sangue por ele [Haniya], que foi martirizado dentro do território da República Islâmica do Irã, o nosso dever", disse o aiatolá Khamenei, citado pela agência Tasnim.

Ele acusou Israel de ter feito a ação, no entanto, à Sputnik, um representante do Exército israelense disse que Tel Aviv não assumiu a responsabilidade pelo assassinato de Haniya.

O líder do Hamas, que estava em Teerã para participar da cerimônia de posse do novo presidente iraniano, foi martirizado em uma residência especial no norte de Teerã após ser atingido por um projétil aéreo nas primeiras horas desta quarta-feira (31).

Também nesta quarta-feira (31), ao comentar o ataque feito em Beirute, no Líbano, na terça-feira (30), o ministro da Defesa israelense Yoav Gallant disse que Tel Aviv não está buscando intensificar a guerra, mas está se preparando para lidar com todos os cenários.

"A apresentação [ontem] à noite em Beirute foi focada, de alta qualidade e contida. Não queremos guerra, mas estamos nos preparando para todas as possibilidades, e isso significa que vocês devem estar preparados conforme necessário, e faremos nosso trabalho em todos os níveis acima de vocês", afirmou Gallant ao elogiar as forças que realizaram um ataque a um comandante do Hezbollah em Beirute durante a noite, segundo a Reuters.

Israel realizou um ataque em Beirute, que disse ter matado um comandante de alto escalão do Hezbollah que supostamente estava por trás de um ataque de foguetes no fim de semana que matou 12 pessoas nas Colinas de Golã. O ataque na capital libanesa matou pelo menos uma mulher e duas crianças e feriu dezenas de pessoas.

O Hezbollah não confirmou imediatamente a morte do comandante. A ação ocorreu em meio a hostilidades crescentes com o grupo militante libanês.

 

¨      Combates se aproximam e ameaçam hospital Nasser, em Gaza

Em Khan Younis, no sul de Gaza, os combates estão se aproximando cada vez mais do hospital Nasser, colocando-o sob ameaça e arriscando o acesso das pessoas a cuidados médicos. Apenas em julho, as equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) nos hospitais Nasser e Al-Aqsa responderam a 10 incidentes com múltiplas vítimas gravemente feridas após bombardeios na região.

MSF pede urgentemente a todas as partes em conflito que garantam o acesso seguro das pessoas a cuidados médicos e evitem a evacuação do hospital Nasser, o que colocaria em risco centenas de pacientes.

“Qualquer escalada dos combates perto do hospital obstruiria o acesso de pacientes e equipes médicas, impossibilitando a prestação de cuidados”, alerta Jacob Granger, coordenador de projeto de MSF em Gaza. “O sistema de saúde está completamente dizimado, e evacuar centenas de pacientes e suprimentos médicos, às pressas ou não, seria uma tarefa impossível.”

"As consequências seriam devastadoras para as pessoas da região, que não têm para onde ir", diz Granger. "Fechar o hospital Nasser não é uma opção."

O hospital Nasser está prestando atendimento a cerca de 550 pacientes, incluindo pessoas com queimaduras graves e lesões traumáticas, recém-nascidos e mulheres grávidas. As pessoas atualmente internadas no hospital precisam de tratamento contínuo para sobreviverem, incluindo pacientes que requerem um alto nível de cuidados, oxigenoterapia ou monitoramento rigoroso. Como o último hospital de maior porte ainda ativo no sul de Gaza, o Nasser também fornece apoio essencial a outras instalações de saúde na região, incluindo a produção de oxigênio.

A guerra que invade o hospital Nasser ocorre enquanto as equipes de MSF no Nasser e no hospital Al-Aqsa têm sido inundadas por um grande número de pacientes feridos que têm chegado ao mesmo tempo. Somente em julho, isso ocorreu em 10 ocasiões distintas, após ataques e combates, muitas vezes em áreas onde as pessoas deslocadas estão abrigadas.

“Todos os dias de julho têm sido um choque após o outro”, diz Javid Abdelmoneim, líder da equipe médica de MSF.  “[Em 24 de julho] durante a última varredura no pronto-socorro, pensei em ir lá e verificar por mim mesmo, só para ter certeza de que nenhum paciente havia sido deixado para trás. Entrei atrás de uma cortina e havia uma garotinha sozinha, morrendo sozinha. Não havia ninguém lá”, relata Abdelmoneim.

“Sua perna esquerda estava torcida. Ela ainda respirava, mas foi deixada para morrer porque aqui, agora, o sistema não consegue lidar. E este é o resultado de um sistema de saúde em colapso: uma garotinha de 8 anos, morrendo sozinha em uma maca na sala de emergência. Em um sistema de saúde em funcionamento, ela teria sido salva.”

De acordo com o Ministério da Saúde, os níveis no banco de sangue do hospital Nasser estão criticamente baixos após cinco fluxos sucessivos de pacientes que chegaram, com cerca de 180 pessoas mortas e 600 feridas. Uma em cada dez pessoas que se voluntariaram para doar sangue durante uma atividade de coleta de sangue promovida pelo Ministério da Saúde e apoiada por MSF não estava apta para doar devido a anemia ou desnutrição.

No hospital Al-Aqsa, o setor de emergência não foi capaz de funcionar corretamente, pois está sobrecarregado de pacientes. Antes da guerra, o hospital Al-Aqsa tinha cerca de 220 leitos. Atualmente, o hospital tem entre 550 e 600 pacientes internados.

“O hospital Al-Aqsa já tem várias centenas de pacientes acima da capacidade de leitos”, diz Alice Worsley, coordenadora de enfermagem de MSF. A instalação está sobrecarregada dessa maneira após receber pacientes de um ataque israelense à escola Khadija, em Deir Al-Balah, em 27 de julho. “A situação era desesperadora: mesmo a resposta mais dedicada nem sempre pode salvar vidas sem suprimentos, leitos e equipe médica suficientes.”

“Cerca de 50% dos pacientes que atendemos eram crianças, muitas com lesões significativas que exigiam cuidados intensivos. Recebemos um menino de 6 anos de idade que teve 80% do corpo queimado. Recebemos um outro menino de 3 ou 4 anos de idade que sofreu uma lesão facial significativa e tivemos que colocar um tubo para ajudá-lo a respirar”, relata Worsley.

“O enfermeiro que estava me ajudando com esse paciente era um familiar da criança. Ele me disse que a mãe do menino havia sido morta no mesmo ataque. A criança tinha um gesso no braço, o que significa que obviamente já havia sido ferida nesta guerra há pouco tempo. Portanto, essa foi, pelo menos, a segunda vez que essa criança foi ferida em um incidente”, contou Worsley.

Em 22 e 27 de julho, as forças israelenses emitiram duas ordens de evacuação em Khan Younis, resultando em mais um deslocamento em massa reduzindo ainda mais o espaço disponível para que as pessoas possam dormir.  De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitário (OCHA), de 22 a 25 de julho aproximadamente 190 mil palestinos foram deslocados em Khan Younis e Deir Al-Balah.

Desde o início da guerra, estima-se que 1,7 milhão de pessoas foram alertadas para que se mudassem para uma área de 48 quilômetros quadrados, o que representa 13% da Faixa de Gaza, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. 

Embora as chamadas zonas humanitárias tenham se mostrado inseguras em Gaza, a existência de tais áreas não elimina as obrigações das partes em conflito de proteger os civis – onde quer que estejam. Por quase 10 meses, o que temos visto é que nenhum lugar é seguro em Gaza.

MSF pede a todas as partes que garantam acesso seguro aos cuidados e evitem a evacuação do hospital de Nasser, o que colocaria em risco centenas de pacientes.

As equipes de MSF no hospital Nasser fornecem cirurgia ortopédica, cuidados com traumas e queimaduras, apoiam os setores de maternidade e pediatria e uma unidade de terapia intensiva neonatal. Em julho, equipes de MSF no hospital Nasser, no sul de Gaza, responderam a grandes fluxos de pacientes causados por incidentes com múltiplas vítimas gravemente feridas nos dias 1, 13, 16, 17 e 22 de julho.

No hospital Al-Aqsa, estamos oferecendo cuidados de reabilitação, cirurgia de trauma, cuidados avançados de feridas e pós-operatórios, fisioterapia e apoio à saúde mental. Em julho, equipes de MSF no hospital, na região central de Gaza, responderam a grandes fluxos de pacientes causados por incidentes com múltiplas vítimas gravemente feridas nos dias 9,13, 14, 16 e 27 de julho.

¨      Itamaraty condena ataque a Beirute e cita "extrema preocupação" com Israel e Hezbollah

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil emitiu uma nota nesta quarta-feira (31) repudiando o bombardeio israelense em Beirute, capital do Líbano, na terça-feira (30). As Forças de Defesa de Israel anunciaram que realizaram um ataque no subúrbio sul da capital libanesa visando um "comandante responsável pelo assassinato de crianças em Majdal Shams e pela morte de vários outros civis israelenses". No último sábado, as IDF disseram que 12 pessoas haviam sido mortas em um ataque de foguetes nas Colinas de Golã, que atribuiu ao Hezbollah. O movimento libanês negou a acusação. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu disse que Israel não deixaria o ataque nas Colinas de Golã sem resposta e que o Hezbollah pagaria um preço "que nunca pagou antes".

Em nota, o Itamaraty manifesta "extrema preocupação" diante da "escalada de hostilidades entre Israel e o braço armado do partido libanês Hezbollah". Leia:

Ataque aéreo israelense a Beirute

O governo brasileiro condena o ataque aéreo conduzido por Israel ontem, 30/07, em área residencial de Beirute.

O Brasil acompanha com extrema preocupação a escalada de hostilidades entre Israel e o braço armado do partido libanês Hezbollah. A continuidade do ciclo de ataques e retaliações leva a espiral de violência e agressões com danos cada vez maiores, sobretudo às populações civis dos dois países.

Desse modo, exorta as autoridades israelenses e o Hezbollah a se absterem de ações que possam vir a expandir o conflito, com consequências imprevisíveis para a estabilidade do Oriente Médio e a segurança internacional.

O governo brasileiro apela à comunidade internacional para que se valha de todos os instrumentos diplomáticos à disposição para conter imediatamente o agravamento do conflito.

 

Fonte: Sputnik Brasil/MSF-Imprensa/Brasil 247

 

quarta-feira, 31 de julho de 2024

“O Estado retorna com todas as suas formas mais brutais, incluindo a guerra”, diz pesquisador

Paolo Gerbaudo é pesquisador sênior da Faculdade de Ciência Política e Sociologia, da Universidade Complutense, com passagem pelo King’s College London. No ano passado, publicou Controlar y proteger: El retorno del Estado (Verso).

Para ele, a crise financeira de 2008 e a pandemia revelaram as deficiências do neoliberalismo e das inércias globais e, mais do que em uma transição, estamos em um novo mundo. A Pax Americana morreu e abriu passagem a um conflito entre blocos em que o Estado, com suas formas mais severas e brutais, volta a ocupar um papel central.

<<<< Eis a entrevista.

·        Quando Donald Trump afirmou que “o futuro não pertence aos globalistas, mas aos patriotas”, anunciava o fim da globalização?

Esse discurso de Trump capturava algo da atmosfera dos avançados anos 2010, que era essa perda de confiança na globalização. A direita atribui esse globalismo aos liberais, a Biden e ao Partido Democrático, na Itália. O  Vox  faz o mesmo jogo com Sánchez, na Espanha, quando na realidade são eles os globalistas e os aliados do poder financeiro.

No entanto, compreenderam que, ao menos publicamente, declarar-se a favor da globalização não é tão popular como era antes. As pessoas encontraram aspectos positivos na globalização, seja pelos produtos baratos ou pela possibilidade de viajar livremente, mas a sua desconfiança aumentou porque viram que as suas condições de vida e de trabalho pioraram.

·        Os discursos antiglobalistas da direita se tornaram uma forma de culpar os outros pelos seus próprios erros?

Sim. Na realidade, tentam tirar proveito apelando a interesses mais locais frente a forças invisíveis, impessoais, em nível global. E isso não é simplesmente uma coisa irracional. Afinal, a proximidade é a lógica de definição do político.

Parte da esquerda se converteu em um liberalismo muito superficial, que vê esta lógica de proximidade como algo que é intrinsecamente negativo, que leva ao nacionalismo, ao racismo, à discriminação. Contudo, isso não é verdade. Existem formas de identidade local que são abertas, inclusivas e solidárias. Existem formas de patriotismo que são as bases do republicanismo e do espírito democrático.

·        O ponto de inflexão da crise do neoliberalismo foi o que aconteceu em 2008?

Foi a primeira peça do dominó, que fez as outras caírem com atraso e sucessivamente. Demonstrou uma enorme disfuncionalidade do sistema econômico global e fez saltar pelos ares a perigosa ideia do mercado que se autorregula, sendo isto é pura ficção.

Naquele momento, falava-se do neoliberalismo zumbi, que sobrevivia a si mesmo e desenvolvia formas diferentes, mais autoritárias, mais austeras. Era um neoliberalismo que perdia seu elemento de desejo e de promessa, de  marketing, de things can only get better, como dizia a canção da campanha do New Labour, de 1997, de que vamos nos tornar todos ricos e passar muito bem.

No meu livro, uma fonte de inspiração foi superar essa ideia de que estamos em uma transição pós-neoliberal. E envolvido um pouco por essa citação de  Gramsci que diz que é o tempo dos monstros, enquanto o velho mundo está morrendo e o novo ainda está por nascer, busquei refletir que todas as transições terminam. Minha aposta no livro é dizer não, já chega de ficar nesse limbo, aceitemos que já estamos em um mundo novo.

·        Um mundo novo em que o Estado retorna…

Um mundo novo que é espantoso, em que o Estado retorna em todas as suas formas mais brutais, incluindo a guerra. Este mundo é a realidade que temos de encarar, porque, caso contrário, ficamos em um mundo de espelhos, no qual só ganhará a direita, que sabe se desenvolver nesse tipo de cenário.

O que aconteceu em 2008 e tudo o que veio depois geraram muita raiva. A Covid demonstrou que sob essa superfície de segurança, de rotina, havia magma, um lago vulcânico que estava pronto para explodir. E explodiu com a  guerra na Ucrânia, com o enfrentamento entre os Estados Unidos e a  China, e essa estabilidade da Pax Americana abriu passagem a um conflito entre blocos.

·        O Ocidente está mudando de posição em relação às regras que havia imposto, como se observa nas discussões sobre as barreiras alfandegárias?

Claro. Isso é o que nos diziam muitos economistas como Ha-Joon Chang, que destacava que o livre mercado era uma mentira que os estados hegemônicos do  capitalismo contavam aos países em desenvolvimento, porque naquele momento lhes convinha. E agora, diante da China, somos nós os seguidores em muitos aspectos. Assim como no ciclismo, somos nós que vamos correndo atrás do líder.

·        Os subdesenvolvidos.

Somos subdesenvolvidos por culpa do neoliberalismo.

O  neoliberalismo  destruiu a economia, pois provocou a ilusão de que o que conta é o dinheiro e que não importa onde é produzido. Isso nos levou a abandonar as produções navais, os estaleiros, a produção de baterias. Levou-nos a deixar tudo isto nas mãos da China, que aproveitou para se tornar um país líder em tecnologia.

·        E agora são solicitadas tarifas.

A fantasia do livre mercado levou a este desdobramento, e agora não podemos nos queixar porque a China jogou bem o nosso jogo. O que devemos reconhecer é que foi o jogo que fracassou. Agora, considero legítimo que países subdesenvolvidos como os nossos utilizem tarifas moderadas.

No entanto, penso que precisamos de uma economia social que priorize o interesse dos trabalhadores, com produtos acessíveis, bons e sustentáveis. Não proponho uma autarquia, nem um isolamento total, pois sempre haverá um mundo de intercâmbios comerciais. O problema é que o  hiperglobalismo  levou a uma dependência extrema, beneficiando apenas um pequeno grupo financeiro.

·        Voltando a 2008, as políticas de austeridade levaram à ascensão de vários partidos de esquerda antiestablishment, como o Podemos e o Syriza. Hoje, estão quase acabados. No entanto, observamos a ascensão da extrema direita. Por que os primeiros fracassaram e os segundos triunfaram?

Houve falhas de política e de liderança, falhas de organização e até de caráter no caso de Tsipras, no sentido de prometer algo que não é possível cumprir. Aquele referendo que houve na Grécia e enganar o povo grego foram desastrosos para a credibilidade da esquerda. Esses movimentos foram muito importantes porque souberam capturar um entusiasmo popular e um desejo de mudança.

Fracassou-se, mas, claro, quando há fracassos em todos os casos, quer dizer que há algo mais profundo. E esse algo mais profundo é, por um lado, subestimar o nível de jogo do adversário. Por outro lado, é preciso considerar que tanto  Meloni quanto Abascal são exércitos, não jogando com a assembleia ou com a espontaneidade. Estamos diante de um enorme nível de profissionalismo e de organização, com muito dinheiro por trás.

Portanto, houve uma espécie de inocência na esquerda. Se você é contra o sistema econômico, não pode ir para esse confronto com boas intenções. Precisa ter força para a organização e paciência. Então, penso que o imediatismo foi um erro. Acredito que faltou pensar de forma mais concreta qual era o projeto de país, a alternativa produtiva e de sistema econômico para dar às pessoas uma ideia de futuro que pudesse acompanhar esse discurso de mais longo prazo.

·        Por que a extrema direita lidera, agora, esse discurso de defesa do Estado?

O capitalismo tem múltiplas facetas. Por um lado, existe um  capitalismo  orientado às exportações, competitivo em nível internacional e produtivo, que é a referência de centristas, liberais, de figuras como Macron e de grande parte da social-democracia liberal. Por outro lado, existe um capitalismo nacional, improdutivo e não competitivo, mas com inúmeros interesses devido à quantidade de postos de trabalho que abrange.

Este setor encontra proteção em uma parte da direita, que defende o pequeno proprietário e os pequenos negócios, que temem o grande capitalismo. Neste contexto, o Estado é visto como um protetor, seja através de tarifas ou de medidas de segurança frente às ameaças como a imigração, que é percebida como um perigo.

·        Ao passo que a esquerda…

Na esquerda, a partir de 68, dos anos 1970, passou a existir uma corrente libertária que naquele momento fazia sentido frente ao stalinismo e o  burocratismo da social-democracia. No entanto, esta posição se transformou em uma espécie de neoliberalismo cultural, um “neoliberalismo para hippies” que impede uma reflexão estratégica sobre o poder e sobre o que Gramsci chamava de “fazer-se Estado”.

Segundo Gramsci, a classe trabalhadora deve assumir o controle de seu próprio destino, da história, criar uma classe dirigente e governar. A  esquerda  enfrenta dificuldades em assumir esta responsabilidade histórica.

·        Em outra entrevista, dizia que o populismo de esquerda é a melhor resposta ao populismo de direita. Isto não implica que a esquerda se renda à lógica e aos métodos da extrema direita?

A definição de populismo depende de como é interpretado. Para mim, especialmente nos anos 2010, o populismo representava a rejeição popular ao projeto neoliberal. Durante aqueles anos, surgiu um forte sentimento de descontentamento e crítica à classe política. Isso, em certo sentido, era saudável.

Sou italiano e sigo obcecado por Gramsci, que falava de uma crise orgânica quando os laços entre representantes e representados são rompidos. Os cidadãos retiraram o seu apoio aos políticos tradicionais, criando uma fase de suspensão e transição em busca de novos líderes. O populismo daquela época refletia este momento de transição, no qual a velha classe política já não era aceita e surgia a necessidade de buscar ou criar novos representantes.

A direita resolveu esta crise criando uma nova identidade política que combinava o mercado capitalista com o nacionalismo, protegendo os interesses dos ricos. Ao contrário, a esquerda ficou dividida entre a nostalgia do passado e uma visão involuntariamente hiperliberal da política, e a consciência de que este mundo não pode mais ser recuperado e que é necessário construir um diferente.

·        Nas redes sociais, florescem discursos anarcocapitalistas que depois conseguem promover Javier Milei, por exemplo. Existe uma espécie de alergia ao Estado. Por quê?

Milei é o exemplo mais claro de uma tendência à rejeição do Estado. Parte da sociedade, principalmente a classe média cansada, vê o Estado como um intrometido ilegítimo que impõe impostos. Este discurso hiperneoliberal  ressalta apenas os aspectos negativos do Estado e oculta a realidade de que mesmo os sistemas mais capitalistas dependem da intervenção estatal.

O neoliberalismo de Milei, baseado em memes e simplificações, é um sintoma da crise do neoliberalismo. Milei está destruindo serviços públicos essenciais para a economia. Seu discurso moral e de guerra cultural faz sucesso entre pequenos empresários e criptoinvestidores que creem não precisar do Estado, embora se beneficiem de seus serviços como estradas, polícia e bombeiros. Esta classe média arrogante e insatisfeita, que sente que lhe devem algo, é politicamente perigosa.

Falta uma cultura do Estado que o apresente como um motor de desenvolvimento.   Não é que gostemos do Estado. O Estado pode ser um meio de opressão. O que nós, democratas, gostamos é do Estado democrático. Ou seja, o Estado como pilar de um sistema republicano de participação, envolvimento, coesão e solidariedade.

·        Nesse mundo de estados, qual é o papel desempenhado pelas nações que precisamente não contam com um?

É uma questão muito importante no contexto europeu, onde existem diferentes níveis de soberania, como nações sem Estado se relacionam com Estados multinacionais. E esta é uma questão muito difícil de resolver em um contexto de conflito democrático.

Penso que a autodeterminação tem que ser a lógica em que essas questões se desenvolvem. Contudo, aceitando também que essa lógica não é tão simples como pode parecer. Cabe definir quais são as regras, o momento. E acredito também que qualquer processo de autodeterminação também tem custos.

·        Viemos de eleições europeias em que a extrema direita alcançou quase 25% dos votos. Que futuro vislumbra para a União Europeia?

O futuro é preocupante porque não tem projeto. Não tem rota de saída para superar o impasse entre uma União Europeia que não sabe “fazer-se Estado” e Estados-nação que já não são, realmente, estados. Este vazio de poder e a  falta de legitimidade criam uma situação explosiva, agravada pelo conflito militar próximo e uma aliança europeia desorganizada e sem coesão interna.

A direita de Meloni, com suas raízes no fascismo, é inquietante. No entanto, sua liderança não busca mudar o sistema econômico, mas, sim, perpetuar as atuais desigualdades e o caos para manter interesses particulares, usando sua cultura extremista mais como um truque estético do que como um verdadeiro projeto.

 

Fonte: Entrevista com Paolo Gerbaudo, por Ibai Azparren, no Naiz  tradução do Cepat, em IHU