quarta-feira, 31 de julho de 2024

Salvador: Moradores antigos do Centro Histórico pagarão alto preço com chegada de grandes empreendimentos

No Centro Histórico de Salvador, centenários prédios entre a Praça da Sé e a Rua Chile estão dando lugar a hoteis e restaurantes de luxo. A mudança na paisagem urbana está acompanhada de um aumento significativo no custo de vida na região. O surgimento de empreendimentos comerciais de alto padrão e as obras em curso trazem uma nova fase para o local, levantando preocupações entre antigos moradores e comerciantes sobre os possíveis benefícios e prejuízos dessa transformação.

A quarta matéria da série “Da Decadência Urbana às Noites de Luxo no Centro de Salvador” explora como essas melhorias urbanas podem levar ao aumento dos preços de aluguel, alimentação e serviços, refletindo o fenômeno da gentrificação. Ele ocorre quando um bairro se torna mais caro e mais sofisticado, o que pode beneficiar a área, mas também pode deslocar os moradores que já viviam lá.

•        Investimento de grandes grupos

No Centro Histórico de Salvador, grandes grupos empresariais enxergam na decadência uma oportunidade para revitalizar o Centro, utilizando suas riquezas para transformá-lo em um ponto promissor da economia de luxo soteropolitana.

Um dos principais investidores na transformação da região é o Grupo Fera Investimentos, que adquiriu vários imóveis na área. Em entrevista ao BNEWS, o advogado Felipe Almeida, que participou da venda de cinco imóveis para o Grupo Fera no final do ano passado, acredita a área será reconfigurada para atender a um público de alto padrão, com a expectativa de que a transformação traga um novo perfil para a região. “As coisas por ali vão mudar muito. Vai ser para um público de nível A +”, avalia.

As vendas das quais tem participado são em locais como a Rua Chile, Rua Carlos Gomes e o Comércio. Ele explica que são imóveis antigos, por vezes com dívidas e em estado crítico de conservação, mas em pontos privilegiados da cidade, com vista para a Baía de Todos-os-Santos.

•        Deslocamento dos residentes históricos

A chegada das empresas de alto padrão não é bem aceita por alguns moradores do Pelourinho. A trancista Natasha Mendonça, de 24 anos, vive no local desde que nasceu. Mora em uma casa própria, o que considera um aspecto facilitador, mas diz ver conhecidos migrando para outros bairros devido ao aumento do custo de vida e às desocupações durante projetos de requalificação feitos no bairro nos últimos anos.

"Dá pra contar nos dedos quantas famílias moram, de fato, no Pelourinho. Porque o público maior é hoteis, pousadas… E o povo se vê sufocado a sair daqui", protesta. Ela frisa que a maioria dos moradores trabalha no local e a distância do trabalho gera obstáculos, como mais horas fora de casa e maior custo no dia a dia.

Um ex-morador da região, que preferiu não se identificar e trabalha como hostess em hoteis e restaurantes locais, relata que, apesar da conveniência de viver próximo ao trabalho, foi forçado a deixar o Pelourinho. “Ficou mais barato morar em Brotas do que morar aqui”, lembra, ao classificar o momento como “péssimo” para os antigos habitantes.

•        Impactos

O economista e professor universitário Edísio Freire explica que empreendimentos de luxo podem provocar gentrificação. Ele observa que, à medida que o ticket médio aumenta, isso pode ser economicamente positivo, pois indica desenvolvimento da área. No entanto, sugere que esse processo pode levar à segregação de algumas famílias que não conseguirem acompanhar as mudanças econômicas.

"O ticket médio começa a aumentar. Isso é muito positivo do ponto de vista econômico, porque a área se desenvolve. Com um público disposto a pagar um preço maior, é preciso oferecer um serviço melhor. Então, a região fica mais cara. E talvez algumas famílias que não conseguirem acompanhar esse processo acabem sendo segregadas", explica.

O vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia (CAU-BA), Ernesto Carvalho, reforça que a segregação socioespacial ou socioeconômica é característica da gentrificação. “Provoca a saída de moradores ou frequentadores antigos por causa do aumento do custo de vida. Pode acontecer em áreas urbanas onde há expectativa de valorização ou revalorização imobiliária”, acrescenta.

Conhecido como ‘Mestre Calá’ no Pelourinho, Clarindo Silva passou a vida inteira na região. Dos seus 82 anos, 53 foram dedicados à administração do renomado restaurante Cantina da Lua, localizado no Terreiro de Jesus. Para ele, a chegada de empresas de alto padrão contribui para a preservação da área, além de gerar empregos e renda. No entanto, ele ressalta a importância de não prejudicar a população local e defende a implementação de ações sociais. “As pessoas precisam ter sensibilidade de que nós é que estamos aqui há vários anos. Merecemos respeito e isso a gente cobra da maneira mais enfática possível”, diz.

A líder comunitária do Santo Antônio Além do Carmo, Tânia Pastori, enxerga oportunidades de emprego na região e acredita que a inflação não tem afetado negativamente a população local. “É uma área de classe média. Tem pessoas de baixa renda, mas não como em outros lugares. Até essas famílias gostam das coisas que acontecem, porque conseguem renda.” Também reforça que os imóveis ficaram muito mais valorizados, com alguns alcançando preços em torno de R$ 1 milhão.

Tânia aponta que os moradores dominam os estabelecimentos do bairro e fazem parte da característica local. Por isso, não acredita em um possível processo de migração. “Os visitantes não querem ver uma avenida de longe. Querem ver um bairro bucólico, parecendo interior. Por isso, precisamos predominar o comércio, para evitar a gentrificação”, acredita.

O sociólogo e professor do Serviço Social da Indústria (Sesi), Leandro Passos, sugere que a percepção da população em relação ao aumento do custo de vida e às mudanças na cidade está diretamente relacionada à degradação da qualidade de vida e à segregação espacial.

O especialista explica que o aumento do custo de vida resulta na perda de recursos econômicos, levando a restrições no consumo e no acesso a serviços comuns, enquanto a segregação espacial provoca um sentimento de estranhamento em relação a um espaço que antes era familiar.

“Isso pode ser facilmente observado em Salvador em bairros que passam por um processo de gentrificação, a exemplo do Santo Antônio Além do Carmo, no qual anteriormente tinha em todo seu ecossistema uma dinâmica mais popular e devido a intervenções urbanas e econômicas mudam a natureza da região. Compra e reforma de imóveis por grandes empresas e consequentemente a elevação do seu padrão alteram a destinação social fazendo surgir moradias com valores mais caros e empreendimentos voltados a um público que não os dos moradores tradicionais daquela localidade. Sendo assim, é inevitável não ocorrer uma segregação e uma hostilidade ainda que sutil às camadas mais populares”, explica.

Já o economista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Marcos Alban, defende que a gentrificação não se aplica ao Centro Histórico. Ele aponta que não há infraestrutura suficiente para atender a população de alto padrão em setores como o de mobilidade, como acontece em áreas nobres. Alban ressalta que há restrições para as modificações que seriam necessárias, por ser uma área tombada.

Para que os novos empreendimentos se firmem a longo prazo, o especialista aponta como solução a moradia popular. Ele diz que a movimentação local proporciona sensação de segurança aos turistas e visitantes. “É preciso que os soteropolitanos ocupem o Pelourinho, morem na Rua Chile, da mesma forma que moram no Santo Antônio Além do Carmo”, defende.

O vice-presidente do CAU-BA, Ernesto Carvalho, destaca que a utilização de prédios públicos pela iniciativa privada pode contribuir para o processo de gentrificação.  Segundo Carvalho, embora isso possa gerar oportunidades de trabalho para diversas faixas socioeconômicas, a definição de áreas inteiras para empreendimentos exclusivos, se não for bem planejada, pode intensificar esse processo.

Ele defende que o poder público deve equilibrar a revitalização com a criação de moradias populares e o estímulo ao surgimento de serviços essenciais, como mercados, farmácias e escolas. "Poderia se converter em oportunidade de trabalho para diversas faixas socioeconômicas. Mas a definição de zonas inteiras destinadas a empreendimentos exclusivos tende, se não bem dimensionada ou devidamente planejada, a ser uma âncora desse processo", diz.

•        Desenvolvimento é necessário e gentrificação é inevitável

O economista Edísio Freire concorda que o desenvolvimento é necessário e que a gentrificação é inevitável, mas acredita que um equilíbrio será encontrado. Ele prevê que o início do processo será marcado por adaptações, com desafios para alguns e oportunidades para outros.

"O momento inicial vai ser de adaptação, com agonia para uns e alegria para outros. Quem conseguir se adaptar vai se manter, e os que não conseguirem vão precisar encontrar novos caminhos. E as empresas que chegarem vão promover o desenvolvimento na região. Mas à medida que as coisas forem evoluindo, a estrutura em si vai se adaptar", avalia.

Em meio a essa discussão, a transformação do Centro Histórico de Salvador segue em plena ebulição, impulsionada pela chegada de empreendimentos de alto padrão e pela valorização dos imóveis. O equilíbrio entre progresso e preservação será crucial para garantir que a evolução da região beneficie a todos, sem sacrificar a identidade e o bem-estar das comunidades históricas.

 

Fonte: BNews

 

O que são disruptores endócrinos e como evitá-los

Você já ouviu falar em disruptores endócrinos? O nome parece ser difícil, mas todos nós estamos em contato com eles durante o dia a dia. Essas substâncias nocivas vêm ganhando cada vez mais destaque em pesquisas nos últimos anos.

A preocupação tende a aumentar. Isso porque a cada dia vemos vários estudos apontarem os danos que esses organismos fazem à saúde e ao meio ambiente,

Os disruptores endócrinos (DEs) (endocrine disruptors chemicals, em inglês) são uma gama de substâncias químicas que podem interferir no sistema hormonal. Assim, alterando a forma natural de comunicação do sistema endócrino. E, logo, causando distúrbios na vida selvagem e também afetando a saúde do próprio ser humano.

<><> Como agem os disruptores endócrinos no organismo humano

Os DEs atuam no organismo humano por meio da imitação dos hormônios naturais (como o estrogênio). Dessa forma, pode ocorrer um bloqueio da ação hormonal natural e uma alteração dos níveis de hormônios endógenos.

Já existem na natureza muitas substâncias similares, como os fitoestrógenos presentes na soja. Porém, os artificiais supõem um perigo muito maior que os compostos naturais. Isso porque eles persistem no corpo durante anos, enquanto os estrógenos naturais podem ser eliminados em poucos dias.

Nosso organismo é capaz de eliminar os estrógenos naturais por já estarmos adaptados a eles. Mas muitos dos compostos artificiais resistem aos processos de excreção. Além disso, se acumulam no organismo, submetendo animais e humanos a uma contaminação de baixo nível, mas de longa duração. Essa forma de exposição crônica por substâncias hormonais sintéticas não tem precedentes em nossa história evolutiva.

<><> Em que produtos podemos encontrar disruptores endócrinos?

Os primeiros relatos de substâncias químicas que agiam como disruptores endócrinos apontavam para o dietilestilbestrol. Esse é um medicamento usado por mulheres entre os anos 50 e 70, o qual apresentou resultados desastrosos. Como câncer de vagina e infertilidade nas filhas nascidas de mães que o usaram, além de deformações irreversíveis do útero.

Os filhos também podem ser afetados através da exposição aos desreguladores endócrinos no leite materno. Experimentos em animais já mostraram que a exposição a disruptores endócrinos influência no desenvolvimento do sistema reprodutivo masculino.

Um estudo constatou que fetos expostos a produtos desreguladores endócrinos possuem duas vezes mais probabilidade de ter volume de sêmen abaixo dos valores de referências estabelecidos pela OMS. Esses volumes são 2 ml de sêmen e 40 milhões de espermatozoides. Isso explica, em parte, a baixa qualidade do sêmen de alguns jovens suíços. Nesse estudo, os produtos mais associados foram pesticidas, ftalatos e metais pesados.

Outros inúmeros prejuízos foram causados por pesticidas como o DDT, inicialmente considerado como “milagroso” pelo controle de pragas na lavoura. Ele provocou vários problemas na saúde da população no mundo todo, inclusive no Brasil, principalmente na região de Cubatão.

Esses compostos sintéticos são originários de diferentes tipos de indústrias, destacadamente a química. Anualmente são lançadas novas substâncias no mercado sem o devido estudo prévio em relação aos efeitos nos organismos e no meio ambiente. Portanto, estamos constantemente entrando em contato com novas substâncias que podem atuar como desreguladores hormonais.

Além disso, outros produtos encontrados em casa também são fontes de disruptores endócrinos, como os produtos de higiene pessoal, cosméticos, aditivos alimentares, embalagens, recipientes de plástico e contaminantes. Para entendermos melhor, devemos conhecer alguns grupos de disruptores endócrinos mais comuns e com os quais entramos em contato todos os dias.

•        Exemplos de disruptores endócrinos a serem evitados

Confira algumas matérias que explicam de forma mais detalhada como agem, onde são encontrados e como evitar alguns disruptores endócrinos:

•        Ftalatos;

•        Bisfenol F;

•        Benzeno;

•        Bisfenol A;

•        Parabenos;

•        Bisfenol S;

•        Chumbo;

•        Triclosan;

•        Tolueno.

Além desses compostos, um relatório demonstrou que diversos tipos de plástico se comportam como disruptores endócrinos. Desse modo, podendo causar esterilização, problemas comportamentais, diminuição da população e outros danos à saúde.

<><> Perigo em baixa doses

Ainda não se sabe qual a quantidade necessária de disruptores endócrinos para causar danos à saúde humana. Entretanto, estudos epidemiológicos apontam que quantidades ínfimas já teriam a capacidade de serem perigosas, oferecendo efeitos adversos ao funcionamento do sistema endócrino.

Os disruptores endócrinos podem interagir e produzir efeitos significativos, mesmo quando combinados em baixas doses, as quais individualmente não produziram efeitos observáveis.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), há indícios de que a exposição aos disruptores endócrinos ao longo do tempo aumentam algumas doenças, como:

•        Reprodutivas/endócrinas: câncer de mama, câncer de próstata, endometriose, infertilidade, obesidade, diabetes;

•        Imunes/autoimunes: suscetibilidade a infecções, doenças autoimunes;

•        Cardiopulmonares: asma, doenças cardíacas, hipertensão, infarto;

•        Cerebrais/nervosas: mal de Parkinson, mal de Alzheimer, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), dificuldades de aprendizado e outras condições que afetam o sistema nervoso.

Outro problema relacionado aos disruptores endócrinos é a obesidade. Acredita-se que a principal ação dos disruptores endócrinos relacione-se à interferência na diferenciação do adipócito e nos mecanismos de homeostase do peso. No Brasil, as maiores prevalências de obesidade são encontradas nas regiões mais industrializadas do país, portanto, onde potencialmente ocorre maior exposição da população aos disruptores endócrinos.

Embora haja alguns esforços no sentido de barrar os disruptores endócrinos, existe uma infinidade de produtos químicos sintéticos que ainda não foram avaliados quanto à atividade de desregulação hormonal e muitos não são identificados pelo fabricante no produtos.

Por conta disso, estamos olhando apenas a ponta do iceberg, ainda há perguntas a serem respondidas, como:

•        Quantos disruptores endócrinos existem?

•        De onde eles vêm?

•        Quais os seus efeitos a longo prazo?

•        Quais seus mecanismos de ação?

 Todas essas perguntas precisam de respostas.

Enquanto isso, temos que nos precaver e buscar novas informações para sabermos como evitar os disruptores endócrinos e outras substâncias nocivas.

 

•        Quem usa batom, brilho ou protetor labial pode estar ingerindo, aos poucos, metais pesados

Além das cores, os batons proporcionam hidratação, proteção solar e antienvelhecimento aos lábios. Eles também protegem a pele labial contra a poluição do ar, pois formam uma camada que impede o contágio de alergias provocadas por partículas presentes no ar ou veiculadas pelas próprias mãos. Acontece que alguns desses cosméticos podem conter substâncias tóxicas, como metais pesados, e até componentes cancerígenos. Porém, essas informações não são tão difundidas e, quando chegam ao conhecimento dos usuários, são subestimadas porque tais produtos normalmente não são ingeridos, e sim aplicados sobre a pele ou cabelo. Mas esse fato não exclui riscos associados aos tóxicos, ao contrário do que muita gente pensa. Com os batons coloridos ou sem cor, brilhos e protetores labiais, a história é outra, pois esses produtos são aplicados diretamente nos lábios e acabam sendo ingeridos em pequenas porções. Quem usa batom regularmente pode chegar a comer mais de dois batons inteiros por ano! É importante ficar ligado nos componentes do batom que você usa.

<><> Preocupação

Os riscos associados ao uso de itens labiais estão relacionados aos padrões de exposição tóxica presente nesses produtos (geralmente metais pesados). O uso do batom é diário e sua reaplicação ocorre, em média, 20 vezes por dia, segundo uma pesquisa. Levando isso em consideração, um estudo revelou que é possível ingerir de 24 a 87 miligramas de produto por dia. Se considerarmos uma aplicação ao longo dos 365 dias do ano, isso resulta na ingestão de mais de oito gramas de batom por ano. Para se ter uma ideia, uma embalagem comum de batom possui aproximadamente 3,5 gramas de produto, e oito gramas de batom correspondem a mais de dois batons inteiros ingeridos por ano.

Assim como a maioria dos artigos de beleza vendidos comercialmente, os batons podem conter parabenos, fragrâncias e corantes. Outras pesquisas revelaram ainda mais problemas à saúde ocasionados por certas substâncias presentes em cosméticos, como esmaltes, batons e outros itens de maquiagem.

<><> Chumbo

Pesquisadores da Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de alimentos e medicamentos nos EUA, encontraram presença de chumbo em 400 amostras de batons de marcas amplamente disponíveis no mercado. A FDA regula apenas as concentrações de chumbo presentes nos corantes dos batons, estabelecendo um limite de 20 partes por milhão (ppm) de chumbo. Essa regulação da FDA é muito permissiva e vai contra estudos que apontam a não existência de níveis seguros de exposição ao chumbo. No Brasil, o acetato de chumbo é regulado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e só pode estar presente em tintura capilar com limite de 0,6% contendo não mais que três ppm de arsênio e uma ppm de mercúrio. No Canadá e na Europa, o chumbo foi banido.

Mas “só” identificar chumbo na composição dos batons não é a pior parte. Foram encontradas concentrações de chumbo muito acima dos níveis identificados por pesquisas anteriores. Resumindo, algumas marcas elevaram o nível de chumbo presente nos seus batons em até dez vezes, por isso é tão importante verificar os componentes do batom que você usa.

<><> Outros tóxicos

Os alertas em muitos meios de comunicação enfocam, na maioria das vezes, a presença de chumbo nos produtos para lábios. Porém, em pesquisas conduzidas por pesquisadores da Environmental Health Perspectives e do Instituto Politécnico de Lisboa foram detectadas a presença de outros metais pesados como o níquel, crômio, alumínio, cádmio, cobalto, cobre, manganês e titânio em produtos labiais em geral e também em outros itens cosméticos, tais como lápis para olhos e hidratantes, e até em protetores solares. Sucede que essas substâncias químicas elencadas acima também fazem mal à saúde.

<><> Efeitos

O chumbo está associado à ocorrência de demência, depressão, agitação, agressão, perda de concentração, déficit de QI, hiperatividade, desregulação do ciclo menstrual, nascimento prematuro, Alzheimer, Parkinson, redução das capacidades cognitivas, entre outros distúrbios e doenças. Quando ingerido, os efeitos tóxicos principais do chumbo atingem o cérebro e o sistema nervoso. Altas concentrações de chumbo no corpo podem causar danos ao fígado, danos aos ossos, danos ao sistema reprodutivo e aumentar a pressão sanguínea. Segundo a Internacional Agency for on Cancer (IARC), que regula os riscos de determinados produtos causarem câncer, os compostos de chumbo inorgânico são classificados como possivelmente carcinogênicos para humanos. A Environmental Protection Agency (EPA), agência ambiental americana, classifica o chumbo e os seus compostos orgânicos como provavelmente cancerígenos.

O níquel pode ser considerado o campeão de alergias na pele. Em 2008, a União Europeia baniu o níquel na composição de cosméticos e estabeleceu restritas recomendações para produtos com este metal pesado que ficam em contato prolongado com a pele, como os brincos (veja sobre os possíveis problemas que a junção substâncias químicas mais joias podem provocar à saúde). Há estudos que comprovam problemas de dermatite alérgica até mesmo pelo uso de celulares que possuem em sua composição o metal em contato direto com a pele:

O cromo foi banido nos cosméticos pela União Europeia, Canadá, Indonésia, Filipinas, Tailândia, Camboja, Mianmar e Malásia. A substância pode provocar ao longo da vida problemas de pele como a dermatite. O cádmio, por sua vez, está relacionado a problemas nos rins, ossos e pulmões.

Saiba mais sobre os problemas que envolvem os cosméticos em um vídeo produzido pelo The Story of Stuff Project, curtindo o vídeo.

<><> Cuidados e reciclagem

Evite comprar de marcas que estejam associadas à presença de chumbo e de outros metais tóxicos. Procure produtos livres de substâncias químicas nocivas à saúde. E continue atento aos rótulos para evitar o contato com outras substâncias perigosas, como as fragrâncias, corantes e parabenos.

Além desses cuidados, é importante também verificar a data de validade desses produtos. Quando vencidos, a eficiência deles diminui e os riscos de surgir alergia, irritações e herpes (no caso dos batons) aumentam, uma vez que são maiores as chances de ocorrer oxidação e decomposição dos ingredientes presentes na fórmula, incluindo aí as substâncias tóxicas. Sendo assim, se você perceber que a cor do batom mudou e ele estiver seco e exalando um cheiro diferente e desconfortável, saiba que esses são sinais de que está na hora de descartá-lo.

Pelo fato de alguns itens de beleza conterem em sua fórmula substâncias prejudiciais à saúde, como já dito, é importante descartar esses produtos de forma adequada. Pois, caso contrário, eles podem ocasionar a contaminação de solos e lençóis freáticos, por exemplo. Para dar um fim sustentável ao seu produto cosmético, você pode levá-lo até a loja em que o comprou – algumas empresas de cosméticos recolhem uma quantidade mínima de produtos vazios e, em troca, oferece ao cliente um novo produto da marca; e outras possibilitam que o cliente deixe o produto de beleza em agências dos Correios (veja como descartar corretamente cosméticos vencidos). Mas antes de levá-los a esses locais, para que sejam reciclados, não se esqueça de limpar antes o recipiente com um pano úmido.

No caso dos batons que não agradam mais a você, uma dica é transformá-los em um novo batom. Nesse caso, tire-os do invólucro e os coloque em uma vasilha. Leve a vasilha ao fogo em banho maria, e mexa os batons com um palito. Quando eles começarem a derreter, a cores vão se misturar, formando uma nova. Depois de derretidos, transfira o seu novo batom para um recipiente, espere esfriar e depois é só testá-lo. Outra opção é trocar com as amigas ou doar para alguém.

 

Fonte: eCycle

 

Da defesa em recepção em Brasília ao susto com 'banho de sangue': como a relação de Lula e Maduro murchou

A relação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, murchou desde o início do mandato de Lula, e se desdobrou com troca de farpas e indiretas entre os dois mandatários nas últimas semanas.

Maduro vive um impasse político em seu país desde domingo (28), quando disputou a eleição. A situação é delicada para o Brasil, porque Maduro costumava ser um aliado de Lula, mas o governo queria eleições limpas e democráticas. E a oposição venezuelana e autoridades de outros países disseram que isso não ocorreu.

Assim que o presidente brasileiro assumiu o cargo, uma das primeiras ações do governo foi retomar as relações com a Venezuela, que até então tinham sido rompidas no governo anterior.

No primeiro ano de mandato, Lula fez questão de destacar a importância da aliança com a Venezuela e de reconhecer o governo de Maduro.

Mas após o país vizinho tomar ações contrariando acordos e excluindo observadores internacionais das eleições, além de invalidar candidaturas da oposição, a relação estremeceu (veja os detalhes adiante).

Nos últimos dias, Maduro mentiu que as eleições brasileiras não são auditadas, o que foi classificado pelo governo brasileiro como desrespeitoso.

O Brasil ainda não se posicionou oficialmente sobre se reconhece ou não a vitória de Maduro, anunciada pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), órgão eleitoral da Venezuela, que é ligado ao governo daquele país.

O CNE declarou que o atual presidente se reelegeu por 51,2% dos votos.

O assessor especial do governo Lula para relações exteriores, Celso Amorim, está em Caracas, capital da Venezuela, onde acompanha os desdobramentos das eleições, e tenta manter o diálogo com Maduro.

Em uma conversa de cerca de uma hora na noite desta segunda, Amorim reforçou o pedido do governo brasileiro para a Venezuela publicar integralmente as atas da eleição presidencial.

<><> Elogios em público

Em maio do ano passado, Maduro esteve no Brasil para a cúpula de líderes da América do Sul. Antes disso, a última passagem dele pelo país tinha sido em 2015.

No dia anterior ao evento, que ocorreu em Brasília, Maduro esteve no Palácio do Planalto, onde se reuniu com Lula. Em seguida, os dois presidentes almoçaram juntos no Palácio Itamaraty.

Ao chegar ao Itamaraty, Lula posou para fotos ao lado de Maduro e fez a seguinte indagação antes de apertar a mão do presidente venezuelano: "Quantos anos vocês passaram ouvindo dizer que o Maduro era um homem mau?". Maduro respondeu: "Muitos anos".

Durante declaração naquele dia, o presidente brasileiro classificou o momento como "histórico" e disse que "brigou muito" com governos que não reconheciam Maduro como presidente da Venezuela. Ressaltou que o governo buscaria a "integração plena" entre os dois países.

Lula ainda afirmou, na época, que existia um preconceito contra o país vizinho e que o Brasil foi criticado por ser amigo da Venezuela. Foi nesse contexto em que o presidente brasileiro disse que a Venezuela precisaria divulgar sua "narrativa" — frase bastante criticada pela oposição do petista.

"Acho que cabe à Venezuela mostrar a sua narrativa, para que possa efetivamente fazer pessoas mudarem de opinião. [...] É preciso que você construa a sua narrativa, e eu acho que por tudo que conversamos, a sua narrativa vai ser melhor do que a narrativa que eles têm contado contra você", pontuou Lula na ocasião.

As eleições venezuelanas também fizeram parte da fala de Lula naquele dia. O presidente brasileiro argumentou que somente o povo da Venezuela, por meio de um pleito livre, poderia dizer quem iria governar o país. Chegou a mencionar que os adversários teriam de "pedir desculpas pelo estrago que fizeram na Venezuela."

As relações entre Brasil e Venezuela tinham sido rompidas pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Ainda em 2019, após assumir, Bolsonaro deixou de reconhecer Maduro como presidente venezuelano e passou a aceitar Juan Guaidó como presidente interino. Outros países também aceitaram a representação de Guaidó.

A relação foi retomada assim que Lula assumiu a presidência e, em 18 de janeiro, o Brasil estabeleceu representação diplomática para atuar na embaixada brasileira em Caracas.

Nicolás Maduro está no poder desde 2013. Ele sucedeu na função o seu padrinho político Hugo Chávez, que chefiou o país a partir de 1999 e morreu em 2013.

·        Telefonemas sobre eleição

Em outubro e dezembro do ano passado, Lula e Maduro conversaram por telefone.

Na conversa de outubro, Lula e o aliado esquerdista trataram sobre eleições na Venezuela; sanções dos Estados Unidos ao país vizinho; fornecimento de energia elétrica; e também propostas para o pagamento da dívida venezuelana com o Brasil.

De acordo com o Planalto, na ligação, Lula solicitou informações sobre negociações entre governo e oposição na Venezuela em torno da realização das eleições.

Lula também tratou, segundo o governo, sobre tratativas entre Venezuela e Estados Unidos para a suspensão de sanções norte-americanas, que, nas palavras do Planalto, "atingem a economia e a população civil" da Venezuela.

Contrários ao governo de Maduro, os EUA impuseram sanções econômicas à Venezuela. As medidas agravaram a crise econômica do país.

Outro assunto do telefonema de Lula e Maduro, segundo o Planalto, foram as propostas para a retomada do pagamento da dívida da Venezuela com o Brasil.

A dívida da Venezuela junto ao governo brasileiro estava estimada em US$ 1,2 bilhão em maio de 2023, segundo informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Em dezembro, os dois presidentes voltaram a se falar em ligação. Na ocasião, Maduro telefonou para Lula — momento em que havia uma tensão entre Venezuela e Guiana por uma disputa territorial pela região denominada Essequibo. A região hoje faz parte do território da Guiana, mas estava sendo reivindicada pelo governo de Maduro.

Na conversa, segundo o governo brasileiro, o presidente manifestou preocupação com a crise e fez um "chamado ao diálogo". Segundo fontes do governo brasileiro na época, Maduro recebeu bem a proposta de o Brasil ser uma espécie de mediador entre os dois países na disputa.

Depois de falar com Lula, Maduro publicou uma mensagem no X (antigo Twitter) em que mencionou uma possibilidade de diálogo com a Guiana. Mas, na época, não foi possível dizer se a postagem já estava programada ou se foi resultado da conversa.

<><> Mudança de temperatura

Em 1º de março deste ano Lula e Maduro voltaram a se encontrar durante a 8ª Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), em São Vicente e Granadinas.

A expectativa de auxiliares próximos de Lula era que o presidente medisse a temperatura no país com relação às eleições presidenciais.

O Itamaraty buscava, por meios diplomáticos, levar a Venezuela a cumprir o Acordos de Barbados, que determina eleições transparentes no país.

Lula estava preocupado com a situação do país vizinho, após Maduro ter tomado ações que colocavam em risco esses acordos (veja algumas delas abaixo).

Na semana anterior, pelo menos 12 funcionários de um escritório local do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) deixaram a Venezuela, depois que o governo determinou sua saída.

Outros fatores também contribuíram para insegurança por parte de Lula, segundo relataram assessores do presidente do Brasil. Entre eles:

Aliado a esses fatores estava a disputa pela região de Essequibo, que aumentava o nível de tensão. Maduro já tinha sido avisado por emissários do governo brasileiro sobre o risco de perder o controle da situação.

Auxiliares do presidente brasileiro ainda disseram que Lula não apoiaria qualquer "aventura" de Maduro ao tentar anexar o território. Na época, o governo brasileiro reforçou as fronteiras e o efetivo de militares.

E, como o previsto, naquele dia da ligação, os dois líderes conversaram sobre eleições as venezuelanas. Mas também estiveram na pauta o contexto econômico, o comércio bilateral entre os dois países, e as parcerias para frear o garimpo ilegal nas regiões fronteiriças.

O único tema que ficou de fora na conversa desse dia, segundo assessores, foi Essequibo.

Já no fim de março, Lula voltou a falar sobre as eleições da Venezuela, durante uma visita do presidente da França, Emmanuel Macron, a Brasília.

Lula classificou como "grave" o veto à principal candidata de oposição a Maduro. Na ocasião, a professora Corina Yoris, não conseguiu completar o registro da candidatura à presidência.

"É grave que a candidata não possa ter sido registrada. Ela não foi proibida pela Justiça. Me parece que ela se dirigiu até o lugar e tentou usar o computador local e não conseguiu entrar. O dado concreto é que não tem explicação, não tem explicação jurídica, política, você proibir um adversário de ser candidato. Eu quero que as eleições sejam feitas igual a gente faz aqui no Brasil, com a participação de todos. Quem quiser participar, participa, quem perder chora, quem ganhar ri, e assim a democracia continua", desse Lula na época.

Outro candidato da oposição, Manuel Rosales, acabou conseguindo se inscrever de última hora.

Foi nesse momento em que Maduro começou a se tornar um vizinho incômodo para Lula.

<><> Troca de farpas

No dia 17 de julho, Nicolás Maduro disse em um comício, na Parroquia de la Vega, um distrito popular na Zona Oeste de Caracas, que o país poderia enfrentar um "banho de sangue" e uma "guerra civil" caso ele não fosse reconduzido ao cargo nas eleições de 28 de julho.

Na semana seguinte, em entrevista a agências internacionais, Lula disse ter ficado "assustado" com a declaração de Maduro. Acrescentou que o presidente venezuelano deveria aprender que, quando se perde uma eleição, é preciso respeitar o resultado e ir "embora".

"Eu já falei para o Maduro duas vezes, e o Maduro sabe, que a única chance da Venezuela voltar à normalidade é ter um processo eleitoral que seja respeitado por todo o mundo", afirmou o presidentes às agências.

Naquele momento, Lula destacou que o Brasil enviaria observadores internacionais ao país, e o assessor da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, para acompanhar o processo eleitoral do país vizinho.

No mês anterior, Lula já tinha conversado com Maduro sobre a importância da "ampla presença" dos observadores nas eleições venezuelanas e reiterou o apoio brasileiro aos Acordos de Barbados.

Isso porque a Venezuela tinha excluído a União Europeia da lista de observadores internacionais para as eleições de julho.

Em 23 de julho, após a declaração de Lula sobre estar assustado, Maduro rebateu a fala do presidente brasileiro sem citá-lo nominalmente. O presidente venezuelano afirmou: "Quem se assustou que tome um chá de camomila."

Nesse mesmo dia, ao falar sobre "banho de sangue", Maduro justificou que fez uma referência à revolta popular de 1989, conhecida como "Caracaço".

À época, dezenas de pessoas morreram. O evento provocou uma virada política na Venezuela nos anos seguintes, além da ascensão da popularidade de Hugo Chávez.

Mas, no dia seguinte, outra fala polêmica fez o Brasil se posicionar.

Maduro mentiu durante um comício, sem citar provas, que as eleições brasileiras não são auditadas, o que foi classificado pela equipe do governo como "provocação desrespeitosa".

Diante disso, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Cármen Lúcia, reiterou que “as urnas e as eleições brasileiras são auditadas, desde o início do seu processo até o seu final”.

Após a fala, o TSE, então, decidiu voltar atrás e não enviar mais os observadores para acompanhar a eleição.

Ficou mantida apenas a ida de Celso Amorim como observador, que, até a publicação desta reportagem, acompanhava os desdobramentos do resultado da eleição.

Em conversa, com Maduro nesta segunda (29), Amorim reforçou o pedido do governo brasileiro para a Venezuela publicar integralmente as atas da eleição presidencial.

 

Fonte: g1