Fome,
falta de remédios e aumento de mortes marcam vida de aposentados sob Milei
Na
Argentina de Javier Milei, as estatísticas
oficiais conhecidas mostram que o aumento das mortes entre os idosos é de 5%
(65 a 74 anos), 8% (75 a 84) e 10% (+85), enquanto a motosserra é aplicada à
saúde pública e medicamentos e benefícios são eliminados. O tema ressurgiu
nesta quarta-feira na nova marcha dos aposentados.
Desta
vez, eles conseguiram ir do Congresso até o Ministério da Saúde. A resposta do
governo diante das reivindicações foi a habitual: polícia de choque. O que se
viu e se disse, entre tortas fritas, cartazes e até poemas.
Miriam
vive com pedras (na vesícula). Ela não consegue atendimento pelo PAMI. As
clínicas de Río Negro, Neuquén, Chubut e La Pampa anunciaram a suspensão total
do atendimento a 300 mil beneficiários no dia 24 de agosto, por 24 horas. Nem a
província de Vaca Muerta alivia a situação de seus aposentados.
Miriam
Cejas se afasta da fila com uma torta frita e um mate cocido servido em um copo
de isopor. Ela tem 67 anos, é de Villa Lugano e isso seria como sua sobremesa:
há pouco tempo conseguiu comer um ensopado de lentilhas graças à estrutura que
o sindicato dos Caminhoneiros mantém há mais de um mês nas quartas-feiras dos
aposentados no Congresso.
–
Pronto, com isso já não como até amanhã.
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Ela
justifica isso com as pedras que tem na vesícula e que tiram seu apetite,
embora seja difícil para ela se tratar – diz –, porque não consegue consultas
no PAMI, a instituição dedicada a oferecer assistência integral aos idosos.
Nas
últimas horas, clínicas e sanatórios privados de quatro províncias – Río Negro,
Neuquén, Chubut e La Pampa – anunciaram a suspensão total do atendimento a 300
mil afiliados no dia 24 de agosto, por 24 horas, uma situação que não ocorreu
nem em 2001, segundo alertavam.
No
Congresso, Miriam conta que, “por sorte”, conseguiu se aposentar há dois anos,
quando ainda existia a moratória para regularizar suas contribuições, hoje
interrompida pela motosserra libertária. Isso lhe permite receber uma
aposentadoria mínima: 419.775 pesos, mais o bônus de 70 mil. “Isso não
significa que seja suficiente para alguma coisa, porque tudo aumentou”,
esclarece, e conta que mora com a irmã, com quem divide as despesas.
Por
isso, tenta ir à distribuição de comida ou ao centro comunitário do bairro, ou
ver se o verdureiro lhe deixa alguma maçã em troca de varrer a calçada dele
(“agora há pouco meu estômago estava me pedindo alguma coisa, então comi meia
laranja”), ou conseguir aquela promoção em Flores da bandeja de ovos por 3.500
pesos.
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– E, se
não, o que vamos fazer: mate.
Mate
como alimento, mate para aguentar.
– Temos
que aguentar. Se não, não chegamos.
Chegar
aonde, por que vir, são as perguntas tolas antes de começar a marcha.
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– Não é
apenas por mim, é também pelos outros aposentados que têm filhos, que têm
netos, que pagam aluguel. Eu gostaria que tudo mudasse. Eu ouvia Norma Pla
quando ela defendia os aposentados: morreu sem resposta. Mas, se o ser humano
não fizer isso, o que vai esperar? O descanso é decidido por Deus. Enquanto
isso, nós temos que nos movimentar e buscar o dia a dia.
Suas
companheiras a chamam. Miriam abraça a bandeira do Movimento Teresa Rodríguez
(MTR) 12 de Abril e entra na marcha.
Nesta
quarta-feira, a mobilização começou com um aviso: seria feita a habitual volta,
mas depois caminhariam até o Ministério da Saúde, na avenida 9 de Julio com a
rua Moreno. A faixa da frente parte com uma mensagem sem metáforas: “Estão nos
matando”.
A pauta
de reivindicações inclui desde o corte de medicamentos (o governo eliminou pelo
menos 44 remédios que tinham 100% de cobertura) até os benefícios que não são
suficientes para cobrir a cesta básica do idoso (1.800.000 pesos, segundo a
Defensoria da Terceira Idade).
Eles
também exigem o fim da intervenção no PAMI e a renúncia do ministro Mario
Lugones, a quem chamam de “corrupto” e “assassino”, assim como ao presidente
Javier Milei.
Pela
lateral passam algumas pessoas vestidas de preto e com máscaras que se
assemelham a um bufão triste. Elas carregam cartazes:
- “A mortalidade
de pessoas de 74 a 85 anos cresceu 7,8% em 2024, durante o primeiro ano do
governo mileísta”.
- “O Estado
é responsável por cuidar da nossa vida”.
- “Comprar
comida ou remédio, uma escolha mortal”.
- “Basta de
genocídio silencioso”.
Alguns
dados: a quantidade de mortes em 2024, segundo a Direção de Estatísticas e
Informação em Saúde (DEIS), entre aqueles que tinham mais de 85 anos aumentou
10%. Entre aqueles que tinham entre 75 e 84 anos, o aumento foi de 8%.
Morreram
17.339 pessoas a mais a partir dos 74 anos do que no ano anterior. Causas:
pneumonia e influenza (16%), septicemias (12%), doenças do coração (9%),
doenças cerebrovasculares (5%) e tumores malignos (2%), tudo no ritmo da
motosserra aplicada à saúde pública e ao atendimento aos aposentados.
A
palavra genocídio aparece em vários cartazes.
Um
aposentado do grupo 12 Apóstolos grita para os carros que passam: “Temos que
nos unir contra este governo. Juntem-se a nós, porra!”. Tanto na marcha quanto
em frente ao Ministério, soma-se à reivindicação pela libertação de Milton
Tolomeo e Eneas Gallo, que continuam presos desde fevereiro na prisão de Marcos
Paz, quando foram detidos durante o protesto contra a reforma trabalhista. “Não
estamos todos, faltam os presos”, cantam os aposentados.
Tudo
acontecerá em frente ao Ministério e diante de um cordão simbólico de agentes
da Polícia Federal, que tentam impedir que a marcha avance para a rua. Os
aposentados dão um jeito de bloquear a rua Moreno e fazer com que o ônibus
turístico da Cidade de Buenos Aires, que iria virar, mude de direção. Em cima,
uma senhora de ascendência asiática agita os braços e saúda o que é cantado
abaixo:
“Milei,
Lugones, corruptos e ladrões”.
Outro
que marchou com cartazes é Ricardo, aposentado da área de telefonia: não diz a
idade exata, apenas que já passou do “meio século” e tem “outros tantos anos de
experiência”. Sobre seus escritos, avisa: “Um é meio grosseiro e o outro,
filosófico”. Quem estiver lendo dirá qual é qual:
- “Onde
termina a mentira começa a revolução”.
- “Este
Governo é uma merda, é preciso dar a descarga”.
Conta
que é ferreiro, morador de Quilmes – sul da região metropolitana de Buenos
Aires – e que hoje trouxe um poema caso justamente lhe fizessem uma entrevista.
Dizemos a ele que é seu dia de sorte. Ele o tinha dobrado ao meio no bolso,
escrito à mão. Trechos:
As balas das
quartas-feiras
estão livres de culpa
abençoadas pelo capelão cego.
Essas balas
pagas pelo povo
apontam para um fotógrafo agachado
para um velhinho com andador
para um veterano em cadeira de rodas
para uma empregada doméstica que já não tem
impressões digitais de tanto limpar a merda alheia
para um catador das imundícies dos ricos.
As balas das
quartas-feiras
têm fome de carne patriótica
fazem buracos por onde se derrama o sangue nobre dos meus irmãos.
Tomara que algum dia
as balas da infâmia
tenham o tiro saído pela culatra
então será justiça.
¨
Impopularidade de Milei e Kast faz Trump apostar em
Flávio para blindar aliados na região. Por Jamil Chade
O governo dos EUA precisa de uma
vitória de Flávio Bolsonaro não apenas para tirar do poder um governo que busca
autonomia diante dos interesses da Casa Branca. Os cálculos norte-americanos
apontam que, para além do destino político do Brasil, a eleição é fundamental
para o plano de Washington de estabilizar e perpetuar o poder nas mãos da
extrema direita em Buenos Aires, Quito, Santiago, Assunção e no restante da
região.
Ainda
que o Hemisfério esteja sendo governado em grande parte por forças
conservadoras e submissas aos EUA, a realidade é que muitos dos líderes vivem
situações delicadas, uma população dividida e uma profunda queda de
popularidade.
O temor
da Casa Branca é de que esse suposto controle sobre a região seja efêmero e que
não haja tempo suficiente para permitir que a hegemonia americana seja
restaurada, na dimensão que pretendem os EUA.
O que
nota, em diversos países, é um despontar de forças progressistas que, nas
próximas eleições, podem desafiar os aliados de Trump.
O
cálculo que se faz, portanto, é que uma vitória de Flávio Bolsonaro ajudaria a
desmontar a pressão sobre os demais líderes da região, já que forças de
oposição e progressistas deixariam de contar com o apoio do governo brasileiro.
Neutralizar
a oposição na América Latina passa, portanto, por impedir que Lula tenha mais
quatro anos no poder.
Com o
petista, a preocupação é de que, a cada eleição na América Latina, forças
progressistas poderiam ser mobilizadas para voltar a governar. O resultado
seria o esvaziamento de acordos que foram assinados entre americanos e capitais
da região.
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Queda de popularidade de Milei, Kast
Na Casa
Branca, apesar do discurso de que “controla” a região, observadores são cientes
das dificuldades que seus aliados atravessam.
Javier
Milei, na Argentina, vive uma situação especialmente delicada. Sua taxa de
popularidade, no mês de julho, foi de apenas 31,4%, o menor nível desde
setembro de 2025. O que mais chama a atenção de observadores em Washington é
que Milei, apesar do apoio explícito de Trump, continua vendo sua popularidade
despencar.
O ritmo
da queda tem se intensificado. Em fevereiro, tua taxa de aprovação era de 45%.
Mas logo caiu para 38,5% em março, 32% em maio e, agora, pouco mais de 31%.
Não por
acaso, a viagem de Milei para apoiar Flávio Bolsonaro, há poucas semanas, foi
vista não apenas como um gesto de solidariedade em relação a um nome da extrema
direita latino-americana. O argentino também sabe que precisa de uma derrota de
Lula para que, internamente, tenha maior oxigênio e reciprocidade de um
eventual governo do PL para enfrentar a oposição progressista.
No
Chile, a situação de José António Kast não é das melhores tampouco. 54% dos
chilenos indicaram que seu governo está pior do que se esperava em termos de
segurança pública, sua principal bandeira de campanha. Depois de atingir uma
taxa de 50% de aprovação em março, seus índices despencaram e hoje não passam
de 35%.
No cado
da Colômbia, o cálculo é diferente. Apesar da recente vitória da extrema
direita na eleição presidencial, nunca as forças progressistas tiveram tantos
votos e tanto apoio como agora.
Abelardo
de la Espriella terá de governar diante de um movimento político liderado pela
esquerda, o Pacto Histórico, que se transformou na maior força no Congresso.
Além disso, o candidato derrotado, Ivan Cepeda, recebeu 12,7 milhões de votos,
um recorde para os movimentos progressistas.
Em
Washington, o governo sabe que essa realidade fará com que a oposição tenha
força política e social para barrar reformas do novo presidente.
Mesmo
na Venezuela, o temor é de que uma recuperação lenta da situação econômica leve
uma parcela da população a questionar os acordos estabelecidos entre os
ex-líderes chavistas e Trump.
¨
Ex-mulher de Cerimedo diz que consultor de Milei revelou
corrupção no governo argentino
O
ataque a tiros que quase matou Nadia Beller, ex-companheira de Fernando
Cerimedo — preso na Bolívia sob acusação de ser o autor intelectual do atentado
— acabou tendo repercussões na Justiça argentina, especialmente na investigação
envolvendo a Andis, agência responsável por benefícios e medicamentos. Segundo
os jornais Página 12 e La Nacion, Beller, que está internada em uma clínica de
Santa Cruz, afirmou que Cerimedo, consultor ligado ao presidente Javier Milei e
à direita latino-americana, teria falado diversas vezes sobre supostos casos de
corrupção no governo argentino.
De
acordo com Beller, Cerimedo também teria sido responsável, junto com sua
ex-mulher, Natalia Basil, pela divulgação de áudios atribuídos a Diego
Spagnuolo, ex-chefe da Andis, nos quais ele supostamente mencionaria pagamentos
de propina e um repasse de “3% para Karina”, em referência a Karina Milei, irmã
do presidente e integrante do governo. A ex-companheira disse possuir gravações
de conversas privadas com Cerimedo, algumas com mais de uma hora, armazenadas
em diferentes dispositivos.
Beller
afirmou que fez essas gravações como forma de proteção pessoal, alegando que
vinha sofrendo ameaças e maus-tratos de Cerimedo. Ela também declarou estar
disposta a entregar o material à Justiça argentina caso seja convocada. A
deputada Marcela Pagano já solicitou que Beller seja ouvida como testemunha,
enquanto o promotor Franco Piccardi avalia a possibilidade de convocá-la no
processo, que já resultou no indiciamento de 18 empresários e ex-funcionários
públicos por crimes como associação ilícita, suborno e fraude contra o Estado.
De
acordo com Beller, Cerimedo descrevia o governo Milei como uma estrutura
“plagada de corrupção” e dizia que Karina Milei estaria no centro do esquema.
Ela também relatou ter presenciado o distanciamento entre o consultor e
integrantes do governo, além de conflitos com empresários e aliados políticos,
entre eles Santiago Caputo. Segundo seu relato, Cerimedo estaria preocupado com
a possibilidade de o governo perder sustentação e criticava medidas adotadas
por Milei, incluindo ações de repressão e determinadas leis.
A
ex-companheira atribuiu ainda a Natalia Basil, ex-mulher de Cerimedo, um papel
importante na divulgação dos áudios. De acordo com Beller, o próprio consultor
teria dito que Basil era responsável por fazer chegar as gravações às
autoridades. Basil trabalhou na Andis entre abril e dezembro de 2024, período
em que, segundo a investigação, começou a ser estruturado o sistema de
licitações de medicamentos de alto custo que posteriormente seria alvo das
denúncias de corrupção.
O
possível depoimento de Beller, porém, não acrescentaria necessariamente
elementos inéditos ao processo. Em setembro de 2025, o próprio Cerimedo já
havia declarado à promotoria que conhecia Spagnuolo e que o ex-chefe da Andis
lhe teria relatado a existência de propinas. Na ocasião, afirmou que 3% dos
valores seriam destinados à Casa Rosada e que Martín “Lule” Menem receberia
mensalmente uma quantia em dólares por supostamente dar aval às licitações.
A
defesa de Spagnuolo tenta utilizar o relato de Beller para sustentar a tese de
que os áudios fariam parte de uma operação de inteligência destinada a
prejudicar o governo. Os advogados alegam que as gravações poderiam ter sido
manipuladas ou até produzidas com inteligência artificial. Paralelamente,
existe uma investigação conduzida pelo promotor Carlos Stornelli sobre essa
hipótese, embora o processo principal disponha de outros elementos, como
documentos de licitações, mensagens e dados extraídos de celulares de
empresários investigados.
O juiz
federal Ariel Lijo determinou que os áudios sejam submetidos a perícia pela
Gendarmaria argentina. Enquanto isso, a investigação reúne outros indícios de
irregularidades nas compras de medicamentos de alto custo. Dados das licitações
apontam que 93,11% das ordens de compra acabavam concentradas em duas empresas,
enquanto outras companhias teriam apresentado propostas artificialmente
elevadas para simular concorrência. Anotações contábeis, mensagens de WhatsApp
e registros de pagamentos também fazem parte das provas analisadas. A origem da
divulgação dos áudios continua sendo alvo de disputa dentro do próprio campo
governista, com diferentes personagens trocando acusações sobre quem teria
promovido o vazamento.
Fonte:
Por Lucas Pedulla, no Lavaca - Tradução: Isabelle Paiva, para Diálogos do Sul
Global/ICL Notícias

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