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países latino-americanos sob um comando: Pentágono ativa força militar
pan-americana
Embora
a notícia tenha passado praticamente despercebida pela imprensa uruguaia, a
importância da novidade é inegável: o Pentágono organiza as forças militares da
região para defender seus interesses. Convém observar não apenas o que o
Comando Sul informa, mas também aquilo que evita especificar.
Para
isso, é imprescindível levar em conta o contexto em que o anúncio aparece.
Vejamos. Em novembro de 2025, o presidente Donald Trump lança sua Estratégia de
Segurança Nacional.
A Estratégia
Antiterrorista foi
publicada em maio de 2026 pela Casa Branca. Em julho passado, ocorreu a “cúpula
antiterrorista” convocada pelo secretário de Estado Marco Rubio.
A
ofensiva política de Trump tem como objetivo desmontar os restos do Estado de
bem-estar social e suas expressões ideológicas, juntamente com a estrutura
legal do sistema internacional do pós-Guerra Fria. Na América Latina, busca pôr
fim aos tímidos avanços conquistados pela denominada onda rosa posterior ao
fracasso do Consenso de Washington.
Assim,
é muito relevante que, pela primeira vez na história, os Estados Unidos
construam uma força militar operacional que organiza as forças armadas de 19
países (a Colômbia aderiu em 13 de agosto) sob seu comando. Isso não pode ser
minimizado.
Já não
se trata de um tratado, como o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca
ou a Aliança Atlântica (OTAN). Estamos diante da concretização do velho sonho
de uma força militar pan-americana em ação.
Com
efeito, o comunicado de imprensa assegura que a mencionada Força-Tarefa militar
foi ativada por uma diretriz do chefe do Comando Sul, general do Corpo de
Fuzileiros Navais Francis L. Donovan, que afirma que ela
possui um “objetivo específico” que, no entanto, define de maneira genérica e
sugestivamente imprecisa: “sincronizar as operações militares dos Estados
Unidos para enfrentar ameaças, fortalecer a segurança regional e responder
rapidamente às crises no hemisfério ocidental”.
Além
disso, o comunicado informa que o novo dispositivo é comandado pelo
major-general do Corpo de Fuzileiros Navais Kevin Jarrard, que liderou o apoio
militar à operação conduzida pelo Departamento de Estado na Venezuela após
os terremotos de 24 de junho
passado.
A nova
Força-Tarefa proporciona comando e controle unificados tanto em nível tático
quanto operacional, integrando as capacidades militares dos agora 19 países da
denominada Escudo das Américas ou Coalizão Anticartéis das Américas (Americas
Counter-Cartel Coalition).
Dessa
forma, sem nomeá-los, o Comando Sul se refere aos 18 governos latino-americanos
alinhados às políticas do presidente Trump que participaram da cúpula convocada
em Doral, no estado da Flórida, em 7 de março passado, aos quais se somou
a Colômbia a partir da
posse de seu novo presidente, Abelardo de la Espriella.
O
Comando Sul afirma que o novo dispositivo militar regional, sob comando
estadunidense, aumentará a eficácia operacional contra “as ameaças que afetam a
segurança regional e impactam os Estados Unidos e seus países associados” e
fortalecerá a capacidade do Comando Sul para “responder rapidamente a
contingências e crises humanitárias na região”. Além disso, assegura que
existem “atores malignos” que “ameaçam a segurança nacional dos Estados Unidos,
além de desestabilizar a região e explorar populações vulneráveis”.
Por
outro lado, o chefe do Comando Sul estabelece que a “JTF-WHEM fortalece nosso
trabalho conjunto com aliados e parceiros confiáveis, sincroniza capacidades
militares e aplica pressão sustentada contra as redes que afetam nossa
segurança coletiva”. O general Donovan concluiu que “juntos aumentamos a
segurança na região e protegemos nossa pátria”.
Assim,
“enquanto quartel-general do Comando Sul para as operações em toda a região, a
JTF-WHEM inclui tarefas de inteligência, vigilância e reconhecimento,
planejamento operacional e coordenação multinacional com o objetivo de aumentar
a pressão sobre as organizações maléficas que operam ao longo do hemisfério”.
Continua
após o anúncio
O
anúncio do Comando Sul ocorre apenas 15 dias depois da tão comentada reunião de
representantes de 66 governos de três continentes, convocada por Rubio em 16 de
julho, em Washington. Ali, ele fez uma exortação contra o suposto crescimento
do “terrorismo de esquerda“, de “grupos
políticos seculares violentos cuja ideologia é antiamericana, radicalmente
pró-transgênero e anarquista”, tal como são definidos pela Estratégia
Antiterrorista publicada em maio de 2026 pela Casa Branca.
Nesse
encontro, também foi anunciada a abertura de uma convocação para grupos
europeus alinhados ao movimento MAGA (Make America Great Again), aos
quais são oferecidos subsídios de até 3 milhões de dólares para financiar
atividades que promovam os “vínculos civilizacionais” entre os Estados Unidos e
a Europa.
Na
América Latina, esses subsídios são concedidos diretamente a governos
pró-Trump, como ocorreu no caso da Argentina de Javier Milei ou, mais
recentemente, com a Colômbia, cujo recém-empossado presidente recebeu a oferta
de um pacote de 1 bilhão de dólares.
Um
verdadeiro Plano Colômbia II destinado a
“fortalecer as forças de segurança da Colômbia em nossa luta conjunta contra as
organizações terroristas estrangeiras e as organizações criminosas
transnacionais”, o que inclui tecnologia, otimização dos gastos em defesa,
interoperabilidade e “a realização de operações coordenadas com as forças
estadunidenses”.
Embora,
neste caso, a aprovação do subsídio deva passar pelo Congresso, a tragédia do
recente terremoto, além de dar lugar a uma ajuda suplementar de 15,5 milhões de
dólares, favorecerá sua rápida tramitação.
Para
decodificar las misiones que cumplirá a recém-criada Força-Tarefa Conjunta do
Hemisfério Sul, também convém revisar a apresentação do general Donovan, em 17
de março passado, perante o Comitê das Forças Armadas da Câmara dos Deputados
do Congresso estadunidense. Isso permite compreender com maior clareza quais
são as missões desse novo engendro que, na realidade, não é mais do que a
concretização do velho sonho pan-americano de uma força militar regional
combinada sob o comando do Pentágono.
Novamente,
Washington definiu que o inimigo em nossa região é interno. Portanto, essa
força militar que, segundo afirma o comunicado de imprensa do Comando Sul, já
está operacional, terá como alvo as “13 organizações terroristas estrangeiras
que desenvolvem campanhas de terror, violência e corrupção” na América Latina.
O
general Donovan se refere a essa tarefa como “nossa área de responsabilidade”.
Além disso, ela está a serviço dos objetivos da Estratégia de Segurança
Nacional de Trump para esta região, cujo propósito é que os recursos naturais e
os enclaves estratégicos latino-americanos sejam colocados à disposição e sob o
controle dos Estados Unidos.
As
forças armadas de 19 países da região, cujos objetivos primordiais deveriam ser
a defesa da soberania, servirão para que os Estados Unidos estabeleçam seu
domínio imperial em nossos territórios. O sequestro do presidente da Venezuela,
em janeiro de 2026, e a instalação naquele país de um governo de fachada a
serviço de Washington são uma boa demonstração dos planos da Casa Branca para a
América Latina.
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Colofão do editor
Em 10
de agosto, o canal do YouTube da Share America, “plataforma
administrada pelo Escritório de Assuntos Públicos Globais do Departamento de
Estado”, publicou um vídeo protagonizado pelo embaixador norte-americano no
Panamá, Kevin Marino Cabrera, que reivindica a Doutrina Monroe como princípio
da política ianque para a América. A peça de propaganda termina com esta
declaração de Donald Trump: “O domínio estadunidense no hemisfério ocidental
nunca mais será questionado”. A pretensão de nos submeter é anunciada sem
subterfúgios.
O
ativismo dessa espécie de Operação Condor do século XXI é
frenético. No dia 11 de agosto, os integrantes da Coalizão contra os Cartéis
das Américas (A3C) reuniram-se no Panamá e a Colômbia fez sua entrada formal no
clube dos súditos. No dia 12, o secretário de Defesa estadunidense Pete Hegseth
convocou os países aliados a “fazer coisas ruins contra pessoas ruins”.
Nesse
mesmo dia, a Embaixada dos Estados Unidos na Argentina anunciou o próximo
encontro: a 40ª Conferência Internacional para o Controle de Drogas (IDEC),
entre os dias 18 e 20 de agosto, em Buenos Aires.
A
associação entre narcotráfico e terrorismo é o principal leitmotiv desta
campanha militar em andamento, da qual detalhes impactantes foram conhecidos
nesta semana: segundo reportagens publicadas respectivamente pelo The
New York Times e pelo The Washington Post, a Agência
Central de Inteligência (CIA) estaria desenvolvendo operações clandestinas no
Equador empregando forças paramilitares, uma espécie de corsários pós-modernos
que já destruíram lanchas no Pacífico. Enquanto isso, a revista Rolling
Stone relata que a escalada repressiva também se desenvolve com máxima
violência dentro do país de James Monroe, neste caso graças à associação entre
protesto e terrorismo.
¨
Noboa entrega Equador a militares dos EUA. Por Orlando
Pérez
Integrantes
das Forças Armadas estadunidenses, funcionários civis do Departamento de Defesa
dos Estados Unidos e contratados e subcontratados vinculados a esse
departamento poderão ingressar no Equador sem visto e
permanecer no país sob um regime especial de privilégios, isenções e imunidades
previsto pelo Acordo sobre o
Estatuto das Forças (SOFA) entre Equador e Estados Unidos.
As
novas regras foram estabelecidas por um acordo do Ministério do Interior
publicado em 18 de agosto, que regulamenta o ingresso e a permanência
temporária desse pessoal no país no âmbito do SOFA, vigente desde 2024. O
instrumento bilateral concede ao pessoal estadunidense privilégios, isenções e
imunidades equivalentes aos reconhecidos ao pessoal administrativo e técnico
das missões diplomáticas.
Isso
ocorreu no mesmo dia em que o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, Francis
L. Donovan, se reunia em Quito com o ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo Loffredo, e o chefe do
Comando Conjunto das Forças Armadas, Henry Delgado Salvador, para revisar os
avanços da cooperação em segurança e das operações conjuntas, supostamente
destinadas ao combate ao “narcoterrorismo”.
De
acordo com o documento, essas pessoas poderão permanecer no Equador por até 180
dias não renováveis a cada ano, com entradas múltiplas, mediante um registro
denominado “Atos de Comércio e Atividades”, sem necessidade de visto
equatoriano.
Para
ingressar no país, bastará apresentar passaporte vigente ou identificação
oficial emitida pelo governo estadunidense, acompanhados de uma ordem coletiva
de movimentação ou de uma ordem individual de viagem expedida pelo Departamento
de Defesa dos Estados Unidos.
Mas não
é só isso. O documento estabelece ainda a isenção de taxas migratórias para o
pessoal abrangido pelo acordo e para embarcações e aeronaves do Departamento de
Defesa estadunidense. Enquanto sua permanência estiver regular, essas pessoas
também não estarão sujeitas a sanções ou medidas administrativas
migratórias.
Nos
casos envolvendo pessoas beneficiadas por privilégios e imunidades, eventuais
medidas administrativas deverão ser coordenadas com o Ministério das Relações
Exteriores do Equador e canalizadas pela via diplomática.
O
acordo ministerial abrange também contratados vinculados ao Departamento de
Defesa, e não apenas militares e funcionários civis, criando para eles um
procedimento migratório especial de entradas múltiplas que não constitui
visto.
A
regulamentação deriva do SOFA assinado entre Equador e Estados Unidos em 6 de
outubro de 2023 e ratificado pelo governo de Daniel Noboa em fevereiro de 2024.
O acordo concede ao pessoal estadunidense privilégios, isenções e imunidades
equivalentes aos do pessoal administrativo e técnico das missões diplomáticas e
estabelece outras facilidades para sua atuação temporária em território
equatoriano.
O que a
nova normativa não esclarece é quantos militares, civis ou contratados poderão
ingressar no país; quais serão seus nomes, empresas e funções; em quais
províncias, instalações ou portos atuarão; se portarão armas ou participarão
diretamente de operações; qual autoridade equatoriana aprovará cada missão; e
quais mecanismos concretos serão aplicados para investigar eventuais mortes,
ferimentos ou danos a civis.
¨
Kast quer retirar para sempre direitos de condenados por
crime organizado e ‘terrorismo’
O
presidente de extrema direita do Chile, José Antonio Kast, enviou para
tramitação legislativa uma reforma constitucional que impede o exercício de
cargos públicos e restringe direitos sociais — por exemplo, acesso à saúde,
aposentadoria ou educação pública — a pessoas condenadas por crimes cometidos
como integrantes de organizações criminosas ou terroristas.
O
projeto, em caráter de “suma urgência” — isto é, 15 dias para ser despachado em
comissão —, também cria um estado de exceção constitucional “antidelinquência”
que poderia ser decretado pelo Presidente da República, sem necessidade de
aprovação legislativa.
Segundo
a iniciativa, o mandatário poderá decretá-lo diante de uma ameaça grave e
iminente à segurança pública ou quando esta tiver sido gravemente afetada e
estendê-lo por até 120 dias, com a possibilidade de prorrogá-lo uma vez pelo
mesmo período.
Somente
uma ampliação posterior exigiria aprovação do Congresso.
Enquanto
estiver em vigor, o governante poderá suspender ou restringir a liberdade
pessoal e de deslocamento e os direitos de reunião e associação, além de
interceptar, abrir ou registrar documentos e comunicações e determinar
requisições de bens.
O plano
do político de extrema direita prevê que, para definir proibições e restrições
de direitos a pessoas condenadas por crimes de organização criminosa ou
terrorismo, estas serão delimitadas por meio de uma lei de quórum qualificado,
ou seja, metade mais um do total de senadores e deputados em exercício.
Se for
aprovada, as pessoas condenadas por tais crimes ficarão impedidas, em caráter
perpétuo, de exercer cargos públicos e não poderão, durante 15 anos, ter acesso
a penas substitutivas à privação de liberdade nem a benefícios penitenciários,
ficando proibidas de acessar benefícios sociais financiados com recursos
públicos.
Também
se busca constitucionalizar a criação de registros de organizações criminosas,
autorizando o Presidente da República a classificar determinada organização
como terrorista ou ligada ao crime organizado, sendo necessário um parecer
favorável do Ministério Público ou do Conselho de Segurança Nacional,
declaração que deverá passar pelo Senado, em sessão secreta, e ser aprovada por
dois terços do quórum.
As
intenções de Kast provocam controvérsia até mesmo em setores políticos que são
alinhados ao seu governo, particularmente no
que diz respeito à fixação de impedimentos relacionados a garantias
constitucionais como saúde e educação, e também foi acusado de que o governo
trabalhou “muito pouco” a iniciativa com os partidos governistas antes de
apresentá-la.
Na
centro-esquerda, a proposta de Kast é vista como uma franca tentativa de
“limitação de liberdades que não se havia visto”, nas palavras do
ex-presidente Gabriel Boric.
Fonte:
Por Julián González-Guyer, em Estratégia.la/La Jornada/Diálogos do Sul Global

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