terça-feira, 25 de agosto de 2026

19 países latino-americanos sob um comando: Pentágono ativa força militar pan-americana

Embora a notícia tenha passado praticamente despercebida pela imprensa uruguaia, a importância da novidade é inegável: o Pentágono organiza as forças militares da região para defender seus interesses. Convém observar não apenas o que o Comando Sul informa, mas também aquilo que evita especificar.

Para isso, é imprescindível levar em conta o contexto em que o anúncio aparece. Vejamos. Em novembro de 2025, o presidente Donald Trump lança sua Estratégia de Segurança Nacional. A Estratégia Antiterrorista foi publicada em maio de 2026 pela Casa Branca. Em julho passado, ocorreu a “cúpula antiterrorista” convocada pelo secretário de Estado Marco Rubio.

A ofensiva política de Trump tem como objetivo desmontar os restos do Estado de bem-estar social e suas expressões ideológicas, juntamente com a estrutura legal do sistema internacional do pós-Guerra Fria. Na América Latina, busca pôr fim aos tímidos avanços conquistados pela denominada onda rosa posterior ao fracasso do Consenso de Washington.

Assim, é muito relevante que, pela primeira vez na história, os Estados Unidos construam uma força militar operacional que organiza as forças armadas de 19 países (a Colômbia aderiu em 13 de agosto) sob seu comando. Isso não pode ser minimizado.

Já não se trata de um tratado, como o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca ou a Aliança Atlântica (OTAN). Estamos diante da concretização do velho sonho de uma força militar pan-americana em ação.

Com efeito, o comunicado de imprensa assegura que a mencionada Força-Tarefa militar foi ativada por uma diretriz do chefe do Comando Sul, general do Corpo de Fuzileiros Navais Francis L. Donovan, que afirma que ela possui um “objetivo específico” que, no entanto, define de maneira genérica e sugestivamente imprecisa: “sincronizar as operações militares dos Estados Unidos para enfrentar ameaças, fortalecer a segurança regional e responder rapidamente às crises no hemisfério ocidental”.

Além disso, o comunicado informa que o novo dispositivo é comandado pelo major-general do Corpo de Fuzileiros Navais Kevin Jarrard, que liderou o apoio militar à operação conduzida pelo Departamento de Estado na Venezuela após os terremotos de 24 de junho passado.

A nova Força-Tarefa proporciona comando e controle unificados tanto em nível tático quanto operacional, integrando as capacidades militares dos agora 19 países da denominada Escudo das Américas ou Coalizão Anticartéis das Américas (Americas Counter-Cartel Coalition).

Dessa forma, sem nomeá-los, o Comando Sul se refere aos 18 governos latino-americanos alinhados às políticas do presidente Trump que participaram da cúpula convocada em Doral, no estado da Flórida, em 7 de março passado, aos quais se somou a Colômbia a partir da posse de seu novo presidente, Abelardo de la Espriella.

O Comando Sul afirma que o novo dispositivo militar regional, sob comando estadunidense, aumentará a eficácia operacional contra “as ameaças que afetam a segurança regional e impactam os Estados Unidos e seus países associados” e fortalecerá a capacidade do Comando Sul para “responder rapidamente a contingências e crises humanitárias na região”. Além disso, assegura que existem “atores malignos” que “ameaçam a segurança nacional dos Estados Unidos, além de desestabilizar a região e explorar populações vulneráveis”.

Por outro lado, o chefe do Comando Sul estabelece que a “JTF-WHEM fortalece nosso trabalho conjunto com aliados e parceiros confiáveis, sincroniza capacidades militares e aplica pressão sustentada contra as redes que afetam nossa segurança coletiva”. O general Donovan concluiu que “juntos aumentamos a segurança na região e protegemos nossa pátria”.

Assim, “enquanto quartel-general do Comando Sul para as operações em toda a região, a JTF-WHEM inclui tarefas de inteligência, vigilância e reconhecimento, planejamento operacional e coordenação multinacional com o objetivo de aumentar a pressão sobre as organizações maléficas que operam ao longo do hemisfério”.

Continua após o anúncio

O anúncio do Comando Sul ocorre apenas 15 dias depois da tão comentada reunião de representantes de 66 governos de três continentes, convocada por Rubio em 16 de julho, em Washington. Ali, ele fez uma exortação contra o suposto crescimento do “terrorismo de esquerda“, de “grupos políticos seculares violentos cuja ideologia é antiamericana, radicalmente pró-transgênero e anarquista”, tal como são definidos pela Estratégia Antiterrorista publicada em maio de 2026 pela Casa Branca.

Nesse encontro, também foi anunciada a abertura de uma convocação para grupos europeus alinhados ao movimento MAGA (Make America Great Again), aos quais são oferecidos subsídios de até 3 milhões de dólares para financiar atividades que promovam os “vínculos civilizacionais” entre os Estados Unidos e a Europa.

Na América Latina, esses subsídios são concedidos diretamente a governos pró-Trump, como ocorreu no caso da Argentina de Javier Milei ou, mais recentemente, com a Colômbia, cujo recém-empossado presidente recebeu a oferta de um pacote de 1 bilhão de dólares.

Um verdadeiro Plano Colômbia II destinado a “fortalecer as forças de segurança da Colômbia em nossa luta conjunta contra as organizações terroristas estrangeiras e as organizações criminosas transnacionais”, o que inclui tecnologia, otimização dos gastos em defesa, interoperabilidade e “a realização de operações coordenadas com as forças estadunidenses”.

Embora, neste caso, a aprovação do subsídio deva passar pelo Congresso, a tragédia do recente terremoto, além de dar lugar a uma ajuda suplementar de 15,5 milhões de dólares, favorecerá sua rápida tramitação.

Para decodificar las misiones que cumplirá a recém-criada Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Sul, também convém revisar a apresentação do general Donovan, em 17 de março passado, perante o Comitê das Forças Armadas da Câmara dos Deputados do Congresso estadunidense. Isso permite compreender com maior clareza quais são as missões desse novo engendro que, na realidade, não é mais do que a concretização do velho sonho pan-americano de uma força militar regional combinada sob o comando do Pentágono.

Novamente, Washington definiu que o inimigo em nossa região é interno. Portanto, essa força militar que, segundo afirma o comunicado de imprensa do Comando Sul, já está operacional, terá como alvo as “13 organizações terroristas estrangeiras que desenvolvem campanhas de terror, violência e corrupção” na América Latina.

O general Donovan se refere a essa tarefa como “nossa área de responsabilidade”. Além disso, ela está a serviço dos objetivos da Estratégia de Segurança Nacional de Trump para esta região, cujo propósito é que os recursos naturais e os enclaves estratégicos latino-americanos sejam colocados à disposição e sob o controle dos Estados Unidos.

As forças armadas de 19 países da região, cujos objetivos primordiais deveriam ser a defesa da soberania, servirão para que os Estados Unidos estabeleçam seu domínio imperial em nossos territórios. O sequestro do presidente da Venezuela, em janeiro de 2026, e a instalação naquele país de um governo de fachada a serviço de Washington são uma boa demonstração dos planos da Casa Branca para a América Latina.

<><> Colofão do editor

Em 10 de agosto, o canal do YouTube da Share America, “plataforma administrada pelo Escritório de Assuntos Públicos Globais do Departamento de Estado”, publicou um vídeo protagonizado pelo embaixador norte-americano no Panamá, Kevin Marino Cabrera, que reivindica a Doutrina Monroe como princípio da política ianque para a América. A peça de propaganda termina com esta declaração de Donald Trump: “O domínio estadunidense no hemisfério ocidental nunca mais será questionado”. A pretensão de nos submeter é anunciada sem subterfúgios.

O ativismo dessa espécie de Operação Condor do século XXI é frenético. No dia 11 de agosto, os integrantes da Coalizão contra os Cartéis das Américas (A3C) reuniram-se no Panamá e a Colômbia fez sua entrada formal no clube dos súditos. No dia 12, o secretário de Defesa estadunidense Pete Hegseth convocou os países aliados a “fazer coisas ruins contra pessoas ruins”.

Nesse mesmo dia, a Embaixada dos Estados Unidos na Argentina anunciou o próximo encontro: a 40ª Conferência Internacional para o Controle de Drogas (IDEC), entre os dias 18 e 20 de agosto, em Buenos Aires.

A associação entre narcotráfico e terrorismo é o principal leitmotiv desta campanha militar em andamento, da qual detalhes impactantes foram conhecidos nesta semana: segundo reportagens publicadas respectivamente pelo The New York Times e pelo The Washington Post, a Agência Central de Inteligência (CIA) estaria desenvolvendo operações clandestinas no Equador empregando forças paramilitares, uma espécie de corsários pós-modernos que já destruíram lanchas no Pacífico. Enquanto isso, a revista Rolling Stone relata que a escalada repressiva também se desenvolve com máxima violência dentro do país de James Monroe, neste caso graças à associação entre protesto e terrorismo.

¨      Noboa entrega Equador a militares dos EUA. Por Orlando Pérez

Integrantes das Forças Armadas estadunidenses, funcionários civis do Departamento de Defesa dos Estados Unidos e contratados e subcontratados vinculados a esse departamento poderão ingressar no Equador sem visto e permanecer no país sob um regime especial de privilégios, isenções e imunidades previsto pelo Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA) entre Equador e Estados Unidos. 

As novas regras foram estabelecidas por um acordo do Ministério do Interior publicado em 18 de agosto, que regulamenta o ingresso e a permanência temporária desse pessoal no país no âmbito do SOFA, vigente desde 2024. O instrumento bilateral concede ao pessoal estadunidense privilégios, isenções e imunidades equivalentes aos reconhecidos ao pessoal administrativo e técnico das missões diplomáticas. 

Isso ocorreu no mesmo dia em que o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, Francis L. Donovan, se reunia em Quito com o ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo Loffredo, e o chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas, Henry Delgado Salvador, para revisar os avanços da cooperação em segurança e das operações conjuntas, supostamente destinadas ao combate ao “narcoterrorismo”. 

De acordo com o documento, essas pessoas poderão permanecer no Equador por até 180 dias não renováveis a cada ano, com entradas múltiplas, mediante um registro denominado “Atos de Comércio e Atividades”, sem necessidade de visto equatoriano. 

Para ingressar no país, bastará apresentar passaporte vigente ou identificação oficial emitida pelo governo estadunidense, acompanhados de uma ordem coletiva de movimentação ou de uma ordem individual de viagem expedida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. 

Mas não é só isso. O documento estabelece ainda a isenção de taxas migratórias para o pessoal abrangido pelo acordo e para embarcações e aeronaves do Departamento de Defesa estadunidense. Enquanto sua permanência estiver regular, essas pessoas também não estarão sujeitas a sanções ou medidas administrativas migratórias. 

Nos casos envolvendo pessoas beneficiadas por privilégios e imunidades, eventuais medidas administrativas deverão ser coordenadas com o Ministério das Relações Exteriores do Equador e canalizadas pela via diplomática. 

O acordo ministerial abrange também contratados vinculados ao Departamento de Defesa, e não apenas militares e funcionários civis, criando para eles um procedimento migratório especial de entradas múltiplas que não constitui visto. 

A regulamentação deriva do SOFA assinado entre Equador e Estados Unidos em 6 de outubro de 2023 e ratificado pelo governo de Daniel Noboa em fevereiro de 2024. O acordo concede ao pessoal estadunidense privilégios, isenções e imunidades equivalentes aos do pessoal administrativo e técnico das missões diplomáticas e estabelece outras facilidades para sua atuação temporária em território equatoriano. 

O que a nova normativa não esclarece é quantos militares, civis ou contratados poderão ingressar no país; quais serão seus nomes, empresas e funções; em quais províncias, instalações ou portos atuarão; se portarão armas ou participarão diretamente de operações; qual autoridade equatoriana aprovará cada missão; e quais mecanismos concretos serão aplicados para investigar eventuais mortes, ferimentos ou danos a civis. 

¨      Kast quer retirar para sempre direitos de condenados por crime organizado e ‘terrorismo’

O presidente de extrema direita do Chile, José Antonio Kast, enviou para tramitação legislativa uma reforma constitucional que impede o exercício de cargos públicos e restringe direitos sociais — por exemplo, acesso à saúde, aposentadoria ou educação pública — a pessoas condenadas por crimes cometidos como integrantes de organizações criminosas ou terroristas.

O projeto, em caráter de “suma urgência” — isto é, 15 dias para ser despachado em comissão —, também cria um estado de exceção constitucional “antidelinquência” que poderia ser decretado pelo Presidente da República, sem necessidade de aprovação legislativa.

Segundo a iniciativa, o mandatário poderá decretá-lo diante de uma ameaça grave e iminente à segurança pública ou quando esta tiver sido gravemente afetada e estendê-lo por até 120 dias, com a possibilidade de prorrogá-lo uma vez pelo mesmo período.

Somente uma ampliação posterior exigiria aprovação do Congresso.

Enquanto estiver em vigor, o governante poderá suspender ou restringir a liberdade pessoal e de deslocamento e os direitos de reunião e associação, além de interceptar, abrir ou registrar documentos e comunicações e determinar requisições de bens.

O plano do político de extrema direita prevê que, para definir proibições e restrições de direitos a pessoas condenadas por crimes de organização criminosa ou terrorismo, estas serão delimitadas por meio de uma lei de quórum qualificado, ou seja, metade mais um do total de senadores e deputados em exercício.

Se for aprovada, as pessoas condenadas por tais crimes ficarão impedidas, em caráter perpétuo, de exercer cargos públicos e não poderão, durante 15 anos, ter acesso a penas substitutivas à privação de liberdade nem a benefícios penitenciários, ficando proibidas de acessar benefícios sociais financiados com recursos públicos.

Também se busca constitucionalizar a criação de registros de organizações criminosas, autorizando o Presidente da República a classificar determinada organização como terrorista ou ligada ao crime organizado, sendo necessário um parecer favorável do Ministério Público ou do Conselho de Segurança Nacional, declaração que deverá passar pelo Senado, em sessão secreta, e ser aprovada por dois terços do quórum.

As intenções de Kast provocam controvérsia até mesmo em setores políticos que são alinhados ao seu governo, particularmente no que diz respeito à fixação de impedimentos relacionados a garantias constitucionais como saúde e educação, e também foi acusado de que o governo trabalhou “muito pouco” a iniciativa com os partidos governistas antes de apresentá-la.

Na centro-esquerda, a proposta de Kast é vista como uma franca tentativa de “limitação de liberdades que não se havia visto”, nas palavras do ex-presidente Gabriel Boric.

 

Fonte: Por Julián González-Guyer, em Estratégia.la/La Jornada/Diálogos do Sul Global

 

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