Quando
o emprego vira moeda de voto: como o coronelismo sobrevive na política
brasileira
A democracia brasileira, que é burguesa,
consolidou — especialmente a partir da Constituição de 1988 — um conjunto de
princípios destinados a romper com práticas históricas de apropriação privada
do Estado. A impessoalidade, a legalidade, a moralidade administrativa, a liberdade
do voto e a igualdade das/os cidadãs/cidadãos perante as instituições
constituem fundamentos de uma ordem republicana que, em tese, deveria impedir
que o poder público fosse utilizado como instrumento de interesses
particulares.
Entretanto,
a realidade nos mostra outra coisa, como demonstra o mais recente exemplo
ocorrido no Maranhão, quando um prefeito se achou no direito de “persuadir”
servidoras/servidores a votarem em determinada candidatura.
A
existência de instituições formalmente democráticas não significa, por si só, a
superação de práticas políticas construídas ao longo da formação histórica
brasileira. Ao contrário. Determinadas formas de exercício do poder demonstram
a capacidade de adaptação às mudanças institucionais.
E,
nesse sentido, o coronelismo talvez seja um dos melhores exemplos de como
práticas políticas historicamente associadas ao Brasil rural sobrevivem sob
novas formas, incorporadas à burocracia, às administrações municipais, aos
partidos e até mesmo a instituições que, em princípio, deveriam funcionar
segundo critérios estritamente impessoais.
<><>
Dependência e autoridade pessoal
O
episódio envolvendo o prefeito de Campestre do Maranhão, Fernando Oliveira da
Silva,
não me deixa mentir. Segundo acusações que circularam recentemente,
servidoras/servidores municipais teriam sofrido pressão política relacionada ao
apoio a determinado candidato, inclusive com a ameaça de perda do emprego.
É
necessário, evidentemente, tratar essa informação como acusação enquanto não
houver comprovação pelas instâncias competentes. O interesse político do
episódio, contudo, ultrapassa a eventual responsabilidade individual do
prefeito.
O que
ele nos permite discutir é uma questão estrutural, qual seja, o que acontece
quando quem ocupa temporariamente uma função pública passa a utilizar a
estrutura administrativa como instrumento de fidelização política.
A
resposta nos conduz diretamente a conceitos fundamentais para a compreensão da
formação política brasileira, tais como coronelismo, clientelismo, mandonismo,
personalismo e patrimonialismo.
Continua
após o anúncio
No
livro Coronelismo, enxada
e voto (um
belo livro de ciência política), Victor Nunes Leal demonstrou que o coronelismo
não poderia ser compreendido unicamente como o domínio arbitrário de grandes
latifundiários sobre determinada população, porque se tratava de um sistema
político construído a partir da articulação entre o poder privado dos chefes
locais e as instituições públicas.
Dessa
forma, o coronel estabelecia relações de dependência com a população e, ao
mesmo tempo, mantinha compromissos com governos estaduais e com outras
instâncias do poder.
Sob
esse sistema, o voto não era, necessariamente, resultado de uma escolha
política autônoma, mas podia estar condicionado por relações de dependência
econômica e social.
A
importância da interpretação de Leal reside no fato de ele demonstrar que o
coronelismo não foi um resíduo arcaico em uma sociedade que caminhava rumo à
modernidade, mas era, paradoxalm 2ente, uma forma de articulação entre
instituições modernas — eleições, partidos e representação política — e
estruturas sociais tradicionais baseadas na dependência e na autoridade
pessoal. É essa característica que nos permite compreender sua permanência
simbólica e institucional.
O
coronelismo da Primeira República desapareceu como sistema político específico,
mas algumas das relações sociais e políticas que o sustentavam não
desapareceram com ele. Elas se transformaram. O “coronel contemporâneo” já não
precisa ser um grande proprietário rural, possuir uma patente honorífica ou
mesmo comandar homens armados.
Ele
pode ser um prefeito, um deputado, um empresário, um dirigente partidário — ou
qualquer indivíduo que consiga controlar recursos, cargos, contratos ou
oportunidades e, a partir disso, estabelecer relações de dependência política.
O velho coronel distribuía empregos, favores e proteção; o novo pode controlar
nomeações, cargos comissionados, contratos, programas públicos e estruturas
administrativas.
O
antigo cabo eleitoral percorria ruas e propriedades; o atual mobiliza redes
sociais e grupos de mensagens. A linguagem mudou, as instituições mudaram, os
mecanismos tecnológicos mudaram, mas a lógica da dependência não desapareceu.
E é aí
que o episódio de Campestre do Maranhão merece nossa análise. Caso se confirme
que servidoras/servidores tenham sofrido ameaças de perda de seus empregos em
razão de suas escolhas políticas, não estaremos diante de uma simples disputa
eleitoral, ou mesmo de um comportamento inadequado de um administrador.
Estaremos diante de uma prática incompatível com a própria ideia republicana de
administração pública.
Porque
o emprego público não pode ser convertido em instrumento de recompensa por
lealdade política, porque as convicções políticas de quem serve não coincidem
com as de quem governa/administra. O cargo público não constitui patrimônio
particular de quem ocupa temporariamente o lugar de gestão.
Essa
questão nos aproxima do conceito de patrimonialismo, brilhantemente discutido
no livro Os donos do poder, do historiador Raymundo Faoro, que
desenvolveu uma interpretação histórica segundo a qual a formação política
brasileira foi marcada pela constituição de um estamento político capaz de
apropriar-se do aparelho estatal e utilizá-lo para a reprodução de seu próprio
poder.
No
sentido proposto por Faoro, o patrimonialismo não deve ser confundido com
corrupção, mas com um fenômeno mais profundo, qual seja, uma ausência de
separação rigorosa entre aquilo que pertence à esfera pública e aquilo que
pertence aos interesses privados dos indivíduos ou grupos que controlam o
Estado. De acordo com o historiador, na ordem patrimonial, o cargo público pode
ser percebido como extensão da autoridade pessoal; o recurso público, como
instrumento de distribuição de favores; e a administração, como espaço de
reprodução de alianças.
<><>
Formação histórica marcada por relações de opressão
Essa
característica ajuda a explicar uma das mais persistentes ambiguidades da
cultura política brasileira, que é a tendência de transformar direitos em
favores. Quando uma pessoa precisa recorrer a uma autoridade política para
obter aquilo que deveria receber como consequência de um direito, a relação
republicana se deteriora, pois quem governa/gere passa a aparecer como pessoa
“benfeitora”, quando deveria ser, somente, gestora de recursos e políticas que
pertencem à coletividade. Porque o favor gera gratidão; a gratidão produz
dependência; a dependência favorece a lealdade política.
Por
isso, não devemos interpretar o patrimonialismo unicamente como um problema das
pequenas cidades do interior, ou mesmo como uma característica de determinadas
regiões. Essa forma de enxergar e se comportar em relação ao público atravessa
diferentes setores da sociedade brasileira. E manifesta-se sempre que relações
pessoais substituem critérios institucionais. Quem ainda não
presenciou/vivenciou uma situação na qual um agente político usou do cargo para
beneficiar amizades, parentes? Quem não conhece uma história de nepotismo no
serviço público? Quem não presenciou veículos oficiais serem utilizados a
serviço de questões pessoais?
Essa
mesma lógica pode aparecer em uma prefeitura, em uma universidade, em uma
empresa, em um partido político, em uma organização profissional ou em qualquer
espaço no qual o poder institucional seja confundido com poder pessoal.
Na
cultura brasileira, infelizmente, é uma prática muito habitual, inclusive
naturalizada por muitas pessoas.
Sérgio
Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, também nos ajuda a
compreender esse fenômeno. Ao analisar a formação histórica da sociedade
brasileira, o autor chamou atenção para a força das relações pessoais e
afetivas na organização da vida social e política.
A ideia
do “homem cordial”, desenvolvida por Holanda, não significa que o brasileiro
seja simplesmente afetuoso ou gentil, mas que determinadas relações pessoais
tendem, historicamente, a invadir espaços que deveriam ser regidos por normas
impessoais.
É
importante ressaltar que o problema não é a existência de relações pessoais —
inevitáveis em qualquer sociedade —, mas sua transformação em critério para o
funcionamento das instituições. É importante, também, que evitemos uma
interpretação determinista. Não existe uma suposta “natureza brasileira”
condenada ao patrimonialismo.
O que
existe é uma formação histórica marcada por escravidão, por concentração
fundiária, por profundas desigualdades sociais, por fragilidade institucional
em determinados períodos, por personalismo político e por relações de
dependência que deixaram marcas profundas em nosso modus vivendi.
Mas o
mais importante de salientar é que a cultura política é histórica e, por isso
mesmo, pode ser transformada. A consolidação de instituições republicanas, a
profissionalização do serviço público, a expansão dos mecanismos de controle, a
transparência e a participação precisam se constituir em mecanismos importantes
de resistência a essas práticas que sobrepõem o direito ao poder.
A
existência de eleições livres não impede, automaticamente, que uma pessoa seja
pressionada a votar de determinada maneira. A existência de concursos públicos
não impede que cargos de confiança sejam utilizados como moeda política. A
existência de órgãos de controle não impede que autoridades tentem transformar
a máquina pública em extensão de seus interesses. A democracia burguesa formal,
portanto, não garante, por si mesma, uma cultura política democrática.
<><>
Cultura do favor ou cultura do direito?
Uma/servidora/servidor
que teme perder o emprego por não apoiar determinado grupo político não se
encontra na mesma condição de autonomia que aquela/aquele que pode escolher sem
receio de retaliações. A liberdade política, infelizmente, não é somente uma
questão de ausência de violência física; ela também pressupõe a ausência de
mecanismos de dependência que transformem direitos econômicos e sociais em
instrumentos de coerção política. E é por isso que práticas como a denunciada
no Maranhão devem ser discutidas para além da disputa entre grupos partidários.
Em uma
República (ao menos teoricamente), a alternância no poder significa justamente
que quem governa hoje poderá ser oposição amanhã; e que os recursos e as
instituições públicas precisam permanecer submetidos a regras que independam de
quem ocupa o cargo. Quando a prefeitura, por exemplo, é tratada como patrimônio
de um grupo, a alternância eleitoral deixa de produzir mudança institucional,
pois muda-se a/o ocupante do poder, mas permanece a lógica de apropriação da
máquina pública.
O nosso
país avançou desde a sociedade predominantemente rural da Primeira República. E
seria um erro histórico afirmar que vivemos sob o mesmo sistema coronelista do
passado. Isso, porém, não significa pensar que as práticas de dominação
política tenham desaparecido. A questão, portanto, não é afirmar uma
continuidade absoluta entre o coronelismo e a política contemporânea. É
compreender como antigas lógicas de poder foram transformadas e, em alguns
casos, substituídas por mecanismos mais modernos de controle.
Podemos
afirmar que o coronelismo desapareceu como estrutura histórica, mas que
sobrevive como prática. O mandonismo pode ter abandonado a violência explícita,
mas assumiu a forma de dependência econômica. O clientelismo pode ter deixado
de ser apresentado como favor pessoal, mas passou a funcionar através da
máquina administrativa. E o mesmo ocorre com o patrimonialismo, que se vestiu
de legalidade sem abandonar completamente a lógica de apropriação privada do
público. É claro que não se trata de uma regra geral. Mas, como vemos com o
exemplo do Maranhão, não nos livramos desses vícios.
Esse
caso de Campestre do Maranhão tem uma relevância que ultrapassa os limites
daquele município, porque nos obriga a nos perguntar quanto de República existe
efetivamente em nossas relações políticas cotidianas. Nos obriga a perguntar se
somos tratadas/tratados como sujeitos de direitos ou como eleitoras/eleitores
potencialmente disponíveis para a troca de favores.
Nos
obriga, sobretudo, a reconhecer que a construção de uma sociedade baseada nos
três princípios que, em tese, deveriam reger a democracia — igualdade perante a
lei (isonomia), igualdade no direito de voz (isegoria) e igualdade na
possibilidade de participar do poder (isocracia) — não depende, unicamente, de
boas leis. Depende, sobretudo, da transformação de uma cultura política
profundamente marcada pela personalização do poder.
Fonte:
Diálogos do Sul Global

Nenhum comentário:
Postar um comentário