Um
em cada 6 candidatos veteranos muda autodeclaração racial
Cerca
de um em cada seis candidatos que disputam as eleições de 2026 e já haviam
concorrido em pleitos anteriores alterou a autodeclaração de cor ou raça ao
registrar a candidatura neste ano.
Dos
20,5 mil postulantes registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) neste
ano, 13,7 mil já tinham disputado algum cargo eletivo anteriormente. Entre
eles, 2.136 declararam cor ou raça de forma diferente da informada em eleições
passadas. A migração mais frequente foi de branca para parda, registrada por
828 candidatos. Em seguida aparecem as transições de parda para branca (596),
parda para preta (287) e preta para parda (271).
Em
menor número, candidatos também alteraram a autodeclaração de preta para branca
(28), parda para indígena (20) e outras combinações. Considerando todas as
mudanças, a categoria "branca" foi a única a registrar saldo
negativo, com perda líquida de 235 candidatos. As demais categorias tiveram
ganho de declarações entre os que já haviam concorrido.
Entre
os partidos, o DC foi o que proporcionalmente seus candidatos mais trocaram a
autodeclaração (15,4%), seguido do Agir (14,5%) e do PSDB (13,1%). Em números
absolutos, o MDB lidera (153 candidatos), seguido do PL (150) e Podemos (143).
A
análise foi realizada pela DW com base nos dados abertos mais recentes
disponibilizados pela Justiça Eleitoral. Os pleitos de 2014, 2016, 2018, 2020 e
2022 foram incluídos na amostra com base no CPF dos candidatos. Já para as
eleições de 2024, nas quais não houve divulgação do documento de identificação,
o levantamento realizou um cruzamento por nome e data de nascimento.
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Leis eleitorais mudaram perfil dos candidatos
A
coleta de informações sobre cor e raça começou em 2014, quando o TSE passou a
exigir os dados no registro, inicialmente com fins estatísticos. A regra tornou
mais evidente a sub-representação da população negra na política.
Em
2020, a Corte decidiu que os recursos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral,
além do tempo de propaganda, deveriam ser distribuídos proporcionalmente entre
negros e não negros com base na composição das candidaturas de cada partido.
Por decisão do STF, a regra passou a valer já naquele ano.
No ano
seguinte, a regra foi regulamentada pela Justiça e a Emenda Constitucional 111
determinou que votos dados a mulheres e pessoas negras valem em dobro para a
distribuição dos fundos entre 2022 e 2030.
Isso
fez com que o número de alterações na autodeclaração fosse mais elevado em
2022, em comparação com outras eleições gerais. Naquele ano, 3.640 candidatos
modificaram a informação em relação às eleições anteriores. Em 2018, foram
3.238 casos.
A
mudança mais recente veio em 2024, quando o Congresso estabeleceu um piso de
30% dos recursos para candidaturas pretas e pardas. A Justiça reforçou também
os mecanismos de fiscalização das autodeclarações, permitindo que partidos
criem comissões de heteroidentificação. No entanto, a declaração continua sendo
voluntária, sem banca prévia. Em caso de divergência, o candidato pode ser
intimado a conferir o dado.
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Candidatos alteram declaração mais de uma vez
A
redução observada neste ano acompanha a queda de candidatos gerais do pleito,
de quase 30% em relação a 2022, tornando esta a eleição com menor número de
concorrentes desde 2010.
Alguns
casos, porém, chamam atenção. Desde 2018, a categoria branca é a única a
registrar saldo negativo em todas as eleições gerais entre os que mudam a
autodeclaração. Em 2022, por exemplo, 1.543 candidatos abandonaram a declaração
branca, a maioria passando a se declarar parda ou preta, enquanto 1.089 fizeram
o caminho inverso.
Também
se tornaram mais frequentes os casos de postulantes que alteram a
autodeclaração mais de uma vez ao longo da trajetória eleitoral. Entre os
candidatos de 2026, ao menos 1.371 estão nessa situação.
Na
maior parte deles, a alteração acontece para voltar à declaração original,
indicando um possível erro, mas em 123 deles, a nova migração não representou
um retorno à classificação original, mas uma terceira opção de cor ou raça.
Entre
os exemplos estão candidatos que passaram de branca para parda em determinado
ano e, posteriormente, para preta; ou que se declararam pardos numa eleição,
brancos na seguinte e, na candidatura mais recente, indígenas. Um dos
candidatos trocou cinco vezes entre três categorias, por exemplo. Mais de 50
deles migraram entre as categorias branca e preta em 2026.
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Anistia a partidos e descumprimento de regras
Especialistas
concordam que há casos de processos reais em que o candidato passa a
compreender melhor sua própria identidade racial, sem que isso necessariamente
represente uma tentativa de obter vantagens eleitorais.
O
cientista político da FGV Marco Antonio Carvalho Teixeira também lembra que
legendas foram punidas por descumprir as novas regras. "Em algumas
situações, isso pode ter atraído mais pessoas para essa categoria",
afirma.
Um caso
marcante foi o de ACM Neto, candidato ao governo da Bahia em 2022, que havia se
declarado pardo em eleições anteriores. Naquele ano, seu registro apareceu
inicialmente como branco, mas a campanha afirmou que houve um erro e corrigiu a
informação para pardo. Em 2026, voltou a se autodeclarar branco e disse que o
processo foi um "aprendizado". "É um caso que gerou
questionamentos porque, do ponto de vista da trajetória pessoal, não deveria
haver tanta dúvida sobre a origem racial declarada", diz Marco Antonio.
Por
outro lado, o professor destaca que o impacto real do novo modelo pode ter
diminuído nos últimos anos devido à baixa efetividade do cumprimento pelos
partidos.
Um dos
fatores foi a Emenda Constitucional 133, de 2024, que, além de exigir
destinação mínima de recursos, anistiou partidos de consequências relativas ao
descumprimento das regras em eleições anteriores.
"Acho
que esse movimento pode ser um pouco menor porque os partidos também não
levaram as exigências tão a sério. Basta observar o número de denúncias
apresentadas pelo Ministério Público Eleitoral por descumprimento das
regras", afirma.
O
professor ressalta ainda que a legislação atual se concentra no registro das
candidaturas e não necessariamente na promoção de condições mais igualitárias
na disputa eleitoral. "A cota é para candidatura, não para eleição. Para
os partidos, cumprir a cota de candidatos é o que importa. Incentivar
efetivamente essas candidaturas durante a campanha é outro passo, e esse
compromisso ainda não foi plenamente assumido pelas legendas", conclui.
• Proporção de negros eleitos para o
Congresso não chega a 30%, mostra estudo
A
proporção de candidatos negros para vagas de deputado e senador aumentou na
última década, mas o movimento ainda não se reflete no número de eleitos e nem
na composição do Congresso Nacional –há menos de 30% de parlamentares pretos e
pardos em cada Casa legislativa.
Os
números já representam um crescimento em relação aos dados de 2014. No Senado,
a quantidade de negros eleitos passou de 18,5% para 22,2%, enquanto na Câmara
dos Deputados foi de 19,9% para 26,5%. Mesmo com o avanço, os parlamentares
negros que compõem as Casas ainda são minoria.
Estudo
do Neri (Núcleo de Estudos Raciais do Insper) mostra que há um abismo entre a
quantidade de candidaturas de pessoas negras em comparação às que de fato
conseguem se eleger. A pesquisa reúne os dados do TSE (Tribunal Superior
Eleitoral) das eleições de 2014, 2018 e 2022.
O
levantamento mostra o avanço da maior representatividade negra nas Casas
legislativas federais e estaduais, mas deixa claro que não foi suficiente para
garantir um número equilibrado entre negros e brancos no Parlamento.
Nota
anterior do Neri mostrou esse aumento de candidaturas dentro dessa janela de
tempo e expôs que o Senado obteve a menor proporção de candidaturas nas últimas
três eleições.
No
último domingo (16), o TSE disponibilizou os dados de proporção das
candidaturas registradas em 2026, após o encerramento do período em que os
partidos registram seus candidatos. No entanto, o registro não garante que a
candidatura vá para frente, uma vez que a Justiça Eleitoral ainda precisa
homologá-las.
O grupo
de candidaturas registradas é sempre maior do que as que de fato são
efetivadas, já que muitos registros podem estar descumprindo pré-requisitos
necessários apresentar alguma irregularidade.
A
partir desses dados parciais, o TSE contabilizou 10.226 candidaturas de pessoas
negras (2.803 pretas e 7.415 pardas) para todos os cargos em disputa. Somados,
pretos e pardos são 49,8% das candidaturas, proporção inferior aos 50,3%
observados nas eleições passadas.
O
estudo do Insper, por sua vez, observa apenas o cenário das candidaturas que de
fato disputaram eleições.
Para
essas análises, eles também utilizam o IER (Índice de Equilíbrio Racial),
recurso que compara as proporções de candidatos ou eleitos negros com a
proporção de pessoas negras da mesma região geográfica. O objetivo é avaliar se
esse grupo está devidamente representado nas duas categorias.
Se o
índice estiver abaixo de 1, quer dizer que a proporção de negros em cargos ou
candidaturas é menor do que deveria ser para dar conta de uma
representatividade adequada. No caso do estudo sobre os eleitos, o índice segue
negativo para todos os três cargos analisados desde 2014.
O IER
do Senado é o pior dos três grupos. Em 2014, o índice chegava a 0,80 e estagnou
em cerca de 0,75 nas duas últimas eleições. Na esfera estadual, esse índice vai
melhor. Ele saiu de 0,60 em 2014 para 0,49 em 2022, após ficar estagnado nas
eleições de 2018.
“Isso
acontece porque, mesmo que a composição bruta pareça favorável, parecida com a
da Câmara, a representação relativa, que é ponderada pelo eleitorado negro de
cada estado, é pior no Senado do que na Câmara”, diz a economista e
pesquisadora Camila Alvarenga, que assina o estudo com o colunista da Folha
Michael França, doutor em economia pela USP e coordenador no Insper.
O
estudo deixa claro que, por mais que haja aumento na proporção de eleitos de um
ano eleitoral para outro, muitas vezes o número absoluto de pessoas negras
eleitas ainda é baixo.
Em
todos os cargos, a queda na proporção de brancos é consistente ao longo do
período, acompanhada de crescimento gradual de pardos e pretos.
“Mesmo
o patamar mais alto, porém, ainda representa uma sub-representação
significativa: a população negra em idade eleitoral é bem maior do que essa
fatia de cadeiras conquistadas, então mesmo com uma melhora consistente ao
longo dos três ciclos, o equilíbrio racial está longe de ser alcançado”, diz
Alvarenga.
O
Senado apresenta os percentuais mais extremos: em 2014, brancos representavam
81,5% dos eleitos e os pretos estavam completamente ausentes. Em 2022, pretos
chegaram a 11,1% e indígenas a 7,4% — ambos correspondendo a apenas 3 e 2
pessoas, respectivamente, em 27 vagas disputadas.
“Por
isso é importante olhar a tendência ao longo dos três ciclos, e contar com
outras métricas. E a verdade é que o Senado regrediu um pouco entre 2018 e
2022, o que mais uma vez pode refletir a variação de uma ou duas pessoas, dado
que estamos falando de números absolutos pequenos”, diz ainda.
A
aferição de raça é colhida a partir de autodeclaração, tanto pelo Censo do IBGE
(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) quanto no registro das
candidaturas.
No site
do Senado, está disponibilizado o Observatório de Equidade do Legislativo, onde
é possível acessar parte das informações utilizadas para as análises
comparativas do estudo. Lá, está disponibilizado o panorama do perfil dos
parlamentares tanto contiver como nacional com recortes de gênero e raça.
Dentro
desse site há uma observação: o dado de razão de chance (medida estatística que
compara a chance de um evento ocorrer em um grupo com a chance de ele ocorrer
em outro) não pôde ser feito em 2022, pois nenhuma mulher autodeclarada negra
foi eleita.
Segundo
dados do TSE de 2022, dos 540 parlamentares eleitos para a Câmara dos Deputados
e para o Senado, 141 declararam-se negros. O crescimento foi de 8,5% com
relação ao pleito anterior —de 2014 para 2018, o aumento havia sido de 22,6%.
Para
colaborar para o fim da sub-representação, a pesquisadora defende uma
fiscalização das disparidades no financiamento de campanhas entre candidatos
negros e brancos e de cotas partidárias.
Fonte:
DW Brasil/ICL Notícias

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