Comida
cara: O que o recorde da safra não mostra?
O
Brasil deve encerrar a safra 2025/26 com a maior produção de grãos de sua
história: 360,1 milhões de toneladas, segundo o 10º Levantamento da Companhia
Nacional de Abastecimento (Conab). O recorde reforça uma imagem repetida há
décadas: a de um país capaz de produzir alimentos em escala suficiente para
ocupar posição central no mercado agrícola mundial. Mas quantidade produzida no
campo e comida acessível à população não são a mesma coisa.
No
primeiro semestre, alguns alimentos básicos registraram altas expressivas. Na
prévia da inflação de junho, o IPCA-15 mostrou que o tomate havia acumulado
aumento de 103,84% desde o início do ano; a cenoura, de 103,10%; e a
batata-inglesa, de 100,20%. Só naquele mês, o feijão-carioca avançou 14,29%.
Julho trouxe algum alívio: o IPCA oficial subiu 0,07% e a alimentação no
domicílio recuou 1,14%, puxada pela queda de vários alimentos.
A
oscilação ajuda a revelar um problema que o número agregado da safra não
mostra. O Brasil pode colher muito e, ao mesmo tempo, conviver com preços
instáveis de alimentos essenciais. A explicação passa pela composição da
produção, mas também por clima, logística, crédito, seguro rural, estrutura de
mercado e pela capacidade muito desigual dos agricultores de absorver perdas.
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Recorde no campo, pressão no prato
Boa
parte do crescimento da produção brasileira está concentrada em commodities
como soja e milho, destinadas também à exportação, à produção de ração e a
cadeias industriais. São culturas fundamentais para a economia agrícola, mas
seu desempenho não se traduz em maior oferta de arroz, feijão, frutas,
hortaliças, leite ou ovos.
No
mesmo ciclo do recorde, por exemplo, a Conab projeta retração de 13,1% na
produção de arroz, acompanhada por redução no feijão. A contradição aparece no
prato: enquanto a produção total bate recordes, alguns alimentos que fazem
parte da dieta dos brasileiros podem ficar mais escassos ou mais caros.
“A
política agrícola brasileira foi organizada, sobretudo, para elevar produção,
produtividade e eficiência dentro da porteira da fazenda, operando com crédito,
tecnologia, preços, seguro e normas setoriais”, explica Antônio Márcio
Buainain, economista do Instituto de Economia da Unicamp. “Esse desenho ajudou
a modernizar uma parte expressiva do campo. Mas não resolve, sozinho, o preço
final da comida, a qualidade da dieta, a intermediação, o varejo, a logística,
o desperdício e o acesso desigual.”
A Conab
afirma não haver risco de desabastecimento. Mas disponibilidade nacional e
preço acessível são dimensões diferentes do sistema alimentar. Arroz, feijão,
frutas, verduras, leite e ovos circulam por cadeias com características
próprias, muitas delas perecíveis e sensíveis a transporte, armazenagem, clima,
custos de produção e renda das famílias. É por isso que a abundância registrada
nos silos não necessariamente se repete na feira.
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Quando o clima entra na conta
O clima
é uma das variáveis dessa equação. Secas, chuvas fora de época, geadas e
extremos de temperatura podem reduzir produtividade, comprometer qualidade e
aumentar perdas. Mas um mesmo evento climático não produz os mesmos efeitos em
todos os lugares nem encontra todos os agricultores igualmente preparados.
“Grande
parte dos episódios de inflação de alimentos tem origem em choques de oferta,
embora câmbio e custos também interfiram”, afirma Buainain. “Mas a intensidade
e a persistência dependem da capacidade da cadeia produtiva e das instituições
de absorver esses choques.”
O Vale
do São Francisco ajuda a entender essa diferença. Na região, a agricultura
familiar ocupa mais de metade das terras no semiárido pernambucano. Ao mesmo
tempo, a região integra uma das principais zonas produtoras de frutas do país:
foram 9,7 milhões de toneladas em 2022, com R$ 20,2 bilhões em valor da
produção, de acordo com o Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste
(ETENE/BNB).
As
condições naturais e a infraestrutura hídrica criaram uma agricultura de alta
produtividade, mas não de maneira uniforme. O produtor rural, Fred Teixeira,
trabalha no Vale desde a década de 1990 e acompanhou a expansão das cadeias de
manga e uva. Segundo ele, a relativa estabilidade climática, associada à
irrigação e ao manejo das plantas, permite programar etapas da produção e
ajustar a colheita às janelas de mercado.
Mas,
Teixeira identifica outro limite importante da produção: a rentabilidade.
“Reduzir custos operacionais tem alcance limitado, e ampliar a produtividade
por hectare, inclusive por meio de melhoramento genético, tornou-se uma das
estratégias para manter competitividade sem sacrificar a qualidade da fruta”.
O caso
ajuda a mostrar que adaptação climática não se resume a receber uma previsão de
chuva ou temperatura. Irrigação, novas variedades, equipamentos, assistência
especializada, armazenagem e mudanças no manejo exigem conhecimento,
infraestrutura e recursos. Quando uma safra sofre perdas, a pressão não termina
na colheita. Menor receita reduz a margem disponível para custear o próximo
ciclo, manter investimentos e absorver novos choques. O efeito, porém, varia de
acordo com a estrutura econômica do produtor e com os instrumentos de proteção
disponíveis.
“A
agricultura familiar mais frágil não precisa apenas de crédito. Precisa de
assistência técnica, organização produtiva, infraestrutura, comercialização,
acesso a mercados, regularização, tecnologia apropriada e proteção contra
riscos”, resume Buainain. “E quando a política oferece quase sempre crédito,
ela atende melhor quem já tem alguma capacidade de tomar crédito.”
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O crédito anunciado e o que chega de fato
Essa
disparidade reaparece no Plano Safra 2026/27. O governo federal anunciou R$
525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões para a
agricultura familiar, além de taxas diferenciadas para algumas linhas
consideradas estratégicas.
Os
valores são expressivos. A questão é como o dinheiro chega ao território. A
Frente Parlamentar da Agropecuária criticou o desenho do plano e apontou
problemas relacionados ao endividamento, ao acesso ao crédito e à baixa
cobertura do seguro rural. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural
deve alcançar menos de 3% da área plantada na safra 2026/27, o menor nível em
duas décadas.
A
cobertura brasileira já é reduzida quando comparada à de outros grandes
produtores agrícolas. Enquanto aproximadamente 10% da área plantada do país
conta com seguro, nos Estados Unidos a cobertura alcançava cerca de 60% das
terras agrícolas em 2023, segundo dados do setor.
Essa
diferença ganha relevância em um cenário de aumento dos riscos climáticos. O
seguro é justamente um dos instrumentos capazes de impedir que uma perda
produtiva se transforme em crise financeira para o agricultor.
O
problema, portanto, não se resume ao tamanho do orçamento. Envolve quem
consegue acessar o financiamento, sob quais condições e com que instrumentos
para transformar crédito em capacidade de adaptação.
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Informação ajuda, mas não substitui infraestrutura
É nessa
distância entre risco conhecido e capacidade de reagir que ferramentas digitais
e inteligência artificial começam a ganhar espaço. O Brasil dispõe de grandes
volumes de dados sobre clima, solo, produção, preços, crédito, seguro e
logística. O desafio está em combinar essas informações e transformá-las em
orientação útil para diferentes perfis de produtor.
Rodrigo
Lanna, pesquisador ligado ao Instituto de Pesquisa Aplicada em Dados e
Inteligência Artificial (BI0S) defende que a maior contribuição da IA está em
melhorar a qualidade da tomada de decisão. “Sistemas capazes de cruzar previsão
climática, condições produtivas e informações econômicas podem ajudar a
antecipar riscos, escolher períodos de plantio, ajustar manejo e apoiar
decisões de financiamento. “Transformar análises complexas em recomendação
simples e adaptada à realidade de cada perfil de produtor elevaria a eficiência
da atividade, tornando-a mais inclusiva e socialmente orientada”, diz Lanna.
“Mas sem infraestrutura e proteção social, a tecnologia apenas melhora a vida
de quem já estava melhor posicionado para se adaptar”.
A safra
recorde brasileira mostra uma agricultura capaz de operar em enorme escala,
incorporar tecnologia e abastecer mercados internacionais. O que ela não
responde é como essa capacidade produtiva se distribui pelo sistema alimentar,
nem quem consegue se proteger quando o clima, os custos ou os preços mudam.
O
desafio é transformar essa potência agrícola em um sistema alimentar menos
vulnerável aos choques climáticos e econômicos, capaz de proteger quem produz
e, ao mesmo tempo, garantir que a comida chegue ao consumidor a preços
compatíveis com sua renda. É nessa distância entre o recorde anunciado no campo
e o que efetivamente chega ao prato que se mede a capacidade do país de
alimentar sua própria população.
• Atingidos do Oeste da Bahia têm direito
de ir e vir restabelecido após um ano
Após
mais de um ano de luta, solidariedade e luta por justiça, os sete fecheiros do
Oeste da Bahia, denunciados em um processo marcado por irregularidades, voltam
a ter plenamente restabelecido o direito de ir e vir. A decisão da Justiça,
tomada em 20 de julho, revoga as medidas cautelares que ainda restringiam a
liberdade de cinco lideranças dos Fundos e Fechos de Pasto, dando continuidade
a um processo iniciado em fevereiro deste ano, quando Solange Moreira e
Vanderlei Moreira tiveram suas medidas cautelares revogadas e puderam recuperar
o direito de circular livremente enquanto respondem ao processo.
A
perseguição contra os fecheiros teve início em maio de 2025, quando Solange e
Vanderlei, militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e
moradores da comunidade tradicional de Brejo Verde, em Correntina (BA), foram
presos no Aeroporto Internacional do Galeão (RJ) durante uma viagem em família.
A prisão preventiva surpreendeu o casal e gerou indignação. Organizações
populares, entidades de direitos humanos, pastorais, sindicatos e movimentos do
campo denunciaram o caso como uma verdadeira expressão da criminalização das
comunidades tradicionais e dos defensores dos territórios de Fundo e Fecho de
Pasto.
Dois
meses após a prisão política, Solange e Vanderlei conquistaram a liberdade por
meio de habeas corpus, mas permaneceram submetidos a medidas cautelares que
limitavam sua circulação e mantinham o peso da perseguição judicial sobre suas
vidas. Em fevereiro de 2026, essas restrições foram revogadas para o casal.
Agora, com a última decisão que beneficia também os demais fecheiros
denunciados no processo, todas as lideranças voltam a exercer plenamente um
direito fundamental: o de ir e vir.
Para
Temoteo Gomes, da coordenação nacional do MAB, a decisão representa mais uma
importante vitória da organização popular. “Essa decisão é resultado de muita
luta e uma resposta de que ficaremos firmes e fortes diante das tentativas de
intimidação contra quem luta pela defesa dos territórios tradicionais”, afirma.
Embora
o processo judicial ainda permaneça em andamento, o restabelecimento da
liberdade de circulação reforça que a resistência coletiva foi decisiva para
enfrentar a criminalização.
“A
solidariedade construída entre movimentos populares, organizações de direitos
humanos e comunidades tradicionais demonstrou que nenhum defensor do povo deve
enfrentar sozinho as injustiças impostas pelos conflitos no campo”, complementa
Temoteo.
O caso
dos fecheiros do Oeste da Bahia revela uma realidade vivida por diversas
comunidades tradicionais brasileiras. Em uma região marcada pelo avanço da
grilagem de terras e pela expansão do agronegócio sobre territórios coletivos,
lideranças comunitárias seguem sendo alvo de processos judiciais, ameaças e
diferentes formas de violência. Ainda assim, a luta dos Fundos e Fechos de
Pasto continua firme na defesa da terra, da água, dos modos de vida
tradicionais e da garantia dos direitos de seus povos.
Para
Temoteo, a decisão é fruto da resistência construída ao longo de todo esse
período e reafirma que a organização popular seguirá sendo fundamental na
defesa das lideranças criminalizadas: “O MAB reafirma seu compromisso de seguir
acompanhando o caso até que a justiça seja feita, com o fim da criminalização
das lideranças e o reconhecimento dos direitos das comunidades tradicionais
que, há gerações, protegem seus territórios e constroem formas coletivas de
viver e produzir”, conclui.
Fonte:
Por Jaqueline Nichi, em Outras Palavras/MAB

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