Plano
de adaptação às mudanças climáticas: Brasil já fez lição de casa; é preciso
implementá-la com urgência
“A
situação na qual nos encontramos mostra a absoluta necessidade de o Brasil se
preparar melhor para o aumento dos eventos climáticos extremos.” A declaração
de Paulo Artaxo, físico brasileiro que trabalhou nos relatórios do Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), ao Instituto Humanitas
Unisinos – IHU resume o sentimento de inúmeros brasileiros que, por mais de uma
vez, perderam todos os seus pertences em decorrência dos efeitos climáticos
extremos que estão se tornando mais frequentes no país, com destaque para a
região Sul.
Nesta
entrevista, concedida por telefone, o cientista afirma que é preciso
implementar o AdaptaBrasil, plano de adaptação climática do governo federal.
“Esse plano foi construído por vários ministérios ao mesmo tempo e mostra as
vulnerabilidades de cada um dos 5.760 municípios do país. Portanto, a lição de
casa de construir um plano já foi feita. Entretanto, o plano ainda está no
papel e precisa ser implementado com a máxima urgência”, diz.
Para
que o plano de adaptação climática seja bem-sucedido, sublinha, um trabalho
conjunto entre as diferentes esferas do poder público é fundamental.
Entretanto, destaca o entrevistado, “as estratégias de adaptação têm que ser
locais” e dependem fortemente da atuação dos municípios.
Neste
ano eleitoral, frisa, “transformar uma política pública em política de Estado
depende muito da pressão que a população faz sobre seus governantes nos níveis
municipal, estadual e federal. Em particular, em um ano de eleição como este,
esta questão se torna crítica”.
A
seguir, Artaxo reflete sobre a situação da Amazônia, defende o reflorestamento
como estratégia de enfrentamento às mudanças climáticas e destaca a necessidade
de mudar a cultura do país em relação à valorização dos serviços
ecossistêmicos. “Precisamos mudar toda uma cultura no país para entender que
nós dependemos criticamente dos serviços ecossistêmicos mantidos pelos
ecossistemas naturais: a chuva depende dos rios voadores; os mananciais têm um
efeito sobre a disponibilidade de água nas grandes cidades; e por aí vai. Nós
dependemos criticamente da manutenção dos serviços ecossistêmicos como um
todo”, pontua.
Paulo
Artaxo é graduado em Física, mestre em Física Nuclear e doutor em Física
Atmosférica pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou na Nasa e no
Instituto Max Plank, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Ciências
(ABC), da World Academy of Sciences (TWAS), da Academia de Ciências do Estado
de São Paulo (ACIESP) e do IPCC, pelo qual integrou a equipe agraciada com o
Prêmio Nobel da Paz em 2007. Leciona no Departamento de Física Aplicada da USP.
>>>
Confira a entrevista.
• Nos últimos meses o Brasil presenciou a
ocorrência de inúmeros fenômenos climáticos extremos e o El Niño está se
intensificando. Como o senhor avalia a forma como essa situação tem sido
enfrentada? O país está preparado para lidar com os efeitos das mudanças
climáticas?
Paulo
Artaxo – Em primeiro lugar é importante perceber que a questão do El Niño é
separada do desenvolvimento dos demais eventos climáticos extremos. Os El Niños
sempre ocorreram e vão continuar ocorrendo. Eles decorrem de um oceano muito
mais quente. Trata-se de um fenômeno que se intensificou, apesar de sempre
ocorrer. Outros eventos climáticos extremos, como a ocorrência de tornados,
como estamos vendo recentemente na região Sul do Brasil, são um produto do
aquecimento global, que injeta mais energia na atmosfera – esses eventos
climáticos extremos são uma manifestação dessa energia. A situação na qual nos
encontramos mostra a absoluta necessidade de o Brasil se preparar melhor para o
aumento dos eventos climáticos extremos.
• Qual deve ser o primeiro passo para
construir uma cultura de adaptação climática no país?
Paulo
Artaxo – O primeiro passo é implementar os planos de adaptação climática que o
Brasil tem. O governo federal tem um programa chamado AdaptaBrasil. Esse plano
foi construído por vários ministérios ao mesmo tempo e mostra as
vulnerabilidades de cada um dos 5.760 municípios do país. Portanto, a lição de
casa de construir um plano já foi feita. Entretanto, o plano ainda está no
papel e precisa ser implementado com a máxima urgência. Esse plano tem que ser
um plano de Estado. Ou seja, do Estado brasileiro e não de um governo ou de um
setor particular do governo. Ou o país trabalha efetivamente com todos os
setores, isto é, com estados, municípios e o governo federal, trabalhando todos
juntos, ou a chance de sucesso do AdaptaBrasil pode diminuir significativamente.
• Como transformar a adaptação climática
em uma política de Estado permanente e não uma resposta emergencial após cada
desastre? De que forma as mudanças climáticas deveriam mudar o modo como os
estados, municípios e a União planejam seus territórios, tendo em vista o
AdaptaBrasil, que o senhor menciona?
Paulo
Artaxo – Transformar uma política pública em política de Estado depende muito
da pressão que a população faz sobre seus governantes nos níveis municipal,
estadual e federal. Em particular, em um ano de eleição como este, esta questão
se torna crítica. Os eleitores têm que pressionar os candidatos a se
comprometerem a transformar a política de adaptação climática numa política de
longo prazo, numa política de Estado com medidas emergenciais, que são, às
vezes, necessárias, mas, também, com medidas de longo prazo. Isto é possível e,
na verdade, é a única maneira de termos políticas consistentes.
• Quais medidas seriam mais eficazes para
enfrentar cheias e enchentes, como aquelas ocorridas no Rio Grande do Sul?
Paulo
Artaxo – Não é possível fazer recomendações como estratégias de adaptação em
geral para o Brasil porque as estratégias de adaptação têm que ser locais. Cada
municipalidade e cada região sabe quais são as melhores estratégias. Isso
depende da estrutura geológica e social de cada região em particular.
No caso
do Rio Grande do Sul, a proteção de mananciais na cabeceira das principais
bacias hidrográficas é fundamental, além de uma análise detalhada, com modelos
hidrológicos e informações sobre o escoamento de água possível para cada uma
das bacias hidrográficas. Algumas obras de contenção também são importantes
para que se possa controlar o fluxo da água de alguma maneira. Essas são
recomendações feitas localidade por localidade. É impossível dar uma diretriz
para dimensões como as do Brasil, com a enorme diversidade que temos, incluindo
a diversidade socioeconômica. Essa é uma ação a ser feita por cada prefeitura e
localidade em particular.
• Alguns pesquisadores destacam a
importância da resiliência frente às mudanças climáticas, no sentido de que
precisamos ser resilientes frente aos desafios que se apresentam. Como vê essa
proposta? O que isso significa na prática?
Paulo
Artaxo – Temos que aumentar a resiliência da sociedade brasileira, da economia,
do sistema de geração de eletricidade que depende da chuva, porque
majoritariamente temos geração de energia hidroelétrica. Também temos que
adaptar toda a nossa economia, porque uma economia que depende tanto do
agronegócio, como o Brasil dependeu nas últimas décadas, não terá alta
produtividade, justamente por causa das mudanças climáticas, que diminuem a
precipitação no Brasil Central, onde está concentrada a maior parte da produção
agropecuária.
• A agropecuária também avançou para a
região amazônica nos últimos anos, mas, entre agosto de 2025 e julho de 2026,
houve uma queda no desmatamento. Apesar disso, especialistas dizem ser
necessário aumentar as políticas de reflorestamento. Qual o primeiro passo para
avançar no reflorestamento e como isso ajuda no enfrentamento às mudanças
climáticas?
Paulo
Artaxo – Evidentemente, o Brasil precisa recuperar as áreas degradadas, que são
muito extensas, para que possamos aumentar a nossa resiliência à mudança do
clima. Isso é fundamental e vai desde o bioma amazônico até o Cerrado,
Semiárido e Mata Atlântica. Recuperar áreas degradadas, hoje, é a melhor
maneira de aumentar a resiliência para eventos climáticos e garantir os
serviços ecossistemas dos quais todos nós dependemos criticamente.
• Ainda sobre a Amazônia, nos últimos anos
ocorreu um aumento dos incêndios florestais na região, inclusive em áreas
alagadas da floresta que antes não eram tão atingidas. O que explica o avanço
do fogo nessas áreas úmidas que dificilmente queimavam?
Paulo
Artaxo – Um fato é a seca muito intensa que ocorreu em 2023, 2024 e 2025. Essas
secas intensas favorecem a flamabilidade da floresta. Entretanto, é importante
observarmos que todos os incêndios florestais da Amazônia são criminosos; não
ocorrem naturalmente. Uma floresta tropical chuvosa como a Amazônia não pega
fogo com relâmpagos como pegam as florestas mais secas das regiões mais
temperadas do Canadá, da Rússia e da Europa. O que precisamos fazer é combater
o crime organizado na região amazônica através do roubo de terras indígenas,
que ocorre livremente na Amazônia, com pouco combate. Essa é uma tarefa
fundamental da sociedade brasileira.
• O combate às desigualdades sociais
deveria estar no centro de uma política nacional de adaptação climática? Como
coadunar esses dois problemas?
Paulo
Artaxo – Não há dúvida nenhuma. A política de adaptação climática tem que ser
ampla o suficiente para abarcar todas as atividades que possam aumentar a
resiliência da sociedade brasileira aos eventos climáticos extremos. Isso
inclui uma série de atividades e é importante sempre pensar que as ações locais
dependem muito mais de ações a nível de município ou, no máximo, a nível
regional, como vimos no Rio Grande do Sul. Então, é cada município que sabe
onde estão suas áreas mais vulneráveis, quais são as potenciais soluções para a
sua realidade econômica, para a sua problemática ambiental como um todo. Nesse
sentido, é fundamental que essas políticas sejam implementadas em nível
municipal.
• As comunidades indígenas têm um papel
fundamental na preservação das florestas. Pensando nisso, o que podemos
aprender com os povos originários e qual é a importância da proteção das
comunidades que ainda vivem isoladas na Amazônia?
Paulo
Artaxo – Não tenho a menor dúvida de que as áreas menos desmatadas da região
amazônica correspondem às áreas indígenas demarcadas e protegidas pelo Estado.
Isso é muito claro nos mapas do MapBiomas e nos dados do sistema de
desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Entretanto, o
número de áreas indígenas demarcadas e protegidas hoje é muito pequeno e
reduzido. Além disso, há uma quantidade de áreas não destinadas. Ou seja, áreas
de floresta que não são nem áreas ecológicas nem áreas indígenas, que precisam
ser urgentemente demarcadas. É preciso que se dê uma destinação para elas
porque do contrário permanecem mais vulneráveis aos crimes ambientais que
ocorrem na Amazônia. Então, é importante que, efetivamente, se demarquem as terras
indígenas que ainda não foram demarcadas bem como as áreas de florestas não
destinadas.
• Como avalia a possibilidade de discutir
as mudanças climáticas neste momento da política brasileira, em que há grupos
negacionistas, mas também há outros que parecem não ter uma visão clara de como
enfrentar os desafios postos?
Paulo
Artaxo – Infelizmente, há grupos de empresários que enxergam só o lucro a
curtíssimo prazo e não se importam com os danos que eles podem causar à
sociedade brasileira, ao meio ambiente e à emergência climática que estamos
enfrentando. Esses empresários, muito frequentemente, cometem crimes ambientais
como os que observamos na Amazônia, mas isso também ocorre em outras áreas do
país. Isso tem que ser coibido pelo Judiciário como um todo. Entretanto, também
observamos uma ação muito fraca do Judiciário na ação contra crimes ambientais.
Nesse
sentido, precisamos mudar toda uma cultura no país para entender que nós
dependemos criticamente dos serviços ecossistêmicos mantidos pelos ecossistemas
naturais: a chuva depende dos rios voadores; os mananciais têm um efeito sobre
a disponibilidade de água nas grandes cidades e por aí vai. Nós dependemos
criticamente da manutenção dos serviços ecossistêmicos como um todo.
• Alguns cientistas e lideranças indígenas
estão se candidatando e pautando o debate climático. Qual a importância de
candidaturas que defendem as questões socioambientais?
Paulo
Artaxo – É claro que temos que mudar o legislativo elegendo pessoas que têm uma
visão econômica diferente dos nossos recursos naturais e que lutem pelos
interesses da população.
• Como a sociedade em geral pode
contribuir para favorecer mudanças efetivas em relação ao enfrentamento dos
efeitos gerados pelos eventos climáticos extremos?
Paulo
Artaxo – Através da organização social, particularmente, votando, nessas
eleições, em candidatos que defendam o interesse da população e não o interesse
de empresas, e trabalhando em organizações sociais para defender os interesses
da população como um todo. Agora, ninguém tem uma receita no bolso para dizer
como isso deve ser feito em cada comunidade. Isso também depende das
circunstâncias locais, dos níveis socioeconômicos, do próprio poder público e
do poder Judiciário local. Portanto, essa é uma atitude que tem que ser tomada
localidade por localidade.
Fonte:
Entrevista com Paulo Artaxo, por Luana de Oliveira e Patricia Fachin, em IHU

Nenhum comentário:
Postar um comentário