A
inteligência e a beleza artificial de Flávio Bolsonaro
A
‘Terra plana’ segue capotando a plenos pulmões fortalecidos por cloroquina.
Depois de o deputado André Janones postar um alerta em seu perfil do Twitter
dizendo que Flávio Bolsonaro ultrapassará Lula até a segunda semana de setembro
e pedindo para os seguidores salvarem o seu tuíte, escrevi um texto analisando
os pontos positivos e negativos de tal declaração, chamando a atenção tanto
para a falha de comunicação da esquerda nas redes digitais quanto para o baixo
nível que estaríamos atingindo se, por acaso ou estratégia, nos igualássemos à
extrema-direita no método de fazer política.
No
entanto, ao me deparar com um vídeo feito por IA no qual Flávio Bolsonaro é
retratado como uma espécie de gogo boy, fiquei pensando se era essa a virada a
que Janones se referia. Para quem se liga em semiótica, esse vídeo postado com
orgulho por ele mesmo em seus perfis nas redes sociais mostra como ele se
enxerga e como enxerga o país que pretende governar. A cena me lembrou versos
do saudoso Cazuza na música “O Tempo Não Para”, quando ele reage aos moralistas
dizendo: “me chamam de ladrão, de bicha, maconheiro” e denuncia que eles
transformam o país inteiro num prostíbulo, “porque assim se ganha mais
dinheiro”.
Essa é
a extrema-direita que gosta de apontar o dedo para a suposta imoralidade dos
adversários — até mesmo quando o que eles consideram imoral é apenas o
exercício da liberdade individual que cada indivíduo possui garantido pela
Constituição —, mas que faz da verdadeira imoralidade a sua bandeira política.
Flávio
Bolsonaro é o subalterno contratado por Donald Trump para transformar o Brasil
em um prostíbulo que irá satisfazer aos desejos mais perversos do imperialismo
estadunidense. Com todo respeito a todos os profissionais que trabalham neste
ramo de atividade, e que não devem ser comparados a um fanfarrão traidor da
pátria.
Os
conservadores devem estar bastante satisfeitos com este conteúdo. Afinal, ele
ilustra toda a hipocrisia contida no discurso moralista que eles costumam
defender em nome da família e dos bons costumes. Pensando bem, apoiar um
candidato à Presidência que permite ser retratado como uma espécie de boneco
Ken fascista no lançamento de sua campanha é uma forma de institucionalizar a
fanfarronice sob a égide da diversão. Eu fico imaginando evangélicos e outros
seres “moralmente superiores” votando num sujeito que se apresenta para
governar o Brasil tomando energético e em trajes de banho, como se fosse um
recepcionista das animadas festas do seu “irmão” Daniel Vorcaro.
Seria
mais interessante ainda se ele fizesse um outro vídeo de IA se incluindo
naquela foto de uma piscina cheia de ratos, cujas ideias não correspondem aos
fatos, onde outras figuras políticas, que ajudam a transformar o país nessa
bagunça política, estavam confraternizando e rindo da cara daqueles que pagam
pela sua diversão. É possível que a IA produza um conteúdo melhor do que a
produtora de “Dark Horse” entregou no filme sobre o seu pai. Mais barato eu
tenho certeza que seria. E Flávio não precisaria ter ficado devendo aquele
“favorzão” para o dono do Banco Master. Até a suposta beleza da extrema-direita
é de mentira. E aposto que a IA advertiu que o prompt poderia violar as suas
políticas de conteúdo.
Por um
momento, eu pensei que fosse fake news. ‘Não! Ele não seria capaz de postar
algo tão ridículo e insensato no dia da abertura oficial de sua campanha’,
pensei. Cheguei a cogitar que o marqueteiro da campanha estava querendo ser
demitido, mas não tinha coragem de pedir as contas. Depois me lembrei de que,
como já cantava Cazuza, o tempo não para e a extrema-direita o tem a seu favor
para disparar sua metralhadora cheia de mágoas, mentiras e muita baixaria
política. Mas, se você ainda acha que Lula pode ser derrotado por alguém tão
nocivo a si mesmo, saiba que ainda estão rolando os dados e Lula segue
sobrevivendo, sem um arranhão, às armadilhas do fascismo e da elite burguesa
que o detestam.
Eu vejo
o futuro repetir o passado com mais uma vitória daquele que não se rende aos
desejos dos EUA e defende com unhas e dentes a soberania do país que governa.
Posso até enxergar algum museu de grandes novidades pela frente, mas é sempre
bom lembrar que nas noites de fascismo é melhor nem nascer. Que dirá,
sobreviver. Nas noites de democracia — ainda que ela seja burguesa e de
precisarmos “matar e morrer” a cada dia para sobrevivermos nela —, nos tornamos
e nos mantemos brasileiros. A volta do bolsonarismo ao poder representaria dias
difíceis, onde a maioria da população viveria procurando agulha no palheiro e
proteína na fila do osso.
O vídeo
de IA mostra que Flávio sonha em ser um presidente bon vivant que irá
aproveitar ao máximo todos os prazeres que o poder lhe pode conceder. Como
senador, ele já desfruta de tais privilégios e construiu um império às custas
do dinheiro público. Mas ele quer mais. Afinal, se o tempo não para, o fascismo
também não. Nós é que precisamos detê-lo.
• Centrão se aproxima de Lula e amplia
isolamento de Flávio Bolsonaro
A
movimentação recente de líderes do Centrão no Congresso indica uma
reaproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, ao mesmo tempo, um
distanciamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do PL à
Presidência e principal adversário do petista na eleição de 2026.
Segundo
reportagem de O Globo publicada nesta segunda-feira (17), Lula teve três
reuniões nas últimas duas semanas com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(União-AP), recebeu apoio explícito do presidente da Câmara, Hugo Motta
(Republicanos-PB), e viu dirigentes do PP e do União Brasil atuarem para
impedir que a federação embarcasse formalmente na campanha de Flávio.
O ponto
central da articulação é a neutralidade adotada pela federação União-PP e pelo
Republicanos na disputa presidencial. A decisão atingiu inclusive estados
considerados estratégicos pelo entorno de Flávio, como Rio de Janeiro e Minas
Gerais. Nos bastidores, caciques desses partidos avaliam que Lula lidera as
pesquisas e tem mais chances de vencer, além de enxergarem no apoio ao governo
uma forma de preservar influência no comando do Congresso em 2027.
No caso
do PP, o senador Ciro Nogueira (PI) e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira
(PP-AL) atuaram para evitar que a legenda indicasse a vice de Flávio. A
senadora Tereza Cristina (PP-MS), que chegou a ser convidada para a chapa,
acabou barrada nesse movimento. Integrantes do PP atribuem a Lira parte da
articulação que levou a federação com o União Brasil à neutralidade.
O
afastamento ganhou força após a revelação do caso Dark Horse pelo The
Intercept. O episódio mostrou que Flávio pediu recursos ao banqueiro Daniel
Vorcaro, do Master, para financiar um filme em homenagem ao ex-presidente Jair
Bolsonaro. Ciro Nogueira, que já foi alvo de mandado de busca e apreensão em
investigação da Polícia Federal sobre suposta atuação em favor de interesses de
Vorcaro — o que ele nega — passou a evitar associação direta com o tema e com a
campanha do PL.
Embora
tenha feito aliança com o PL no Piauí, Ciro evita campanha para Flávio. O
próprio candidato do PL não citou o nome do senador na semana passada ao listar
aliados que apoia para o Senado. Flávio mencionou Arthur Lira, que disputará
uma vaga em Alagoas, mas o ex-presidente da Câmara não retribuiu publicamente o
gesto e tem mantido silêncio sobre a eleição presidencial.
A
relação entre Flávio e Alcolumbre também se deteriorou. O PL espera eleger a
maior bancada do Senado e ameaça lançar candidato próprio à presidência da
Casa, independentemente do resultado da disputa pelo Planalto. O objetivo seria
pressionar pelo avanço de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo
Tribunal Federal, pauta que Alcolumbre resiste a pautar.
Alcolumbre,
por sua vez, busca apoio de Lula e do PT para se reeleger presidente do Senado
em 2027. O senador mantém diálogo próximo com integrantes do STF, incluindo
Alexandre de Moraes, alvo frequente de pedidos de afastamento feitos por
parlamentares bolsonaristas.
Diferentemente
de Hugo Motta, Alcolumbre não declarou voto em Lula. Ainda assim, fechou
aliança com o PT no Amapá e apoia a reeleição do senador Randolfe Rodrigues
(PT-AP), líder do governo no Congresso. Em contrapartida, o PT apoia a
reeleição do governador Clécio Andrade (União Brasil), aliado de Alcolumbre.
A
recomposição entre Lula e o presidente do Senado também destravou pautas de
interesse do governo. Após a crise provocada pela indicação de Jorge Messias ao
STF — rejeitada pelo Senado em uma derrota histórica para o Planalto —
iniciativas como a PEC que acaba com a escala 6×1, a PEC da Segurança e o
projeto sobre exploração de minerais críticos voltaram a andar nas comissões.
O líder
do PT no Senado, Camilo Santana (CE), resumiu o novo clima: “Há muita boa
vontade do presidente Alcolumbre de encaminhar esses projetos”.
Na
Câmara, Hugo Motta também trabalha para manter pontes com Lula. O presidente da
Casa declarou apoio ao petista em evento na Paraíba na última segunda-feira
(10). Dois dias depois, na quarta-feira (12), Lula telefonou para agradecer o
gesto e convidou Motta para uma reunião, ainda sem data marcada.
Motta
foi um dos articuladores da neutralidade do Republicanos. Flávio chegou a se
reunir com o presidente da sigla, Marcos Pereira, na véspera da convenção
nacional, mas ouviu que o apoio seria inviável porque a maioria dos estados
defendia neutralidade. No mesmo dia, Motta comunicou a Lula a posição do
partido.
O
cálculo de Motta envolve sua própria reeleição como deputado, a tentativa de
eleger o pai, o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley, ao Senado pela Paraíba, e
o projeto de se manter no comando da Câmara em 2027. Para isso, conta com a
popularidade de Lula no estado e com eventual apoio institucional do governo em
um segundo mandato petista.
Outra
sinalização veio do presidente do PSD, Gilberto Kassab, candidato a vice na
chapa de Ronaldo Caiado. Em conversa com empresários na quinta-feira (13),
Kassab afirmou que Flávio “não tem a menor chance” e que o Centrão está com
Lula.
Flávio
reagiu nas redes sociais: “Não sei como os outros candidatos a presidente que
se dizem de direita pensam, mas eu sempre tive muito claro na minha cabeça que
seriam todos contra o PT”.
Aliados
do candidato do PL minimizam o movimento e afirmam que, se Flávio vencer a
eleição, líderes como Alcolumbre, Motta e outros dirigentes do Centrão tenderão
a se aproximar do novo governo. A campanha também avalia que Alcolumbre será
mais cauteloso do que Motta e não deve declarar publicamente voto em Lula,
mantendo a relação em um campo institucional.
Fonte:
Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247

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