sábado, 22 de agosto de 2026

A inteligência e a beleza artificial de Flávio Bolsonaro

A ‘Terra plana’ segue capotando a plenos pulmões fortalecidos por cloroquina. Depois de o deputado André Janones postar um alerta em seu perfil do Twitter dizendo que Flávio Bolsonaro ultrapassará Lula até a segunda semana de setembro e pedindo para os seguidores salvarem o seu tuíte, escrevi um texto analisando os pontos positivos e negativos de tal declaração, chamando a atenção tanto para a falha de comunicação da esquerda nas redes digitais quanto para o baixo nível que estaríamos atingindo se, por acaso ou estratégia, nos igualássemos à extrema-direita no método de fazer política.

No entanto, ao me deparar com um vídeo feito por IA no qual Flávio Bolsonaro é retratado como uma espécie de gogo boy, fiquei pensando se era essa a virada a que Janones se referia. Para quem se liga em semiótica, esse vídeo postado com orgulho por ele mesmo em seus perfis nas redes sociais mostra como ele se enxerga e como enxerga o país que pretende governar. A cena me lembrou versos do saudoso Cazuza na música “O Tempo Não Para”, quando ele reage aos moralistas dizendo: “me chamam de ladrão, de bicha, maconheiro” e denuncia que eles transformam o país inteiro num prostíbulo, “porque assim se ganha mais dinheiro”.

Essa é a extrema-direita que gosta de apontar o dedo para a suposta imoralidade dos adversários — até mesmo quando o que eles consideram imoral é apenas o exercício da liberdade individual que cada indivíduo possui garantido pela Constituição —, mas que faz da verdadeira imoralidade a sua bandeira política.

Flávio Bolsonaro é o subalterno contratado por Donald Trump para transformar o Brasil em um prostíbulo que irá satisfazer aos desejos mais perversos do imperialismo estadunidense. Com todo respeito a todos os profissionais que trabalham neste ramo de atividade, e que não devem ser comparados a um fanfarrão traidor da pátria.

Os conservadores devem estar bastante satisfeitos com este conteúdo. Afinal, ele ilustra toda a hipocrisia contida no discurso moralista que eles costumam defender em nome da família e dos bons costumes. Pensando bem, apoiar um candidato à Presidência que permite ser retratado como uma espécie de boneco Ken fascista no lançamento de sua campanha é uma forma de institucionalizar a fanfarronice sob a égide da diversão. Eu fico imaginando evangélicos e outros seres “moralmente superiores” votando num sujeito que se apresenta para governar o Brasil tomando energético e em trajes de banho, como se fosse um recepcionista das animadas festas do seu “irmão” Daniel Vorcaro.

Seria mais interessante ainda se ele fizesse um outro vídeo de IA se incluindo naquela foto de uma piscina cheia de ratos, cujas ideias não correspondem aos fatos, onde outras figuras políticas, que ajudam a transformar o país nessa bagunça política, estavam confraternizando e rindo da cara daqueles que pagam pela sua diversão. É possível que a IA produza um conteúdo melhor do que a produtora de “Dark Horse” entregou no filme sobre o seu pai. Mais barato eu tenho certeza que seria. E Flávio não precisaria ter ficado devendo aquele “favorzão” para o dono do Banco Master. Até a suposta beleza da extrema-direita é de mentira. E aposto que a IA advertiu que o prompt poderia violar as suas políticas de conteúdo.

Por um momento, eu pensei que fosse fake news. ‘Não! Ele não seria capaz de postar algo tão ridículo e insensato no dia da abertura oficial de sua campanha’, pensei. Cheguei a cogitar que o marqueteiro da campanha estava querendo ser demitido, mas não tinha coragem de pedir as contas. Depois me lembrei de que, como já cantava Cazuza, o tempo não para e a extrema-direita o tem a seu favor para disparar sua metralhadora cheia de mágoas, mentiras e muita baixaria política. Mas, se você ainda acha que Lula pode ser derrotado por alguém tão nocivo a si mesmo, saiba que ainda estão rolando os dados e Lula segue sobrevivendo, sem um arranhão, às armadilhas do fascismo e da elite burguesa que o detestam.

Eu vejo o futuro repetir o passado com mais uma vitória daquele que não se rende aos desejos dos EUA e defende com unhas e dentes a soberania do país que governa. Posso até enxergar algum museu de grandes novidades pela frente, mas é sempre bom lembrar que nas noites de fascismo é melhor nem nascer. Que dirá, sobreviver. Nas noites de democracia — ainda que ela seja burguesa e de precisarmos “matar e morrer” a cada dia para sobrevivermos nela —, nos tornamos e nos mantemos brasileiros. A volta do bolsonarismo ao poder representaria dias difíceis, onde a maioria da população viveria procurando agulha no palheiro e proteína na fila do osso.

O vídeo de IA mostra que Flávio sonha em ser um presidente bon vivant que irá aproveitar ao máximo todos os prazeres que o poder lhe pode conceder. Como senador, ele já desfruta de tais privilégios e construiu um império às custas do dinheiro público. Mas ele quer mais. Afinal, se o tempo não para, o fascismo também não. Nós é que precisamos detê-lo.

•        Centrão se aproxima de Lula e amplia isolamento de Flávio Bolsonaro

A movimentação recente de líderes do Centrão no Congresso indica uma reaproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, ao mesmo tempo, um distanciamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do PL à Presidência e principal adversário do petista na eleição de 2026.

Segundo reportagem de O Globo publicada nesta segunda-feira (17), Lula teve três reuniões nas últimas duas semanas com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), recebeu apoio explícito do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e viu dirigentes do PP e do União Brasil atuarem para impedir que a federação embarcasse formalmente na campanha de Flávio.

O ponto central da articulação é a neutralidade adotada pela federação União-PP e pelo Republicanos na disputa presidencial. A decisão atingiu inclusive estados considerados estratégicos pelo entorno de Flávio, como Rio de Janeiro e Minas Gerais. Nos bastidores, caciques desses partidos avaliam que Lula lidera as pesquisas e tem mais chances de vencer, além de enxergarem no apoio ao governo uma forma de preservar influência no comando do Congresso em 2027.

No caso do PP, o senador Ciro Nogueira (PI) e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) atuaram para evitar que a legenda indicasse a vice de Flávio. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), que chegou a ser convidada para a chapa, acabou barrada nesse movimento. Integrantes do PP atribuem a Lira parte da articulação que levou a federação com o União Brasil à neutralidade.

O afastamento ganhou força após a revelação do caso Dark Horse pelo The Intercept. O episódio mostrou que Flávio pediu recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, para financiar um filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ciro Nogueira, que já foi alvo de mandado de busca e apreensão em investigação da Polícia Federal sobre suposta atuação em favor de interesses de Vorcaro — o que ele nega — passou a evitar associação direta com o tema e com a campanha do PL.

Embora tenha feito aliança com o PL no Piauí, Ciro evita campanha para Flávio. O próprio candidato do PL não citou o nome do senador na semana passada ao listar aliados que apoia para o Senado. Flávio mencionou Arthur Lira, que disputará uma vaga em Alagoas, mas o ex-presidente da Câmara não retribuiu publicamente o gesto e tem mantido silêncio sobre a eleição presidencial.

A relação entre Flávio e Alcolumbre também se deteriorou. O PL espera eleger a maior bancada do Senado e ameaça lançar candidato próprio à presidência da Casa, independentemente do resultado da disputa pelo Planalto. O objetivo seria pressionar pelo avanço de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal, pauta que Alcolumbre resiste a pautar.

Alcolumbre, por sua vez, busca apoio de Lula e do PT para se reeleger presidente do Senado em 2027. O senador mantém diálogo próximo com integrantes do STF, incluindo Alexandre de Moraes, alvo frequente de pedidos de afastamento feitos por parlamentares bolsonaristas.

Diferentemente de Hugo Motta, Alcolumbre não declarou voto em Lula. Ainda assim, fechou aliança com o PT no Amapá e apoia a reeleição do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso. Em contrapartida, o PT apoia a reeleição do governador Clécio Andrade (União Brasil), aliado de Alcolumbre.

A recomposição entre Lula e o presidente do Senado também destravou pautas de interesse do governo. Após a crise provocada pela indicação de Jorge Messias ao STF — rejeitada pelo Senado em uma derrota histórica para o Planalto — iniciativas como a PEC que acaba com a escala 6×1, a PEC da Segurança e o projeto sobre exploração de minerais críticos voltaram a andar nas comissões.

O líder do PT no Senado, Camilo Santana (CE), resumiu o novo clima: “Há muita boa vontade do presidente Alcolumbre de encaminhar esses projetos”.

Na Câmara, Hugo Motta também trabalha para manter pontes com Lula. O presidente da Casa declarou apoio ao petista em evento na Paraíba na última segunda-feira (10). Dois dias depois, na quarta-feira (12), Lula telefonou para agradecer o gesto e convidou Motta para uma reunião, ainda sem data marcada.

Motta foi um dos articuladores da neutralidade do Republicanos. Flávio chegou a se reunir com o presidente da sigla, Marcos Pereira, na véspera da convenção nacional, mas ouviu que o apoio seria inviável porque a maioria dos estados defendia neutralidade. No mesmo dia, Motta comunicou a Lula a posição do partido.

O cálculo de Motta envolve sua própria reeleição como deputado, a tentativa de eleger o pai, o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley, ao Senado pela Paraíba, e o projeto de se manter no comando da Câmara em 2027. Para isso, conta com a popularidade de Lula no estado e com eventual apoio institucional do governo em um segundo mandato petista.

Outra sinalização veio do presidente do PSD, Gilberto Kassab, candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado. Em conversa com empresários na quinta-feira (13), Kassab afirmou que Flávio “não tem a menor chance” e que o Centrão está com Lula.

Flávio reagiu nas redes sociais: “Não sei como os outros candidatos a presidente que se dizem de direita pensam, mas eu sempre tive muito claro na minha cabeça que seriam todos contra o PT”.

Aliados do candidato do PL minimizam o movimento e afirmam que, se Flávio vencer a eleição, líderes como Alcolumbre, Motta e outros dirigentes do Centrão tenderão a se aproximar do novo governo. A campanha também avalia que Alcolumbre será mais cauteloso do que Motta e não deve declarar publicamente voto em Lula, mantendo a relação em um campo institucional.

 

Fonte: Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247

 

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