O
novo fogo de Prometeu
Segundo
a mitologia grega, Prometeu é o titã que rouba o fogo dos deuses e o entrega à
humanidade. Isso foi encarado como um desafio a Zeus, uma vez que o fogo não,
se resume apenas à chama física, mas a possibilidade de angariar o
conhecimento, a técnica, a criatividade, representando, então, a capacidade
humana de transformar a natureza e construir a civilização. Por conta disso,
Prometeu é punido com sofrimento eterno, condenado a permanecer acorrentado a
uma rocha, onde uma águia devora diariamente seu fígado.
No
decorrer da história o mito recebeu diversas interpretações. Acredito que
Prometeu é um dos principais símbolos da relação entre conhecimento, técnica,
poder e liberdade. Neste texto, eu o utilizo para chamar a atenção para a
ambiguidade do progresso tecnológico: toda grande inovação, não podemos
esquecer, amplia as possibilidades humanas, mas também traz responsabilidades,
riscos e consequências imprevisíveis.
Ora,
Prometeu deu a humanidade a possibilidade criar novos mundos. Um gesto que lhe
custou um castigo eterno. De acordo com o mito, o fogo inaugurou uma nova etapa
da humanidade e, talvez estejamos diante de uma nova versão do fogo de Prometeu
para o século XXI. Séculos depois deste mito ter surgido entre os antigos
gregos, esteamos diante de um novo fogo: a Inteligência artificial.
Desta
vez não foi um titã que nos forneceu. Ele é fruto desse fogo primordial,
oriundo da transgressão de Prometeu, o conhecimento, a técnica e a
criatividade. E o que este novo fogo nos possibilita? A Inteligência artificial
amplia nossa capacidade de pensar, criar, calcular e produzir. O que nos leva a
refletir novamente sobre Prometeu, mas não sobre o fogo de milênios atrás. Já
não nos importa discutir se o Titã rebelde estava certo ou não em roubar o
fogo. Talvez a pergunta não seja se Prometeu estava certo em roubar o fogo, mas
talvez, o que faremos com este novo fogo.
É
inegável que as Inteligências artificiais generativas, por exemplo, tem sido
amplamente utilizadas nas mais diversas atividades humanas. Trabalho e estudo
já não podem prescindir das tecnologias, que já alteram a forma como muitas
ações são realizadas. E é preocupante que a primeira reação de muitos, mesmo
nas universidades, tenha sido um neoluddismo que deseja proibir o uso da
Inteligência artificial, sem abordar as questões que realmente impactam a forma
como humanos interagem com a Inteligência artificial.
No
entanto, avançam as novas versões das Inteligências artificiais generativas,
mas também avançam as análises menos alarmistas. As universidades já entenderam
que a simples proibição não funciona. Então passam a atuar, modificando a forma
de avaliação, para que o aluno não dependa exclusivamente das ferramentas de
Inteligência artificial para realização de provas e trabalhos. Outra frente de
adaptação é a regulamentação, coma exigência de declaração explícita do uso de
Inteligência Artificial e como ela foi utilizada.
Há
casos em que os alunos são convidados a utilizarem a Inteligência artificial e
depois questionar as respostas fornecidas. No fundo o que está acontecendo é
uma separação de funções. O que é memorização, resumo, tradução, primeira
versão de código, a Inteligência artificial faz melhor e mais rápido. O que a
universidade brasileira precisa guardar como insubstituível é a certificação
humana, no caso, ver o aluno pensando ao vivo, argumentando, errando e
corrigindo, trabalhando em grupo, indo a campo, explorando as possibilidades de
uso dessa tecnologia, que lembremos, não está isenta de perigos.
Essa
reflexão ganha ainda mais importância quando percebemos que esse novo fogo não
circula livremente entre toda a humanidade. Sua produção, seu treinamento e sua
infraestrutura encontram-se concentrados em poucos atores econômicos, o que
torna impossível discutir a inteligência artificial sem discutir também as
relações de poder que a organizam. A própria existência desse novo fogo revela
uma contradição que Prometeu, Zeus ou qualquer outra divindade, jamais poderia
imaginar.
Diferentemente
da chama mitológica, que uma vez entregue passou a pertencer a toda a
humanidade, a Inteligência Artificial é alimentada continuamente por tudo
aquilo que nós produzimos sejam textos, imagens, pesquisas, deslocamentos,
preferências, conversas, hábitos de consumo e os incontáveis rastros digitais
deixados por cada um de nós cotidianamente. O conhecimento coletivo
converte-se, assim, em matéria-prima para sistemas controlados por um número
reduzido de grandes corporações tecnológicas, que transformam experiências
humanas em ativos econômicos de enorme valor.
Em
outras palavras, aquilo que nasce da atividade social retorna à sociedade sob a
forma de mercadoria, frequentemente cercada por barreiras de propriedade
intelectual, contratos de uso e infraestruturas privadas. Isso me lembra que a
pouco tempo, divulgou-se, que livros físicos, mesmo raros, adquiridos para
treinar Inteligências artificiais foram sumariamente destruídos após terem sido
agregados aos bancos de dados das gigantes da tecnologia que desenvolvem as
Inteligências artificiais, criando um monopólio sobre o conhecimento. Sob essa
perspectiva, a inteligência artificial não é só uma inovação técnica, mas uma
nova etapa da acumulação de capital, na qual a produção do conhecimento e a
própria criatividade humana passam a ser continuamente capturadas, processadas
e monetizadas.
Considerando
o exposto, podemos afirmar que a inteligência artificial representa a expressão
mais sofisticada daquilo que Marx, nos Grundrisse, denominou de intelecto geral
(general intellect): o conjunto dos conhecimentos científicos, técnicos,
linguísticos e culturais produzidos coletivamente pela humanidade ao longo da
história.
A
Inteligência artificial não é um saber autônomo, nem mesmo uma inteligência
independente da experiência humana. Seu funcionamento depende da incorporação
de milhões de textos, imagens, códigos, pesquisas e demais manifestações da
atividade social acumulada. O paradoxo reside no fato de que esse patrimônio
coletivo, produzido pela humanidade durante séculos, passa a ser apropriado,
organizado e explorado economicamente por grandes empresas que detêm as
infraestruturas computacionais necessárias para seu processamento.
O
conhecimento social, que poderia ampliar as possibilidades de emancipação
humana, corre o risco de converter-se em mais um mecanismo de concentração de
riqueza e poder. Em vez de representar apenas um instrumento de libertação do
trabalho repetitivo, a inteligência artificial pode aprofundar uma contradição
típica do capitalismo contemporâneo: quanto mais coletiva se torna a produção
do conhecimento, mais privada tende a ser sua apropriação.
Esse
novo fogo deveria, portanto, iluminar uma questão decisiva do nosso tempo que é
saber quem ficará com os benefícios e quem arcará com os custos dessa nova
revolução tecnológica.
Se o
fogo prometeico era um símbolo da emancipação pela técnica, o fogo da
Inteligência Artificial é, principalmente, um objeto de disputa política e
econômica. A questão central já não consiste apenas em perguntar se a
Inteligência artificial ampliará nossas capacidades intelectuais, mas em
compreender quem se apropriará dos frutos dessa ampliação e quais interesses
orientarão seu desenvolvimento. Sem enfrentar essa dimensão estrutural,
corre-se o risco de celebrar os extraordinários avanços tecnológicos enquanto
se naturaliza a concentração do conhecimento, do poder computacional e da
riqueza nas mãos daqueles que controlam as infraestruturas digitais que
sustentam esse novo fogo.
Não
estamos nas colinas da antiga Grécia. Vivemos no século XXI, sob o modo
capitalista de produção, pressionados por uma pretensa racionalidade neoliberal
que longe de nos estimular a alcançar todo nosso potencial ontológico, nos quer
desumanizar a todos. Como toda técnica humana, a Inteligência artificial não é
neutra. Ela incorpora interesses, valores e relações de poder.
Isso,
por si só nos obriga a fazer alguns questionamentos: Quem controla esse novo
“fogo”? A humanidade ou os grandes conglomerados tecnológicos? Estamos criando
uma ferramenta para emancipar pessoas ou um mecanismo para ampliar
desigualdades? A Inteligência artificial nos libertará do trabalho alienado ou
aprofundará novas formas de exploração?
A
questão que se coloca a todos nós, já não é se devemos utilizá-la, mas quem
controlará esse poder e a serviço de quais interesses ele será colocado. O
desafio do nosso tempo talvez não seja impedir o avanço da inteligência
artificial, mas decidir a quem ela servirá. Porque a Inteligência artificial
pode trazer uma nova forma de liberdade ou aperfeiçoar as correntes do capital.
E isso não será algo que será decidido pela tecnologia, mas pelas relações
sociais que a governam.
Fonte:
Por Wagner Pires da Silva, em A Terrra é Redonda

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