A
Batalha do Rio Negro
O Rio
Negro não tem pressa. Suas águas escuras conduzem a lancha em que a equipe da
Amazônia Real embarcou, em Novo Airão. Navegamos por cerca de 40 minutos
enquanto a floresta parecia engolir qualquer sinal de cidade. É desse percurso
que surge Santo Antônio, comunidade ribeirinha localizada na Reserva de
Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, a cerca de 100 quilômetros, em
linha reta, de Manaus. Vista da embarcação, ela aparece discreta entre o verde
intenso da mata, acessada por uma rampa de madeira que leva ao alto da margem,
onde vivem 11 famílias. A RDS Rio Negro é uma unidade de conservação estadual
que abrange também a capital do Amazonas, Manaus, e os municípios de Iranduba e
Manacapuru. À primeira vista, Santo Antônio parece guardar o tempo em outro
ritmo. Na comunidade, não há muros separando casas, nem cercas delimitando
caminhos. As trilhas atravessam quintais, conectam vizinhos e contam uma
história construída muito antes da chegada da eletricidade e do sinal de
internet. Mas por trás da paisagem que encanta turistas do mundo inteiro existe
uma comunidade marcada por um conflito judicial que já atravessa mais de uma
década. A batalha na justiça envolve, de um lado, os moradores locais, e do
outro o casal Robert e Beatriz Augusta Ritzenthaler. Beatriz é brasileira e
Robert estadunidense. Eles são responsáveis pela Global Thinkers Now – GTN
Brasil, uma organização missionária ligada à Igreja Adventista de Michigan, nos
Estados Unidos. Desde 2015, a GTN Brasil ocupa uma área onde foram erguidas
estruturas que incluem uma propriedade de aproximadamente 360 metros quadrados
do casal Beatriz e Robert e uma residência de alvenaria com cerca de 490 metros
quadrados. O conjunto conta ainda com um píer de madeira voltado para um
igarapé, além de rampa de acesso, poço artesiano e caixa d’água. A arquitetura
luxuosa contrasta com o modelo tradicional das casas de madeira dos ribeirinhos. O casal chegou na comunidade para evangelizar
e inicialmente teve apoio dos moradores, também adventistas, que acreditaram
estar trabalhando por melhorias na igreja e na obra missionária. Com o tempo,
promessas não cumpridas por parte do casal, ações suspeitas que incluíram uso
de imagem dos locais sem autorização e restrição de locomoção na própria
comunidade determinada pelo casal, os conflitos se intensificaram e o caso
virou um processo na Justiça do Amazonas. No dia 6 de agosto, conforme
reportagem publicada pela TV Amazonas, o Ministério Público do Amazonas
denunciou o casal Ritzenthaler e o ex-presidente da APCSA Edilson Martins
Pinheiro por crime ambiental de uma área de mais de 4 mil metros quadrados de
floresta na comunidade Santo Antônio. A denúncia ocorreu depois que os três
acusados recusaram um acordo proposto pelo promotor de justiça João Guimarães
Netto, responsável pela investigação. No
caso do casal Ritzenthaler, a proposta previa a destinação dos dois imóveis
construídos na área à comunidade. Para Edilson, que nega a acusação, o acordo
estabelecia o pagamento de uma cesta básica no valor de um salário mínimo a uma
entidade ou a prestação de serviços comunitários por 16 meses.
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O lugar que a gente cresceu
Em
abril deste ano, a Vara Única da Comarca de Novo Airão, concedeu uma decisão
liminar determinando que a ONG missionária e os Ritzenthaler não realizem novas
intervenções na área ocupada e deixem de impedir o acesso dos moradores a
espaços de uso comunitário. A medida foi concedida no âmbito de uma Ação Civil
Pública (ACP), que também pede a responsabilização dos envolvidos por danos
ambientais e a reversão das construções erguidas no local. Meses antes da
liminar, a reportagem da Amazônia Real entrevistou o procurador-geral adjunto
da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), Geraldo Uchôa. Na época, a PGE aguardava
o resultado do andamento da ACP, ajuizada em 2025 pelo Estado do Amazonas e
pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), com o objetivo de
retirar da RDS Rio Negro ocupações consideradas incompatíveis com a finalidade
da unidade de conservação.
A ACP
também pede que o casal deixe a comunidade, mas ainda não há uma decisão da
justiça sobre este aspecto. No entanto, a presença dos Ritzenthaler, com
promessas de melhorias para a comunidade que não foram cumpridas, provocou
diversos impactos que interferem até hoje no cotidiano das famílias
ribeirinhas. “Assim… no lugar que tu nasceu, sabe? E passar por isso, entende?
Mas a gente espera superar isso. E vamos alcançar a paz. Muitas famílias saíram
daqui por causa disso”, refletiu Marineuza Miranda, uma das personagens mais
importantes dessa história, em entrevista à Amazônia Real. “A Comunidade Santo
Antônio, ela é pra nós aqui, é tudo. Foi o lugar que a gente cresceu, se criou
aqui, dentro de uma harmonia, principalmente familiar, porque a Comunidade
Santo Antônio é composta, na sua maioria, por famílias. Então, a gente era
unido. Não tinha brigas na época, não tinha justiça, não tinha… O que acontecia
aqui, a gente resolvia entre a gente, por ser só família. Então, quando eu falo
de perder a identidade, foi quando começaram esses conflitos. Aí a gente já não
sabe mais quem era quem”, completou. Os moradores também descobriram que um
site da ONG promovia uma campanha internacional de arrecadação de dinheiro
usando fotografias das pessoas da comunidade. Se algum dinheiro foi arrecadado,
os moradores contam que não sabem onde foi aplicado, já que as melhorias
prometidas, como escola e posto de saúde, nunca chegaram.
É
preciso recuar no tempo para entender como a missão chegou à comunidade e como
tantas esperanças se frustraram com o passar dos anos. Marineuza Miranda, nascida e criada na
comunidade, conhece bem essa história desde o começo. Ela e o marido, Edilson,
que na época era presidente da Associação de Produtores Agrícolas da Comunidade
Santo Antônio, receberam o casal de missionários por indicação de um pastor
evangélico. A missão prometia assistência médica e odontológica periódica, um
posto de saúde, escola com cursos profissionalizantes, ações sociais
permanentes e apoio ao desenvolvimento da comunidade. As famílias viram nas
promessas a possibilidade de superar carências históricas de infraestrutura e
assistência. Durante dois anos e meio, Marineuza e o marido receberam um
salário de 1.500 reais e engajaram-se no trabalho junto aos missionários. Na
visão de Marineuza, colaborar com a missão significava contribuir para uma
causa maior. “A gente trabalhava por
amor à missão porque nós, evangélicos, cremos que Jesus vai voltar e que o
amor, o evangelho, tem que ser pregado a todos, não importa a raça ou cor.
Então, a gente trabalhava nisso. Focado nisso. O trabalho que a gente fez foi
abençoado pelo Espírito Santo e a gente conseguiu porque a maioria dos comunitários
é de evangélicos”, explicou. Em Santo Antônio, onde a maioria dos moradores
compartilhava a mesma crença religiosa, a igreja funcionava como um elo entre
famílias que dividiam a mesma fé e cotidiano como ribeirinhos às margens do rio
Negro. Quando o conflito se instalou, porém, as rachaduras ultrapassaram as
relações entre moradores e missionários. A decepção já havia se espalhado pela
comunidade. “As pessoas têm mania de te ver como um exemplo. E a gente não é um
exemplo. Nós somos um exemplo de Deus. Nós somos seres humanos. O sujeito falha
a qualquer momento.” E a líder ainda revelou: “Isso afetou também a igreja
evangélica, porque quando eles chegaram aqui na comunidade, eles se
identificaram como da igreja evangélica.” O resultado também apareceu nos
bancos vazios da igreja. As famílias que durante anos participaram dos cultos
deixaram de frequentar as celebrações. Algumas se afastaram silenciosamente,
outras abandonaram completamente a vida religiosa que fazia parte da rotina da
comunidade. Segundo Marineuza, apenas duas ou três famílias participam das
atividades da igreja hoje em dia. Marineuza e Edilson não apenas abriram as
portas da comunidade. Eles vestiram a camisa do projeto. A relação de confiança
cresceu a ponto de Marineuza e Edilson aceitarem morar na casa construída pela
missão, auxiliando na manutenção do espaço e na organização das ações enquanto
os missionários ainda viviam entre o Brasil e os Estados Unidos. Edilson também
assumiu uma função: tornou-se tesoureiro da organização Global Thinkers Now
Brasil responsável pelas atividades desenvolvidas na comunidade. Logo que os missionários chegaram, algumas
promessas pareciam caminhar. Médicos, dentistas e outros profissionais de saúde
realizaram atendimentos em Santo Antônio e nas comunidades vizinhas nos três
primeiros anos. “No primeiro ano realmente veio equipe de médico, dentista,
pediatra. Mas era só uma vez no ano. Três anos consecutivos passou a acontecer
isso”, lembra Marineuza. A grande expectativa da comunidade, no entanto, era
com a nova escola.
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Sem escola, sem saúde
No
centro do povoado, está uma escola multisseriada que atende crianças de Santo
Antônio, Tiririca e Marajá até o 9º ano do ensino fundamental. Todas as manhãs,
uma lancha escolar cruza o rio Negro para reunir os alunos das comunidades
vizinhas. As crianças dividem a mesma sala de aula, aprendem juntas e crescem
compartilhando o território que seus pais e avós ajudaram a construir. Para
muitos jovens, entretanto, o fim do ensino fundamental representa uma difícil
escolha: deixar a comunidade para continuar estudando ou interromper a formação
escolar. Foi essa realidade que levou os moradores a receber o casal
Ritzenthaler com otimismo e a ceder um terreno para a construção da residência
para os missionários. “O projeto era
bom. A gente falou pra comunidade, a comunidade aceitou em assembleia e liberou
um espaço de terra para a Beatriz
construir a casa. Existia toda uma papelada. A gente reunia a
comunidade, passava o projeto e a comunidade dava o ok”, contou Marineuza à
reportagem. A casa serviria como uma base para que os missionários pudessem se
instalar e viabilizar os projetos. A
casa foi construída num padrão muito acima das moradias locais, contando,
inclusive, com o trabalho de voluntários da comunidade. Eles dedicavam dias
inteiros à pintura, ampliação e limpeza da estrutura. Enquanto isso, as
demandas dos moradores foram sendo adiadas. Nada de escola nem posto de saúde.
Marineuza conta que, durante muito tempo, ela e o marido tentaram explicar aos
moradores que os benefícios chegariam. Mas, segundo Marineuza, a expectativa
começou a ruir quando os moradores foram informados de que a escola deixaria de
ser prioridade. “Era algo que até então ia ser bem legal pra comunidade, então
a gente aceitou. Aí foi quando o casal falou que eles não iam mais construir a
escola”, revela. A ruptura, de fato, aconteceu quando Edilson passou a
questionar a movimentação financeira da organização missionária. Como
tesoureiro, ele percebeu que recursos foram destinados para construção,
manutenção e conforto da residência particular do casal de missionários.
Compras e pagamentos que, na avaliação dele, não tinham relação com os
objetivos sociais apresentados anos antes, segundo contou Marineuza à
reportagem. Foi também nesse período que moradores descobriram nas redes sociais
dos missionários uma campanha de arrecadação de recursos nos Estados Unidos. A
campanha usava fotografias de pessoas da comunidade para solicitar doações
internacionais. Segundo Marineuza, os comunitários jamais foram informados de
que suas fotografias serviriam para captação de dinheiro no exterior e,
tampouco, viram os valores arrecadados se converterem nas melhorias prometidas.
“Aí, foi quando os parentes ficaram todos revoltados e começaram a pesquisar a
vida do casal. Vimos que ela usava o
nome da comunidade, pedindo benefícios, inclusive foto da minha família como
missionária. Minha família, eu, meu filho, minha filha e meu esposo, rodando
nos Estados Unidos”, contou Marineuza. Ela e Edilson deixaram a residência da
missão. Os problemas estavam só no começo e o conflito se acentuaria ainda
mais.
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Proibido transitar no seu território
A
presença do casal provocou a restrição de acesso dos moradores a áreas de uso
coletivo da comunidade. Um exemplo foi a construção de uma ponte de madeira
rústica para conectar uma estrutura que serviria de apoio à comunidade, chamada
“Casa Silva”, à residência de alto padrão do casal. A passarela atravessa uma área estratégica da
comunidade, próxima a um dos principais pontos de embarque e desembarque usados
pelos moradores. Famílias tiveram que alterar trajetos usados há décadas para
acessar suas casas, passando a percorrer caminhos mais longos para evitar
conflitos com o casal. Segundo Mariete
Miranda, atual presidente da Associação de Produtores Agrícolas da Comunidade
Santo Antônio (APCSA), o casal passou a impedir que moradores utilizassem os
caminhos abertos entre as casas. “Aqui
na nossa comunidade, a gente tem acesso pra todo o canto. Tem casa aqui, tu
quer ir pra ali, a gente já atalha caminho aqui, vai pra ali ou vai pra casa
dela, tudo é através de caminho, né? Aí ela [Beatriz Ritzenthaler] já começou a
cortar porque ela não queria que ninguém passasse na área da casa dela”,
relatou. A construção da ponte ampliou
as tensões. Em reunião comunitária, moradores questionaram a obra por
entenderem que ela alterava a circulação em uma área coletiva. Ainda assim,
conforme Mariete, a estrutura foi concluída sem consenso da comunidade. “Ela
fez a escada dela, fez a passarela. Ignorou todo mundo”, afirmou.
Os
relatos reunidos pela associação comunitária apontam que as restrições
extrapolaram a área da residência. Moradores afirmam que crianças foram
desencorajadas a utilizar o campo de futebol do povoado em algumas ocasiões e
que atividades cotidianas passaram a ser alvo de questionamentos. Um dos
episódios envolve um comunitário repreendido após retirar um pé de pimenta em
uma área de uso compartilhado pelos comunitários. Segundo moradores que
testemunharam o episódio, Beatriz teria afirmado que ele estava retirando itens
de seu “quintal”, embora os habitantes considerem o espaço parte do território
coletivo. “Isso tirou totalmente a nossa liberdade. Hoje a gente fica pensando
no que ela está fazendo porque ela tem dinheiro, tem advogado. Não existe mais
aquela paz que a gente tinha antes”, resumiu Mariete. Uma sensação de vigilância também passou a
fazer parte da rotina dos moradores. Os relatos de Mariete e Marineuza trazem
episódios de instalação de câmeras em diferentes pontos da propriedade e o
monitoramento constante das áreas próximas.
Em
documento encaminhado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA), a
Associação de Produtores Agrícolas da Comunidade Santo Antônio afirma que os
espaços ocupados pelos imóveis da Global Thinkers Now Brasil passaram a
funcionar de forma isolada do restante da comunidade e que moradores teriam
sido impedidos de transitar livremente. O documento também sustenta que a área
entre a “Casa Silva” e a residência do casal passou a restringir o acesso de
comunitários a um dos principais
caminhos para o rio. Do outro lado, o silêncio. “Não tivemos resposta”,
diz a moradora Marineuza Pontes. Segundo ela, a única notícia que chegou aos
moradores foi a de que a ocupante da área teria um prazo para deixar a
comunidade.
Em
março de 2024, a Global Thinkers Now Brasil ajuizou uma ação contra a APCSA
para impedir que a entidade tentasse revogar a autorização de funcionamento da
organização na “Casa Silva”, também sede da GTN Brasil. Na ação, a GTN Brasil
sustentou que exerce a posse do imóvel desde 2015, que a construção foi
realizada com recursos próprios provenientes de doações e que desenvolve
atividades sociais sem fins lucrativos na comunidade. Em decisão liminar de
março de 2024 a Justiça da Vara Única da Comarca de Novo Airão determinou que a
APCSA se abstivesse de qualquer intervenção que pudesse ameaçar a posse da ONG
sobre o imóvel, fixando multa diária de R$ 200,00 em caso de descumprimento.
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A comunidade decidiu reagir
Marineuza
avalia que o processo marcou um novo capítulo da disputa e a dimensão do
conflito mudou. “Eu falei [para Beatriz]: ‘Você fez totalmente errado. Em vez
de puxar o comunitário para o seu lado, você processa uma comunidade’. Até
então o problema era particular, era nosso. Era meu e dela. A gente discutiu
lá, ‘então, vai para lá que eu vou para cá’. Mas, a partir do momento que ela
processou a comunidade, aí a gente praticamente sai e o Estado toma conta,
porque é uma comunidade. Está sobre uma área protegida. Então é obrigação do
Estado proteger a comunidade.” Foi nesse contexto que a Defensoria Pública do
Amazonas passou a acompanhar o caso. Em 2024, uma equipe formada por defensoras
públicas visitou Santo Antônio para ouvir os moradores e coletar informações
sobre as denúncias apresentadas pela comunidade. Entre os relatos, estavam a
construção de imóveis de alto padrão dentro da RDS do Rio Negro, a utilização
de áreas coletivas para fins particulares, restrições à circulação de moradores
e o uso indevido de imagens dos comunitários em campanhas de arrecadação. A
defensora pública Daniele Fernandes, coordenadora do Núcleo Especializado de
Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, afirmou que
a atuação da instituição buscava verificar possíveis violações de direitos
coletivos da comunidade. “Quanto aos direitos da comunidade ribeirinha Santo
Antônio, identificamos indícios de violações tanto no momento da chegada da
organização missionária quanto durante sua permanência no território. Essas
violações abrangem o direito ao território e o direito à consulta prévia, livre
e informada, ambos fundamentais para comunidades tradicionais”, disse. Daniele
explicou que a equipe ouviu moradores sobre as promessas de construção de
espaços educacionais e sociais para uso da comunidade que nunca foram
entregues. “Embora a organização alegue ter se estabelecido no território com o
consentimento da comunidade, os relatos coletados indicam vícios no processo de
obtenção deste consentimento”, observou Daniele. O acompanhamento da Defensoria
acabou servindo como porta de entrada para uma atuação mais ampla do Estado no
caso.
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O tempo da Justiça
Sob a
chuva fina do inverno amazônico, a equipe da Amazônia Real foi até a residência
onde vivem o casal de missionários Beatriz Augusta e Robert Ritzenthaler. A
casa fica nos fundos do terreno, separada do restante da comunidade Santo
Antônio por uma cerca de madeira e ligada à chamada “Casa Silva” pela passarela
construída sobre o barranco que dá acesso ao rio Negro. Fomos recebidos na
varanda da residência pelo casal. A primeira pergunta veio antes mesmo das
apresentações.
– “Quem
são vocês?” A reportagem se identificou e explicou que produzia uma reportagem
sobre o conflito envolvendo a comunidade. Beatriz e Robert aceitaram conversar,
mas não permitiram nenhum tipo de gravação. Durante pouco mais de uma hora, o
casal apresentou sua versão dos fatos.
Antes mesmo de responder às perguntas da reportagem, Beatriz insistiu
que a equipe visitasse outra comunidade e conversasse com pessoas indicadas por
ela. Ao longo da conversa, repetiu diversas vezes que os moradores ouvidos pertenciam
à mesma família e tinham “a mesma agenda”, além de afirmar que preferia que
qualquer manifestação oficial fosse feita por seus advogados. Questionada sobre as promessas relatadas
pelos comunitários, entre elas a construção de uma escola e de um posto de
saúde, Beatriz negou que esses compromissos tenham sido assumidos pela
organização. Segundo ela, o trabalho desenvolvido pela GTN sempre esteve
voltado à educação musical e ao ensino de inglês para crianças das comunidades
da região. “Como que nós prometeríamos fazer uma escola? Eu sou professora de
música. Eu não tenho diploma de pedagogia. […] Nós nunca fazemos promessas.
Nunca vou prometer para você uma coisa porque eu não posso cumprir”,
explicou. A missionária afirmou ainda
que ela e o marido deixaram os Estados Unidos para desenvolver atividades
educacionais na região e que a proposta sempre foi atuar “naquilo que a gente
puder”. “Quando a gente chegou aqui, primeiramente a gente falou: nós estamos
aqui para trabalhar junto com as comunidades, poder ajudar naquilo que a gente
puder”, revelou.
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Vitória na Justiça
Poucos
dias depois da nossa ida a Santo Antônio, a comunidade finalmente obteve uma
vitória na justiça mencionada no começo da reportagem. Em 24 de abril de 2026,
a justiça decidiu que há indícios suficientes para determinar, em caráter de
urgência, que Beatriz Augusta Ritzenthaler, Robert Ritzenthaler e a ONG Global
Thinkers Now Brasil deixem de realizar novas construções ou intervenções na
área ocupada. Em entrevista à Amazônia
Real, o procurador-chefe da Procuradoria Especializada em Meio Ambiente da PGE,
José Gebran, afirmou que a liminar representou um marco na condução do caso.
Além da proibição de novas construções, o juiz determinou que o casal e a ong
respeitem integralmente o embargo ambiental já existente e se abstenham de
impedir ou restringir o acesso da comunidade às áreas comuns da RDS do Rio
Negro, sob pena de multa diária de 5 mil reais, limitada a 150 mil reais.
Segundo Gebran, a liminar representa apenas uma das etapas da ação civil
pública. O Estado pede à Justiça a retirada definitiva do casal da unidade de
conservação, a reversão das edificações erguidas e a condenação dos réus ao
pagamento de 5 milhões de rais por danos morais coletivos e ambientais. De
acordo com o procurador, eventual indenização não seria destinada
individualmente aos moradores, mas a um fundo voltado à reparação dos danos
causados à comunidade e ao meio ambiente. Apesar do avanço representado pela
decisão liminar, ela não significa a retirada imediata do casal da comunidade.
A medida tem caráter provisório e busca impedir novas intervenções na área
enquanto o processo segue seu curso na Justiça. Segundo a Procuradoria-Geral do
Estado, a desocupação definitiva da área depende da conclusão da ação civil
pública, etapa em que ainda precisam ser assegurados o contraditório e a ampla
defesa aos réus. “Como a situação já avançou, não é uma invasão nova. O Estado
precisa observar e garantir o direito de defesa por meio de um processo
judicial para obter esse direito de retirar a instituição [do casal de
missionários] e o perdimento da edificação em prol do Estado”, explicou o
procurador José Gebran.
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Impacto na saúde dos ribeirinhos
A
disputa judicial com a missão atingiu diretamente Marineuza e Edilson. Na mesma
ação de 2024 da GTN Brasil contra a APCSA já mencionada, a ong atribui a
Edilson a responsabilidade por problemas na gestão financeira durante o período
em que foi tesoureiro. O processo deixou marcas profundas na família. “Essa
questão de processo… a gente nunca sofreu isso aqui. Então são gastos, são
desgastes, são noites sem dormir”, Marineuza contou à reportagem. Ela afirma
que o peso da disputa afetou sua saúde emocional. Ao mesmo tempo em que
enfrenta a cobrança de parte dos moradores por ter participado da chegada dos
missionários, também convive com o sentimento de responsabilidade por um
conflito que, segundo ela, jamais imaginou provocar. “É um sentimento de
impotência. Muitos dizem que a comunidade está vivendo hoje o que nós causamos.
E, se eu for realmente analisar, nós causamos. Porque nós conhecemos eles
primeiro. Mas a decisão não foi nossa sozinha. Foi em assembleia. A gente era
uma diretoria, a gente aceitou. Eles [a assembleia] também poderiam ter brecado
aqui”, desabafa.A culpa também se tornou um peso difícil de carregar. Enquanto
fala sobre o conflito, Marineuza interrompe a entrevista, se emociona e chora.
Sem conseguir conter as lágrimas, ela resume o sentimento que a acompanha:
“Então, assim, de uma forma ou de outra, eu me sinto culpada, entende?” Fundada
oficialmente em 1988, Santo Antônio é o menor entre as 19 comunidades da
região. Quase todos os dias, visitantes desembarcam na comunidade para conhecer
uma Amazônia vivida por quem nasceu nela. O roteiro passa pela casa de farinha,
pelas trilhas cercadas de espécies medicinais, pela Casa da Descoberta, espaço
de compartilhamento de saberes tradicionais, e pela loja de artesanato. Mais do
que observar paisagens, os turistas acompanham o modo de vida dos moradores, um
cotidiano em que a farinha ainda é feita coletivamente, o peixe chega fresco do
rio e é servido à mesa no restaurante da comunidade e o tempo parece obedecer
ao movimento das águas. Marineuza
acredita que o fim da disputa passa pela saída definitiva do casal e torce para
que a quietude volte à comunidade de vida simples e modesta. “Para mim, eles
saindo, dá uma sensação de alívio. A gente espera superar isso. Muitas famílias
saíram daqui por causa disso. Acho que se eles saíssem, volta a reinar a paz.”
Fonte:
Por Soraia Joffely, em Amazônia Real

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