sábado, 22 de agosto de 2026

Vorcaro e Flávio Bolsonaro resumem 50 anos da Lei de Gérson

Sou chegado em uma efeméride. Principalmente quando o assunto da data é algo tão afetivo quanto um velho comercial de tv da nossa juventude.

A Lei de Gérson acabou de completar 50 anos neste 2026. Viva? Nada disso.

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!” Era uma simples propaganda de cigarros, lembra?, porém virou a síntese do caráter do brasileiro e rendeu infinitos simpósios nas universidades e nos botecos.

No cinquentenário da lei informal que mais funciona no dia a dia do país, o seu maior representante é o banqueiro bandido Daniel Vorcaro, óbvio. Seguido, naturalmente, por toda a turma que levava vantagem da vantagem, como o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência.

O filho 01 de Jair levou do dono do Master pelo menos R$ 61 milhões, conforme confissão em telefonema revelado pelo Intercept Brasil. A grana seria para a realização do filme “Dark Horse”. Quase cem dias depois do estouro da notícia, Flávio nada explicou direito sobre a mutreta.

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?” E ficou por isso mesmo. A Polícia Federal e o ministro STF André Mendonça (relator do inquérito sobre o caso no STF) nada fizeram para mover a história.

Em 50 anos da lei dos espertos, só o próprio ex-atleta que batiza a regra foi prejudicado.

Em campo, Gérson era o cérebro da Seleção Brasileira tricampeã do mundo de 1970.

Combativo, leal e capaz de dribles e lançamentos espetaculares, o meio-campista nunca usou de artimanhas ou malandragens para passar a perna nos adversários ou ludibriar os colegas de equipe. Sempre foi um exemplo de ética no meio esportivo.

Por causa de um anúncio publicitário, porém, seu nome virou batismo de uma lei que nem está no papel, mas representa tudo que nós entendemos como “jeitinho brasileiro”.

A Lei de Gérson surgiu em 1976, depois da campanha da agência Caio Domingues & Associados para a marca Vila Rica. No comercial de televisão, o craque exaltava as qualidades do produto: “É gostoso, suave e não irrita a garganta. Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro?”

Até aí, tudo bem. O que pegou mesmo foi a mensagem final, quando ele, com um sorriso maroto, olha para a câmera e diz: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”

Em poucos dias de exibição, os brasileiros repetiam aquele slogan em várias situações do cotidiano, sempre no sentido de tirar proveito — assim a lei informal é mantida até agora. O atleta já havia se aposentado quando gravou a propaganda. Foi escolhido por ser realmente um fumante de prestígio. O torcedor estava habituado a vê-lo com cigarro em fotos antes das partidas e até em intervalos de jogos.

A frase interpretada pelo jogador era repetida nos botecos pés-sujos e nos restaurantes de luxo, mas o uso da expressão Lei de Gerson só pegou nos anos 1980, quando o repórter Maurício Dias, da revista semanal “Isto É” a utilizou em uma entrevista com o psicanalista pernambucano Jurandir Freire Costa.

Para o publicitário Eduardo Domingues, diretor da agência responsável pelo anúncio, o sentido antiético só ganhou força mesmo em 1981, quando a revista Exame deu o título “Lei de Gérson” a uma reportagem sobre a quebradeira do banco BrasilInvest, do empresário Mario Garnero.

A mesma agência ainda tentou reduzir o efeito negativo com um novo comercial. “Levar vantagem não é passar ninguém para trás, é chegar na frente”, explicava o reclame. Tarde demais. A lei que não saiu das nossas casas legislativas — e sequer foi escrita em algum lugar — já estava consolidada na sociedade brasileira.

O “Canhotinha de Ouro” jamais pensou que a sua atuação fora de campo pudesse render tanta polêmica.

“Eu fiz uma propaganda, fui um artista ali, como tantos outros. A ideia foi essa, a de levar vantagem em tudo porque esse cigarro era mais barato que os outros. Todo cigarro é igual, não é? Mas esse aqui é melhor porque é mais barato”, disse. “Aí eles pegaram essa vantagem como se fosse pernada nos outros, passar os outros para trás. É a lei do Gérson. Lei do cacete, porra. Não tenho nada com isso aí.”

Na sua carreira no futebol, Gérson de Oliveira Nunes, nascido em Niterói (RJ) em 1941, jogou pelo Flamengo, Botafogo, São Paulo e Fluminense.

¨      Caso Dark Horse: 5 perguntas para as quais a PF precisa encontrar respostas. Por Paulo Motoryn

Há três meses, quando meus então colegas do Intercept Brasil e eu começamos a publicar a série Vaza Flávio, uma parte importante da história apareceu de maneira relativamente clara: Flávio Bolsonaro havia participado diretamente da negociação de US$ 24 milhões com Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro.

Documentos mostravam que pelo menos US$ 10,6 milhões haviam sido enviados ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, entre fevereiro e maio de 2025. De lá para cá, porém, a impressão que tenho é quase oposta à ideia de que o caso está esclarecido. Quanto mais informações aparecem, mais evidente fica o tamanho das lacunas.

A abertura do inquérito no Supremo, autorizada em 23 de julho pelo ministro André Mendonça após parecer da Procuradoria-Geral da República, colocou formalmente Flávio, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Daniel Vorcaro e outros personagens sob investigação. A apuração alcança suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas à negociação e ao uso dos recursos.

Na minha visão, há, pelo menos, cinco perguntas que ainda precisam ser respondidas.

>>> 1. Cadê as notas fiscais?

Esta é a pergunta mais importante de todas. Há milhões de dólares identificados chegando aos Estados Unidos. Há um fundo, o Havengate, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, e por Altieris Santana. Há documentos que colocavam Eduardo como produtor-executivo do Dark Horse, com poder de gestão e decisão sobre a produção, inclusive em matéria financeira. Há também mensagens nas quais Eduardo orientava interlocutores sobre a melhor forma de colocar os recursos nos Estados Unidos. O que ainda não temos é uma prestação de contas pública que permita acompanhar o caminho completo do dinheiro.

A GoUp, produtora do filme, afirmou ter entregue documentação financeira à Polícia Civil de São Paulo e diz possuir laudo atestando a origem privada e rastreável dos recursos. Esses documentos, porém, não foram tornados públicos.

É justamente aí que entram as notas fiscais, contratos, extratos e comprovantes de pagamento. Quem recebeu os milhões administrados pelo Havengate? Quanto efetivamente chegou à produção do filme? Quais serviços foram contratados? Quanto permaneceu no fundo?

E há uma questão ainda mais sensível: a Polícia Federal apura se parte desses recursos bancou despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos ou outras ações de aliados de Jair Bolsonaro naquele país. Eduardo nega ter recebido o dinheiro e afirma que não exerceu função de gestão no fundo. Sem as contas abertas, essa controvérsia permanecerá sem resposta.

>>> 2. Houve alguma contrapartida para o Banco Master?

Esta é a pergunta que pode mudar de patamar todo o caso. Até aqui, não há prova pública de que Flávio Bolsonaro tenha oferecido qualquer contrapartida a Daniel Vorcaro ou ao Banco Master em troca do investimento no filme. Isso precisa ser dito com todas as letras. Mas a hipótese é suficientemente relevante para já estar no radar das investigações.

O ICL Notícias mostrou que, em 2025, Flávio atuou no Senado em favor de uma mudança na legislação ambiental que reduziu a responsabilidade de instituições financeiras por danos provocados por empreendimentos financiados. Naquele período, o Master tinha operações em setores como mineração, minerais críticos e créditos de carbono, potencialmente beneficiados pela regra. Flávio votou a favor do dispositivo, apresentou emenda sobre o tema depois do veto presidencial e posteriormente votou pela derrubada desse veto. Não há evidência pública de que tenha feito isso a pedido de Vorcaro.

Após a reportagem, deputados pediram à Polícia Federal que cruzasse essa atuação parlamentar com os demais elementos da investigação, inclusive dados bancários, fiscais, telefônicos e telemáticos. Essa é exatamente a apuração que precisa ser feita.

Mais do que isso, é necessário reconstruir todas as ações de Flávio e de seus aliados em temas de interesse do Master durante o período em que Vorcaro financiava o projeto: emendas, projetos, votos, reuniões, indicações, articulações políticas e contatos com órgãos públicos.

>>> 3. Qual foi o papel de Jair Bolsonaro?

Até agora, o personagem menos explorado dessa história talvez seja justamente aquele que aparece no centro do filme: Jair Bolsonaro. Nós revelamos no Intercept que, em março de 2025, houve uma articulação para levar o ex-presidente à mansão de Daniel Vorcaro em Brasília. A ideia era que Jair e o banqueiro assistissem juntos a um documentário.

Segundo as mensagens, o encontro integrava uma estratégia de aproximação relacionada à busca do apoio de Vorcaro para o Dark Horse. O banqueiro concordou em recebê-lo, mas os registros não permitiram confirmar que a visita tenha de fato ocorrido. A defesa de Thiago Miranda afirmou posteriormente que o encontro não aconteceu. Mas essa resposta não encerra o assunto.

Se Jair Bolsonaro não foi pessoalmente à casa de Vorcaro, houve algum outro contato? Telefonema? Videoconferência? Interlocução por terceiros? Ele sabia dos valores envolvidos? Participou de alguma conversa sobre a captação? Autorizou que seus filhos e Mario Frias buscassem esse dinheiro em seu nome?

São perguntas relevantes porque não estamos falando de um investimento lateral em um empreendimento qualquer. Estamos falando de US$ 24 milhões negociados para financiar uma produção cinematográfica dedicada a construir a narrativa pública sobre a vida de Jair Bolsonaro.

É difícil considerar completamente esclarecida essa negociação sem conhecer o papel desempenhado pelo próprio biografado.

>>> 4. O que Flávio e Vorcaro falaram ao telefone?

Nesta terça-feira (18), revelei na newsletter Noites Húngaras um detalhe que havia permanecido praticamente escondido no enorme volume de mensagens do caso: Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro falaram por telefone ao menos cinco vezes somente em setembro de 2025. As chamadas identificadas somaram 6 minutos e 20 segundos.

Uma delas chama especialmente atenção. Em 8 de setembro, às 22h12, Flávio ligou para Vorcaro e os dois conversaram durante 2 minutos e 38 segundos. A chamada começou instantes depois de o senador enviar o famoso áudio cobrando uma solução para os pagamentos do Dark Horse. O conteúdo dessas conversas continua desconhecido.

Há ainda outro problema: os cinco telefonemas podem não ser todos. Em 16 de setembro, mensagens mostram Flávio dizendo a Vorcaro que havia “retornado” um contato. Nem a tentativa inicial nem esse aparente retorno aparecem no histórico de chamadas do WhatsApp. A explicação mais plausível é que tenham ocorrido pela rede telefônica convencional, o que significa que há contatos entre os dois que o vazamento simplesmente não permite enxergar.

A investigação precisa descobrir quantas ligações realmente ocorreram — e, principalmente, o que foi tratado nelas.

>>> 5. De onde veio o US$ 1,7 milhão que faltava?

Os documentos que revelamos no Intercept permitiam identificar seis transferências, realizadas entre fevereiro e maio de 2025, que somavam US$ 10,6 milhões. Mas um Relatório de Inteligência Financeira do Coaf, citado posteriormente pela PGR e revelado pela revista Piauí, identificou uma movimentação de US$ 12.333.335 entre a Entre Investimentos e Participações e o Havengate Development Fund. É uma diferença de cerca de US$ 1,7 milhão.

E aqui existe uma lacuna que considero especialmente importante: ainda não sabemos se esse dinheiro adicional corresponde a uma ou mais novas parcelas, quando elas foram pagas ou sequer se os dois números representam exatamente o mesmo conjunto de operações. O parecer da PGR não informa a data das movimentações nem quantas transferências formaram os US$ 12,3 milhões.

Isso importa porque, em setembro de 2025, Flávio Bolsonaro ainda cobrava Vorcaro pela liberação de recursos. Se houve novos desembolsos depois daqueles US$ 10,6 milhões já conhecidos, é fundamental descobrir quando ocorreram, quem os autorizou e em que circunstâncias.

Esse, para mim, é o ponto central dos próximos capítulos de Dark Horse. O escândalo não é apenas saber que um banqueiro se comprometeu a colocar US$ 24 milhões num filme sobre Jair Bolsonaro e que milhões efetivamente atravessaram a fronteira. O que falta descobrir é por que esse dinheiro foi dado, onde ele terminou e o que aconteceu depois. Enquanto isso não tiver resposta, o caso estará muito longe de encerrado.

¨      Proposta de Flávio Bolsonaro para as contas públicas é ‘balela’, diz Durigan

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, criticou nesta quinta-feira (20) a proposta da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de criação de um conselho de governança fiscal unindo Executivo, Legislativo e Judiciário.

“Como [Flávio] propõe isso se todo dia a gente está vendo ataque aos outros Poderes e desrespeito institucional?”, questionou o ministro durante entrevista à Rádio CBN. “Isso é balela, não é crível. A solução vai ser a família Bolsonaro discutindo com o Supremo e entrando num acordo sobre responsabilidade fiscal?”.

Embora a proposta de um conselho de governança fiscal não conste no programa oficial da campanha do PL, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, tem dito que a solução para o problema fiscal é a “harmonia entre os Poderes”. Em entrevista à GloboNews no último dia 3, ela propôs a criação desse órgão colegiado.

<><> Críticas a proposta

Ao criticar a proposta da campanha de Flávio, Durigan discutia a necessidade de corte de despesas ineficientes e propunha dar mais transparência à aplicação de verbas via emenda parlamentar, algo que, segundo ele, será feito em diálogo com os demais Poderes.

“Se estamos destinando um volume grande para as emendas parlamentares, precisamos mostrar para a população que as pessoas estão, de fato, recebendo isso com eficiência, que não tem mau uso, sobrepreço. Isso é fundamental que a gente faça no próximo governo dentro do diálogo [com o Legislativo] que já foi construído”, disse.

Durigan voltou a afirmar que pretende manter a regra de gastos atual, o chamado arcabouço fiscal, mas com ajustes nos gastos obrigatórios. Disse também que o governo está preparado para fazer um ajuste fiscal de cerca de 2% do PIB (Produto Interno Bruto) em um eventual próximo mandato de Lula (PT).

O ministro ainda lembrou dispositivos incluídos na lei de subvenção ao etanol que poderão reduzir os gastos obrigatórios em cerca de R$ 10 bilhões no ano de 2027 caso haja déficit primário -o limite ao crescimento dos fundos e ao orçamento da saúde-, como uma sinalização de que o governo tem disposição de conter o aumento da despesa.

 

Fonte: Por Xico Sá, em ICL Notícias

 

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