Trabalhe
enquanto eles dormem, morra enquanto vivem
Expandido
no discurso da meritocracia como escolha pessoal e virtude moral, a cultura da
hiperprodutividade é um reflexo das desigualdades materiais e sociais. Porque a
necessidade de produzir sem parar não é uma escolha de vida, é uma imposição
para a sobrevivência. A falta de poder aquisitivo, estabilidade ou estrutura
econômica justa mantém as pessoas em estado de alerta constante, já que dentro
dessa realidade ter o mínimo e não ter nada é um limite muito tênue.
O
cenário atual do Brasil assusta, dados do Ministério da Previdência Social
mostram que, em 2025, o país ultrapassou a marca de 534 mil a 546 mil
afastamentos trabalhistas decorrentes de transtornos mentais e comportamentais,
com ansiedade liderando isolada ultrapassando 166 mil casos (alta de quase 18%
em relação a 2024). Esse grande número de afastamentos levou o governo a tomar
medidas para melhorar as políticas de fiscalização, como a atualização da Norma
Regulamentadora NR-1, que entrou em vigor em maio de 2026. Sua atualização mais
recente, obriga as empresas a incluírem a prevenção de riscos psicossociais
(como burnout, assédio moral, estresse e sobrecarga) no ambiente de trabalho,
sujeito a penalidades caso negligenciado.
No
primeiro trimestre de 2026, os dados apontam mais de 105 mil afastamentos nos
três primeiros meses, com a ansiedade continuando a responder por mais de 30%
de todas as concessões do período. Esse excesso de sofrimento não pode
continuar sendo visto como dedicação. Noites mal dormidas, falta de descanso,
ansiedade e estresse afetam gravemente a capacidade cognitiva virando
autoflagelação psicológica. Dentro desse cenário, a luta por direitos e
políticas públicas torna-se uma questão de sobrevivência e transformação.
Estudos
publicados no Journal of Sleep Research e pela Harvard Medical School
evidenciam que passar 24 horas sem dormir, ou manter uma rotina de sono de
apenas 5 a 6 horas por noite, prejudica o desempenho cognitivo ao equivalente a
uma taxa de 0,10% de álcool no sangue, o que é acima do limite legal para
dirigir. A privação de sono compromete a memória, a tomada de decisão, o
controle inibitório e a atenção sustentada. Além disso, dados da Lancet
Commission on Global Mental Health estimam que a perda de produtividade
decorrente da ansiedade e da depressão custam cerca de 1 trilhão de dólares por
ano à economia global, um impacto que, no Brasil, traduz-se em bilhões de reais
anuais consumidos por benefícios previdenciários e dias parados de trabalho.
Com a
tecnologia em alta e o trabalho remoto, a fronteira entre a vida pessoal e a
profissional desapareceu. A expectativa implícita é de disponibilidade total. A
instabilidade do mercado de trabalho ainda alimenta a sensação de que, se você
parar para descansar, será substituído por alguém que topa produzir mais por
menos. E se você adoece porque trabalha 12 ou 14 horas por dia sob metas
inalcançáveis e assédio velado, a narrativa dominante faz você acreditar que o
problema é a sua “incapacidade de aguentar a pressão”.
O
neuropsiquiatra e filósofo Byung-Chul Han, em “A Sociedade do Cansaço”,
evidencia como a cultura do desempenho extremo faz o indivíduo se cobrar até o
esgotamento.
Fonte:
Por Vitória Bragi, em Outras Palavras

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