Não
é loucura: “falar sozinho” tem uma função importante para o cérebro, mostra a
ciência
Quem
nunca comentou em voz alta uma tarefa que precisava fazer, repetiu uma
informação para não esquecer ou ensaiou uma conversa antes de uma situação
importante? Apesar de muitas vezes ser visto com estranhamento, o hábito de
falar sozinho faz parte do funcionamento normal do cérebro e pode ter efeitos
positivos sobre a cognição.
Pesquisadores
da área da psicologia avaliam que colocar pensamentos em palavras ajuda a
transformar ideias dispersas em algo mais organizado. O recurso pode ser usado
para planejar ações, avaliar escolhas e controlar reações emocionais em
momentos de tensão.
Um dos
estudiosos do tema é Gary Lupyan, professor da University of Wisconsin–Madison.
Seus trabalhos mostram que a linguagem não serve apenas para a comunicação com
outras pessoas, mas também atua como uma ferramenta de apoio aos processos
mentais.
Em
experimentos conduzidos pelo pesquisador, pessoas que pronunciavam em voz alta
informações apresentadas visualmente conseguiam lembrar delas com mais
facilidade do que aquelas que apenas faziam a leitura silenciosa. O resultado
indica que ouvir a própria voz pode reforçar mecanismos ligados à memória.
A
prática também aparece relacionada ao autoconhecimento. Para a psicoterapeuta e
escritora Anne Wilson Schaef, conversar consigo mesmo pode ser uma forma de
estabelecer um diálogo interno capaz de ajudar na compreensão das próprias
emoções.
No
cotidiano, especialistas apontam diferentes usos para esse comportamento.
Repetir uma informação importante pode facilitar a retenção de dados; explicar
uma tarefa em voz alta pode ajudar na execução de atividades complexas; e
reconhecer os próprios avanços pode contribuir para a confiança diante de
desafios.
A fala,
nesse sentido, funciona como uma espécie de ferramenta de organização mental.
Ao transformar pensamentos em palavras, o cérebro encontra uma maneira de
estruturar informações e buscar respostas com mais clareza.
Assim,
o ato de falar sozinho não deve ser interpretado automaticamente como sinal de
isolamento ou irracionalidade. Para a psicologia, ele pode ser apenas uma das
formas pelas quais a mente trabalha para compreender situações, tomar decisões
e regular emoções.
“Sexto
sentido” ligado ao corpo surpreende por seu potencial na saúde mental, segundo
cientistas
Pesquisas
conduzidas por especialistas da Royal Holloway University of London, da
University College London, da Universidade de Tübingen e da Universidade da
Califórnia em Los Angeles têm investigado um sentido pouco conhecido, mas
presente o tempo todo no organismo humano. Chamado de interocepção, ele permite
ao cérebro perceber e interpretar sinais vindos de dentro do próprio corpo.
Esse
sistema identifica alterações nos batimentos cardíacos, na respiração, na
temperatura corporal, na fome, na sede e na tensão muscular. As informações
ajudam o organismo a manter o equilíbrio e a reagir quando algo precisa ser
corrigido.
Em uma
revisão de 93 estudos, as psicólogas Jennifer Murphy e Freya Prentice
analisaram possíveis ligações entre a interocepção e condições como ansiedade,
depressão, transtorno de estresse pós-traumático e distúrbios alimentares.
Os
trabalhos sugerem que dificuldades para perceber ou interpretar sinais
corporais podem interferir na saúde mental. Uma pessoa com ansiedade, por
exemplo, pode notar intensamente o coração acelerado durante uma interação
social e interpretar essa reação como sinal de perigo.
Um
estudo publicado na revista científica eBioMedicine também avaliou como a fome
afeta o humor. Pesquisadores da Universidade de Tübingen observaram que pessoas
com percepção interoceptiva mais precisa apresentavam menor oscilação emocional
quando estavam com fome.
Elas
continuavam percebendo a necessidade de se alimentar, mas pareciam lidar melhor
com os efeitos da sensação sobre o humor.
A
interocepção também vem sendo estudada em pacientes com anorexia nervosa.
Pesquisadores da UCLA utilizaram uma cápsula vibratória ingerível para avaliar
a percepção das sensações intestinais.
Os
resultados indicaram que pessoas com anorexia podem processar esses sinais de
maneira diferente, mesmo depois da recuperação do peso. A alteração poderia
ajudar a explicar por que alguns sintomas persistem.
A área
ainda provoca divergências. Cientistas do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts argumentam que o termo interocepção pode reunir processos muito
diferentes e simplificar excessivamente a maneira como o corpo percebe suas
sensações.
Apesar
do debate, os estudos mostram que a experiência sensorial humana é mais ampla
do que os cinco sentidos tradicionalmente ensinados. Compreender como o cérebro
interpreta os sinais internos poderá ajudar no desenvolvimento de novos
tratamentos para transtornos mentais e alimentares.
Fonte:
Fórum

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