sábado, 22 de agosto de 2026

Não é loucura: “falar sozinho” tem uma função importante para o cérebro, mostra a ciência

Quem nunca comentou em voz alta uma tarefa que precisava fazer, repetiu uma informação para não esquecer ou ensaiou uma conversa antes de uma situação importante? Apesar de muitas vezes ser visto com estranhamento, o hábito de falar sozinho faz parte do funcionamento normal do cérebro e pode ter efeitos positivos sobre a cognição.

Pesquisadores da área da psicologia avaliam que colocar pensamentos em palavras ajuda a transformar ideias dispersas em algo mais organizado. O recurso pode ser usado para planejar ações, avaliar escolhas e controlar reações emocionais em momentos de tensão.

Um dos estudiosos do tema é Gary Lupyan, professor da University of Wisconsin–Madison. Seus trabalhos mostram que a linguagem não serve apenas para a comunicação com outras pessoas, mas também atua como uma ferramenta de apoio aos processos mentais.

Em experimentos conduzidos pelo pesquisador, pessoas que pronunciavam em voz alta informações apresentadas visualmente conseguiam lembrar delas com mais facilidade do que aquelas que apenas faziam a leitura silenciosa. O resultado indica que ouvir a própria voz pode reforçar mecanismos ligados à memória.

A prática também aparece relacionada ao autoconhecimento. Para a psicoterapeuta e escritora Anne Wilson Schaef, conversar consigo mesmo pode ser uma forma de estabelecer um diálogo interno capaz de ajudar na compreensão das próprias emoções.

No cotidiano, especialistas apontam diferentes usos para esse comportamento. Repetir uma informação importante pode facilitar a retenção de dados; explicar uma tarefa em voz alta pode ajudar na execução de atividades complexas; e reconhecer os próprios avanços pode contribuir para a confiança diante de desafios.

A fala, nesse sentido, funciona como uma espécie de ferramenta de organização mental. Ao transformar pensamentos em palavras, o cérebro encontra uma maneira de estruturar informações e buscar respostas com mais clareza.

Assim, o ato de falar sozinho não deve ser interpretado automaticamente como sinal de isolamento ou irracionalidade. Para a psicologia, ele pode ser apenas uma das formas pelas quais a mente trabalha para compreender situações, tomar decisões e regular emoções.

“Sexto sentido” ligado ao corpo surpreende por seu potencial na saúde mental, segundo cientistas

Pesquisas conduzidas por especialistas da Royal Holloway University of London, da University College London, da Universidade de Tübingen e da Universidade da Califórnia em Los Angeles têm investigado um sentido pouco conhecido, mas presente o tempo todo no organismo humano. Chamado de interocepção, ele permite ao cérebro perceber e interpretar sinais vindos de dentro do próprio corpo.

Esse sistema identifica alterações nos batimentos cardíacos, na respiração, na temperatura corporal, na fome, na sede e na tensão muscular. As informações ajudam o organismo a manter o equilíbrio e a reagir quando algo precisa ser corrigido.

Em uma revisão de 93 estudos, as psicólogas Jennifer Murphy e Freya Prentice analisaram possíveis ligações entre a interocepção e condições como ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e distúrbios alimentares.

Os trabalhos sugerem que dificuldades para perceber ou interpretar sinais corporais podem interferir na saúde mental. Uma pessoa com ansiedade, por exemplo, pode notar intensamente o coração acelerado durante uma interação social e interpretar essa reação como sinal de perigo.

Um estudo publicado na revista científica eBioMedicine também avaliou como a fome afeta o humor. Pesquisadores da Universidade de Tübingen observaram que pessoas com percepção interoceptiva mais precisa apresentavam menor oscilação emocional quando estavam com fome.

Elas continuavam percebendo a necessidade de se alimentar, mas pareciam lidar melhor com os efeitos da sensação sobre o humor.

A interocepção também vem sendo estudada em pacientes com anorexia nervosa. Pesquisadores da UCLA utilizaram uma cápsula vibratória ingerível para avaliar a percepção das sensações intestinais.

Os resultados indicaram que pessoas com anorexia podem processar esses sinais de maneira diferente, mesmo depois da recuperação do peso. A alteração poderia ajudar a explicar por que alguns sintomas persistem.

A área ainda provoca divergências. Cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts argumentam que o termo interocepção pode reunir processos muito diferentes e simplificar excessivamente a maneira como o corpo percebe suas sensações.

Apesar do debate, os estudos mostram que a experiência sensorial humana é mais ampla do que os cinco sentidos tradicionalmente ensinados. Compreender como o cérebro interpreta os sinais internos poderá ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos para transtornos mentais e alimentares.

 

Fonte: Fórum

 

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