O
“braço esquerdo” do antipetismo (2ª Parte)
Terminei
o artigo anterior afirmando que Eduardo Luiz Zen pratica a arte da caricatura,
desconsiderando por exemplo que sempre existiu, no PT, um conflito entre
diversos tipos de reformismo e diversos tipos de revolucionarismo. Mas, seja
como for, o mais importante, na minha opinião, é que Eduardo Luiz Zen considera
que “a revolução deixou de existir como estratégia concreta”. Não sei bem o que
ele quer dizer com essa afirmação. Entre outras coisas, cabe perguntar quando
foi mesmo que a “revolução” teria existido como “estratégia concreta”?
Até
onde consigo perceber, desde pelo menos 1935 até 2026, em nenhum momento o
Brasil viveu uma situação revolucionária; se isso for verdade, então a
revolução não foi, nesse período, uma alternativa concreta, ou seja, não esteve
inscrita como um dos desdobramentos possível de uma dada conjuntura. Nesse
mesmo período (1935-2026) mudou a adesão da esquerda à ideia de que uma
revolução é necessária e de que nossas políticas devem buscar acumular nesse
sentido.
Hoje,
no PT, esta adesão à compreensão acerca da necessidade histórica de uma
revolução é muito pequena. Ao dizer que a “revolução deixou de existir como
estratégia concreta”, Eduardo Luiz Zen estaria se referindo a esta baixa
adesão? Ou ele usou aquela expressão por acreditar que, no passado recente, a
“revolução” esteve na ordem do dia, mas agora deixou de estar?
Não
sei. Mas sei que a afirmação segundo a qual “o socialismo inalcançável permite
ao partido ser absolutamente realista no presente” é totalmente equivocada. Ser
realista, hoje, implica em defender o socialismo como uma alternativa concreta
para os problemas decorrentes do capitalismo tal como existe no Brasil, neste
ano santo de 2026. Querer enfrentar a crise atual, sem oferecer respostas de
tipo socialista, é prova do mais absoluto irrealismo. Vale dizer que desta
situação – o socialismo é necessário, a revolução parece abstrata – reside um
dos muitos nós estratégicos do PT e de toda a esquerda brasileira.
A
quinta suposta raiz comentada e criticada por Eduardo Luiz Zen é “a autonomia
contra o Estado”. Segundo Zen, o PT “nasceu desconfiando do Estado como centro
de direção e celebrando a autonomia das partes. O neoliberalismo fez dessa
desconfiança uma arquitetura de governo”.
Este
tipo de raciocínio tem a mesma natureza daquele que vincula o internacionalismo
socialista com a rejeição à defesa da soberania nacional. Afinal, a
desconfiança da classe trabalhadora frente ao Estado burguês não tem a mesma
natureza da “desconfiança” neoliberal da burguesia frente ao seu próprio
Estado. Ademais, a postura do PT frente ao Estado, hoje, não é a mesma postura
do PT nos anos 1980.
Aqui,
portanto, é preciso separar duas questões diferentes. Uma é a tentativa que
Eduardo Luiz Zen faz, de relacionar posições que o PT real ou supostamente
defende nos dias atuais, com posições que o PT real ou supostamente defenderia
desde a sua fundação. Outra é a descrição que Zen faz acerca das posições que o
PT teria, supostamente, sobre o Estado nos dias que correm.
A
respeito desta segunda questão, Eduardo Luiz Zen atribui ao conjunto do PT a
seguinte concepção: “o Estado forte está reservado ao socialismo futuro”, já no
presente o PT seria adepto do “antiestatismo”. Ambas afirmações são, do meu
ponto de vista, falsas. Hoje, o PT não é adepto nem de uma futura ditadura
popular, nem de um presente Estado mínimo.
A esse
respeito, Eduardo Luiz Zen confunde as concessões que os governos Lula e Dilma
Rousseff (bem como o PT) fizeram e fazem, com a existência de uma concepção
teórica e estratégica coerente. Lamento dizer, mas tal coisa não existe.
Deveria existir, mas não existe. E tampouco a prática é coerente, nem para o
bem, nem para o mal. Seguramente, isto facilita as concessões ao neoliberalismo
e abre espaço generoso para os social-liberais. Apesar disso, o PT não é o
Labour.
A sexta
raiz criticada por Zen é “o partido das bases e o poder do chefe”. Neste caso
fica evidente a contradição entre a tese da “raiz” e os fatos históricos. Isto
porque Eduardo Luiz Zen mesmo escreve que o PT “nasceu” exaltando a democracia
interna, a pluralidade de tendências e a organização popular e “tornou-se”
concentrado numa liderança pessoal. Ou seja: o que supostamente existe hoje não
é o que existia na origem do Partido. Aquilo deu nisso através de uma
metamorfose, com rupturas e continuidades.
Votei
no Lula todas as vezes que ele foi candidato e seguirei votando e fazendo muita
campanha. Mas não sou “lulista”, seja lá o que isso for; sou petista. Estou
convencido de que o culto à personalidade mais atrapalha do que ajuda. Mas é
preciso compreender as condições históricas de seu surgimento, bem como levar
em conta o papel – negativo, mas também positivo – que este culto joga no
enfrentamento contra a extrema direita. Motivo pelo qual – no meio da disputa
entre Lula e um cavernícola – é extemporâneo dar centralidade ao tipo de
crítica feita por Eduardo Luiz Zen.
A
última das raízes apontadas por Eduardo Luiz Zen seria o identitarismo,
apresentado como “a política simbólica das reformas estruturais que nunca
viriam. O partido incorporou os sujeitos das reformas mais profundamente do que
incorporou as próprias reformas: os sem-terra sem reforma agrária, os moradores
das periferias sem reforma urbana, os sindicatos sem universalização do
trabalho protegido e os grupos discriminados sem democratização do poder
econômico. A classe operária, esvaziada como força material pela
desindustrialização, retorna como memória e vanguarda imaginária”.
Não sei
com base no que se pode acusar o PT das origens de ser “identitarista”, salvo
se essa categoria incluir o obreirismo. Tampouco sei com base no que se poderia
considerar que o PT atual seria “identitarista”, seja lá o que isso for. Sem
falar que a maneira como Eduardo Luiz Zen descreve o que seria “identitarismo”
– a política simbólica das reformas estruturais que nunca viriam – abarca de
tudo um pouco. Aliás, o estilo de Zen me faz lembrar Ciro Gomes, para quem
enfileirar palavras seria igual a encadear um raciocínio coerente.
Em
síntese, Eduardo Luiz Zen acusa o PT de combinar “financismo no comando,
pobrismo na política social, editalismo na execução e identitarismo na
legitimação. O financismo protege o topo, o pobrismo administra a base, o
editalismo pulveriza a ação estatal e o identitarismo rebatiza a fragmentação e
a precariedade como diversidade”.
Esta
síntese descreve as políticas do governo Lula? Não. Descreve as políticas e
concepções do PT? Também não.
Claro,
se a política brasileira fosse composta apenas pelo PT e por partidos à
esquerda do PT, talvez as afirmações de Eduardo Luiz Zen fizessem todo sentido.
Ele bem que se esforça em construir este Brasil paralelo: no seu texto, em
nenhum momento ele trata dos Estados Unidos, dos neofascistas e dos neoliberais
tradicionais. E, de fato, quando se tira do cenário essas forças, o PT passa a
estar na ponta-direita da política nacional, podendo ser apresentado como uma
“esquerda anti-reformista que, sem revolução, encontrou no neoliberalismo a
forma de governar o presente e no identitarismo a forma de conservar sua
radicalidade simbólica”.
Mas
quando olhamos o Brasil real, onde os inimigos existem e são ameaçadores,
quando nos lembramos do golpe de 2016 e dos governos Temer e Cavernícola,
resulta óbvio que nem o PT, nem os governo petistas, podem ser de conjunto
catalogados como “neoliberais”.
Apesar
disso, Eduardo Luiz Zen chega a dizer que a “bandeira permaneceu vermelha
porque o vermelho (…) era (…) parte do mecanismo que permitia ao neoliberalismo
governar pela esquerda sem ser reconhecido como neoliberal”. Este raciocínio me
lembra o de quem acusa o PC da China de se dizer comunista para melhor enganar
as pessoas.
O PT
pode, no futuro, vir a sofrer uma conversão no sentido apontado por Eduardo
Luiz Zen? Claro que sim!! Basta pensar em Carlos Lacerda, Aldo Rebelo, Ciro
Gomes e Roberto Freire, no PTB e no PPS, sem falar no PSTU-que-se-vão-todos e
em vários ex-partidos comunistas mundo afora, para concluir que ninguém,
nenhuma pessoa e nenhum partido está imune aos riscos da capitulação, da
cooptação, da degeneração e da traição. Risco que não se exorciza fazendo juras
de amor, pois um Partido não pode nem deve ser julgado pelo que ele próprio diz
a seu respeito.
Mas é
possível e necessário avaliar o papel do PT a partir do que pensam e fazem
seus/nossos inimigos. E o fato é que tanto Donald Trump quanto os cavernícolas
& assemelhados tratam o PT como inimigo no. 1. Portanto, independente do
que o futuro nos reserve, neste ano de 2026 nós do PT seguimos na trincheira
correta.
Eleger
Lula nos garantirá o paraíso? De maneira alguma, até porque setores do governo,
aliados de direita e outros personagens discutem abertamente a realização de um
ajuste fiscal em 2027. E o programa de governo apresentado por Lula está
muitíssimo longe do necessário. Mas se Lula não for eleito, o que virá pela
frente será muito difícil para a classe trabalhadora e para para o povo
brasileiro. Quem acredita no quanto pior melhor, deve achar que esse cenário
seria até positivo. Mas para a grande maioria do povo já vimos no que dá
transformar o PT em inimigo principal.
Além
disso, se existe alguma chance – nessa quadra da história – de mudar a
sociedade brasileira e mudar o lugar do Brasil no mundo, esta chance passa pelo
PT. Não sem o PT, nem contra o PT, mas com o PT. Por isso mesmo, neste momento
da história, acusar o PT, o governo e o lulismo de serem braço esquerdo do
neoliberalismo é pior que um crime, é um erro. Afinal, quem acredita mesmo
naquela acusação provavelmente não vai se mobilizar como poderia e deveria.
Eduardo
Luiz Zen termina seu texto com uma frase de efeito: “O lulismo não traiu
simplesmente suas raízes. Foi a síntese delas”. Como dissemos noutra passagem
deste texto, a “natureza do governo Lula” não define a “natureza do PT”. O
mesmo vale para o que quer que definamos como “lulismo”. Aliás, para os que
acreditam na utilidade desta categoria, recomenda-se levar em consideração o
que ocorreu com o varguismo, várias vezes morto e desmoralizado, outras tantas
ressuscitado e aclamado, muitas vezes ressignificado.
O lugar
de Lula e do PT na história do Brasil ainda estão por definir. Mas o lugar do
“antipetismo de esquerda” já está definido. Como o “anticomunismo de esquerda”,
trata-se de uma criação da “esquerda” de que a direita gosta.
Fonte:
Por Valter Pomar, em A Terra é Redonda

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