sábado, 22 de agosto de 2026

O “braço esquerdo” do antipetismo (2ª Parte)

Terminei o artigo anterior afirmando que Eduardo Luiz Zen pratica a arte da caricatura, desconsiderando por exemplo que sempre existiu, no PT, um conflito entre diversos tipos de reformismo e diversos tipos de revolucionarismo. Mas, seja como for, o mais importante, na minha opinião, é que Eduardo Luiz Zen considera que “a revolução deixou de existir como estratégia concreta”. Não sei bem o que ele quer dizer com essa afirmação. Entre outras coisas, cabe perguntar quando foi mesmo que a “revolução” teria existido como “estratégia concreta”?

Até onde consigo perceber, desde pelo menos 1935 até 2026, em nenhum momento o Brasil viveu uma situação revolucionária; se isso for verdade, então a revolução não foi, nesse período, uma alternativa concreta, ou seja, não esteve inscrita como um dos desdobramentos possível de uma dada conjuntura. Nesse mesmo período (1935-2026) mudou a adesão da esquerda à ideia de que uma revolução é necessária e de que nossas políticas devem buscar acumular nesse sentido.

Hoje, no PT, esta adesão à compreensão acerca da necessidade histórica de uma revolução é muito pequena. Ao dizer que a “revolução deixou de existir como estratégia concreta”, Eduardo Luiz Zen estaria se referindo a esta baixa adesão? Ou ele usou aquela expressão por acreditar que, no passado recente, a “revolução” esteve na ordem do dia, mas agora deixou de estar?

Não sei. Mas sei que a afirmação segundo a qual “o socialismo inalcançável permite ao partido ser absolutamente realista no presente” é totalmente equivocada. Ser realista, hoje, implica em defender o socialismo como uma alternativa concreta para os problemas decorrentes do capitalismo tal como existe no Brasil, neste ano santo de 2026. Querer enfrentar a crise atual, sem oferecer respostas de tipo socialista, é prova do mais absoluto irrealismo. Vale dizer que desta situação – o socialismo é necessário, a revolução parece abstrata – reside um dos muitos nós estratégicos do PT e de toda a esquerda brasileira.

A quinta suposta raiz comentada e criticada por Eduardo Luiz Zen é “a autonomia contra o Estado”. Segundo Zen, o PT “nasceu desconfiando do Estado como centro de direção e celebrando a autonomia das partes. O neoliberalismo fez dessa desconfiança uma arquitetura de governo”.

Este tipo de raciocínio tem a mesma natureza daquele que vincula o internacionalismo socialista com a rejeição à defesa da soberania nacional. Afinal, a desconfiança da classe trabalhadora frente ao Estado burguês não tem a mesma natureza da “desconfiança” neoliberal da burguesia frente ao seu próprio Estado. Ademais, a postura do PT frente ao Estado, hoje, não é a mesma postura do PT nos anos 1980.

Aqui, portanto, é preciso separar duas questões diferentes. Uma é a tentativa que Eduardo Luiz Zen faz, de relacionar posições que o PT real ou supostamente defende nos dias atuais, com posições que o PT real ou supostamente defenderia desde a sua fundação. Outra é a descrição que Zen faz acerca das posições que o PT teria, supostamente, sobre o Estado nos dias que correm.

A respeito desta segunda questão, Eduardo Luiz Zen atribui ao conjunto do PT a seguinte concepção: “o Estado forte está reservado ao socialismo futuro”, já no presente o PT seria adepto do “antiestatismo”. Ambas afirmações são, do meu ponto de vista, falsas. Hoje, o PT não é adepto nem de uma futura ditadura popular, nem de um presente Estado mínimo.

A esse respeito, Eduardo Luiz Zen confunde as concessões que os governos Lula e Dilma Rousseff (bem como o PT) fizeram e fazem, com a existência de uma concepção teórica e estratégica coerente. Lamento dizer, mas tal coisa não existe. Deveria existir, mas não existe. E tampouco a prática é coerente, nem para o bem, nem para o mal. Seguramente, isto facilita as concessões ao neoliberalismo e abre espaço generoso para os social-liberais. Apesar disso, o PT não é o Labour.

A sexta raiz criticada por Zen é “o partido das bases e o poder do chefe”. Neste caso fica evidente a contradição entre a tese da “raiz” e os fatos históricos. Isto porque Eduardo Luiz Zen mesmo escreve que o PT “nasceu” exaltando a democracia interna, a pluralidade de tendências e a organização popular e “tornou-se” concentrado numa liderança pessoal. Ou seja: o que supostamente existe hoje não é o que existia na origem do Partido. Aquilo deu nisso através de uma metamorfose, com rupturas e continuidades.

Votei no Lula todas as vezes que ele foi candidato e seguirei votando e fazendo muita campanha. Mas não sou “lulista”, seja lá o que isso for; sou petista. Estou convencido de que o culto à personalidade mais atrapalha do que ajuda. Mas é preciso compreender as condições históricas de seu surgimento, bem como levar em conta o papel – negativo, mas também positivo – que este culto joga no enfrentamento contra a extrema direita. Motivo pelo qual – no meio da disputa entre Lula e um cavernícola – é extemporâneo dar centralidade ao tipo de crítica feita por Eduardo Luiz Zen.

A última das raízes apontadas por Eduardo Luiz Zen seria o identitarismo, apresentado como “a política simbólica das reformas estruturais que nunca viriam. O partido incorporou os sujeitos das reformas mais profundamente do que incorporou as próprias reformas: os sem-terra sem reforma agrária, os moradores das periferias sem reforma urbana, os sindicatos sem universalização do trabalho protegido e os grupos discriminados sem democratização do poder econômico. A classe operária, esvaziada como força material pela desindustrialização, retorna como memória e vanguarda imaginária”.

Não sei com base no que se pode acusar o PT das origens de ser “identitarista”, salvo se essa categoria incluir o obreirismo. Tampouco sei com base no que se poderia considerar que o PT atual seria “identitarista”, seja lá o que isso for. Sem falar que a maneira como Eduardo Luiz Zen descreve o que seria “identitarismo” – a política simbólica das reformas estruturais que nunca viriam – abarca de tudo um pouco. Aliás, o estilo de Zen me faz lembrar Ciro Gomes, para quem enfileirar palavras seria igual a encadear um raciocínio coerente.

Em síntese, Eduardo Luiz Zen acusa o PT de combinar “financismo no comando, pobrismo na política social, editalismo na execução e identitarismo na legitimação. O financismo protege o topo, o pobrismo administra a base, o editalismo pulveriza a ação estatal e o identitarismo rebatiza a fragmentação e a precariedade como diversidade”.

Esta síntese descreve as políticas do governo Lula? Não. Descreve as políticas e concepções do PT? Também não.

Claro, se a política brasileira fosse composta apenas pelo PT e por partidos à esquerda do PT, talvez as afirmações de Eduardo Luiz Zen fizessem todo sentido. Ele bem que se esforça em construir este Brasil paralelo: no seu texto, em nenhum momento ele trata dos Estados Unidos, dos neofascistas e dos neoliberais tradicionais. E, de fato, quando se tira do cenário essas forças, o PT passa a estar na ponta-direita da política nacional, podendo ser apresentado como uma “esquerda anti-reformista que, sem revolução, encontrou no neoliberalismo a forma de governar o presente e no identitarismo a forma de conservar sua radicalidade simbólica”.

Mas quando olhamos o Brasil real, onde os inimigos existem e são ameaçadores, quando nos lembramos do golpe de 2016 e dos governos Temer e Cavernícola, resulta óbvio que nem o PT, nem os governo petistas, podem ser de conjunto catalogados como “neoliberais”.

Apesar disso, Eduardo Luiz Zen chega a dizer que a “bandeira permaneceu vermelha porque o vermelho (…) era (…) parte do mecanismo que permitia ao neoliberalismo governar pela esquerda sem ser reconhecido como neoliberal”. Este raciocínio me lembra o de quem acusa o PC da China de se dizer comunista para melhor enganar as pessoas.

O PT pode, no futuro, vir a sofrer uma conversão no sentido apontado por Eduardo Luiz Zen? Claro que sim!! Basta pensar em Carlos Lacerda, Aldo Rebelo, Ciro Gomes e Roberto Freire, no PTB e no PPS, sem falar no PSTU-que-se-vão-todos e em vários ex-partidos comunistas mundo afora, para concluir que ninguém, nenhuma pessoa e nenhum partido está imune aos riscos da capitulação, da cooptação, da degeneração e da traição. Risco que não se exorciza fazendo juras de amor, pois um Partido não pode nem deve ser julgado pelo que ele próprio diz a seu respeito.

Mas é possível e necessário avaliar o papel do PT a partir do que pensam e fazem seus/nossos inimigos. E o fato é que tanto Donald Trump quanto os cavernícolas & assemelhados tratam o PT como inimigo no. 1. Portanto, independente do que o futuro nos reserve, neste ano de 2026 nós do PT seguimos na trincheira correta.

Eleger Lula nos garantirá o paraíso? De maneira alguma, até porque setores do governo, aliados de direita e outros personagens discutem abertamente a realização de um ajuste fiscal em 2027. E o programa de governo apresentado por Lula está muitíssimo longe do necessário. Mas se Lula não for eleito, o que virá pela frente será muito difícil para a classe trabalhadora e para para o povo brasileiro. Quem acredita no quanto pior melhor, deve achar que esse cenário seria até positivo. Mas para a grande maioria do povo já vimos no que dá transformar o PT em inimigo principal.

Além disso, se existe alguma chance – nessa quadra da história – de mudar a sociedade brasileira e mudar o lugar do Brasil no mundo, esta chance passa pelo PT. Não sem o PT, nem contra o PT, mas com o PT. Por isso mesmo, neste momento da história, acusar o PT, o governo e o lulismo de serem braço esquerdo do neoliberalismo é pior que um crime, é um erro. Afinal, quem acredita mesmo naquela acusação provavelmente não vai se mobilizar como poderia e deveria.

Eduardo Luiz Zen termina seu texto com uma frase de efeito: “O lulismo não traiu simplesmente suas raízes. Foi a síntese delas”. Como dissemos noutra passagem deste texto, a “natureza do governo Lula” não define a “natureza do PT”. O mesmo vale para o que quer que definamos como “lulismo”. Aliás, para os que acreditam na utilidade desta categoria, recomenda-se levar em consideração o que ocorreu com o varguismo, várias vezes morto e desmoralizado, outras tantas ressuscitado e aclamado, muitas vezes ressignificado.

O lugar de Lula e do PT na história do Brasil ainda estão por definir. Mas o lugar do “antipetismo de esquerda” já está definido. Como o “anticomunismo de esquerda”, trata-se de uma criação da “esquerda” de que a direita gosta.

 

Fonte: Por Valter Pomar, em A Terra é Redonda

 

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