A
fronteira em Ceuta está longe de ser permissiva
As
autoridades da União Europeia estão decidindo quais imagens
serão utilizados em suas novas cédulas de dinheiro. Uma candidata promissora
para representar a Europa atual poderia ser a de corpos na água.
Na
semana passada, no enclave espanhol de Ceuta, foram adicionadas mais setenta mortes ao total
acumulado de 1.570 pessoas mortas no Mediterrâneo central este ano e às dezenas
de milhares que compõem a vala comum em que se transformaram os litorais e rios
da Europa.
As
mortes em Ceuta ocorreram quando um número sem
precedentes de cinquenta
mil pessoas tentou chegar ao enclave (juntamente com a vizinha Melilla, um dos
dois últimos redutos de território espanhol e da UE em solo norte-africano),
muitas delas nadando. A maioria parece ter sido de marroquinos fugindo da
pobreza e das oportunidades limitadas, mas também havia muitos vindos da África
subsaariana (refugiados da guerra do Sudão são frequentemente encontrados nessa
rota).
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Passagem para a Europa
“Foi um
desastre”, diz Francesca Fusaro, da ONG humanitária No Name Kitchen, cujos seis
voluntários ficaram sem comida e suprimentos quase imediatamente. Eles já
haviam respondido a cerca de três mil tentativas de travessia ao longo de 2026.
Agora, as prateleiras dos supermercados estavam vazias, sem esperança de
reabastecimento adequado por dias.
Imagens
de uma pequena comunidade sendo subjugada foram transmitidas para o mundo todo
e usadas como argumento para defender um controle de fronteiras mais rigoroso.
Mas o caos em Ceuta foi resultado do cumprimento das normas, e não da sua
ausência.
A
fronteira de Ceuta foi cercada há trinta anos, quando a Europa interrompeu os
tradicionais padrões migratórios
circulares, pelos
quais os norte-africanos cruzavam livremente a fronteira. Isso levou
imediatamente a um aumento da migração por parte daqueles que temiam perder
permanentemente o acesso à Europa.
“Trinta
anos de criminalização da migração criaram um ambiente em que refugiados e
migrantes dependem de contrabandistas e, ocasionalmente, de travessias em massa
caóticas.”
Na onda
de securitização em massa que se seguiu ao 11 de setembro, a vigilância e o
controle das fronteiras se intensificaram. A UE assumiu novos poderes, com a
sua nova agência de fronteiras, a Frontex, atuando em conjunto com as forças
espanholas no norte da África em 2006. A violenta
desocupação de campos de migrantes perto dos enclaves pelas autoridades
marroquinas em 2015 também não impediu novas travessias; tampouco o massacre de Melilla em
2022, no qual dezenas de pessoas foram mortas por forças espanholas e
marroquinas na fronteira.
Trinta
anos de criminalização da migração criaram um ambiente em que refugiados e
migrantes dependem de contrabandistas e, ocasionalmente, de travessias em massa
caóticas.
Neste
caso, apesar de se falar que a UE estava sobrecarregada, as forças espanholas
em Ceuta supervisionaram retornos em massa no dia seguinte. Mas também devemos
perguntar: a que custo? Quantas pessoas não puderam exercer o seu direito de
apresentar um pedido de asilo antes de serem forçadas a voltar? Como foram
identificados os suspeitos de terem cruzado a fronteira, visto que residentes
de Ceuta de origem marroquina relataram estar escondidos nas suas casas, com
medo de sofrer discriminação racial? Poderia ter sido feito mais para evitar
mortes?
Essas
são perguntas pertinentes, mas, infelizmente, é improvável que sejam feitas.
Mortes nas fronteiras agora são normalizadas, e quando o assunto é abordado no
debate público (com a notável exceção do apelo do Papa Leão
XIII por mais humanidade no debate sobre migração durante uma visita recente a
Lampedusa), geralmente é para piorar a situação. No mês passado, a União
Europeia aprovou novas leis de deportação mais rigorosas,
instituídas sob gritos de “mandem-nos de volta”, liderados por
legisladores de extrema direita.
Ceuta é
um teste não apenas para a moral da Europa, mas também para sua capacidade de
organização. O novo e rigoroso Pacto para as Migrações, muito criticado por
defensores dos direitos humanos, deveria ter forjado
a unidade europeia em situações como essa. Em vez disso, a resposta a Ceuta tem
sido confusa, desestabilizando
ainda mais o bloco. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, criticou duramente a reação de
alguns líderes europeus, classificando-a como “egoísta e ilegal”.
Ao
ampliarmos nossa perspectiva, para além de Ceuta, podemos vislumbrar uma
história mais ampla sobre o controle migratório e sua relação com o caos
geopolítico.
“Como
foram identificados os suspeitos de terem cruzado a fronteira, visto que
residentes de Ceuta de origem marroquina relataram estar escondidos em suas
casas, com medo de sofrer discriminação racial? Poderia ter sido feito mais
para evitar as mortes?”
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Armas e muros
Na
Espanha, muitos acusaram o Marrocos de “instrumentalizar” a migração,
fomentando deliberadamente a travessia como parte de um jogo de poder maior,
dirigido contra o governo de centro-esquerda de Sánchez. Os serviços de
segurança espanhóis alegaram, tanto em 2021 quanto agora, que agentes da
inteligência marroquina estavam infiltrados entre os que cruzavam a fronteira.
Contrariamente
à crença de que a globalização resolveria conflitos ao unir os interesses dos
rivais, a instrumentalização da
interdependência é agora mais comum, com os Estados explorando seu papel em
redes globais complexas para vencer conflitos (o fechamento do Estreito de
Ormuz sendo o exemplo atual mais óbvio).
Em toda
a Europa, a acusação de “migração instrumentalizada” é frequente. A Turquia foi
acusada de facilitar intencionalmente a travessia para a Grécia em 2020,
Marrocos para a Espanha e Bielorrússia para a Polônia em 2021, a Rússia para a
Finlândia em 2023 e o leste da Líbia para a Grécia em 2025. Há evidências de
que essa estratégia está sendo utilizada em todos esses casos; mas, antes de
mais nada, vale a pena perguntar o que está sendo
instrumentalizado.
A
própria acusação tem implicações importantes para as pessoas que migram. Vê-las
como meros instrumentos de Estados ou de contrabandistas impede uma reflexão
sobre quem são e o que as levou a deslocar-se. Pior ainda, tratá-las como meras
peças no jogo ajuda a justificar a violência contra elas. As ações da Turquia,
da Grécia e da Bielorrússia foram usadas para defender as forças da UE que atiram em refugiados,
prendem-nos, recusam-se a prestar-lhes auxílio e contrariam o direito
internacional,
tudo em nome da resposta a um ataque de Estados hostis. É um instrumento
narrativo para a desumanização.
O
número de travessias irregulares de fronteira em 2015-2016 representou menos de
1 ponto percentual da população europeia (a maior população deslocada do
continente é a de ucranianos, cuja proteção internacional foi formalizada e
facilitada). A Europa está rodeada por nações muito mais pobres que acolhem um
número muito maior de refugiados, isolando a UE das pressões das crises
globais, incluindo aquelas pelas quais os europeus têm grande responsabilidade,
como as guerras no Oriente Médio e as mudanças climáticas.
“Em
toda a Europa, a acusação de ‘migração instrumentalizada’ é frequente.”
A UE e
os Estados europeus, por sua vez, subornam ou coagem os países vizinhos a
adotarem medidas mais rigorosas de controle da migração, exportando cadeias de
abusos para todo o mundo. O financiamento e o apoio diplomático europeus
sustentam deportações ilegais na
Turquia, a violência perpetrada por
forças de fronteira da Croácia à Arábia Saudita, um regime de escravidão e
tortura para migrantes na Líbia e o abandono em
massa em desertos no Marrocos e na Tunísia, onde pessoas, em sua maioria
negras, são detidas e deixadas para morrer. O dinheiro público
da UE agora chega a financiar barcos de patrulha que atiram contra navios de
resgate europeus. A “norma” na cooperação fronteiriça marroquina-espanhola é a
violência, culminando no já mencionado massacre de Melilla, em 2022.
Os
países europeus sinalizaram ao mundo, em primeiro lugar, que as crises
políticas internas da UE impedem qualquer capacidade de agir racionalmente em
questões migratórias e, em segundo lugar, que a Europa depende de Estados e
entidades externas, incluindo governos autoritários e milícias, para fazer o
trabalho sujo. Não é de todo surpreendente que os Estados subordinados numa
relação transacional sombria nem sempre apontem a arma para onde lhes mandam.
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Madri sob fogo cruzado
Nada
disso, obviamente, significa ignorar como os Estados manipulam as rotas
migratórias.
A
posição da Espanha sobre a ocupação do Saara Ocidental pelo Estado marroquino
parece ter motivado a permissão concedida por Marrocos à última travessia em massa
de Ceuta em
2021 e também ser um fator nesta.
Marrocos
não só criminaliza a dissidência internamente, como também é
um parceiro fundamental para as forças europeias e da OTAN em matéria de controle
de fronteiras,
tecnologia de vigilância e forças militares, além de ser um
potencial fornecedor-chave de matérias-primas essenciais.
Seus laços com Israel e os Estados
Unidos — incluindo, aparentemente, a recente nomeação de uma
autoestrada em homenagem a Donald Trump — levaram alguns analistas espanhóis a
apontar para o envolvimento dos EUA e/ou de Israel no incidente de Ceuta.
As
evidências apresentadas são, até o momento, circunstanciais na melhor das
hipóteses. Sem dúvida, um eixo EUA-Israel explorou o incidente para provocar
implacavelmente a Espanha em resposta à sua postura desafiadora; com o
representante de Israel nas Nações Unidas acusando a Espanha de colonialismo de povoamento, outros exigindo que
ela ceda Ceuta e Melilla ao Marrocos, e a Casa Branca reafirmando o apoio
à ocupação ilegal do Saara
Ocidental pelo Marrocos.
O eixo
EUA-Israel também está profundamente envolvido na economia política da
violência migratória na UE. Uma empresa de vigilância militar dos EUA que
realiza missões de espionagem sobre Gaza também opera para a Frontex,
apoiando as forças líbias na interceptação de pessoas em fuga. (A Frontex
também utiliza drones de vigilância Heron, de fabricação israelense.) Os
Estados Unidos estão buscando acordos de deportação com a Líbia e com vários
outros países nos quais a Europa também pretende estabelecer um arquipélago
de campos de detenção offshore em
zonas cinzentas.
Devido
à sua política externa moderadamente heterodoxa, a Espanha tornou-se um
grande obstáculo às tentativas
dos EUA de estender sua hegemonia na Europa — bloqueando suas empresas de
tecnologia, recusando-se a permitir que suas bases aéreas sejam usadas para
prolongar a guerra dos EUA contra o Irã e manifestando-se veementemente contra
o genocídio na Palestina. Sua postura também pode ter encorajado outros países,
como a França. As eleições gerais
na Espanha estão próximas, e a extrema direita tentará usar a polarização em
torno da imigração para desestabilizar o governo.
O
primeiro-ministro espanhol, Sánchez, percorreu um longo caminho desde a intervenção do seu governo
na OTAN em 2022, que levou o bloco a incluir a imigração irregular na lista
de ameaças pela primeira
vez. Embora os militares e a Guarda Civil em Ceuta possam ter defendido a
Fortaleza Europa pela força, um tema mais abrangente é a recente regularização em larga escala
da população indocumentada na Espanha, permitindo-lhes o acesso ao trabalho, a
direitos e a caminhos para a cidadania. Esta política representa uma rara
exceção aos controles migratórios mais rigorosos que têm surgido no Ocidente e também
gerou reações negativas.
A
direita espanhola, apoiada pelo complexo industrial de influenciadores dos
conservadores estadunidenses, argumenta que a política de Sánchez incentivou a
travessia de Ceuta. A desinformação parece ter desempenhado um papel
importante; as pessoas que cruzavam a fronteira eram informadas de que não
poderiam ser deportadas ou que a fronteira estava aberta. No entanto, se
houvesse realmente uma forte ligação entre as travessias e as posições do
governo em relação à imigração, a Itália de Giorgia Meloni não continuaria
sendo um dos principais destinos para quem atravessa o Mediterrâneo Central.
Em
Ceuta, muitos moradores locais têm sido acolhedores e fizeram o possível para
ajudar; uma manifestação em apoio aos refugiados reuniu centenas de pessoas. Mas uma minoria,
segundo alguns relatos, tentou mobilizar multidões para impedir a travessia.
Nos
enclaves onde as forças de Francisco Franco se reuniram e se prepararam para
invadir a República Espanhola, seus descendentes no continente agora incentivam
ativistas a “defender a fronteira”. Esse incidente não pode ser dissociado de
uma ofensiva coordenada em múltiplas frentes — principalmente uma enxurrada de
informações distorcidas geradas por inteligência artificial sobre invasões
muçulmanas na Espanha — para desestabilizar a última potência europeia de peso
médio com um governo social-democrata.
“Os
países europeus sinalizaram ao mundo que as crises políticas internas da UE
impedem qualquer possibilidade de agir racionalmente em questões migratórias.”
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Capitalismo de deslocamento
Há
cinco anos, escrevi sobre uma travessia passada em
Ceuta, argumentando que um rápido aumento na militarização das fronteiras se
tornaria a “solução” inadequada dos Estados para um mundo afetado pelas
mudanças climáticas.
Em
Marrocos, anos de secas devastadoras, somados à má gestão estatal e aos efeitos a longo
prazo de
uma crise da dívida e do ajuste estrutural imposto por instituições financeiras
internacionais, produziram uma crise de desemprego juvenil tão grave que leva
dezenas de milhares de jovens a se arriscarem em uma corrida perigosa rumo ao
desconhecido.
A
Espanha está instalando uma gigantesca barreira flutuante na costa de Ceuta;
barreiras semelhantes, construídas pelo governo Trump no México e instaladas no
início deste ano, foram arrancadas e arrastadas em ziguezague por enchentes por
todo o Vale do Rio Grande, forçando o fechamento de importantes vias.
Hoje,
nos arredores de Ceuta, incêndios florestais devastam o Norte da
África. No lado europeu, cidades espanholas e francesas estão tomadas pela
fumaça, e até mesmo regiões de clima temperado da Grã-Bretanha ardem em chamas.
Cerca de 270 mil europeus foram forçados
a deixar suas casas — um lembrete importante de que o deslocamento é uma
realidade cada vez mais presente na vida de todos, não apenas daqueles que
vivem em países pobres.
À
medida que as crises reais se intensificam, com guerras, colapso ambiental,
polarização política, estagnação econômica e desigualdade, e o surto de
tecnologias perigosas nas mãos de poucos, o discurso dominante continua
obcecado com a migração enquanto nós sofremos as consequências. Essa estratégia
de encontrar um bode expiatório só se aprofunda.
Ceuta
também revelou de forma contundente o quão desarticulada pode ser a política em
torno dessas questões. Observar a direita atacando a Espanha como uma força
colonial no Norte da África, enquanto alguns na esquerda defendem controles de
fronteira mais rigorosos, tem sido profundamente estranho. Contudo, essas
contradições não estão em vias de desaparecer.
Haverá
mais Ceutas: mais pessoas buscando segurança e escapando de crises crescentes,
mais regimes de fronteira que tornam suas jornadas mais perigosas e mais atores
buscando instrumentalizar emergências humanitárias para diversos fins
políticos. Uma política socialista capaz de assimilar e responder a essas
complexidades, tanto operacional quanto politicamente, é urgente.
A
migração é muitas coisas: uma emergência humanitária, uma porta para
oportunidades sociais e econômicas, um reflexo da desigualdade e dos conflitos
locais e globais e um vetor para a exploração em larga escala. A maioria dos
governos responsáveis pela violência
nas fronteiras não quer realmente impedi-la, mas sim garantir que ela
ocorra em condições que mantenham os migrantes vulneráveis
e expostos à
exploração — tornando também
mais evidente a racialização da injustiça.
Lidar
com essas múltiplas realidades é um pré-requisito para abordá-las. Focar nas
fronteiras, seja na sua abertura ou no seu fechamento, não substitui uma
política transformadora mais ampla. Isso envolve rotas migratórias seguras e
planejadas. Mas também envolve romper com um interminável “debate sobre
migração” a respeito de custos e benefícios e partir para um apelo interno por
proteções trabalhistas e serviços públicos de alta qualidade para todos, e um
apelo internacional para acabar com a desigualdade, as economias extrativistas,
as guerras e a degradação ambiental.
Incidentes
como os de Ceuta exigem uma política capaz de lidar tanto com as manobras de
países e impérios rivais, quanto com os movimentos de um adolescente, batendo
os braços na água morna em um dia escaldante, em busca de uma margem com
melhores oportunidades.
Fonte: Por Nathan
Akehurst - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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