segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O novo normal: o pior legado da pandemia foi o rebaixamento do debate público

Mais uma vez, a recusa em enfrentar questões políticas difíceis coloca a credibilidade da esquerda em xeque e deixa para a extrema direita, de bandeja, outro prato cheio que seguirá alimentando as bases sociais deste novo “fascismo” que, aparentemente, ressurge em toda parte no início do século XXI.

O tema das origens da Covid-19, que tanta discussão gerou, parece agora desimportante para o campo político progressista, mesmo quando novas informações publicadas pela Direção de Segurança Nacional (DNI, em inglês) estadunidense revelam que a verdade foi propositalmente manipulada desde o início da pandemia, fazendo-nos crer que a hipótese de ingestão de carne de morcego num mercado de Wuhan, China, seria a única a ser levada a sério pelos representantes da ciência, da civilização e dos bons costumes.

Pois bem, agora sabemos que não foi bem assim. Em fins de junho, no seu último dia no cargo de DNI, Tulsi Gabbard expôs as informações que as agências de inteligência dos Estados Unidos da América (EUA) possuem sobre o assunto. A principal delas é que a hipótese de um vazamento num laboratório em Wuhan é tão, ou mais, plausível quanto a história orientalista da tal carne de morcego ingerida por pobres asiáticos e seus costumes exóticos.

Mais ainda, foi revelado que o principal encarregado de combater a pandemia nos EUA, o Dr. Anthony Fauci, mantinha relações com membros das agências de espionagem yankees (o que ele havia negado sob juramento) e, pior, que ele pressionou um autor da revista Lancet a descartar qualquer outra teoria que não fosse a dos morcegos (o que o autor se negou a fazer). Mas o artigo, escrito a várias mãos, foi usado como “evidência” pública de que apenas uma narrativa era cientificamente possível. Agora sabemos que isso não era verdade. Pior, também sabemos que o próprio Dr. Fauci estava envolvido em pesquisas sigilosas com diversas cepas de coronavírus em laboratórios biológicos (biolabs, em inglês) financiados pelos EUA mundo afora. Um deles justo em Wuhan.

A polêmica em torno dos biolabs tornou-se uma das mais intensas durante a pandemia no debate político estadunidense. Automaticamente associou-se a teoria dos morcegos ao progressismo democrata, ao passo que qualquer menção aos biolabs foi tida como mais uma fake news trumpista. Desde então, não se trata mais de descobrir a verdade, mas de marcar posição contra o campo oposto. No Brasil, tal importação de “idéias fora do lugar” foi ainda mais canhestra do que Roberto Scharwcz poderia imaginar. Nem sequer copiamos a nova etapa da polêmica; preferimos fingir que nada aconteceu.

Na semana retrasada, o Dr. Fauci foi convocado a depor novamente no Congresso e recusou-se a responder por mais de 100 vezes às perguntas dos senadores sobre as alegações de Tulsi Gabbard. O antes todo-poderoso “especialista” que comandava as entrevistas coletivas diárias na Casa Branca com mais autoridade do que o próprio Presidente acabou optando por invocar infinitamente a 5ª Emenda da Constituição dos EUA, que garante o direito de permanecer em silêncio para não gerar provas contra si mesmo. Por aqui, tal informação chegou-nos apenas pelas bolhas bolsonaristas que, por uma semana, esbravejaram “eu já sabia, nunca fomos enganados!”, para logo depois abandonarem o tema diante da ausência de adversários. E toda a esquerda se calou.

Claro está que, mesmo com os documentos revelados, ainda não é possível afirmar com a devida certeza que o governo estadunidense esteve envolvido (de forma acidental ou proposital) na disseminação do coronavírus que viria a tomar o globo a partir de 2020. Mas seguir negando-se a acreditar que o imperialismo yankee possa fazer esse tipo de coisa (e outras muito piores) mundo afora é tão problemático quanto acreditar na primeira teoria da conspiração que apareça.

Infelizmente, a civilização capitalista produz barbáries inacreditáveis – e são muitas – como no caso do apoio norte-americano ao desenvolvimento e uso de armas químicas pelo regime de Saddam Hussein, então aliado de Washington, contra os curdos iraquianos e também contra o Irã. Seriam incontáveis os casos análogos ou ainda mais medonhos. Afinal, o uso de armas nucleares contra a população civil em Hiroshima e Nagasaki e os crimes contra a humanidade cometidos no Vietnã, Laos e Camboja (com napalm, agente laranja etc.) mostram que a análise histórica do militarismo estadunidense recomenda maior cautela na hora de descartar que tais atrocidades possam acontecer: elas já aconteceram.

Por isso, o encastelamento dogmático numa posição forjada durante os imprecisos momentos da eclosão inédita de uma pandemia global não pode permanecer para sempre alijado do escrutínio racional e empírico, especialmente à luz de novos fatos. Tal postura nada tem de científica, antes parecendo uma convicção de fé mais próxima a uma crença semi-religiosa. O negacionismo e o afirmacionismo são duas faces da mesma moeda: dialeticamente, são problemas de igual natureza do ponto de vista epistemológico. Vale lembrar (e quase ninguém o faz) que nos primórdios da pandemia, foi Donald Trump quem primeiro levantou a bandeira das vacinas como solução imediata para a crise, ao passo que Kamala Harris dava entrevistas nas quais dizia, textualmente, que “não tomaria uma vacina se Donald Trump a mandasse”.

Assim, se o que queremos é nos aproximar da verdade histórica, precisamos urgentemente enfrentar questões difíceis como esta, até para não errarmos novamente no futuro. Confiar cegamente na posição de “especialistas” biomédicos absolutamente ingênuos politicamente (ou em flagrantes charlatães cientificistas, nos piores casos) com pouco ou nenhum conhecimento sobre as engrenagens do poder internacional foi uma irresponsabilidade tremenda das esquerdas mundiais, que não pode durar para sempre. Chegamos ao ponto de defender a indústria farmacêutica (e sequer cogitamos a quebra emergencial de suas patentes, como outrora) tamanha foi a nossa confusão.

O “novo normal” introduzido pela pandemia da COVID-19 não se tornou, como pensávamos, um mundo com distanciamento social constante, uso de máscaras ou demais protocolos que temíamos ver eternizados. Agora, na realidade, o que restou da pandemia foi um rebaixamento sem precedentes do debate público, não apenas pelas novas direitas mas, lamentavelmente, pela maioria das esquerdas também.

Precisamos urgentemente nos livrar da armadilha discursiva que nos impede de procurar a verdade somente para mantermo-nos fiéis a qualquer narrativa que pareça anti-Bolsonaro. Não podemos ter compromisso com o erro. E durante a pandemia erramos bastante. Já passou da hora de superarmos a estética das lacrações performáticas e darmos início a um “novo-novo normal” no qual a esquerda retome a dianteira do debate público, do pensamento crítico e volte a ser ela, e não a direita, que seja vista como ameaça ao sistema. Mas, para isto, não poderemos nos calar quando a hora da autocrítica chegar.

 

Fonte: Miguel Borba de Sá, para Opera Mundi

 

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