Assim
a China treina suas IAs
No
imaginário coletivo, a IA é um emaranhado de códigos processando montanhas de
dados. No entanto, também é senso comum que, para além dos algoritmos, há uma
camada de trabalho humano que separa, categoriza e organiza os dados brutos que
treinam os modelos. Uma parte importante desse aprendizado está na rotulagem de
dados. A IA não aprende sozinha, mas é meticulosamente instruída por um
exército invisível de pessoas que dizem a diferença entre o que é uma praia e o
que é um oceano, naquela foto no entardecer das férias.
A
rotulagem de dados representa uma nova modalidade de trabalho digital que as
grandes plataformas precisam cada vez mais. Esse trabalho não é apenas braçal,
é interpretativo, podendo definir limites do que será mais acessível no futuro.
O trabalho de rotulagem pode incorporar definições de governança que podem
melhorar os resultados das ferramentas de IA ou aprofundar vieses e
preconceitos.
Uma
investigação publicada no periódico Information, Communication &
Society, intitulada “Operationalizing AI governance: data
annotation, La Qi and manual alignment in China“ , expõe como a
governança algorítmica é operada no chão de fábrica chinês. A pesquisa foi
conduzida por Pengfei Fu (Universidade Jiao Tong), Zhi Lin (Universidade do
Texas) e Wilfred Yang Wang (Universidade de Melbourne). O estudo usa uma
metodologia etnográfica que incluiu: observação participante, visitas de campo
e 23 entrevistas semiestruturadas em seis polos tecnológicos chineses, como
Zhengzhou, Yantai e Chengdu. Os autores afirmam que as diretrizes utilizadas
para a rotulagem de dados para as IAs na China fazem parte de um projeto
sociopolítico que visa ampliar o alcance da regulação estatal.
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O conceito de La Qi
No Vale
do Silício, o conceito de “alinhamento” (alignment) é tratado
primordialmente como um quebra-cabeça técnico para garantir que os modelos
evitem vieses e para que persigam certos objetivos, funcionando como um
processo de conformidade.
Nem
sempre leva a resultados satisfatórios. São muito conhecidas as críticas às IAs
ocidentais sobre problemas no reconhecimento de emoções, por exemplo. Kate
Crawford demonstra em seu livro Atlas da IA como a maioria
desses modelos está fundamentada em resquícios frenológicos, ou seja, que
atribuem certas emoções a partir de certas métricas raciais específicas.
Na
China, entretanto, essa prática assume o nome de La Qi (拉齐), que pode ser traduzido literalmente como
“trazer as entidades para o mesmo nível”. O La Qi no
ecossistema chinês opera como uma ponte que conecta o microtrabalho dos
anotadores às diretrizes estatais. Ou seja, é parte da governança de dados que
tenta garantir que as diretrizes políticas sejam incorporadas aos modelos a
partir da rotulagem.
Diferente
do alinhamento ocidental, que evoca, supostamente, princípios de justiça e
imparcialidade liberais, o La Qi busca a “harmonia social e a
legitimidade política”. Ele funciona fora dos métodos tradicionais de censura
punitiva direta. Em vez de apenas deletar conteúdos, ensina a máquina a não
valorizá-los.
“O
La Qi incorpora uma nova forma de governança de plataforma na China, que opera
fora do domínio tradicional de proibição e punição direta via censura. Em vez
disso, é uma prática que garante que os algoritmos e sistemas de IA operem sob
diretrizes regulatórias das autoridades, desenvolvendo estruturas de moderação
que os anotadores implementam manualmente.”
Esse
processo transforma o trabalho de formiguinha em uma ferramenta estatal
preventiva. Ao “alinhar” o julgamento humano antes mesmo da IA entrar em
operação, o Estado chinês garante que a tecnologia não seja apenas funcional,
mas politicamente coerente sob a ótica da unidade nacional. A precisão na
anotação de dados reflete não apenas os padrões técnicos, mas também o poder
institucional e os interesses na definição desses padrões, integrando
tecnologias de IA com estruturas regulatórias.
Isso
não significa necessariamente que o poder de regulação seja descentralizado,
mas que o poder e a legitimidade do Estado se fortalecem à medida que operam em
todos os níveis.
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Ensinando patriotismo aos algoritmos
As
plataformas de anotação de dados na China dividem-se em duas categorias
principais. A primeira inclui plataformas especializadas de terceirização, como
a Long Mao Annotation e a Shujiajia. A segunda compreende divisões internas de
grandes empresas de Internet, como a Tencent e a Baidu.
As
plataformas de terceirização atendem principalmente a clientes externos,
oferecendo serviços como anotação, limpeza e gestão de dados. As divisões
internas atendem às necessidades da própria empresa para treinar seus modelos
de IA.
Uma das
métricas de treinamento chinesas é a “energia positiva”, que busca promover o
entusiasmo nacionalista. O estudo revela como conceitos políticos subjetivos
foram adaptados em diretrizes operacionais para a anotação de dados . É uma
anotação que está preocupada com o conteúdo e não somente com a descrição
técnica, pretensamente neutra.
A
qualidade de um vídeo ou texto não depende apenas da nitidez ou da gramática,
mas também de sua capacidade de inspirar orgulho. Vídeos que celebram
conquistas coletivas ou harmonia social recebem pontuações de alta qualidade.
Inversamente, qualquer conteúdo que exale pessimismo, cinismo ou exponha
mazelas sociais sem um final edificante é rotulado com baixa visibilidade ou
zero absoluto. “Somos ensinados a promover o que faz as pessoas se sentirem
elevadas, orgulhosas e esperançosas”, releva uma das entrevistas realizadas na
pesquisa.
Essa
prática exige que o anotador atue, em certa medida, como um árbitro moral e
político. Ao mesmo tempo, as diretrizes são claras e processuais. Se um
conteúdo mostra um conflito de vizinhança ou uma crítica à realidade econômica,
ele é sinalizado para ser despriorizado pelo algoritmo de recomendação. Assim,
a “energia positiva” deixa de ser um slogan para se tornar a marca da
experiência digital do usuário.
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Entre o papel de facilitador e o de regulador estatal
Está
claro que o Estado chinês não é um mero observador e certamente é um regulador
forte. Na opinião dos autores da pesquisa, o Estado atua como arquiteto da
infraestrutura que sustenta essa indústria.
A
pesquisa expõe um papel dual: o Estado atua simultaneamente como facilitador
econômico e supervisor ideológico. Como facilitador, o governo promove o
“efeito de cluster” por meio dos Parques Industriais Digitais. Em cidades como
Zhengzhou, o governo oferece subsídios e infraestrutura para que empresas de
anotação prosperem. Um marco histórico dessa estratégia foi o Guia de Construção do Sistema de
Padrões de Inteligência Artificial de Nova Geração, de 2020, que
proporcionou um reconhecimento da atividade para os anotadores de dados. O
Ministério dos Recursos Humanos e da Segurança Social (MOHRSS) reconheceu
oficialmente a ocupação de “Treinador de Inteligência Artificial”. Isso criou
uma carreira formalizada para o que antes era um trabalho informal e precário.
Como
supervisor, o Estado consolidou sua soberania digital por meio da Lei de Segurança de Dados, de 2021, e de um
sistema de registro de algoritmos rigoroso. Até agosto de 2024, nada menos que
448 modelos de linguagem foram registrados, submetendo-se a auditorias prévias.
O ápice dessa arquitetura centralizadora foi a criação do National Data Bureau, em 2023, que serve
como a coroa institucional da estratégia chinesa para gerir o fluxo de dados
como um recurso de segurança nacional.
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Uma governança delegada
O
estudo detalha o que os pesquisadores chamam de uma certa “censura delegada” .
Em vez censurar conteúdos diretamente, repassa essa tarefa para empresas
privadas, que, sob pressão regulatória, criam fluxos de trabalho que extraem o
discernimento político dos trabalhadores. Para garantir a conformidade, há um
rigoroso processo de controle de qualidade que prevê punições caso as empresas
não produzam os resultados adequados.
Esse
processo é cheio de fases e camadas. Como um primeiro passo, o anotador estuda
manuais que mimetizam o discurso estatal. Depois, ele passa para uma fase de
testes e qualificação, um crivo inicial para garantir que o trabalhador
absorveu as nuances ideológicas. Em seguida, faz anotações de testes para
verificar se aprendeu e se consegue aplicar as diretrizes. A inspeção de
qualidade verifica se o rótulo atribuído condiz com a expectativa da plataforma
e as diretrizes do Estado. Por fim, se houver divergência, ocorre a “negociação
de padrões”, em que o julgamento humano é corrigido até se adequar à norma
institucional.
Os
anotadores tendem a adaptar suas visões pessoais e experiências de vida para
adotar um olhar condizente com as diretrizes de governança estatal, segundo os
pesquisadores. Se, supostamente, um vídeo muito sensível for mal rotulado por
“erro humano” e acabar viralizando, a responsabilidade recai sobre o anotador e
sua empresa. Esse sistema de responsabilidade delegada gera um ambiente de
autocensura preventiva, segundo os autores do estudo.
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Garantindo a implementação das políticas regulatórias desde o princípio
Muito
mais que uma mera ferramenta de fluxo de trabalho, La Qi funciona como um
mecanismo para preencher uma lacuna entre os padrões regulatórios e as práticas
de anotação de nível micro. É importante pois transforma diretrizes políticas
abstratas em orientações práticas, alinhando as tarefas dos anotadores a
objetivos maiores.
Isso
reflete uma colaboração entre Estado e mercado na China. A anotação de dados
atua não apenas como um suporte técnico para a inteligência artificial, mas
também como um mecanismo que reforça objetivos ideológicos e políticos.
Em
resumo, o La Qi exemplifica a relação intrincada entre trabalho, tecnologia e
governança no ecossistema digital da China. Esse mecanismo de alinhamento
evidencia a necessidade de políticas e estruturas que abordem não apenas os
padrões técnicos, mas também as estruturas sociopolíticas que sustentam a
governança da IA.
Na
China, a IA não está apenas sendo treinada para ser inteligente, ela está sendo
domesticada para exercer a estabilidade do sistema, um rótulo de cada vez.
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Capitalismo de Vigilância no Sul Global
A
pesquisa de Fu, Lin e Wang se enquadra no eixo de pesquisa “Capitalismo de
Vigilância pelo Sul Global” do projeto OPlanoB, que questiona as relações entre
os atores, corporativos e governamentais, locais e globais, e suas respectivas
parcerias. É um eixo que também se dedica a entender como o Capitalismo de
Vigilância se desenvolve no Sul. Nesse estudo sobre La Qi ou o alinhamento na
China, considera-se que a forma de governança de políticas regulatórias,
implementadas em diretrizes para o setor privado em tarefas específicas, revela
como políticas podem ser efetivadas desde os primeiros passos do treinamento de
uma IA.
A
rotulagem de dados nunca será algo neutro e sempre vai carregar um viés
ideológico, mesmo no Ocidente. A China escolheu controlar parte desse viés a
partir de uma governança entre o Estado e empresas através de políticas
específicas.
¨
China alerta que IA pode inventar informações militares
com consequências perigosas
Engenheiros
chineses responsáveis pelo desenvolvimento de aeronaves de combate afirmam que
a IA pode acelerar a análise de inteligência, mas alertam que seus modelos
também são capazes de criar dados militares fictícios que podem afetar projetos
de armamentos e decisões em combate.
Veja
como uma falha da IA pode apresentar falhas:
Engenheiros
do instituto de Chengdu da AVIC, responsável pelo desenvolvimento dos
caças J-20 e J-36, alertam que a IA pode criar informações falsas sobre
especificações de aeronaves, alcance e frequência de radares, unidades
militares e até instalações inteiras;
Dados
incorretos de inteligência podem influenciar diretamente o projeto de um
caça, afetando desde sua furtividade e capacidade de radar até os sistemas de
guerra eletrônica, alcance e desempenho em manobras;
Erros
produzidos pela IA também podem contrariar princípios básicos da
física, levando a sugestões de manobras impossíveis, materiais que
não existem ou missões além do alcance real de uma aeronave;
Especialistas
chineses defendem que os modelos de IA sejam alimentados com fontes
confiáveis de dados militares e bases de conhecimento pesquisáveis, além de
passarem por várias etapas de verificação antes que seus resultados sejam
utilizados.
À
medida que as forças armadas passam a depender cada vez mais da IA para
inteligência e seleção de alvos, uma alucinação convincente deixa de ser apenas
uma resposta errada — ela pode se transformar em uma decisão errada.
¨
Companhias estadunidenses perdem posições na China em
meio às mudanças geopolíticas, diz mídia
Tensões
geopolíticas, rivalidade local acirrada e uma crescente desconexão com a
cultura de consumo chinesa têm corroído a posição outrora forte das empresas
americanas em território chinês, informou uma mídia estadunidense.
O
artigo destaca que, nos últimos anos, grandes corporações
norte-americanas,
como Nike, Starbucks e General Motors, enfrentaram uma significativa contração
em suas operações chinesas.
"A
China já foi um dos mercados mais atraentes e de maior crescimento para muitas
marcas norte-americanas [...]. Porém, nos últimos anos, algumas marcas de
consumo, como Nike, Starbucks e General Motors, começaram a notar uma mudança
de cenário", ressalta a publicação.
Segundo
a matéria, as marcas norte-americanas vêm enfrentando grandes desafios
para manter sua posição no mercado chinês, à medida que os concorrentes locais
as superam com inovação mais rápida e melhor distribuição regional.
O
crescente orgulho do consumidor chinês e o apelo cada vez maior dos produtos
nacionais tornam mais difícil para as empresas norte-americanas
justificarem seus preços, muitas vezes mais altos.
De
roupas esportivas e produtos de beleza a automóveis e café, as empresas
norte-americanas vêm perdendo participação no mercado para rivais chinesas ágeis,
que compreendem melhor os gostos locais e a sensibilidade dos preços,
observa o texto.
Até
mesmo empresas antes dominantes, como Nike, GM e Starbucks, viram sua
influência diminuir à medida que os consumidores chineses se afastam de
marcas estrangeiras em favor de alternativas locais.
Em vez
de simplesmente exportar estratégias globais, as empresas
norte-americanas devem
adaptar-se urgentemente à dinâmica única do mercado chinês — ou enfrentar
um declínio ainda maior em uma das economias de consumo mais importantes do
mundo, conclui a reportagem.
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EUA perdem corrida tecnológica para seus rivais com aquisições lentas do
Pentágono, diz revista
Ao não
adotar plenamente nem acompanhar o ritmo da transformação militar em andamento,
Washington está colocando em risco sua vantagem tecnológica, escreveu uma
revista estadunidense.
A
revista destaca que o sistema de aquisições dos EUA, moroso e
complicado, pode comprometer a posição militar do país.
"Quando
as autoridades do Pentágono identificam um problema, o processo para
encontrar e adquirir um sistema capaz de resolvê-lo geralmente leva anos.
Depois, são necessários mais anos para adquirir uma quantidade suficiente da
solução para atender às necessidades das Forças Armadas. Nesse meio tempo,
a solução já está desatualizada", ressalta a publicação.
Observa-se
que sistema rígido de aquisições dos EUA é lento demais para a aquisição em
larga escala de tecnologia de ponta, o que deixa Washington para trás em
relação a rivais que inovam semanalmente.
Conforme
acrescenta o material, apesar das reformas, o Pentágono continua tão avesso ao
risco que não consegue adotar avanços comerciais rapidamente o
suficiente para superar a China ou a Rússia.
Além
disso, os Estados Unidos correm o risco de perder a corrida tecnológica,
pois seu processo de aquisição leva anos, enquanto os adversários atualizam
drones e inteligência artificial em questão de dias.
A
revista também aponta que bilhões em inovações do setor privado são
desperdiçados quando as Forças Armadas
estadunidenses não
conseguem adquiri-las, o que faz com que a vantagem tecnológica do país se
desgaste.
A
incapacidade de Washington de reformular seu sistema de aquisições significa
que os Estados Unidos estão perdendo terreno para seus rivais que já
produzem novas armas em massa em tempo real, conclui a reportagem.
Anteriormente,
o portal EurAsian Times informou que, atualmente, tanto a
China quanto a Rússia superaram os Estados Unidos em termos de capacidade
operacional de armas hipersônicas. Os satélites dos EUA operam em
trajetórias previsíveis, o que os mantêm constantemente dentro da zona de
alcance dos sistemas de armas da Rússia e da China.
Fonte: Por
Fabricio Solagna, em OPlanoB/Ssputnik Brasil

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