Por
que a definição sobre o autismo virou ponto central de uma batalha
Se
alguém pedisse a você que pensasse em uma pessoa autista, em quem você
pensaria?
Elon
Musk, o homem mais rico do mundo?
Talvez
Greta Thunberg, que diz que ser diferente pode ser um superpoder.
Ou
Robbie Williams, que recentemente revelou ter descoberto que tem "um pouco
de autismo".
E
alguém como James Fitzpatrick, que tem 34 anos de idade, não fala, tem
deficiência intelectual e precisa de cuidados constantes?
O
diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) significa que uma pessoa
apresenta determinadas características centrais, entre elas diferenças na forma
como se comunica e se comporta. É um termo abrangente, que inclui pessoas com
experiências muito diferentes.
Nos
últimos anos, houve uma explosão no número de pessoas com diagnóstico de
autismo registrado em seus prontuários médicos. Na Inglaterra, esse total
passou de pouco mais de 700 mil, há três anos, para cerca de 1,1 milhão
atualmente.
A
Sociedade Nacional de Autismo (NAS, na sigla em inglês) afirma que "as
evidências sugerem que há um número significativo de casos de autismo não
diagnosticados, especialmente entre mulheres e pessoas mais velhas".
Mas e
se algumas pessoas que receberam o diagnóstico não forem, de fato, autistas? E
se, na verdade, tiverem recebido um diagnóstico equivocado?
Essas
questões são levantadas, em grande parte, pela professora Uta Frith, 85, um dos
principais nomes da pesquisa sobre autismo desde a década de 1960. Elas estão
no centro de um debate que toca diretamente a identidade de muitas pessoas
autistas.
Frith
afirma que a questão é o diagnóstico equivocado, pessoas que são informadas,
incorretamente, de que são autistas.
Frith
evita dizer quantas pessoas acredita terem recebido um diagnóstico errado de
autismo: "Nos meus piores momentos, acho que é um número muito grande,
mas, nos melhores, acho que é um número pequeno."
Frith
teme que pessoas autistas que precisam de muito apoio não estejam recebendo a
ajuda de que necessitam.
Alguns
pesquisadores do autismo e organizações da área dizem que as opiniões de Frith
são "perigosas", constituem "desinformação" e colocam
"pessoas autistas umas contra as outras". Muitas pessoas autistas
também estão indignadas e afirmam que esse debate põe em questão sua identidade
e seus direitos.
O
aumento dos diagnósticos de condições neurodivergentes, como autismo e
transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), juntamente com a
forte alta no número de pessoas que relatam problemas de saúde mental, levou o
governo a encomendar uma revisão independente, que deve ser publicada em breve.
Mas,
sejam quais forem suas conclusões, é pouco provável que ela encerre uma questão
que afeta tantas pessoas: afinal, o que é autismo? E faz diferença que pessoas
tão distintas sejam definidas como parte de um espectro tão amplo?
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Mudanças de significado
A
definição de autismo mudou e evoluiu desde que o termo foi criado, em 1911. Na
época, era descrito como um sintoma da esquizofrenia infantil: fantasias e
alucinações excessivas.
Em
1943, o termo autismo passou a ser usado para descrever crianças com
"peculiaridades fascinantes" que não demonstravam interesse pelo
mundo ao seu redor.
Na
década de 1960, estimava-se que 0,04% das crianças fossem autistas, e a maioria
delas tinha deficiência intelectual.
No
início da década de 1980, os pesquisadores passaram a adotar a ideia de um
espectro do autismo, argumentando que pessoas autistas poderiam ter
inteligência dentro da média ou muito acima dela.
Essa
nova categoria de autismo ficou conhecida como síndrome de Asperger, a partir
de um artigo pouco conhecido publicado na Áustria na década de 1940, mas o
termo deixou de ser usado.
Em
2013, o TEA tornou-se o diagnóstico oficial para todas as pessoas autistas.
Alguns especialistas em autismo, porém, consideram que essa definição é ampla
demais.
Frith
reacendeu o debate ao argumentar que o espectro do autismo chegou a um ponto de
ruptura porque reúne pessoas com necessidades muito diferentes.
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Questionando o espectro
Uma
busca rápida nas redes sociais mostra que a pesquisadora de 85 anos é chamada
de "pioneira", "brtilhante", e "grande dama da
pesquisa sobre o autismo".
Mas
também de "traidora", de "oportunista desconectada da
realidade" e de alguém que "já passou do prazo de validade".
Durante
uma de nossas conversas, ela recebe um email, uma mensagem de ódio. O texto diz
que ela terá sangue nas mãos e contém palavrões.
Frith
afirma: "Algumas pessoas diriam que seria melhor eu parar. Mas quero
chegar à verdade."
Mesmo
assim, hesitou durante anos antes de se manifestar, em parte porque
"realmente, realmente" não quer magoar ninguém.
Frith
diz sentir "quase um dever" de representar pessoas autistas com
deficiência intelectual. Na avaliação dela, esse grupo vem sendo ignorado
"tanto nas pesquisas quanto na percepção da sociedade em geral".
Cerca
de um terço das pessoas autistas tem deficiência intelectual. Mas elas são
pouco representadas nas pesquisas. Um estudo de 2019 constatou que correspondem
a cerca de 6% dos participantes.
Frith
afirma: "Esses casos precisam muito de apoio. Foram completamente
ofuscados."
Ela
incluiria esse grupo em um espectro do autismo "mais restrito", ao
lado de pessoas que têm o que antes era conhecido como síndrome de Asperger e
de pessoas autistas diagnosticadas na infância.
Frith
acredita que o aumento dos diagnósticos de autismo é impulsionado por um
"grupo diagnosticado tardiamente, formado principalmente por
mulheres".
O
Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, o NHS, afirma que pode ser difícil
reconhecer o autismo em mulheres, mas Frith diz: "Sou cética em relação
aos diagnósticos tardios. É aí que acho que o processo de diagnóstico se tornou
muito superficial."
Frith
acredita que muitas dessas pessoas têm, na verdade, outras condições, entre
elas ansiedade, depressão ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
E
questiona: "Será que essas pessoas são realmente beneficiadas pelo rótulo
de autismo? Gostaria que recebessem um atendimento melhor do que recebem
hoje."
Frith
também considera que pesquisadores talvez precisem criar "um rótulo que
ainda não existe" para algumas pessoas que receberam diagnóstico de
autismo.
Frith
cita uma pesquisa da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, segundo a qual
pessoas diagnosticadas com autismo na primeira infância muitas vezes têm um
perfil genético diferente daquele de pessoas diagnosticadas mais tarde. Os
pesquisadores constataram que pessoas diagnosticadas em idades mais avançadas,
a partir do fim da infância, apresentam um perfil genético subjacente com mais
características em comum com o TDAH e a depressão do que com o autismo
diagnosticado precocemente.
Mas o
principal autor do estudo, Varun Warrier, afirma que isso mostra "uma
ampliação genética do autismo", e não diagnósticos equivocados.
Frith
acredita que um pequeno número de pessoas não tem nenhum transtorno de saúde
mental, mas é formado por "pessoas em busca de uma identidade" que
teriam sido influenciadas por informações de má qualidade nas redes sociais.
Ela não
sabe quantas pessoas acredita terem recebido um diagnóstico equivocado, mas
considera que pesquisadores poderiam chegar a esse número.
Frith
sabe que isso pode incomodar e até assustar algumas pessoas. E ressalta:
"Se alguém recebeu um diagnóstico equivocado, não quero que sofra por
causa disso.
"Seria
terrível retirar retroativamente um diagnóstico. O que me preocupa é o futuro:
tornar o processo de diagnóstico mais preciso e atender a necessidades
individuais muito diferentes, em vez de se concentrar em um rótulo."
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Guerras culturais
Frith
expôs as suas opiniões pela primeira vez em uma entrevista à revista britânica
Times Educational Supplement, em março. A NAS reagiu em termos duros.
A
organização publicou um texto sobre "narrativas falsas e ideias
ultrapassadas", "desinformação" e "afirmações falsas".
Frith
diz que é "simplesmente errado" desconsiderar suas opiniões dessa
forma.
A NAS
afirma que qualquer pessoa com diagnóstico de autismo terá sido avaliada
segundo critérios rigorosos e "apresentará, ao longo de toda a vida,
diferenças na comunicação, nos comportamentos e nos interesses específicos em
comparação com pessoas não autistas".
Sue
Smith, diretora de serviços clínicos da NAS, afirma: "Temos um grupo de
pessoas com uma necessidade real. E estamos tendo esse debate estranho sobre
como elas deveriam ser chamadas."
Smith
diz que essa não é apenas uma disputa acadêmica, mas uma discussão com
consequências concretas para pessoas autistas: "Historicamente, muitas
pessoas que não foram identificadas corretamente como autistas receberam outros
rótulos muito pouco úteis", como transtorno de personalidade borderline ou
transtorno bipolar.
Ela
teme que dar um novo rótulo a algumas pessoas autistas possa fazer com que elas
percam acesso a apoio.
Monique
Botha, professora associada de psicologia da Universidade de Durham, no Reino
Unido, criticou a opinião de Frith usando palavrões.
Botha é
autista e mantém sua reação: "Muitas pessoas ficaram, compreensivelmente,
chateadas e com raiva… Eu ainda estou."
"Os
pesquisadores têm o dever de ser um pouco mais diretos e francos sobre o quanto
esse tipo de coisa pode ser prejudicial."
Botha
considera que as ideias de Frith reforçam uma narrativa segundo a qual
"existiria uma espécie de autismo magicamente fácil, em que você é apenas
excêntrico, tudo na sua vida acaba dando certo e você usa isso como uma muleta
para se sentir especial, o que banaliza a realidade de muitas pessoas".
Botha
afirma que pessoas autistas compartilham algumas características centrais:
sensibilidade sensorial, necessidade de previsibilidade, interesses intensos e
dificuldades de comunicação.
"Isso
não significa que teremos a mesma vida ou os mesmos desfechos."
James
Fitzpatrick foi diagnosticado na década de 1990 e não fala. Seu pai, Michael
Fitzpatrick, é médico clínico-geral aposentado.
Michael,
o pai, diz que ficou chocado com a reação à posição de Frith: "Um discurso
intolerante, estridente e ofensivo, que lembra muito as guerras
culturais." Ele considera que algumas pessoas autistas não compreendem a
realidade vivida por sua família.
Michael
afirma que James, hoje com 34 anos, "nunca desenvolveu a capacidade de
interagir com o mundo. Isso é uma fonte de profunda tristeza para sua família e
uma perda para ele próprio".
"Ele
se machucava, batia a cabeça no chão, mordia a si mesmo. Se você tentasse
impedi-lo, ele também mordia, arranhava ou dava cabeçadas em você. E, à medida
que foi ficando maior, isso se tornou um problema ainda maior."
James
Fitzpatrick ficou mais calmo com a idade, mas ainda pode "atacar você de
forma aleatória, sem motivo aparente".
Michael,
pai de James, não consegue entender como o mesmo diagnóstico pode se aplicar a
James e a alguém que vive de forma independente, dois "tipos de pessoa
extremamente diferentes".
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Desafios diferentes
Rachel
Moseley, pesquisadora da Universidade de Bournemouth, no Reino Unido,
trabalhava com pesquisas sobre autismo quando foi diagnosticada, perto dos 30
anos.
Moseley
concorda que pessoas como James são "incrivelmente negligenciadas".
Mas
afirma: "Há espaço para todos nós. Ainda podemos defender pessoas com
deficiência intelectual sem dizer que esse outro grupo não é válido."
Moseley
considera que as propostas de dividir o espectro do autismo carecem de nuances,
especialmente quando se trata de saúde mental.
"De
vez em quando, alguma coisa me derruba completamente", acrescenta Moseley,
dizendo que chega a se ferir e a ter pensamentos suicidas.
"Os
desafios de cada pessoa são diferentes. Mas não se pode presumir que quem
precisa de mais apoio esteja sempre enfrentando mais dificuldades. Em alguns
aspectos, sim, mas não em todos."
Para
sustentar seu argumento, Moseley cita estudos que constataram que, embora
pessoas autistas em geral tenham maior probabilidade de morrer por suicídio, as
taxas são mais altas entre autistas sem deficiência intelectual.
Michael
Fitzpatrick não se convence com esse argumento: "Duvido muito, muito que
pessoas com autismo e sem deficiência intelectual tenham um nível semelhante de
comprometimento e de problemas que ameaçam a vida ao das pessoas com autismo
profundo."
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Experiência vivida
Chama a
atenção que os dois lados dessa disputa acusem o outro de falta de rigor
científico. Um dos principais pontos de divergência envolve os estudos sobre
mascaramento.
O termo
se refere à situação em que uma pessoa esconde comportamentos associados ao
autismo para tentar se adaptar socialmente. Nos últimos anos, houve uma
explosão do interesse acadêmico pelo tema.
Recentemente,
uma revisão identificou quase 400 artigos científicos que tratavam de
mascaramento, em sua maioria com foco em mulheres autistas diagnosticadas na
idade adulta e sem deficiência intelectual.
Frith
estremece quando menciono a ideia: "Argh! É uma noção tão vaga." Ela
classifica alguns artigos científicos sobre o tema como de "qualidade
absolutamente ruim".
Moseley
afirma exatamente o contrário: "Há trabalhos de altíssima qualidade sobre
mascaramento, e é chocante e perturbador ver pesquisas assim serem
desmerecidas."
Moseley
vê as pesquisas sobre mascaramento como parte de uma "mudança
revigorante", à medida que pesquisadores autistas "levam a
experiência vivida para a pesquisa".
Mas
Frith questiona se pesquisadores autistas conseguem ser neutros ou se têm um
conflito de interesses.
Frith
está relativamente isolada nessa posição.
Simon
Baron-Cohen, diretor do Centro de Pesquisa sobre Autismo da Universidade de
Cambridge, no Reino Unido, foi orientado por Frith no início da carreira. Nesse
ponto, ele discorda dela.
"Alguém
formado em biologia molecular tem um tipo de conhecimento especializado, mas
alguém com experiência vivida tem outro", afirma Baron-Cohen.
No
geral, Baron-Cohen diz: "Não estou tomando partido. Acho que a solução é
colocar os dois lados à mesa. Muitas diferenças que parecem irreconciliáveis,
na verdade, podem ser conciliadas."
Baron-Cohen
também considera que o termo autismo é amplo demais e pode acabar
"colocando no mesmo grupo pessoas que são tão diferentes".
A
sugestão dele é criar subgrupos. O tipo 1 poderia ser autismo com deficiência
intelectual. O tipo 2, autismo com necessidades relacionadas à linguagem.
Outros tipos poderiam incluir condições que podem ocorrer junto com o autismo,
como TDAH, depressão e epilepsia.
"Imagine:
poderíamos ter dezenas ou centenas de subtipos. Por que estabelecer um limite?
Quanto mais tivermos, mais precisos poderemos ser sobre o que cada pessoa
precisa", afirma Baron-Cohen.
Mais
uma vez, não há consenso.
Frith
considera que os subtipos poderiam criar "uma divisão clara entre aqueles
que têm necessidades muito graves e aqueles que não têm. Mas isso não pode
continuar indefinidamente".
A NAS
teme que dividir o autismo em grupos menores possa levar à discriminação ou à
retirada de apoio de pessoas que precisam dele. A organização afirma que os
subtipos não têm "valor clínico, relevância diagnóstica nem aplicação
prática".
A
resposta de Baron-Cohen é "incluir pessoas autistas para que possamos
escolher termos com os quais elas se sintam confortáveis".
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Alvo em movimento
Kayleigh
foi diagnosticada com autismo na casa dos 30 anos. E ela percebeu que as
pessoas tinham ideias pré-concebidas sobre o que é o autismo.
"Alguns
vão assumir que você não sabe soletrar o próprio nome. Ou que você ama trens.
Ou que você é extremamente inteligente. Ou que você tem um hiperfoco em um
hobby chato", explica ela.
Desde
que foi diagnosticada, ela recebeu vários rótulos: Asperger, autismo de alta
funcionalidade e autismo com TDAH (transtorno de déficit de atenção e
hiperatividade).
"Os
alvos ficam se movendo. Como uma pessoa com autismo, eu não sei nem como eu
deveria ser chamada."
Para
ela, esse aspecto é uma grande distração das questões de verdade.
Kayleigh
passou a vida pensando ser "estranha, anormal ou realmente, realmente
péssima". Atualmente, ela sente muita raiva que a sociedade não reconheceu
o quanto ela estava sofrendo.
Desde o
diagnóstico, ela afirma ter tido "zero" apoio de profissionais. Diz
ainda que, emocionalmente, sente só poder sair se a sua família estiver junto.
Ela não vai há anos ao centro de sua cidade. Ela quer mais ajuda, mais
informações. Não se importa de como sua condição é chamada. "Você pode
chamá-la de 'doença boba do cérebro', e eu ainda saberia pelo que estou
passando."
Fonte:
BBC News

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