MPF
move ação contra Renan e MBL por xingar indígenas do Pará no Instagram
O
Ministério Público Federal (MPF) ajuizou, na última segunda-feira (17), uma
ação civil pública na Justiça Federal contra o empresário e candidato à
presidência pelo partido Missão, Renan Santos, e a entidade Movimento Renovação
Liberal, responsável formal pelo Movimento Brasil Livre (MBL).
Entre
fevereiro e junho deste ano, em pelo menos três vídeos publicados nas contas de
Instagram do MBL e de Renan Santos, o então pré-candidato dirigiu ofensas
generalizadas à comunidade indígena, chamando-os de “vagabundos”, “picaretas” e
“malandros”, além de alegar que os povos locais são sustentados por ONGs
estrangeiras e pelo PSOL e pelo PT e que “vivem de mamata” e deveriam ser
compulsoriamente colocados para trabalhar.
Na
ação, o MPF pede a responsabilização civil do MBL e de Renan, que paguem
indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos à sociedade, decorrentes
de publicações no Instagram que contêm declarações discriminatórias e discurso
de ódio contra 14 etnias indígenas da região do Baixo Tapajós, no Pará.
Procurados
pela reportagem, nem MBL nem Renan Santos retornaram até a publicação. No
entanto, o partido publicou no Instagram: “O Partido Missão respeita e defende
os povos indígenas, mas não aceitará tentativas de censurar, intimidar ou
silenciar seu candidato. Nenhum grupo ou movimento está acima de críticas.
Renan Santos continuará denunciando o que considera errado e defendendo suas
posições.”
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Ofensa: “Vejam só a incrível cara de índio que eles têm”
Renan
Santos postou no seu Instagram e no do MBL vídeos questionando a ocupação do
terminal da Cargill, em Santarém, no Pará, iniciada em janeiro deste ano em
protesto contra medidas de desestatização de hidrovias amazônicas e em defesa
da integridade das bacias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins.
Segundo
o MPF, as postagens atacaram diretamente a legitimidade e a identidade étnica
das comunidades locais, ironizando inclusive traços fisionômicos dos indígenas.
Num dos vídeos, Renan Santos mostra uma imagem das manifestações e ataca:
“vejam só a incrível cara de índio que eles têm” e questiona a autenticidade de
povos historicamente estabelecidos na região.
Num dos
vídeos com acusações e xingamentos aos indígenas, o agora candidato saca uma
suposta imagem de um livro didático e afirma que uma das etnias que têm
protestado no Pará, os Borari, “desapareceu” (sic) no século XVI.
Para o
MPF, o alcance do MBL e de Renan no Instagram e o teor do discurso coloca em
risco os indígenas da região. “O discurso (…) amplificado por sua notoriedade
político-eleitoral não se limita a reproduzir o preconceito histórico contra os
povos indígenas, mas o reforça com virulência ao atribuir-lhes rótulos
aviltantes e negando-lhes a própria identidade étnica perante público massivo.
Uma manifestação que, ao explorar esse cenário de fragilidade institucional e
histórica, potencializa o risco de novas violências, físicas e simbólicas”,
afirmam os procuradores na ação.
Renan
Santos e o MBL, afirma o MPF, ao criticarem a aparência dos indígenas, tentam
“desqualificar, pelo confronto com o estereótipo fixado no imaginário social do
“indígena genérico” e supostamente extinto, a legítima afirmação identitária
construída ao longo de décadas de mobilização social e documentada por
pesquisas etnográficas”.
Na
ação, os procuradores da República ressaltam que o direito à autoidentificação
indígena é garantido pela Constituição de 1988 e enfatizam que a liberdade de
expressão não protege discursos racistas nem práticas que incitem a
discriminação contra minorias, entendimento do STF.
Ataques
ressoam em ao menos 22 mil indígenas de Santarém, Belterra e Aveiro
De
acordo com a ação do MPF, a conduta atingiu cerca de 22 mil indígenas que vivem
nos municípios paraenses de Santarém, Belterra e Aveiro. O grupo é composto por
14 etnias representadas pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita):
Arapiun, Arara Vermelha, Apiaká, Borari, Kumaruara, Jaraki, Maytapú, Munduruku,
Munduruku-Cara Preta, Sateré-Mawé, Tapajó, Tupaiú, Tupinambá e Tapuia. Para os
procuradores, o discurso discriminatório coloca esses povos em risco, uma vez
que já enfrentam um histórico de invisibilidade e de conflitos fundiários na
região.
O MPF
pediu à Justiça Federal, em caráter de urgência, que determine a imediata
remoção das postagens com conteúdo ofensivo das plataformas digitais, bem como
proíba os réus de publicar novos conteúdos que ofendam ou deslegitimem a
identidade étnica desses povos, sob pena de multa diária de R$ 3 mil em caso de
descumprimento. A ação ressalta que a medida não impede o debate político nem a
crítica regular a projetos e políticas públicas.
O
processo requer também que o MBL e Renan Santos publiquem uma retratação em
vídeo de pelo menos 2 minutos e 57 segundos, que deverá ficar fixada no topo
dos perfis de ambos por 30 dias, e uma campanha educativa mensal em suas redes,
ao longo de seis meses, com conteúdos que promovam a história, cultura e
direitos dos povos indígenas locais.
Na
ação, o MPF pede que a indenização seja integralmente revertida ao conselho
para financiar projetos comunitários voltados à valorização cultural e à defesa
territorial das 14 etnias do Baixo Tapajós. Procurado, o MPF informou que só se
manifestaria por meio da ação.
Fonte:
Por Marcelo Oliveira, da Agencia Pública

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