Como
sucesso de vacinas reduz percepção do risco de doenças
Neste
sábado (22/06), ocorre o Dia D da Campanha Nacional de Multivacinação, em que
crianças e adolescentes menores de 15 anos devem comparecer a uma unidade
básica de saúde (UBS) ou a qualquer ponto de vacinação em todo o Brasil. O
objetivo é atualizar a caderneta vacinal.
Em
pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão nesta sexta-feira, o
ministro da Saúde, Alexandre Padilha, convocou as famílias a participarem da
campanha. “O Brasil tem unido forças para recuperar as coberturas vacinais do
calendário infantil”, disse o ministro.
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Contradições do sucesso da imunização
Mas
quem nunca viu alguém com sarampo, por exemplo, pode ter dificuldade para
entender por que precisa ser vacinada contra a doença. Não porque a vacina tenha deixado de funcionar, mas justamente pelo
contrário: ela funcionou tão bem que o sarampo desapareceu do dia a dia da
grande maioria da população. O mesmo aconteceu com enfermidades como a
poliomielite e a difteria. Males que durante décadas foram uma ameaça concreta
à saúde se tornaram distante, quase como algo do passado.
Essa é
justamente uma das contradições que o sucesso da vacinação traz. Quanto mais
uma campanha de imunização consegue atingir as pessoas e controlar uma doença,
menos visível se torna o risco que ela evitou. Sem familiares que tenham
adoecido e sem histórias próximas de sequelas e mortes, as pessoas podem ter
dificuldade para dimensionar e entender a gravidade dessas infecções. E, quando
a ameaça parece distante, a percepção de urgência e de necessidade de se
proteger também pode diminuir.
"A
própria Organização Mundial da Saúde (OMS) considera
que a percepção de risco é um dos fatores fundamentais para você ter a
necessidade de se vacinar. Se você não vê mais as doenças, a sua percepção de
risco é muito baixa”, diz Rosana Ritchmann, infectologista e membro do comitê
de imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
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Desafio das políticas de imunização
Essa
situação ajuda a explicar um dos desafios enfrentados atualmente pelos
programas de imunização. Afinal, como manter a confiança e a adesão às vacinas
contra doenças que deixaram de fazer parte do cotidiano e fazer com que essas
doenças não voltem?
O
sarampo é um exemplo. Durante boa parte do século 20, a doença era presente e
pais viam filhos adoecerem. Avós carregavam sequelas. A comunidade conhecia
diversas famílias afetadas. A vacinação era vista não apenas como uma
recomendação médica, mas como uma barreira concreta contra a doença que estava
presente no dia a dia.
Hoje
essa experiência próxima com a doença praticamente desapareceu. E esse é
justamente o resultado que as vacinas pretendiam alcançar.
Dessa
maneira, o desafio das políticas de imunização mudou. Como convencer uma
criança, um adolescente ou mesmo um adulto de que uma doença é perigosa quando
ele nunca conheceu alguém que tenha sofrido com ela? Como combater a
desinformação sem transformar a vacinação em uma guerra política? E como manter
a confiança em uma ferramenta cuja maior prova de eficácia é justamente a
ausência da doença?
Essas
são algumas questões que vêm desafiando o sistema de saúde do país. E a prova
disso estão nos números.
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Retorno do sarampo
Depois
de décadas de vacinação, o Brasil recebeu, em 2016, da Organização
Pan-Americana da Saúde (Opas) a certificação de eliminação do sarampo. Naquele
ano e em 2017, não houve casos confirmados no país.
A
conquista, porém, não significava que o vírus havia desaparecido. A partir de 2018, o sarampo voltou a circular no Brasil, em um cenário
associado à entrada de casos importados e à redução da cobertura
vacinal.
Em 2019, depois de mais de 12 meses de transmissão contínua, o país perdeu a
certificação de eliminação da doença.
Entre
2018 e 2022, foram registrados mais de 39,8 mil casos de sarampo no país, com o maior número
em 2019, com 21,7 mil registros. Depois disso, os números caíram de maneira
acentuada: foram 41 casos em 2022 e nenhum caso confirmado em 2023. Em 2024,
cinco casos foram registrados. Já em 2025, a situação mudou e foram 38 e neste
ano já são 24 casos confirmados.
Paralelamente
a vacinação contra o sarampo teve queda. Dados do Ministério da Saúde mostram
que em 2015 e 2016, mais de 95% da população tomou ao menos a primeira dose da
vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola. No
entanto, no ano seguinte esse número caiu para 86% e atingiu o menor patamar em
2020, com 80% da população vacinada.
"É
necessário esclarecer e explicar à sociedade de forma clara que enquanto
existir o agente infeccioso causador da doença no mundo é necessário continuar
a vacinar para manter a proteção imunológica alta da população, de tal forma a
prevenir a doença. A queda da cobertura vacinal determina aumento da população
não protegida e, portanto, suscetível a se infectar, adoecer ou mesmo morrer”,
enfatiza Akira Homma, assessor científico sênior do Instituto de Tecnologia em
Imunobiológicos - Bio-Manguinhos/Fiocruz.
"Enquanto
a doença não for erradicada globalmente, como foi a varíola, é necessário
continuar a vacinar”, acrescenta Homma.
A alta
na circulação do vírus neste ano, principalmente no estado de São Paulo, que já
contabiliza 23 casos, fez com que a Secretaria de Estado da Saúde (SES)
intensificasse a vacinação contra o sarampo. Todas as pessoas de 6 meses a 59
anos que vivem na capital, em Guarulhos e em São Bernardo do Campo devem tomar
o imunizante, independentemente da situação vacinal. A vacina tríplice viral,
que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, é gratuita pelo SUS e pode ser
encontrada nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
"É
fundamental que a cobertura vacinal seja 95% porque nós estamos falando de uma
doença de altíssima taxa de ataque, ou seja, uma doença altamente
transmissível. Quanto maior a facilidade de transmissão de uma doença, maior é
a cobertura vacinal necessária para que, de fato, tenha um país controlado,
livre da entrada e da reintrodução desse vírus”, acrescenta Ritchmann.
Antes
do início da vacinação em massa em 1980, o sarampo matava 2,6 milhões de
pessoas por ano em todo o mundo, 12 mil delas nas Américas, segundo a Opas.
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Problema também pode se estender
A
reintrodução de um vírus e uma doença que estava praticamente extinta traz
consigo um desafio a mais dentro dos próprios sistemas de saúde.
Doenças
que deixam de circular com frequência também deixam de aparecer rotineiramente
nos consultórios fazendo com que profissionais mais jovens tenham pouca ou
nenhuma experiência prática com determinadas infecções. Isso não significa que
médicos não sejam preparados para reconhecê-las, mas torna ainda mais
importante a existência de protocolos de vigilância, treinamento e notificação.
No caso
do sarampo, por exemplo, uma suspeita precisa ser rapidamente investigada
porque a alta capacidade de transmissão do vírus faz com que a identificação de
um caso possa desencadear uma série de medidas para evitar novas infecções.
"É
um desafio para profissionais de saúde. Quando a gente teve o retorno do
sarampo, em 2018, a maioria dos profissionais, em especial os jovens, nunca
tinham diagnosticado um caso da doença. Então, isso é um desafio importante e
tem que estar muito atento a essa situação epidemiológica, porque em
determinado momento um quadro febril com tosse e outros sintomas, se o
profissional de saúde não estiver acostumado, não vai pensar que pode ser
sarampo”, diz Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações
(SBIm).
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Movimentos antivacinas
Uma
população que não convive mais com uma doença tende a ter menos referências
concretas sobre suas consequências e riscos, passando a depender da informação
transmitida por profissionais de saúde, escolas, governos, meios de comunicação
e famílias.
Assim,
não significa que o desaparecimento de doenças seja, por si só, responsável
pela hesitação vacinal. A decisão de se vacinar também é influenciada por
fatores como a confiança nas instituições e a percepção sobre segurança e
eficácia das vacinas.
Mas
esse espaço pode ser ocupado por informações falsas ou enganosas. Nos últimos anos, a
vacinação passou a integrar disputas políticas que ultrapassam a área da saúde.
No
Brasil, principalmente durante e depois da pandemia de covid-19, figuras políticas e influenciadores,
principalmente de direita, passaram a questionar vacinas e as políticas de
imunização do país. Momento em que a resistência às vacinas ganhou força.
No
entanto, o discurso não permaneceu restrito aos questionamentos sobre a
segurança das vacinas, ele foi incorporado por argumentos em defesa da
liberdade individual, da autonomia das famílias e do direito de os pais
decidirem os procedimentos em relação aos filhos, mesmo que isso contrarie às
leis.
No
início deste mês, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, por exemplo, que atualmente
mora nos Estados Unidos, fez declarações em suas redes sociais contrárias ao
esquema de vacinação brasileiro e afirmou que sua filha não seria vacinada.
Em um
vídeo, ele aparece mostrando uma declaração assinada no Texas assumindo a
responsabilidade pela decisão de não vacinar a filha e defendeu que os pais
tenham liberdade para decidir sobre a imunização dos filhos.
O
deputado federal Nikolas Ferreira também publicou neste mês conteúdos
questionando a vacinação e espalhando desinformação sobre a pandemia de
coronavírus.
Essas
manifestações não representam necessariamente a posição de toda a direita
brasileira, mas mostram como o tema passou a ser incorporado ao debate político
por setores ideológicos.
"A
decisão de saúde pública, ela não deveria passar por posicionamentos políticos
e ideológicos, isso é algo que não tem sentido. Tem que ser uma decisão baseada
na ciência e em dados que temos acumulado ao longo do tempo”, diz o diretor da
Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
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Movimento antivacina não existe só no Brasil
O
fenômeno da onda de desinformação não é exclusivo do Brasil. Nos Estados
Unidos, ele também vem ganhando força e a oposição às vacinas passou a ocupar
espaço cada vez maior no debate político. Como resultado, o país enfrenta surtos de doenças, como o sarampo, que durante anos
haviam sido controladas.
Em
apenas seis meses, os EUA já registraram 2.295 casos de sarampo, número
maior do que o registrado em todo o ano de 2025, quando foram 2.289 casos.
Atualmente,
44 dos 50 Estados do país foram afetados, a maior alta registrada nos últimos
35 anos.
Fonte:
DW Brasil

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