segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Lula vencerá com as armas do passado?

No início de julho, quando a coordenação da campanha de Lula começou a construir ato de lançamento de sua corrida à reeleição, as pesquisas de opinião colocavam-no seis pontos à frente de Flávio Bolsonaro, num eventual segundo turno. A distância parecia crescer. Talvez por isso, o cenário grandioso e o script do comício, realizado ontem em São Bernardo, tenham sido desenhados com olhos voltados para o bravo histórico do candidato.

O Estádio Primeiro de Maio, palco das assembleias operárias que mudaram a história do país e projetaram Lula, foi apresentado como o lugar “onde tudo começou”. Repetiu-se várias vezes, nos discursos e em vídeos projetados num imenso telão, uma frase do então metalúrgico (“Que ninguém nunca mais ouse duvidar da capacidade da classe trabalhadora”). Ele reencontrou seus companheiros de então, em cena emocionante. Relembrou dona Lindu. Ouviu Janja homenagear Marisa, sua companheira à época do sindicato. Contou histórias das greves, prisões e voltas por cima. Citou conquistas reais de seus governos. Quase nada disse, porém, sobre as disputas atuais. Entre os silêncios, talvez o mais ruidoso tenha sido a falta de qualquer menção à batalha pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho.

A proposta une 68% dos brasileiros. A adesão chega a 76% na faixa etária até 24 anos, onde Lula precisa frear a escalada de Renan Santos e conquistar mais apoios. A tramitação está emperrada nos corredores do Congresso, por enfrentar a oposição das bancadas conservadoras e das federações empresariais. Apavora em particular bolsonaristas como Nikolas Ferreira, cuja popularidade é abalada sempre que o deputado se arrisca a debater o tema. Trazê-lo ao centro do debate eleitoral politizaria a disputa, eletrizaria parte importante dos eleitores, obrigaria Flávio e os demais candidatos de direita a se expor. Além disso, abriria as portas para uma campanha ativa, em que os apoiadores de Lula (hoje em grande medida semiparalisados) poderiam recorrer a um repertório que dominam. Mobilização nos locais de trabalho. Abaixo assinados. Formação de comitês. Em momentos-chave, manifestações de rua.

Lula, porém, parece ter outros planos, que talvez expressem os limites do tipo de governança por que optou. Na última quarta-feira, manteve, no Palácio do Planalto, seu terceiro encontro recente com o presidente do Senado, David Alcolumbre, um dos expoentes máximos do Centrão. Busca desencalhar, naquela casa legislativa, a tramitação do fim da 6×1. Alcolumbre regateia e procrastina. Quer reeleger-se ao posto, no início do ano e sabe que, se se mantiver no Planalto, Lula será um apoiador muito importante. Os interesses recíprocos podem resultar num acordo. É possível, porém, que ele fracasse – se, por exemplo, o senador pelo Amapá calcular que as chances de Flávio cresceram e é melhor manter engavetada a redução da jornada de trabalho…

Em termos de público, o comício de lançamento de Flávio Bolsonaro, realizado também neste domingo, foi um fiasco. Reuniu no pico, na praia de Copacabana, 8,9 mil pessoas – meros 15% do que seu pai foi capaz de atrair, no mesmo local, há quatro anos. Mas o candidato sabe que conta com outros trunfos. As big techs e as corporações de IA norte-americanas exercem controle crescente sobre o espaço público brasileiro. Centenas de milhões de pessoas entregam às redes sociais da Meta, Alphabet (Google) e X os conteúdos que produzem. Um contingente cada vez maior recorre, além destas, às inteligências artificiais da OpenAI e à Grok de Elon Musk, para dirimir dúvidas quotidianas. O presidente Donald Trump, cujos laços com a ultradireita global e a família Bolsonaro são óbvios, tem dado sinais crescentes de que pretende usar este domínio para influir nas eleições brasileiras deste ano.

O mais recente destes indícios foi a emissão pela Casa Branca, em 12/8, de um memorando presidencial supostamente destinado a “combater os cibercrimes”. Vale ler, em detalhes, a análise minuciosa do documento preparada pelo cientista político Reynaldo Aragon e publicada hoje em Outras Palavras. Ela diz, em síntese, que: a) Donald Trump acaba de criar os instrumentos jurídicos que permitirão às big techs e corporações de IA norte-americanas invadir e interferir em sistemas de dados estrangeiros, sem conhecimento de seus proprietários e sem que os Estados Unidos disponham-se a prestar contas a órgãos multilaterais; b) Estas ações violadoras podem, entre muitas outras ações, interferir em dados públicos dos países-alvo (os registros de eleitores do TSE brasileiro, ou, de forma mais ampla, os mecanismos ligados ao gov.br, por exemplo). Podem, também, driblar restrições legais aos abusos praticados por meio das redes sociais; c) Já há pretexto para adotar tal tipo de conduta contra o Brasil. Ele surgiu a partir do momento em que o Estado norte-americano considerou o PCC e o CV organizações “terroristas” e “ameaças transnacionais”. Bastaria, agora, alegar que as redes a ser atingidas pela interferência das big techs norte-americanas “são usadas” pelo PCC e CV.

A recuperação de Flávio Bolsonaro nas últimas pesquisas eleitorais parece estar ligada a uma certa normalização. Num primeiro momento, a escolha, por Jair Bolsonaro, de um filho com enorme telhado de vidro, para representar o clã na disputa presidencial, foi vista com espanto e descrença. Quando ficou claro, porém, que ela era definitiva, setores crescentes do eleitorado que são movidos pelo antipetismo aceitaram-na como um “mal menor” diante de Lula.

Interromper este processo requer restabelecer o choque de projetos no presente. Tirar a escala 6×1 das teias de aranha do Congresso Nacional é um caminho claro. Em entrevista publicada hoje pelo Valor, o ex-chanceler Celso Amorim, hoje assessor especial de Lula, sugere uma rota complementar. Diante dos ataques norte-americanos, diz ele, o Brasil não deve temer o uso, o quanto antes, de ações retaliatórias. Elas estão previstas na Lei de Reciprocidade Econômica. Permitem, entre outras medidas, “suspensão de concessões comerciais, de investimentos e de obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual”. Se usadas com coragem, e combinadas com ações pedagógicas, podem levar a ações de grande repercussão econômica e política. Por exemplo, quebrar os direitos de patente de empresas farmacêuticas norte-americanas. Reduzir o domínio que outras corporações dos EUA exercem sobre o mercado audiovisual brasileiro. Limitar os próprios poderes, nas comunicações brasileiras, das big techs e empresas de IA daquele país. O cardápio de opções é vasto.

A campanha eleitoral apenas começou. Lula é muitos. Um dos causos que contou no comício de ontem foi sua mudança de atitude, na condução das greves de 1979 e 80. Na primeira, ele dobrou a assembleia no estádio de Vila Euclides com uma manobra. Sabendo que sua proposta – encerrar o movimento – não seria aceita se levada a votação, evitou fazê-lo e colocou em jogo sua liderança e prestígio pessoal. Conseguiu que os operários lhe dessem um “voto de confiança para seguir negociando”, e voltassem ao trabalho… Ganhou a votação mas foi visto, por meses, como um traidor, admitiu.

Em 1980, escaldado pelo trauma, recusou-se a propor o fim da greve – mesmo sabendo que mantê-la levaria provavelmente à derrota. O movimento se prolongou por 41 dias. Lula e a liderança foram presos. Ao voltarem, não traziam conquista salarial alguma, mas os operários os trataram como heróis. Embora derrotada economicamente, a greve de 1980 desmascarou a ditadura como nunca antes frente aos trabalhadores. Talvez tenha apressado o fim do regime e o grande ascenso das lutas sociais, que havia começado poucos anos antes e se estenderia até 1989.

Os tempos são muito distintos. Não há ascenso, e sim uma desconstrução nacional que se prolonga quase quatro décadas. Mas mesmo em tempos de retrocesso há momentos de esperança e retomada. As próximas semanas dirão se ofensiva de Trump e o acosso de Flávio Bolsonaro serão capazes de despertar em Lula a energia de 1980.

•        Brasil se prepara para uma eleição difícil, marcada pela interferência de Trump e extrema-direita global. Por Por Bernardo Gutiérrez

O presidente Lula da Silva inaugurou a campanha eleitoral no último domingo em São Bernardo do Campo, a cidade industrial onde forjou sua lenda de sindicalista, envolto na bandeira brasileira e apelando à soberania nacional. Simone Tebet, ministra do Planejamento e Orçamento durante o atual mandato de Lula, foi um pouco mais longe: “Enquanto falam de pátria, quem defende as cores verde e amarela somos nós, porque eles desfilam com bandeira estrangeira. São traidores da pátria”. Quase simultaneamente, Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal (PL), se gabava na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, de ser o único que pode negociar com os Estados Unidos.

Brasil, que no próximo dia 4 de outubro elege presidente, governadores, deputados e senadores, vive sua campanha eleitoral mais atípica. Nas últimas semanas, a ingerência de Donald Trump e dos Estados Unidos na política brasileira fez soar todos os alarmes em Brasília. Em maio, após sua visita à Casa Branca, o presidente brasileiro, Lula da Silva, declarou de forma taxativa que Trump “não vai ter nenhuma influência nas eleições brasileiras, porque quem vota é o povo brasileiro”. No entanto, a reconciliação entre os dois mandatários ruiu em poucas semanas. E a sombra da intervenção trumpista nas eleições foi se abatendo sobre Brasília a passos largos. O desencontro político provocou uma situação inédita no plano diplomático: os Estados Unidos não têm embaixador no Brasil desde janeiro de 2025, e o governo Trump acaba de revogar o visto de Maria Luiza Ribeiro Viotti, embaixadora brasileira em Washington.

O primeiro alerta chegou a Brasília após a viagem de Flávio Bolsonaro a Washington, no final de maio. Sua reunião com o chefe do Departamento de Estado, Marco Rubio, e o vice-presidente, JD Vance, forçou os Estados Unidos a declarar os grupos de traficantes brasileiros como organizações terroristas. Desde então, o intervencionismo estadunidense no clima político brasileiro foi in crescendo, com ações inéditas: o instituto estadunidense McLaughlin & Associates, vinculado a Trump, realizou pesquisas sobre as eleições do Brasil; Washington impôs uma nova sobretaxa de 25% ao país sul-americano; aumentou a pressão contra o Pix (sistema público de pagamentos eletrônico); organizou um encontro com influenciadores bolsonaristas no consulado estadunidense em São Paulo; renovou por um ano a emergência nacional dos Estados Unidos contra o Brasil, por considerar o país uma “ameaça extraordinária”… Como se não bastasse, o The Wall Street Journal revelou que Trump enviou ao Brasil dois altos assessores do Departamento de Estado, Riley M. Barnes e Samuel Samson, para questionar o sistema de urnas eletrônicas do país sul-americano. O Brasil evitou a situação negando-lhes o visto.

O caso mais rocambolesco de tentativa de ingerência tem a ver com a nomeação de Daniel Perez, deputado da Flórida da ala mais radical do trumpismo, sem carreira diplomática, como embaixador dos Estados Unidos no Brasil. O Senado dos Estados Unidos ratificou sua indicação sem contar com o agrément (aprovação diplomática) do governo do Brasil, algo que descumpre o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. O governo Trump, por sua vez, vinculou a revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos à não aceitação de Daniel Perez. “O bizarro deste caso é que os Estados Unidos não seguiram de forma alguma as convenções internacionais. É um comportamento totalmente contrário às regras internacionais”, afirmou Celso Amorim, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, em uma audiência no Congresso dos deputados. Para a jornalista Natalia Viana, diretora executiva da Agência Pública, o envolvimento direto do Departamento de Estado estadunidense nas eleições brasileiras não está provocando apenas “tensões diplomáticas”, mas já configura “ingerência inaceitável e sem precedentes” desde o golpe militar de 1964.

<><>Um novo tipo de golpe?

Filipe Reis, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), alerta em videochamada com o elDiario.es sobre a imprevisibilidade das ingerências estadunidenses no processo eleitoral brasileiro: “Acredito que as autoridades brasileiras não estão suficientemente atentas para defender a soberania nacional. Não estão se preparando para um tipo de postura dos Estados Unidos mais agressiva contra o Brasil e contra o próprio governo Lula”. Filipe Reis alerta inclusive sobre possíveis ataques de guerra híbrida, que envolvam questões políticas, intervenções na economia e conteúdo em plataformas digitais, dada “a confluência de interesses corporativos das Big Techs e o governo dos Estados Unidos”. Fontes diplomáticas do Brasil consultadas por este meio pedem cautela e defendem respostas proporcionais para cada situação que se apresente, como a recente aplicação da lei de reciprocidade contra os Estados Unidos, que tarifará os produtos estadunidenses com o mesmo percentual do “tarifaço” ao Brasil.

Não obstante, a ingerência internacional não está vindo apenas dos Estados Unidos, mas de vários atores da internacional ultradireitista. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, após se reunir com Flávio Bolsonaro, enviou um vídeo de apoio à sua campanha, incitando os “evangélicos” a iniciar uma guerra de civilizações. Por outro lado, a entrada em cena do presidente argentino, Javier Milei, que compareceu ao ato de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro e chamou Lula de presidiário, provocou um atrito diplomático inédito na história. O Brasil rebaixou sua relação diplomática com a Argentina, expulsando seu embaixador em Brasília e retirando o seu de Buenos Aires. Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, em artigo recente critica com dureza a conivência do bolsonarismo com a internacional ultra: “Agredir, ameaçar, proferir insultos ao anfitrião, seja em casa, seja no país de quem acolhe a visita, ou conspirar contra a própria pátria no exterior, são atitudes equivocadas e condenáveis. (O Brasil) não será governado por controle remoto a partir de uma capital estrangeira”.

Após as intervenções de Trump e Milei em favor de Flávio Bolsonaro, fontes do governo brasileiro reconheceram à Folha de S.Paulo o medo de uma intervenção coordenada com a ajuda das grandes empresas de tecnologia. O maior temor tem a ver com uma avalanche de desinformação e uso de inteligência artificial a poucos dias das eleições. As últimas pesquisas revelam que as eleições, nas quais Lula tem uma ligeira vantagem, não estão decididas. Lula venceria Flávio Bolsonaro no segundo turno por 43% a 40%, estando dentro da margem de erro, segundo a pesquisa Quaest de 14 de agosto.

Em meio à incerteza e aos temores de uma ingerência maior de Donald Trump na campanha, a Polícia Civil do Distrito Federal desmantelou um grupo neonazista de 600 pessoas que planejava explodir o palácio presidencial, com o presidente Lula dentro, antes da realização do segundo turno das eleições.

 

Fonte: Por Antonio Martins, em Outras Palavras/elDiario.es/IHU

 

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