terça-feira, 25 de agosto de 2026

Europa quase infernal. Um verão em brasas

Desde maio, tem havido muita conversa sobre um diagnóstico sufocante que ocupa manchetes urgentes em jornais e revistas, rádio e televisão. A causa desse fenômeno —a estreita relação entre o aquecimento global e os verões escaldantes— também está nas notícias, mas com menos frequência. E a responsabilidade direta pelo uso exagerado de combustíveis fósseis como eixo de um sistema de produção dominante aparece apenas nas análises mais especializadas. Nesse contexto, as forças políticas que minimizam o problema —e que, frequentemente, chegam ao ponto do negacionismo climático— continuam atuando como cúmplices do atual desastre climático.

<><> Pouco de pontual, muito de constante

No Norte, julho e agosto quebraram recordes, e ainda falta um mês para o fim de um verão, com quatro ondas sucessivas de calor, quase sem trégua entre uma e outra. Períodos de vários dias com temperaturas acima da média esperada para essa época do ano, dias de máximas não inferiores aos 30-35 graus e noites com temperaturas acima de 20 graus. É uma situação térmica que gera estresse climático-sanitário, ao ameaçar a saúde das pessoas, especialmente das mais vulneráveis, devido à idade ou a doenças. Aumentam as complicações cardíacas, circulatórias e respiratórias e, em alguns casos, o desfecho é fatal. Em meados de agosto, o calor já causou a morte “prematura” de mais de 25 mil pessoas na Europa.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o que caracterizou o estado do clima em julho e início de agosto no Hemisfério Norte foram as temperaturas recordes na superfície da terra e do mar. Junto com esse calor extremo, secas persistentes e incêndios florestais devastadores. O julho mais quente já registrado em âmbito mundial, repetindo a cifra registrada em julho de 2024, confirma a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, em inglês). Na Europa, especificamente, o serviço Copernicus sobre mudanças climáticas, que depende do Centro Europeu de Previsão de Tempo a Médio Prazo (ECMWF, em inglês), confirma que foi o segundo julho mais quente já registrado, com uma temperatura média do ar próximo à superfície 1,47°C superior à média pré-industrial estimada (1850-1900). Dados mais do que alarmantes se considerarmos o aquecimento progressivo de julho desde 2016, com registros anuais sucessivos de 2023 até hoje..  Além disso, durante a primeira metade deste ano, aproximadamente 82% dos oceanos experimentaram ondas de calor marinhas de alta intensidade. Em julho, por exemplo, com temperaturas excepcionalmente altas em grandes áreas do Pacífico tropical, assim como no Atlântico próximo à Europa e ao Mediterrâneo ocidental.

<><> Entre negacionismo e propostas “pragmáticas”

Nem mesmo o aquecimento global, a crise climática e os desastres naturais escapam da polarização extrema que caracteriza o debate político e ideológico europeu. No final de julho, quando a comunidade de Madri enfrentava um dos piores incêndios de sua história, o partido espanhol de extrema-direita Vox surpreendeu com uma postagem em suas redes sociais criticando o governo socialista por “falta de prevenção”: “Não é a mudança climática. É uma ideologia criminosa, incompetência e abandono”, denunciou. E, assim como o direitista Partido Popular, o Vox rejeitou o Pacto de Estado oferecido pelo governo para alcançar um consenso sobre a emergência climática. Como principal resposta, ambos os partidos acusaram o primeiro-ministro Pedro Sánchez de querer tirar vantagem política dos inúmeros incêndios.

Um artigo recente do site ecologista Reporterre alega que o Vox espalhou argumentos falsos ao culpar ativistas ambientais pelas recentes enchentes [como as de Valencia, em outubro de 2024, com 200 mortes]. Especificamente, acusaram os ativistas de destruírem barragens e de proibirem a limpeza de rios e lagos. Embora amplamente refutado, esse argumento continua sendo parte de uma campanha ideológica e moral para desacreditar os ambientalistas, a quem o Vox chama de “ecocriminosos” e “apóstolos de uma religião climática”. Quando o chefe de governo espanhol disse, recentemente, que “as mudanças climáticas matam”, a extrema-direita em seu país respondeu com o slogan “O fanatismo climático mata”. Na França, e segundo esse mesmo artigo, “a extrema-direita usa [os incêndios] como argumento contra o ambientalismo”. Apesar de seu aparente “aggiornamento” pró-ambiental, esse setor político aproveita as crises climáticas para promover “seu [próprio] tecno-solucionismo…, e avançar em suas ideias antiambientalistas”. De que forma? Argumentando, por exemplo, que uma “ecologia do decrescimento” (NdT.: Decrescimento ou Movimento do Decrescimento refere-se à teoria política, econômica e social que critica a busca infinita pelo crescimento econômico e propõe uma redução controlada do consumo e da produção para proteger o meio ambiente), que se opõe ao uso do ar-condicionado é a culpada. Mas, a proposta de ar-condicionado em grande escala promovida pelo Reagrupamento Nacional (RN) de Marine Le Pen para combater as ondas de calor ignora suas graves consequências ambientais: essencialmente, um nível extraordinário de consumo de energia, que, certamente, agravaria o aquecimento global. Ao mesmo tempo, permite que a RN reafirme seu apoio à indústria nuclear, continue defendendo os combustíveis fósseis e continue sua oposição ao desenvolvimento de energias renováveis.

Na Suíça, o Partido Popular Suíço (PPS-UDC), também de extrema-direita e a principal força nacional, embora não pareça negar as mudanças climáticas, ainda minimiza suas consequências reais. Isso é evidenciado pelas respostas de vários de seus líderes por meio de uma série de entrevistas na televisão pública. Thomas Matter, seu vice-presidente, questiona a origem humana das mudanças climáticas. Por sua vez, Marcel Dettling, seu presidente, tenta superestimar os “efeitos positivos” das mudanças climáticas ao afirmar que as colheitas serão mais abundantes. Seu colega Manfred Bühler, deputado nacional pelo Cantão de Berna, enfatiza que “haverá menos necessidade de energia para aquecer edifícios no inverno, [que] o aquecimento global tem aspectos positivos e negativos [e que] os colapsologistas só veem os aspectos negativos”. Termos como “colapsologistas”, “profetas do apocalipse” e “catastrofistas”, entre outros, foram usados por personalidades do PPS para desqualificar as vozes progressistas —e até vários veículos de mídia— por sua interpretação do aquecimento global. “A mudança climática é um desafio. Mas, precisamos parar com o alarmismo e de dizer que todos nós vamos morrer”, disse Yvan Pahud, deputado nacional do PPS pelo Cantão de Vaud. E Manfred Bühler argumentou que “se o aquecimento continuar, a Suíça terá, mais ou menos no ano 2100, o clima da Califórnia… E [lá] as pessoas não morrem como moscas. Pelo contrário, é uma região próspera”.

A maioria dos parlamentares do PPS entrevistados está otimista: a Suíça “saberá como se adaptar”. Eles estão confiantes de que inovações tecnológicas permitirão maior eficiência energética e defendem o desenvolvimento da energia nuclear, ao mesmo tempo em que criticam várias soluções existentes no campo das energias renováveis. Mas, no curto prazo, o que pode ser feito para combater os efeitos do aquecimento global? A resposta consensual dessa força de extrema-direita refere-se exclusivamente à “responsabilidade individual”. “Não se trata de forçar os cidadãos a consumir menos, já que essa atitude penaliza a economia. Isso nos empobrecerá”, dizem.. Diante da realidade do aquecimento acelerado, outros partidos e governos de direita e de extrema-direita no continente europeu variam desde o ceticismo e o negacionismo climático da Aliança pela Alemanha (AfD) até “soluções pragmáticas”, como o retorno à energia nuclear, conceito promovido pela primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. Uma série de posições que, além de suas nuances, minimizam o impacto das mudanças climáticas, enfrentam diretamente as propostas dos setores progressistas para enfrentar o aquecimento global (sejam socialistas, ecologistas ou de esquerda radical) e tentam relativizar a responsabilidade da Europa no atual desastre climático global. Há momentos, inclusive, que partem para o ataque, diluindo seu negacionismo climático em discursos contra os partidos Verdes que, após uma década de expansão e de crescimento, nos últimos três ou quatro anos, perderam força em todo o continente.

¨      Área queimada na Europa poderá triplicar até o fim do século

Espanha, França, Portugal, Itália, Grécia, além de Irlanda, Reino Unido, Noruega e Alemanha: é longa a lista de países europeus afetados por incêndios florestais especialmente severos. O calor extremo e a seca prolongada aumentaram durante semanas o risco de incêndios. Mais de 6 mil quilômetros quadrados de florestas já foram consumidos pelas chamas e centenas de milhares de pessoas tiveram que deixar suas casas. No início de agosto, os prejuízos já eram estimados em 15 bilhões de euros (R$91 bilhões). E o risco de incêndios florestais na Europa continuará aumentando nos próximos anos, segundo um estudo publicado nesta quinta-feira (20/08) pelo Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático  (PIK).

<><> Áreas afetadas podem triplicar

Uma das conclusões do estudo é que, mesmo com uma proteção climática significativamente maior, até o fim do século, a área queimada anualmente na Europa poderá ser cerca de 39% maior que a média atual em um cenário de baixas emissões. Em um cenário de altas emissões, o aumento poderá chegar a 192%. "Se emitirmos mais gases de efeito estufa e as temperaturas globais aumentarem cerca de 3,6 °C, os incêndios ocorrerão com muito mais frequência, especialmente na região do Mediterrâneo e em amplas áreas da Europa Ocidental e Central, incluindo regiões onde até agora quase não havia incêndios”, afirma Maik Billing, pesquisador do PIK e principal autor do estudo publicado na revista científica Global Change Biology.

Aa comunidade internacional concordou em limitar o aquecimento global a 1,5 °C ou, no máximo, a um nível abaixo de 2 °Cem comparação aos níveis pré-industriais. No entanto, os países ainda estão muito atrasados em suas ações de combate às mudanças climáticas. Enquanto isso, os efeitos do aquecimento global tornam-se cada vez mais evidentes. Neste verão europeu de calor extremo, até o início de agosto, a área queimada na Europa já era o dobro da registrada nos últimos anos, segundo os autores. Contudo, a população não está completamente à mercê das chamas. Altos investimentos estão sendo feitos.  "Estamos observando um aumento das condições favoráveis aos incêndios, portanto precisamos investir mais”, afirma Thomas Hickler, pesquisador da Sociedade Senckenberg para Pesquisa da Natureza, que participou do estudo.

Segundo Hickler, a gestão adequada dos incêndios florestais, melhor treinamento e equipamentos para as equipes de emergência, além de uma boa coordenação entre o setor florestal, órgãos de conservação ambiental e bombeiros, podem "fazer uma diferença significativa”. A União Europeia deve destinar cerca de 2,1 bilhões de euros (R$ 12,7 bilhões) entre 2021 e 2027 para a gestão florestal e de incêndios nos países membros. O Banco Mundial garante que a cada euro investido em prevenção, podem ser economizados até sete euros em combate a incêndios e reconstrução.

<><> Condições extremas aumentam risco

Se as emissões de gases de efeito estufa forem reduzidas rapidamente e o aquecimento global for drasticamente limitado, áreas queimadas poderão ser reduzidas em até 90% no futuro, por meio de uma gestão eficaz do fogo. Mesmo assim, o estudo conclui que um esforço climático muito maior é inevitável para controlar os incêndios florestais a longo prazo. "Com as mudanças climáticas, as condições podem se tornar tão extremas que chegaremos aos limites do que é possível fazer para prevenir e combater incêndios quando eles atingirem determinado tamanho”, afirma Kirsten Thonicke, pesquisadora do PIK e coautora do estudo.

Há dias, incêndios também atingem o oeste da Alemanha e a Bélgica. Na área florestal e de pântanos transfronteiriça chamada Hohes Venn, localizada entre a região de Eifel, na Alemanha, e as Ardenas, na Bélgica, cerca de 3 mil hectares de vegetação foram consumidos pelas chamas nos últimos dias. Trata-se do maior incêndio florestal registrado na Bélgica em décadas.

<><> Por que áreas úmidas também podem queimar

Áreas úmidas, como pântanos e turfeiras, normalmente parecem menos sucetíveis a incêndios. Porém, quando secam durante períodos de estiagem, como ocorre atualmente no Hohes Venn, podem queimar por muito mais tempo. Isso acontece devido aos solos de turfa presentes nessas áreas, formados por restos vegetais acumulados ao longo do tempo. Quando seca, a turfa é extremamente inflamável, razão pela qual foi utilizada durante séculos como fonte de energia para aquecimento e cozimento. Quando extensas áreas de turfeiras, com vários metros de espessura, entram em combustão, o carbono armazenado durante milhares de anos é liberado em pouco tempo. Embora as áreas úmidas cubram apenas 3% da superfície terrestre, elas armazenam cerca de 30% de todo o CO₂ retido nos solos do planeta.

Nos incêndios florestais convencionais, geralmente observam-se grandes chamas. Já os incêndios em turfeiras queimam lentamente sob a superfície do solo. A temperatura é relativamente baixa, produz-se muita fumaça e as chamas costumam ser pouco visíveis. No entanto, esses incêndios são extremamente difíceis de extinguir. Incêndios subterrâneos podem durar meses e até continuar ativos durante todo o inverno. Além disso, grandes quantidades de poluentes são liberadas no ambiente. Além das partículas de fumaça, substâncias tóxicas são emitidas, incluindo metais pesados nocivos à saúde, como o mercúrio.

¨      O que diferencia incêndios florestais do Brasil e da Europa

Os incêndios florestais que devastaram regiões da Europa, já considerados os maiores da história recente em algumas localidades, chamam a atenção em todo o mundo. O fogo avançou com rapidez e atingiu inúmeras residências, o que fez com que centenas de milhares de pessoas tivessem que deixar suas casas.

No Brasil, o período mais complexo para a temporada de fogo começou neste mês e vai até outubro. Além disso, há um El Niño que, segundo cientistas, deve ter força elevada nos próximos meses. Em meio a esses cenários, surge uma pergunta: o que difere os incêndios registrados na Europa dos que se tornaram frequentes no Brasil? A reportagem ouviu especialistas que explicaram semelhanças e diferenças desses fenômenos.

<><> A origem do fogo

No Brasil ou na Europa, as origens desses incêndios são semelhantes. Eles surgem de uma combinação entre falta de chuva, ar seco e ondas de calor. "Isso forma um domo de calor, ou bolha de ar quente, que impede que as frentes frias e as chuvas entrem. Com isso, se forma um ambiente seco e com vento de alta velocidade. Essa combinação é o que propaga os incêndios nos dois casos”, explica José Antonio Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Essa combinação é impactada pelos eventos climáticos, como a chegada do El Niño, que deve ganhar força nos próximos meses e pode atingir a categoria forte ou muito forte. No Brasil, a perspectiva é de que o fenômeno, que altera padrões de chuva e temperaturas, pode piorar o cenário de incêndios. Já o fogo na Europa, segundo especialistas, não teve impacto desse fenômeno. "O El Niño influencia o clima em todo o planeta. Mas esse evento começou agora, então os atuais incêndios da Europa não estão relacionados a ele. Eles estão associados, principalmente, ao aquecimento global”, explica o meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os fenômenos climáticos impulsionam a propagação do fogo, que muitas vezes são iniciados na produção rural. Neste ano, uma das causas apontadas para os incêndios florestais na França e na Espanha foi o contato de máquinas com a vegetação seca na monocultura. No caso da Europa, especialistas apontam que grande parte desses incêndios não ocorre de maneira intencional. "Por lá, há muito menos pessoas colocando fogo ou iniciando incêndios, como aqui no Brasil”, diz a geógrafa Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

No Brasil, o fogo começa, na imensa maioria das vezes, por ação humana, de forma voluntária ou involuntária. Um problema do país, diz Marengo, é o uso indevido do fogo por parte de produtores rurais para preparar o terreno. "Com uma atmosfera muito seca e matéria seca acumulada, esse fogo sai do controle e se espalha.” As grandes proporções desses incêndios pelo mundo têm sido atribuídas às mudanças climáticas, que favorecem condições meteorológicas extremas. "As situações que ajudam esses incêndios podem ser associadas ao aumento da temperatura no planeta”, avalia Marengo.

<><> Vegetações diferentes

Apesar das origens semelhantes, há diferenças nos incêndios registrados na Europa e no Brasil. Uma delas é a vegetação local. Na Europa, particularmente na região que abrange países como Espanha, França e Itália, as áreas em que ocorreram os incêndios costumam ser dependentes do fogo. "É uma região de alta inflamabilidade, em que o fogo tem um papel na biodiversidade e nas características ecológicas dela”, diz Ane. Na prática, isso significa que algumas espécies dessas regiões usam o fogo para brotar ou se reproduzir. É uma situação semelhante ao Cerrado brasileiro, que também enfrenta problemas com fortes incêndios.

Amazônia e Pantanal, que são áreas úmidas e que não estão associadas ao fogo, também tiveram incêndios de grandes proporções no período recente. "Nos casos delas, o fogo não é um ciclo natural, por isso são biomas que preocupam muito”, pontua Ane. "Mesmo sendo um país continental, pouco mais da metade da nossa vegetação é sensível ao fogo, o que significa que ele deveria ser um evento raro. Mas quando enfrentamos uma seca severa, tudo fica muito inflamável”, acrescenta.

Depois de sofrerem com fogo intenso, as florestas tropicais enfrentam dificuldades para se recuperar. Esses biomas são ainda mais prejudicados quando os incêndios se tornam frequentes. Isso impede que consigam se regenerar adequadamente. Até mesmo nas regiões em que a vegetação é adaptável ao fogo, como nas florestas afetadas na Europa, os incêndios recentes se tornaram algo que vai além do que é considerado natural ou ecologicamente saudável. "Isso se tornou um problema muito grave”, frisa Ane.

Na Europa, houve um fator que ajudou na propagação do fogo: os ventos fortes. "Os ventos são muito intensos nesta época do ano na região da Europa e isso foi um fator muito importante para os incêndios, além do período seco e das temperaturas muito acima da média”, diz Sampaio, do Inpe. "Essa intensidade dos ventos diferencia os incêndios na Europa e no Brasil. Eles têm sido muito intensos durante essa época do ano na Europa e fazem com que as chamas se propaguem muito rapidamente”, acrescenta. Sampaio afirma que esses ventos fortes têm sido causados pelo aquecimento global.

<><> Residências atingidas

Entre os locais atingidos pelo fogo na Europa, estão inúmeras áreas com residências. Os incêndios florestais destruíram centenas de imóveis e forçaram que mais de 300 mil pessoas fossem retiradas de seus lares em países como França, Espanha e Grécia.

Isso ilustra uma particularidade daquela região: na Europa há muitos imóveis construídos no meio ou nas bordas de florestas, assim como em outros países, como os Estados Unidos. "Há muitas cidades na Europa em que há diálogo entre o urbano e o rural. Hoje, há muitas pessoas nas zonas rurais, como em vilarejos ou comunidades. Isso dificulta o processo de manejo do fogo, que poderia diminuir o material combustível antes de uma seca severa. Então, quando o incêndio acontece, há muito material a ser queimado”, diz Ane. Morar nessas florestas parecia algo seguro há cerca de uma década, afirma Marengo. "Muitos sonham com casas na floresta na Europa. Até dez anos atrás, ninguém pensava no fogo como um fator que pudesse agravar essa situação. Mas as ondas de calor e as secas aumentaram muito, e esse campo se tornou vulnerável.”

No Brasil, os incêndios costumam causar menor impacto sobre as construções. Especialistas explicam que, diferente de muitos países da Europa, há menos construções em áreas ligadas diretamente a florestas por aqui, o que reduz o número de imóveis atingidos pelo fogo. "Essa maior vulnerabilidade existe na Europa e em países como os Estados Unidos. É igual no Brasil, por exemplo, quando vemos casas destruídas em deslizamentos de terra. São casas que não deveriam estar no local em que foram construídas”, diz Marengo.

<><> Medidas governamentais

Diante desses incêndios, um ponto fundamental é a forma como os governos locais encaram o problema. Em um comparativo, os especialistas apontam que a Europa possui mais recursos tecnológicos, mais brigadistas e aviões mais modernos para combater os incêndios. "Em teoria, eu diria que a Europa está mais preparada para incêndios, porque não é a primeira vez que isso acontece. Os países são economicamente mais poderosos. Mas isso não significa que eles consigam apagar os incêndios de grandes proporções com facilidade”, diz Marengo.

Em relação ao Brasil, os especialistas avaliam que o país passou a dar mais atenção ao tema nos últimos anos, após recordes negativos. Desde então, foram adotadas medidas para planejamento de combate aos incêndios e foram destinados mais recursos às entidades responsáveis por combater o fogo. "Existem várias carências no Brasil e ainda precisamos avançar muito, mas ainda assim o país tem sido uma referência no combate aos incêndios em florestas tropicais. O principal conhecimento que temos é o empírico, aquele que as pessoas aprendem quando vivem na pele o problema”, comenta Ane.

Nos dois casos, as autoridades locais foram criticadas na condução dos últimos incêndios, e ativistas costumam cobrar mais rapidez nas ações, além de medidas mais efetivas para evitar que o problema atinja grandes dimensões. Para os especialistas, o combate ao fogo representa um problema complexo, que precisa de aperfeiçoamentos diante de um futuro que aponta para temperaturas cada vez mais altas e incêndios recorrentes.

 

Fonte: Por Sergio Ferrari, em Brasil 247/DW Brasil

 

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