Em
24 anos exercendo mandatos, Flávio Bolsonaro fez apenas 3 propostas de lei
sobre segurança da mulher
O
senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem
feito vários acenos ao eleitorado feminino, estratégia explicada pela vantagem
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na intenção de votos entre
mulheres. Dados da última pesquisa Nexus/BTG Pactual, de 17 de agosto, apontam
que Lula alcança 46% deste eleitorado, contra 32% de Flávio.
Não à
toa, no lançamento da pré-candidatura de Flávio em São Paulo, no mês de julho,
no anúncio do candidato a vice em Brasília, no último dia 5, e no seu primeiro
ato como candidato oficial no Rio de Janeiro, domingo passado, não faltaram
menções às pautas femininas. Entre elas, críticas à violência contra mulheres e
promessas de que agressores “vão mofar na cadeia”, além da citação a uma das
bandeiras da campanha, o programa Brasil por Elas.
Na
atividade legislativa, porém, o cenário foi diferente. Um levantamento inédito
realizado pela Agência Pública mostra que em quase 24 anos como parlamentar,
entre 2003 e 2026, Flávio Bolsonaro apresentou apenas três propostas
legislativas relacionadas à segurança das mulheres. Foram dois Projetos de Lei
(PL), um no Senado e outro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj),
e uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) no Congresso Nacional.
Durante
sua trajetória política, Flávio protocolou, no total, 306 propostas sobre
diversos temas. Como senador, desde 2019, apresentou 59 PLs e 93 PECs. Já nos
anos como deputado estadual na Alerj, cargo que ocupou por quatro mandatos
consecutivos, de 2003 a 2019, protocolou 140 PLs e 14 Propostas de Emendas à
Constituição Estadual do Rio de Janeiro.
Para se
ter ideia, as propostas relacionadas à segurança ou proteção de mulheres
representam menos de 1% de todos os projetos assinados pelo filho 01 de Jair
Bolsonaro ao longo de sua carreira política.
Entre
as três propostas citadas, uma foi apresentada no primeiro semestre de 2026, em
março, quando o parlamentar já era pré-candidato à presidência. Já a proposta
de mudança constitucional é de novembro de 2025, um mês antes de Flávio
Bolsonaro anunciar que seria pré-candidato à Presidência pelo PL. O terceiro
foi enviado em 2017, durante o seu último mandato como deputado estadual.
A
reportagem questionou o candidato, por meio de sua assessoria, sobre a ausência
de projetos para a proteção e segurança das mulheres durante os demais anos de
sua atividade parlamentar. Por nota, ele respondeu que “a proteção às vítimas
de violência, o combate aos crimes sexuais, a promoção da saúde feminina e o
fortalecimento do planejamento familiar sempre estiveram entre as principais
bandeiras defendidas por Flávio Bolsonaro, desde sua atuação como deputado
estadual até o exercício do mandato no Senado Federal. Como costuma afirmar,
trata-se de ‘uma pauta da direita’”. A íntegra da nota pode ser lida neste
link.
POR QUE
ISSO IMPORTA?
O
Brasil registrou um número recorde de feminicídios em 2025 em dez anos de
monitoramento pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foram 1.568 mulheres
assassinadas por razão de gênero no ano passado, um aumento de 4,7% em
comparação a 2024.
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De que tratam as propostas?
No
Congresso Nacional, quase completando oito anos de mandato, o senador
protocolou duas proposições sobre segurança voltadas às mulheres. Uma delas, o
PL 1400/2026, altera a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340, de 7 de agosto de
2006) para permitir que a autoridade policial possa conceder, em caráter
imediato, medidas protetivas de urgência em casos de violência doméstica e
familiar contra as mulheres. A legislação, no entanto, já autoriza a polícia a
conceder proteção imediata à vítima quando há risco iminente e não há juiz
disponível na delegacia no momento da ocorrência.
O
projeto ainda não teve andamento para as Comissões da Casa legislativa e
aguarda despacho desde o dia 25 de março, data em que foi publicada no Diário
do Senado.
“O que
o projeto faz é transformar essa exceção em regra geral. O avanço, se existir,
não está em criar algo novo, mas em tentar reduzir o tempo de resposta, isso
pode ser visto de modo positivo”, explica Anabel Pêssoa, professora de direito
da UFRPE e cofundadora do Instituto Maria da Penha.
Já a
proposta de emenda à Constituição (PEC 41/2025), apresentada em 11 de novembro
de 2025, propõe alterar o artigo 5º da Constituição Federal para “prever o
direito da mulher a uma vida livre de violência, tanto na esfera pública como
na esfera privada”, ou seja, coloca o direito da mulher a uma vida livre e
segura como parte dos direitos garantidos pela Constituição. A matéria foi
encaminhada em 6 de abril deste ano para a Comissão de Constituição, Justiça e
Cidadania do Senado, onde aguarda até o relator ser designado.
Segundo
a Pública apurou, Flávio não fez discursos no plenário defendendo a tramitação
do PL registrado no primeiro semestre de 2026. No X (antigo Twitter), rede
social na qual os parlamentares e candidatos bolsonaristas se manifestam com
frequência sobre suas proposições, o filho 01 de Bolsonaro publicou somente uma
vez sobre o PL 1400/2026, no dia 31 de março. Na postagem, ele compartilhou uma
reportagem com o vídeo de uma agressão sofrida por uma mulher no elevador de um
prédio.
“Me
convença que esta mulher precisa esperar 1 semana até um juiz conceder medida
protetiva contra este vagabundo covarde… e que um Delegado de Polícia não pode
fazê-lo imediatamente. Se me convencer, retiro meu projeto de lei! E meu PL
ainda prevê que um juiz precisa confirmar em até 24 horas”, publicou Flávio.
Apesar da referência do parlamentar a possível demora de “uma semana” até que
haja uma determinação judicial para a proteção à vítima, a Lei Maria da Penha
prevê que a resposta do juíz seja dada em até 48 horas.
Segundo
Pêssoa, do Instituto Maria da Penha, pode haver um gargalo nesse prazo, mas o
problema não é causado pela ausência de previsão legal. A questão está
relacionada, na verdade, à falta de estrutura no país, que ainda conta com
delegacias sem plantão 24 horas, sem unidades especializadas e até sem equipes
com capacitação em violência de gênero nas delegacias comuns.
“Falta
integração entre os sistemas da polícia, do Ministério Público e do Judiciário,
o que atrasa o encaminhamento. Some a isso a subnotificação e o número de
mulheres que desistem no meio do processo, muitas vezes porque não se sentem
acolhidas no próprio atendimento. Enquanto esses gargalos não forem
enfrentados, qualquer mudança na lei tem efeito limitado”, conclui Pêssoa.
Ainda
de acordo com o levantamento da Pública, o primeiro projeto que envolve
segurança às mulheres apresentado por Flávio Bolsonaro foi feito em 2017.
Trata-se do PL 2786/2017, que propôs a disponibilização na internet de nome,
foto e “demais dados processuais” de pessoas condenadas por crime de violência
contra a mulher, à criança, e ao adolescente ou contra sua dignidade sexual.
A
proposta recebeu parecer favorável da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher
e foi encaminhada à Comissão de Segurança Pública e Assuntos de Polícia. Em
2019, entretanto, foi arquivada devido ao término do mandato de Flávio na
Alerj.
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Como Flávio votou em temas ligados às mulheres
O
senador votou 17 proposições que impactam a vida das mulheres de 2019, quando
assumiu o cargo, até o momento. Na maioria, acompanhou o voto favorável em
assuntos que haviam virado consenso, como projetos que propunham a criação de
Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, a proteção específica a
idosas vítimas de violência e o Programa Sinal Vermelho, em que a vítima
desenha um X na mão para avisar silenciosamente que está em perigo.
Flávio
também foi a favor do piso salarial da enfermagem e parteiras, profissões
majoritariamente femininas; a estabilidade trabalhista para mães adotantes; a
criação do programa Emprega + Mulheres; e a inclusão do tratamento do câncer
colorretal entre as medidas de atenção integral à saúde da mulher do SUS.
Ainda
durante o governo Bolsonaro, votou a favor da Reforma da Previdência, que,
entre outras medidas, estipulou idade mínima de 62 anos para mulheres. Flávio
também foi favorável à proporcionalidade de recursos partidários para campanhas
femininas e combate à violência política contra a mulher. Por outro lado,
também votou a favor de perdoar partidos que não cumpriram as cotas femininas.
O
senador não registrou voto em três propostas sensíveis à proteção de mulheres:
a PEC que torna o feminicídio imprescritível, o projeto que cria um cadastro
nacional de condenados por violência contra a mulher e o que tornava essenciais
serviços de proteção a mulheres, crianças e idosos mesmo em situações de
calamidade.
Quando
os projetos esbarraram em pautas comportamentais ou ligadas ao governo Lula, o
senador divergiu. Ele votou contra a reforma ministerial que permitiu a
recriação do Ministério das Mulheres e o destaque na Lei Geral do Esporte que
mantinha o combate ao “sexismo” e à “homofobia” entre os princípios básicos
esportivos.
Flávio
também votou a favor da inclusão de crimes praticados por misoginia entre os de
discriminação e preconceito, ao lado de racismo e xenofobia – o PL da
Misoginia. No entanto, antes ele havia criticado o texto, dizendo que seria
prejudicial à liberdade de expressão. Voltou atrás após sofrer pressão, no que
ele chamou de “armadilha do PT” para prejudicar sua imagem perante as mulheres
em ano eleitoral.
Durante
o mandato, Flávio também foi o relator na Comissão de Segurança Pública e deu
parecer favorável a uma proposta do deputado federal Aluísio Mendes
(Republicanos-MA) para o uso de tornozeleira eletrônica para fiscalizar
agressores no cumprimento de medidas protetivas. A medida se tornou lei este
ano, por sanção do presidente Lula, mas teve origem em outro projeto de lei com
teor parecido, dos deputados Marcos Tavares (PDT-RJ) e Fernanda Melchionna
(PSOL-RS).
No ano
passado, na Comissão de Segurança Pública, Flávio foi designado relator de um
projeto de lei apresentado pela ex-senadora Rosana Martinelli (PL-MT), que
propõe a autorização do porte de arma de fogo para as mulheres sob medida
protetiva de urgência. O projeto foi distribuído para ele em abril de 2025, mas
ele só apresentou o parecer em julho de 2026, quando já estava em ritmo de
pré-campanha.
Flávio
adicionou uma emenda ao texto, propondo que, em vez de a mulher ter que
devolver a arma quando a medida protetiva for revogada, ela perderá só a
autorização especial de porte (andar armada na rua), mas continua podendo
manter a posse da arma (mas deixar guardada em casa). A justificativa foi de
que “já houve a despesa com a aquisição da arma de fogo por parte da vítima”.
Como está em caráter terminativo, se aprovado, o projeto não passará pelo
plenário e seguirá para a Câmara.
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Juristas veem alguns avanços, mas autonomia da mulher ainda sob tutela
Para
pesquisadoras ouvidas pela reportagem, a atuação de Flávio em temas
relacionados às mulheres no Senado tem alguns avanços, mas não foram centrais
durante seu mandato e não apontam para uma política real de igualdade. Para
elas, essa agenda, que antes era fragmentada, passou a ser mobilizada após ele
se tornar candidato à Presidência para construir uma imagem de “protetor das
mulheres”, mas esbarra em contradições: as medidas geralmente tratam a mulher
como vítima a ser tutelada e têm pontos que podem até colocar a vida dela em
risco.
“Durante
a maior parte do mandato, Flávio apoiou algumas medidas de proteção às
mulheres, muitas delas consensuais, porém com pouco protagonismo autoral e
várias posições contraditórias. Com a pré-candidatura, percebe-se uma tentativa
de dar mais visibilidade ao tema”, diz Alice Bianchini, doutora em Direito
Penal e especialista em violência de gênero.
A
jurista aponta que as propostas mantêm uma abordagem policial, punitiva e
armamentista, sem adesão a uma agenda ampla de igualdade de gênero e sem
previsão de monitoramento dessas ações para verificar sua efetividade. “Há
avanços pontuais, mas seus efeitos dependem de orçamento, estrutura,
capacitação e controle institucional e monitoramento contínuo da sociedade
civil”, diz.
Para
Carla Boin, advogada, professora da Universidade de São Paulo (USP) e
presidente da Comissão de Justiça Restaurativa da OAB-SP, a mudança de postura
de Flávio sinaliza que as mulheres se tornaram um campo político ainda mais
disputado. “Uma política de direitos das mulheres não pode se limitar a
protegê-las, precisa ampliar as condições para que elas exerçam plenamente seus
direitos, façam escolhas e ocupem espaços de poder”, diz.
Boin e
Bianchini concordam que o porte de armas para mulheres vítimas de violência é
um dos pontos mais problemáticos, porque transfere a responsabilidade do Estado
para a própria vítima, além de permitir a entrada de uma arma em um ambiente de
conflito – que poderia ser usada até mesmo pelo agressor. Elas também citam que
as propostas que tentam regular o aborto têm potencial de impactar até os casos
já permitidos por lei, o que pode colocar em risco a saúde e os direitos já
conquistados pelas mulher.
“Eu não
diria que todo o conjunto é simplesmente de retrocesso. Há propostas que
ampliam mecanismos de proteção e outras que precisam ser analisadas
criticamente porque podem restringir a autonomia das mulheres. Mas, para mim, a
pergunta central é outra: estamos construindo políticas com as mulheres ou
políticas para as mulheres? Essa diferença é fundamental”, afirma Boin.
Fonte:
Por Maira Escardovelli e Amanda Audi, da Agencia Pública

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