Ciro
Gomes e o pacto diabólico com a escória antivacina
O
recente surto negacionista do bolsonarismo buscou distorcer declarações do
cientista Anthony Fauci para alimentar teorias conspiratórias contra as vacinas
da COVID-19. Lideranças da extrema-direita propagaram a tese estapafúrdia de
que haveria um complô global para enganar a humanidade sobre a eficácia da
ciência.
No
Ceará, esse ataque obscurantista foi amplificado pelo deputado André Fernandes,
presidente do PL estadual e principal fiador da aliança política de Ciro Gomes.
André Fernandes retuitou ativamente as narrativas antivacina que tentavam dar
razão ao negacionismo de Jair Bolsonaro.
Diante
dessa investida contra a saúde pública, Ciro Gomes preferiu firmar um pacto
diabólico de silêncio para não desagradar seus novos aliados partidários. O
ex-ministro manteve um silêncio covarde enquanto a escória antivacina atacava a
vacinação e a medicina científica.
A
omissão de Ciro escancara o trágico esbanjamento do patrimônio político que o
candidato acumulou ao defender a democracia e a ciência no passado. A sociedade
cearense assiste com estarrecimento a um líder histórico curvar-se ao
extremismo para garantir palanque eleitoral.
O
eleitor do Ceará repudia o alinhamento com parlamentares que transformaram a
pandemia em comício negacionista e rejeitam a razão. Ao aceitar o abraço da
escória antivacina do PL, Ciro selou o declínio moral de sua trajetória
pública.
• Elmano critica a aliança de Ciro com o
pastor que rezou pela morte de Lula
A
dimensão ética e política da disputa eleitoral no Ceará veio à tona com força
durante a participação do governador Elmano de Freitas nas sabatinas de
imprensa. Na sabatina do grupo GCMAIS, o gestor fez duras críticas à composição
da chapa oposicionista liderada por Ciro Gomes.
Elmano
denunciou a presença do pastor Alcides Fernandes como candidato ao Senado no
palanque de Ciro. O pastor ganhou repercussão nacional por realizar orações
públicas pela morte de Lula e ser escolhido apenas por ser pai do deputado
bolsonarista André Fernandes.
O
pastor Alcides representa o perfil extremista completo: é negacionista
antivacina, apoiou os atos golpistas de 8 de janeiro, atacou as urnas
eletrônicas e atua como fervoroso militante bolsonarista. Ao lado dele no
palanque cirista está o Capitão Wagner, ex-chefe do motim policial que culminou
nos disparos de tiros contra Cid Gomes.
Em
contrapartida, a chapa governista ao Senado apresenta a solidez democrática de
Luizianne Lins e de Cid Gomes. Essas duas lideranças representam o alinhamento
com o presidente Lula e a defesa intransigente dos direitos sociais da
população cearense.
Ao
trazer esse contraste para o debate público, Elmano consolidou a separação
entre o projeto progressista e a extrema-direita conservadora no Ceará. O
eleitor cearense repudia candidaturas que abraçam o extremismo e a intolerância
em busca de conveniência eleitoral.
• Comando Vermelho interfere nas eleições
do Ceará e aumento preço de “pedágio”
Onze
dias depois de a Operação Omertá expor o esquema de extorsão eleitoral em
Sobral, a Polícia Civil do Ceará prendeu, na quinta-feira (20), dois suspeitos
de integrar o Comando Vermelho por ameaçar e cobrar candidatos para liberar
campanha eleitoral em Forquilha, cidade vizinha na região Norte do estado. O
caso revela que o esquema de interferência eleitoral orquestrado pela facção
não estava circunscrito a um único município — e que os valores cobrados
dispararam.
Segundo
apurações da imprensa local, o chefe do Comando Vermelho em Forquilha exigia o
pagamento de R$ 200 mil, com relatos de cobrança mensal que teriam chegado a R$
300 mil, para autorizar candidatos a fazerem campanha de rua na cidade —
valores muito superiores aos R$ 30 mil a R$ 60 mil identificados pela Operação
Omertá em Sobral. A exigência partiu diretamente do Rio de Janeiro: segundo a
Polícia Civil, o comando da operação é dado remotamente por um integrante da
facção escondido em território fluminense, que orienta membros locais por
telefone a coagir candidatos e eleitores em solo cearense.
O
prefeito de Forquilha, Edinardo Filho (PSB), recusou-se a aceitar a exigência e
denunciou o episódio ao governo do Ceará, o que resultou no reforço imediato do
policiamento na cidade — uma resposta institucional mais rápida do que a
registrada inicialmente em Sobral, onde o esquema levou meses para ser
desarticulado pela Justiça. Os dois suspeitos presos em flagrante, de 19 e 28
anos, respondem por ameaça e extorsão no contexto eleitoral; um deles é
apontado como o chefe local da facção em Forquilha, já com passagens anteriores
por organização criminosa, roubo e corrupção de menor.
O
padrão que se repete entre os dois municípios não é coincidência: a estrutura
de comando identificada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado
(Ficco) em Sobral já apontava que os líderes da facção com atuação no interior
cearense operam a partir de comunidades do Rio de Janeiro, orquestrando a
extorsão eleitoral à distância por meio de membros residentes no Ceará —
exatamente o mesmo modelo agora identificado em Forquilha. É a evidência de uma
rede organizada, não de episódios isolados, capaz de replicar a mesma lógica de
“pedágio eleitoral” em diferentes cidades do interior do estado, adaptando o
valor cobrado à capacidade de pagamento local.
O
contexto eleitoral amplia a gravidade do problema. Em plena disputa acirrada
pelo governo do Ceará entre o governador Elmano de Freitas (PT) e o
ex-governador Ciro Gomes (PSDB) — e com pesquisas recentes apontando a
segurança pública como a principal preocupação de mais da metade dos eleitores
cearenses —, episódios como o de Forquilha e Sobral tocam diretamente no núcleo
do debate eleitoral em curso: a capacidade do Estado de garantir o direito
básico de qualquer candidato fazer campanha sem sofrer coação de organizações
criminosas. Vale destacar que essa é uma dimensão do problema de segurança
pública que atravessa disputas municipais e estaduais, e que a origem remota do
comando — de dentro do Rio de Janeiro — reforça que qualquer solução isolada em
nível estadual dificilmente será suficiente sem cooperação efetiva entre as
forças de segurança dos dois estados.
Até a
publicação desta matéria, o Ministério Público do Ceará não havia informado se
o caso de Forquilha será incorporado à mesma investigação da Operação Omertá ou
tratado como inquérito independente. Fato é que o padrão identificado —
cobrança escalonada conforme o “risco-retorno” político do candidato, ameaças
de morte, cancelamento de eventos e comando remoto a partir de comunidades
cariocas — sugere que Forquilha pode ser apenas o segundo capítulo revelado
publicamente de um esquema que talvez já alcance outros municípios do interior
cearense ainda não expostos pela imprensa ou pela Justiça.
• Uma família expulsa por facção a cada 3
dias: o retrato que Ciro usa para carimbar a gestão de Elmano no Ceará
Na
sabatina no Ponto Poder, do Diário do Nordeste, o candidato que lidera as
pesquisas no Ceará, Ciro Gomes (PSDB), foi questionado sobre segurança pública
e tratou o problema como “estadual”, e não nacional, poupando a
responsabilidade para o presidente Lula: “Aqui, no Ceará, está se mandando uma
família para fora de casa a cada três dias. Esse é o problema. […] Por que eu
vou ter medo da polícia? O crime compensa no Ceará.” A escolha retórica não é
trivial. Ao insistir que a violência cearense é uma anomalia específica — e não
parte de um problema estrutural brasileiro, sobre o qual ele teria menos
controle argumentativo —, Ciro constrói terreno para atribuir a
responsabilidade quase exclusivamente à gestão estadual do PT, sem precisar
disputar com o governo federal a paternidade ou o mérito de qualquer política
nacional de segurança.
A mesma
lógica de isolamento aparece, de forma ainda mais explícita, quando o tema muda
para a disputa presidencial. Questionado sobre qual candidato apoiaria — Lula
ou Flávio Bolsonaro —, Ciro evitou cravar posição, dizendo apenas que a decisão
ainda está em conversa com o ex-senador Tasso Jereissati, e emendando uma frase
que resume décadas de trajetória política: já foi candidato a presidente do
Brasil por quatro vezes, numa forma indireta de dizer que não precisa se
subordinar a nenhum dos dois nomes que hoje polarizam o país. É a mesma
equidistância que ele já vinha sustentando desde julho, quando afirmou
publicamente que sua própria base eleitoral reúne, ao mesmo tempo, um senador
aliado de Flávio Bolsonaro e um coordenador de campanha que é vice-líder do
governo Lula na Câmara — pessoas de campos opostos, todas dentro da mesma
coalizão estadual.
Essa
arquitetura discursiva cumpre uma função clara e, até aqui, eleitoralmente
bem-sucedida: transformar o pleito cearense num evento praticamente hermético,
blindado tanto do desgaste quanto do capital político que qualquer associação
nacional poderia trazer. Se Ciro declarasse apoio a Flávio Bolsonaro, correria
o risco de perder parte do eleitorado lulista que, segundo pesquisas recentes,
já vem migrando para sua candidatura mesmo tendo votado em Lula em 2022. Se
declarasse apoio a Lula, alienaria o eleitorado antipetista que também forma o
núcleo de sua vantagem nas pesquisas. A saída encontrada — recusar-se a
escolher, e mais do que isso, tratar a escolha como irrelevante para o debate
estadual — permite a Ciro reivindicar simultaneamente dois eleitorados que, na
política nacional, estão em lados opostos da trincheira.
O mesmo
raciocínio, replicado ao tema da segurança pública, ajuda a explicar por que
Ciro prefere insistir tanto na dimensão “cearense” do problema: ao evitar
comparações diretas com estatísticas de criminalidade em outros estados —
inclusive alguns governados por aliados de direita —, ele preserva a
possibilidade de que qualquer eleitor, seja lulista, seja bolsonarista, seja
indeciso, encontre na sua narrativa um vilão comum e local: a gestão estadual
do PT, e apenas ela.
Há,
porém, um limite estrutural para essa estratégia de isolamento, que a própria
sabatina ajudou a expor. Ao anunciar que vai “exigir do presidente da
República, quem quer que seja” a transferência de líderes de facções para
presídios federais, Ciro reconhece, ainda que em subtexto, que parte da solução
para o problema que ele mesmo descreve como puramente estadual depende
necessariamente do governo federal — seja ele comandado por Lula, seja por
Flávio Bolsonaro a partir de 2027. É uma pequena fissura na blindagem
discursiva: mesmo tentando isolar completamente a disputa cearense da
polarização nacional, a própria política de segurança pública, pela sua
natureza federativa, arrasta Ciro de volta ao terreno que ele tanto se esforça
para evitar comentar.
Fonte:
O Cafezinho

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