terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ciro Gomes e o pacto diabólico com a escória antivacina

O recente surto negacionista do bolsonarismo buscou distorcer declarações do cientista Anthony Fauci para alimentar teorias conspiratórias contra as vacinas da COVID-19. Lideranças da extrema-direita propagaram a tese estapafúrdia de que haveria um complô global para enganar a humanidade sobre a eficácia da ciência.

No Ceará, esse ataque obscurantista foi amplificado pelo deputado André Fernandes, presidente do PL estadual e principal fiador da aliança política de Ciro Gomes. André Fernandes retuitou ativamente as narrativas antivacina que tentavam dar razão ao negacionismo de Jair Bolsonaro.

Diante dessa investida contra a saúde pública, Ciro Gomes preferiu firmar um pacto diabólico de silêncio para não desagradar seus novos aliados partidários. O ex-ministro manteve um silêncio covarde enquanto a escória antivacina atacava a vacinação e a medicina científica.

A omissão de Ciro escancara o trágico esbanjamento do patrimônio político que o candidato acumulou ao defender a democracia e a ciência no passado. A sociedade cearense assiste com estarrecimento a um líder histórico curvar-se ao extremismo para garantir palanque eleitoral.

O eleitor do Ceará repudia o alinhamento com parlamentares que transformaram a pandemia em comício negacionista e rejeitam a razão. Ao aceitar o abraço da escória antivacina do PL, Ciro selou o declínio moral de sua trajetória pública.

•        Elmano critica a aliança de Ciro com o pastor que rezou pela morte de Lula

A dimensão ética e política da disputa eleitoral no Ceará veio à tona com força durante a participação do governador Elmano de Freitas nas sabatinas de imprensa. Na sabatina do grupo GCMAIS, o gestor fez duras críticas à composição da chapa oposicionista liderada por Ciro Gomes.

Elmano denunciou a presença do pastor Alcides Fernandes como candidato ao Senado no palanque de Ciro. O pastor ganhou repercussão nacional por realizar orações públicas pela morte de Lula e ser escolhido apenas por ser pai do deputado bolsonarista André Fernandes.

O pastor Alcides representa o perfil extremista completo: é negacionista antivacina, apoiou os atos golpistas de 8 de janeiro, atacou as urnas eletrônicas e atua como fervoroso militante bolsonarista. Ao lado dele no palanque cirista está o Capitão Wagner, ex-chefe do motim policial que culminou nos disparos de tiros contra Cid Gomes.

Em contrapartida, a chapa governista ao Senado apresenta a solidez democrática de Luizianne Lins e de Cid Gomes. Essas duas lideranças representam o alinhamento com o presidente Lula e a defesa intransigente dos direitos sociais da população cearense.

Ao trazer esse contraste para o debate público, Elmano consolidou a separação entre o projeto progressista e a extrema-direita conservadora no Ceará. O eleitor cearense repudia candidaturas que abraçam o extremismo e a intolerância em busca de conveniência eleitoral.

•        Comando Vermelho interfere nas eleições do Ceará e aumento preço de “pedágio”

Onze dias depois de a Operação Omertá expor o esquema de extorsão eleitoral em Sobral, a Polícia Civil do Ceará prendeu, na quinta-feira (20), dois suspeitos de integrar o Comando Vermelho por ameaçar e cobrar candidatos para liberar campanha eleitoral em Forquilha, cidade vizinha na região Norte do estado. O caso revela que o esquema de interferência eleitoral orquestrado pela facção não estava circunscrito a um único município — e que os valores cobrados dispararam.

Segundo apurações da imprensa local, o chefe do Comando Vermelho em Forquilha exigia o pagamento de R$ 200 mil, com relatos de cobrança mensal que teriam chegado a R$ 300 mil, para autorizar candidatos a fazerem campanha de rua na cidade — valores muito superiores aos R$ 30 mil a R$ 60 mil identificados pela Operação Omertá em Sobral. A exigência partiu diretamente do Rio de Janeiro: segundo a Polícia Civil, o comando da operação é dado remotamente por um integrante da facção escondido em território fluminense, que orienta membros locais por telefone a coagir candidatos e eleitores em solo cearense.

O prefeito de Forquilha, Edinardo Filho (PSB), recusou-se a aceitar a exigência e denunciou o episódio ao governo do Ceará, o que resultou no reforço imediato do policiamento na cidade — uma resposta institucional mais rápida do que a registrada inicialmente em Sobral, onde o esquema levou meses para ser desarticulado pela Justiça. Os dois suspeitos presos em flagrante, de 19 e 28 anos, respondem por ameaça e extorsão no contexto eleitoral; um deles é apontado como o chefe local da facção em Forquilha, já com passagens anteriores por organização criminosa, roubo e corrupção de menor.

O padrão que se repete entre os dois municípios não é coincidência: a estrutura de comando identificada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) em Sobral já apontava que os líderes da facção com atuação no interior cearense operam a partir de comunidades do Rio de Janeiro, orquestrando a extorsão eleitoral à distância por meio de membros residentes no Ceará — exatamente o mesmo modelo agora identificado em Forquilha. É a evidência de uma rede organizada, não de episódios isolados, capaz de replicar a mesma lógica de “pedágio eleitoral” em diferentes cidades do interior do estado, adaptando o valor cobrado à capacidade de pagamento local.

O contexto eleitoral amplia a gravidade do problema. Em plena disputa acirrada pelo governo do Ceará entre o governador Elmano de Freitas (PT) e o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) — e com pesquisas recentes apontando a segurança pública como a principal preocupação de mais da metade dos eleitores cearenses —, episódios como o de Forquilha e Sobral tocam diretamente no núcleo do debate eleitoral em curso: a capacidade do Estado de garantir o direito básico de qualquer candidato fazer campanha sem sofrer coação de organizações criminosas. Vale destacar que essa é uma dimensão do problema de segurança pública que atravessa disputas municipais e estaduais, e que a origem remota do comando — de dentro do Rio de Janeiro — reforça que qualquer solução isolada em nível estadual dificilmente será suficiente sem cooperação efetiva entre as forças de segurança dos dois estados.

Até a publicação desta matéria, o Ministério Público do Ceará não havia informado se o caso de Forquilha será incorporado à mesma investigação da Operação Omertá ou tratado como inquérito independente. Fato é que o padrão identificado — cobrança escalonada conforme o “risco-retorno” político do candidato, ameaças de morte, cancelamento de eventos e comando remoto a partir de comunidades cariocas — sugere que Forquilha pode ser apenas o segundo capítulo revelado publicamente de um esquema que talvez já alcance outros municípios do interior cearense ainda não expostos pela imprensa ou pela Justiça.

•        Uma família expulsa por facção a cada 3 dias: o retrato que Ciro usa para carimbar a gestão de Elmano no Ceará

Na sabatina no Ponto Poder, do Diário do Nordeste, o candidato que lidera as pesquisas no Ceará, Ciro Gomes (PSDB), foi questionado sobre segurança pública e tratou o problema como “estadual”, e não nacional, poupando a responsabilidade para o presidente Lula: “Aqui, no Ceará, está se mandando uma família para fora de casa a cada três dias. Esse é o problema. […] Por que eu vou ter medo da polícia? O crime compensa no Ceará.” A escolha retórica não é trivial. Ao insistir que a violência cearense é uma anomalia específica — e não parte de um problema estrutural brasileiro, sobre o qual ele teria menos controle argumentativo —, Ciro constrói terreno para atribuir a responsabilidade quase exclusivamente à gestão estadual do PT, sem precisar disputar com o governo federal a paternidade ou o mérito de qualquer política nacional de segurança.

A mesma lógica de isolamento aparece, de forma ainda mais explícita, quando o tema muda para a disputa presidencial. Questionado sobre qual candidato apoiaria — Lula ou Flávio Bolsonaro —, Ciro evitou cravar posição, dizendo apenas que a decisão ainda está em conversa com o ex-senador Tasso Jereissati, e emendando uma frase que resume décadas de trajetória política: já foi candidato a presidente do Brasil por quatro vezes, numa forma indireta de dizer que não precisa se subordinar a nenhum dos dois nomes que hoje polarizam o país. É a mesma equidistância que ele já vinha sustentando desde julho, quando afirmou publicamente que sua própria base eleitoral reúne, ao mesmo tempo, um senador aliado de Flávio Bolsonaro e um coordenador de campanha que é vice-líder do governo Lula na Câmara — pessoas de campos opostos, todas dentro da mesma coalizão estadual.

Essa arquitetura discursiva cumpre uma função clara e, até aqui, eleitoralmente bem-sucedida: transformar o pleito cearense num evento praticamente hermético, blindado tanto do desgaste quanto do capital político que qualquer associação nacional poderia trazer. Se Ciro declarasse apoio a Flávio Bolsonaro, correria o risco de perder parte do eleitorado lulista que, segundo pesquisas recentes, já vem migrando para sua candidatura mesmo tendo votado em Lula em 2022. Se declarasse apoio a Lula, alienaria o eleitorado antipetista que também forma o núcleo de sua vantagem nas pesquisas. A saída encontrada — recusar-se a escolher, e mais do que isso, tratar a escolha como irrelevante para o debate estadual — permite a Ciro reivindicar simultaneamente dois eleitorados que, na política nacional, estão em lados opostos da trincheira.

O mesmo raciocínio, replicado ao tema da segurança pública, ajuda a explicar por que Ciro prefere insistir tanto na dimensão “cearense” do problema: ao evitar comparações diretas com estatísticas de criminalidade em outros estados — inclusive alguns governados por aliados de direita —, ele preserva a possibilidade de que qualquer eleitor, seja lulista, seja bolsonarista, seja indeciso, encontre na sua narrativa um vilão comum e local: a gestão estadual do PT, e apenas ela.

Há, porém, um limite estrutural para essa estratégia de isolamento, que a própria sabatina ajudou a expor. Ao anunciar que vai “exigir do presidente da República, quem quer que seja” a transferência de líderes de facções para presídios federais, Ciro reconhece, ainda que em subtexto, que parte da solução para o problema que ele mesmo descreve como puramente estadual depende necessariamente do governo federal — seja ele comandado por Lula, seja por Flávio Bolsonaro a partir de 2027. É uma pequena fissura na blindagem discursiva: mesmo tentando isolar completamente a disputa cearense da polarização nacional, a própria política de segurança pública, pela sua natureza federativa, arrasta Ciro de volta ao terreno que ele tanto se esforça para evitar comentar.

 

Fonte: O Cafezinho

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário