terça-feira, 25 de agosto de 2026

Irã, Rússia e China atacam três armas do poder dos EUA: petróleo, dólar e sanções

Desfrute da ambiguidade. E da opacidade deliberada. Embarque em uma nova aventura: analise os RIC (Rússia-Irã-China), o novo “triângulo de Primakov”, tal como eu o defini, de uma perspectiva mais lúdica. Estes três Estados-civilização que estão coordenando a nova fase de integração da Eurásia, e que além disso consolidaram-se como membros de pleno direito dos BRICS e da OCS, são, de fato, “Os três mosqueteiros”.

Tal como destacou o analista da Ásia Ocidental AHHfrican, de uma perspicácia encantadora, os Três Mosqueteiros do RIC já estão aplicando com toda sua força atalhos oportunos para uma nova ordem internacional mediante três quebra-nozes de titânio envoltos em veludo. Estes quebra-nozes de titânio estão sendo utilizados, respectivamente, por Irã, Rússia e China no estreito de Ormuz, o sistema SWIFT e o Tesouro dos EUA.

As novas normas de navegação no estreito de Ormuz, impostas pela Armada do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e pela Guarda Costeira da República Islâmica do Irã (PGSA) — junto com o bloqueio seletivo (só contra a Casa de Saud) no mar Vermelho por parte de Ansarallah — acabarão, mais cedo do que tarde, com o bando dos “petrosheiques” do CCG: a consequência imediata é o fim da reciclagem estadunidense, o serviço da dívida e o “almoço grátis” baseado no petrodólar, assim como do turbo capitalismo financeirizado.

Por sua vez, a Rússia pôs em prática o sistema A7, que está se impondo em grande parte do Sul Global. Piotr Fradkov, conselheiro delegado de Promsveazbank e diretor geral do Centro Russo de Exportação, acertou em cheio ao referir-se ao sistema de pagamentos internacional A7 —devidamente sancionado pelos EUA, o Reino Unido e a UE— que agora está ganhando uma enorme popularidade em toda a África e também na Ásia. Já foram abertos escritórios oficiais do A7 na Nigéria e no Zimbabue.

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Fradkov foi direto ao cerne da questão: Muitos países africanos ainda não têm banco central. Só uns dez. Que melhor solução, pois, do que um sistema alternativo de liquidação transfronteiriça — uma moeda estável — que evite o dólar estadunidense? E tudo isso para que seja utilizado por qualquer um, independentemente de que comercie ou não com a Rússia. Não é de estranhar que a Reuters fizesse soar o alarme.

Assim pois, na prática, o A7 vai muito além das intermináveis vacilações dos BRICS — que continuarão na reunião anual do próximo mês na Índia — sobre os pormenores de uma nova arquitetura financeira vinculada ao ouro e às matérias primas.

Papai tem um bolso novo. E o nome desse bolso é A7. Por fim, temos a China desfazendo-se em massa de suas notas verdes de papel higiênico enquanto neutraliza de forma épica as sanções da OFAC. A Lei chinesa contra as sanções estrangeiras é estrita: ao diabo com a OFAC. Se ajudas a aplicar «restrições discriminatórias» contra uma empresa chinesa, vais pagar muito caro. Em poucas palavras: se alguém cumprir as sanções estadunidenses em uma jurisdição chinesa, te processarão até a saciedade. Estamos falando do efeito boomerang de Sun Tzu.

<><> Quando a ambiguidade estratégica é a política

Agora voltemos uma vez mais a este turvo acordo de Meca entre a OTAN sunita (talvez a OTAN salafista?), protagonizado pela Tríplice Aliança sunita — ou salafista — formada por Turquia, Arábia Saudita e Paquistão. Todos os cenários continuarão sendo válidos porque não foi publicado o texto completo de Meca — além da previsível propaganda sobre a “dissuasão”—. O menos que se pode dizer da resposta do Império do Caos, da Mentira, do Saque e da Pirataria é que parecem desorientados. Supondo que não tenham ordenado a MbS que montasse o teatro da Meca.

O pacto também pode ser interpretado como preventivo — contra o culto à morte, que, como era de se esperar, está furioso com a manobra —. O culto à morte não tem muita margem de manobra para enfrentá-lo. De modo que todas essas bobagens de que a Turquia seria a “próxima” depois do Irã se esvaíram.

Trata-se, portanto, de um estratagema de MbS contra Ansarallah ou as Forças Armadas iemenitas? Dificilmente: nem o sultão neo-otomano nem os paquistaneses — por muito que tenham um pacto militar com Riad — ver-se-ão arrastados a uma guerra contra o Iêmen urdida pelos sauditas, que romperam seu próprio memorando de entendimento com Saná, continuam impondo um bloqueio ilegal e já receberam uma boa surra.

Os sauditas e/ou seus aliados ou mercenários dentro do Iêmen já estão sendo devidamente aniquilados pelos sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR) iemenitas, os drones e os mísseis. Se os sauditas e a OTAN (sem a Turquia) se lançarem a uma campanha de bombardeios, as refinarias e os oleodutos sauditas ficarão reduzidos a pó, tal como prometeu Saná segundo as novas regras de combate.

E, obviamente, ninguém, em nenhum lugar, com um coeficiente intelectual superior a 10 arriscar-se-á a uma guerra terrestre contra os iemenitas.  Tudo isso ocorre enquanto as reservas sauditas se esgotam inexoravelmente dia após dia, privados das vendas de petróleo e com todo o saque escondido em Londres e Nova York, onde o «congelarão» com regozijo ou o roubarão simplesmente, porque esta é a última oportunidade para o saque.

<><> E quanto à “diplomacia”?

Todo o mundo deveria preguntar isso ao “Homem”. Ou seja, a Mohsen Rezaye, o novo secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã (SNSC) e também representante pessoal do líder Mojtaba Khamenei. Como muitos de nós temos estado debatendo amplamente, Teerã não abandonará a mesa de negociações — atualmente destroçada —. A diferença é que agora o posicionamento de Teerã está projetado para conservar a máxima influência.

A posição do Irã em relação ao estreito de Ormuz está completamente consolidada — e já foi expressa no memorando de entendimento —. Paquistão e Catar seguem sendo os canais diplomáticos fundamentais. Omã desempenha um importante papel técnico em todos os acordos marítimos no estreito de Ormuz e seus arredores.

Suponhamos que o marco para uma solução final já exista, ainda que sua aplicação dependa de uma única coisa: que o “neo-Crasso” do eixo War-a-Lago/Washington tenha um momento “Caminho a Damasco”. Teerã não cederá no que se refere ao estreito de Ormuz.

É Washington que deveria começar a aplicar sanções ou medidas de desbloqueio de ativos — todas elas previstas no memorando de entendimento — paralelamente a acordos marítimos flexíveis entre Irã e Omã. Esta é a única forma de aumentar a probabilidade de alcançar um acordo.

O novo fator que complica as coisas, uma vez mais, é a manobra da Meca. É muito animador propô-lo como uma conjunção entre o capital e a energia sauditas, o poder industrial e militar convencional (OTAN) da Turquia, e a profundidade militar e a dissuasão estratégica (nuclear) do Paquistão.

Mas tudo isso não se traduz necessariamente na base para um polo de segurança independente. Porque nenhum destes três atores é verdadeiramente independente — nem soberano — como os Três Mosqueteiros do RIC. O que a Meca logra em teoria nesta primeira etapa não é a expulsão imediata dos EUA da Ásia Ocidental; nem a saída da Turquia da OTAN; nem a necessidade de que o Paquistão anuncie publicamente um novo guarda-chuva de segurança para a Ásia Ocidental.

Tudo é tremendamente ambíguo. Talvez a única pergunta que cabe fazer seja esta: «O que deve supor agora um inimigo potencial que poderia ocorrer caso a Arábia Saudita ou a Turquia enfrentassem um ataque existencial?».

Assim pois, a ambiguidade é a política. Mesmo se esta nova arquitetura cria «potencialmente» — e este é o termo chave — uma nova estrutura de dissuasão estratégica autóctone que não dependa totalmente de Washington. Preste atenção, uma vez mais, a «não totalmente». De modo que desfrute da ambiguidade. E da opacidade deliberada. Quanto aos três mosqueteiros, já estão vários passos adiante.

¨      Os EUA fracassaram em toda a linha na guerra contra o Irã. Por José Reinaldo Carvalho

Os Estados Unidos enfrentam um cenário de claro esgotamento em sua estratégia de guerra e pressão máxima contra o Irã, acuados por uma resistência persistente da República Islâmica Teerã que desestruturou as previsões iniciais de Washington.

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A derrota americana é amplificada pelo profundo isolamento internacional do país, já que antigos aliados hesitam em endossar medidas de força, e por uma opinião pública interna cada vez mais refratária a novas aventuras militares no Oriente Médio.

Diante do fracasso em vergar a economia e a postura geopolítica iraniana por vias convencionais, a diplomacia americana mudou de foco, buscando transformar a frustração de suas perdas em uma ofensiva de desgaste à margem do direito internacional. 

Em vez de buscar um consenso genuíno, a meta atual de Washington é forçar o Irã a uma capitulação disfarçada, recorrendo a ameaças para arrancar concessões que não obteve pelas sanções e pela guerra. O plano consiste em empurrar Teerã contra a parede, exigindo o cumprimento de metas irreais sob a ameaça de reativação de punições ainda mais severas. Agora fala em medidas devastadoras contra a economia iraniana. Essa tática tenta camuflar a fraqueza da posição americana, transformando seu fracasso político e militar em uma cobrança unilateral e agressiva, que visa unicamente desarmar a soberania iraniana. 

Para alcançar a rendição iraniana, objetivo inatingível, Trump e seus negociadores americanos decidiram explorar minuciosamente as ambiguidades e os pontos frágeis do memorando de entendimento existente. Ao se valer de brechas, cláusulas ambíguas e termos vagos sobre fiscalização e prazos, os Estados Unidos tentam criar uma armadilha jurídica que criminalize qualquer ação de defesa do Irã. O objetivo final é culpar Teerã pelo colapso do acordo, justificando novas retaliações e salvando as aparências de uma superpotência que não consegue ditar os rumos da região como outrora. É necessário destacar que o acordo faliu porque foi violado pelos próprios Estados Unidos. 

O fracasso demonstra que cessar-fogo não se constrói apenas com declarações de intenção. Questões essenciais, como o controle da navegação pelo Estreito de Ormuz, a abrangência das sanções, o financiamento da reconstrução iraniana e a agressão de Israel no Líbano e em Gaza, permaneceram sem respostas objetivas. 

A exclusão explícita de Israel das obrigações também comprometeu a promessa de cessar as operações em todas as frentes. O Irã foi firme aos rechaçar os ataques israelenses no Líbano, incompatíveis com o entendimento, enquanto Israel não se considerava submetido ao documento. 

Depois que Washington violou o acordo com ações militares, o prazo de 60 dias tornou-se uma formalidade. “Devido à violação flagrante e generalizada do memorando pelos Estados Unidos apenas algumas semanas após sua assinatura, nenhuma negociação foi iniciada”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei.

O memorando ainda poderá servir como referência para futuras conversas, mas qualquer nova negociação exigirá cláusulas precisas, garantias verificáveis e compromissos aplicáveis a todos os envolvidos. 

Sem esses elementos, a diplomacia continuará funcionando apenas como intervalo entre sucessivas fases da guerra. E os Estados Unidos e Israel manterão sua postura agressiva e belicista, seu comportamento traiçoeiro de ignorar as negociações e o propósito de impor sua vontade pela força. Para seu desagrado têm diante de si um país decidido a ir às últimas consequências para defender a sua soberania.

¨      O Boicote Abrangente a Israel: Do Protesto de Base a uma Ferramenta Internacional de Pressão. Por Wisam Zoghbour

O boicote a Israel deixou de ser apenas um ato individual limitado a evitar a compra de certos produtos; evoluiu para um discurso político, econômico e jurídico de alcance global. Seu escopo expandiu-se de campanhas de consumo para abranger instituições, universidades, sindicatos e governos, tudo isso em meio à crescente oposição pública às políticas de Israel em relação ao povo palestino.

Uma característica marcante da fase atual é a ampliação do alcance do movimento de protesto. Ele não se restringe mais a cidades árabes ou aos tradicionais círculos de solidariedade, tendo se estendido a cidades de toda a Europa e dos Estados Unidos.

Inúmeras universidades nessas regiões testemunharam protestos, ocupações e movimentos estudantis que exigem o fim da guerra, rejeitam a cooperação com instituições ligadas a Israel e pedem a revisão de investimentos e vínculos acadêmicos.

Esses protestos demonstram que a causa palestina não é mais uma questão marginal na esfera pública ocidental.

Amplos segmentos da opinião pública — particularmente jovens, estudantes e acadêmicos — agora veem o boicote como uma ferramenta legítima de pressão civil pacífica.

Esses apelos ganharam um significado jurídico especial após o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, em julho de 2024. Tal decisão concluiu que a presença contínua de Israel nos territórios palestinos ocupados é ilegal e reafirmou a obrigação dos Estados de não reconhecer a situação resultante dessa presença nem de prestar assistência à sua continuidade.

Consequentemente, a questão não é mais se Israel pode ser boicotado, mas sim como transformar o boicote, de iniciativas esporádicas de base, em uma política organizada e de impacto.

Um boicote eficaz não implica visar indivíduos com base em sua identidade, nem significa necessariamente romper todas as formas de interação da noite para o dia.

Trata-se, antes, de construir um sistema de pressão que tenha como alvo atividades, instituições e empresas diretamente ligadas à ocupação, à expansão de assentamentos e a violações documentadas, sempre em conformidade com o direito internacional e garantindo a proteção de civis.

Esse sistema começa com o consumidor, mas não deve parar por aí. Boicotes de base podem evoluir para boicotes institucionais — abrangendo universidades, sindicatos, organizações culturais e esportivas e fundos de investimento — e, eventualmente, traduzir-se em políticas governamentais relacionadas a comércio, investimentos, compras públicas, tecnologia e cooperação militar.

É aí que reside o verdadeiro poder de um boicote: na sua transição de uma escolha individual para uma decisão institucional e coletiva.

Apesar de sua resiliência diante de crises, a economia israelense depende fortemente do comércio exterior, de investimentos, tecnologia, serviços e mercados globais.

Consequentemente, embora o boicote a um único produto de consumo possa ter um impacto limitado, a pressão torna-se muito mais potente quando visa fluxos de investimento, contratos internacionais, parcerias tecnológicas e acadêmicas e transações ligadas aos assentamentos.

No entanto, um boicote exige um alto grau de precisão e credibilidade. Basear-se em listas não verificadas ou visar empresas sem evidências claras pode enfraquecer a campanha e fornecer aos opositores argumentos para desacreditá-la.

Além disso, um boicote que não oferece alternativas corre o risco de se tornar um fardo para o consumidor — particularmente para os palestinos, que já enfrentam condições econômicas catastróficas.

Portanto, o que é necessário é um boicote inteligente, baseado em evidências, faseado e mensurável — fundamentado em informações precisas e impulsionado por objetivos claramente definidos.

A mídia também desempenha um papel fundamental no sucesso desse processo, ao expor os vínculos econômicos de corporações, rastrear investimentos e contratos, fornecer informações confiáveis, apresentar alternativas ao público e combater campanhas de desinformação que buscam esvaziar o boicote de seu conteúdo político e de direitos humanos.

As cenas de protestos nas ruas da Europa e dos Estados Unidos, juntamente com as ocupações observadas em universidades, confirmam que o boicote não é mais apenas um apelo palestino; tornou-se parte de um movimento civil global que se engaja com a causa palestina de várias maneiras.

Em última análise, o boicote não deve ser visto como um substituto para ações políticas, diplomáticas e jurídicas, mas sim como uma ferramenta de pressão dentro de uma estratégia integrada.

A verdadeira questão não é se o boicote, por si só, pode mudar Israel, mas se a comunidade internacional está preparada para traduzir sua oposição à ocupação e às violações — atualmente expressa por meio de declarações e comunicados — em custos políticos, econômicos e jurídicos tangíveis.

Quando o boicote se torna uma política institucional coordenada — respaldada por leis, dados, mídia e alternativas econômicas —, ele transcende o protesto simbólico, transformando-se em um instrumento pacífico para influenciar o equilíbrio da política internacional e apoiar o direito do povo palestino à liberdade, à independência e à autodeterminação.

 

Fonte: Por Pepe Escobar, em Estratégia.la - Tradução: Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global/Brasil 247

 

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