Cidades:
o porquê de uma mobilidade feminista
O
ambiente urbano nunca foi neutro em termos de gênero. Nas discussões críticas
sobre a desigualdade de gênero, a divisão binária do espaço em esferas pública
e privada frequentemente surge como um tema central. Os assuntos públicos – e,
portanto, a esfera pública e a mobilidade – são dominados por homens desde a
antiguidade, enquanto a esfera privada tem sido vista predominantemente como o
domínio das mulheres e da vida familiar. Segundo a teoria urbana feminista,
essa compreensão do espaço tanto ilustra quanto reproduz as tradicionais
relações de poder baseadas no gênero.
A
mobilidade urbana dita quando e como as pessoas se deslocam e realizam suas
rotinas diárias, bem como quem pode fazer o quê. Como um sistema de
infraestrutura de transporte que possibilita o deslocamento pelo ambiente
urbano, a mobilidade urbana foi concebida, projetada e construída por – e para
– aqueles que governam a esfera pública. Dessa forma, a mobilidade urbana
muitas vezes acaba por impedir o deslocamento livre e seguro das mulheres. Os
diversos elementos que compõem essa infraestrutura – como transporte público,
traçado das ruas, calçadas e iluminação – são construídos de acordo com as
necessidades dos homens, forçando as mulheres, diariamente, a tentar se
encaixar em um espaço e em uma forma de agir que não as reconhece.
A
infraestrutura de deslocamento nas áreas urbanas é regida por três princípios
que, ao longo da história, foram parâmetros importantes para a realização das
tarefas diárias tradicionalmente executadas pelos homens: velocidade,
eficiência e precisão. Esses princípios levavam o pater familias do ponto A ao
ponto B – de casa ao trabalho – e vice-versa. Ao analisar os deslocamentos que
as mulheres realizam todos os dias, descobrimos uma conexão muito mais complexa
entre locais e atividades – algo conhecido como “encadeamento de viagens”. Esse
fenômeno representa a prática de conectar as distâncias mais curtas que as
mulheres percorrem durante o dia em uma jornada “ramificada”, que não é linear;
ao contrário, envolve visitar locais adicionais importantes dentro de um padrão
geral de deslocamento.
Esses
pontos na jornada, onde as mulheres fazem paradas curtas, fazem parte de uma
questão estrutural – a saber, o cuidado com a família e a comunidade –
envolvendo tarefas que lhes são impostas, como levar e buscar os filhos na
escola, ir à academia, fazer compras de supermercado, pagar contas, cuidar de
familiares idosos e outros trabalhos relacionados ao cuidado e ao “trabalho
emocional”.
Globalmente,
as mulheres realizam 76,2% do trabalho não remunerado de cuidado com outras
pessoas e, normalmente, optam por trabalhar perto de casa para poder conciliar
o trabalho remunerado com as responsabilidades não remuneradas de cuidado.
Tratar as tarefas domésticas e as responsabilidades de cuidado como “questões
de mulheres” é mais um mecanismo pelo qual a desigualdade de gênero é
reproduzida na vida urbana e no deslocamento espacial das mulheres. A
reconquista do seu espaço e da liberdade de locomoção muitas vezes começa na
família.
A
disparidade de gênero é visível até mesmo quando falamos em andar de bicicleta:
globalmente, as mulheres usam esse modal de transporte até quatro vezes menos
que os homens. Na Europa, especificamente, a diferença entre o uso da bicicleta
como meio de transporte por homens e mulheres é de 64% na Espanha, 54% na
França e no Reino Unido, e 42% na Alemanha. Essa disparidade é outro resultado
dos obstáculos estruturais que as mulheres enfrentam: elas são mais sensíveis
aos riscos do trânsito, temem a violência masculina, frequentemente carregam
compras e levam as crianças à escola ou à creche. Todos esses fatores fazem com
que sua primeira opção de transporte geralmente não seja andar de bicicleta.
A
participação das mulheres na vida urbana e o uso que fazem do transporte urbano
são fortemente influenciados por um sentimento de medo. Além disso, os caminhos
e vias que percorrem todos os dias são determinados por qual parte da cidade ou
qual meio de transporte parece seguro e onde há a menor probabilidade de serem
atacadas.
<><>
Promovendo a segurança
As
mulheres não deveriam ter que escolher entre liberdade de locomoção e
segurança, e isso tem sido reconhecido por várias iniciativas no sudeste da
Europa. Em lugares onde a mobilidade urbana é mais arriscada para as mulheres
devido a uma cultura de violência ou à falta de infraestrutura adequada,
organizações estão trabalhando para fornecer proteção fundamental às mulheres.
Uma organização que abraçou essa causa é a Space SyntaKs, em Kosovo. Ela criou
um mapa de segurança de Pristina com base nas experiências das mulheres, que
foram amplamente marginalizadas no planejamento dos espaços urbanos e do
tráfego.
A
segurança, nesta pesquisa, não é simplesmente um conceito técnico, mas sim um
indicador daquilo de que as mulheres dependem para seu bem-estar e sua
capacidade de funcionar. A segurança parte do direito a um ambiente seguro como
um direito humano básico, o que exige que os formuladores de políticas públicas
abordem ativamente os problemas que as mulheres enfrentam diariamente ao se
deslocarem pela cidade. Esta pesquisa presta atenção especial a indicadores
subjetivos, incluindo sentimentos como medo de qualquer tipo de assédio, roubo
e ameaças físicas. Ela também se concentra em quão diversificados os usuários
de um determinado espaço público o percebem e, diferentemente de pesquisas
anteriores nessa área, combina esses dados com indicadores objetivos. Esses
fatores incluem a presença de iluminação pública, câmeras de segurança,
instituições públicas e cães de rua.
De
acordo com a pesquisa, nenhum espaço público na capital do Kosovo atingiu
sequer metade da pontuação máxima do índice de segurança. As entrevistadas
expressaram medo e identificaram ameaças como violência verbal e física por
parte de homens, e essas foram mapeadas por todo o núcleo urbano da cidade. Os
mapas revelaram que Pristina não é um lugar seguro para as mulheres e que os
locais por onde elas circulam praticamente nunca são totalmente seguros do
início ao fim. O planejamento urbano e da mobilidade com perspectiva de gênero
começa com a identificação de fatores importantes para o deslocamento seguro e
livre das mulheres, bem como com o mapeamento de locais onde a intervenção pode
tornar o deslocamento mais seguro.
Iniciativas
semelhantes ocorreram em Belgrado, sob a iniciativa “Não tenha medo do escuro”
do coletivo Sestre, drugarice (“Irmãs, amigas”). Esta campanha é uma das
respostas à questão da segurança e ao problema da violência de homens contra
mulheres em espaços públicos e no transporte, e tem como objetivo mapear a
cidade de Belgrado de acordo com suas “fronteiras invisíveis” – locais onde
ocorreram ataques sexuais – e tornar esses lugares mais seguros.
O
Sestre, drugarice tem sido eficaz na comunicação de estatísticas importantes e
alarmantes, incluindo que 64% das mulheres já sofreram assédio sexual na rua,
sendo que 57,9% dessas vítimas são crianças com idades entre 13 e 17 anos. É
particularmente impressionante que 40,5% do assédio tenha ocorrido no
transporte público. Os resultados de um questionário anônimo criado como parte
desta campanha mostram que o transporte público e os pontos de ônibus estão
entre os locais mais propícios para incidentes de assédio sexual. Os membros do
coletivo organizam caminhadas feministas, orientam as mulheres sobre como se
sentirem seguras em espaços públicos e no transporte público e as convocam a
ajudar ativamente a tornar seu ambiente mais seguro por meio de “microações”.
Uma dessas iniciativas, chamada “Ada é nossa”, reuniu membros do coletivo e o
público em geral em uma caminhada feminista, amarrando laços em torno de postes
de luz quebrados para solicitar seu reparo e transmitir a mensagem de que
Belgrado pertence às mulheres mesmo após o pôr do sol.
Segundo
o coletivo, e com base nas respostas dos entrevistados, as principais formas de
violência no transporte público incluem violência verbal, contato físico
indesejado, exibicionismo, vitimização secundária e, pior, perseguição
(stalking) e tentativa de estupro.
Para
mapear e reconhecer esses tipos de violência, é importante usar todas as
plataformas disponíveis para informar e educar as mulheres sobre o que eles
significam. Somente quando essa violência se torna visível é que a percebemos
como sistêmica e, assim, somos capazes de desafiar esse sistema.
Dito
isso, o próprio ato de criar um mapa mental das ruas e das formas de se
deslocar como base para a segurança, avaliar ativamente os riscos, dar
conselhos de segurança a outras mulheres e organizar o deslocamento com base
nas obrigações familiares assumidas fazem parte do “trabalho emocional” das
mulheres. Ao reconhecer isso como trabalho, aumentamos a conscientização sobre
a posição da mulher, criamos a possibilidade de compartilhar o cuidado de forma
mais igualitária dentro da família, atribuímos responsabilidade às instituições
que criam políticas públicas relacionadas à mobilidade urbana e preservamos os
recursos emocionais e cognitivos das mulheres e, em última análise, suas vidas.
Na
esfera do planejamento urbano e da mobilidade urbana com perspectiva de gênero,
há um debate em curso sobre como criar um ambiente seguro para as mulheres.
Destinar partes do espaço público e da infraestrutura de transporte
exclusivamente para mulheres é uma das soluções de curto prazo adotadas por
algumas administrações municipais para lidar com a questão da violência
masculina contra as mulheres. Essa medida institucional tem sido considerada
necessária em contextos sociais onde o transporte público é a única maneira de
as mulheres se deslocarem se estiverem economicamente ou socialmente
marginalizadas.
Vagões
exclusivos para mulheres foram introduzidos em muitos países, do Brasil ao
Japão. Neste último, a violência sexual contra mulheres no transporte público é
tão comum que tem até um termo específico: chikan. No entanto, os países que
responderam ao problema da violência no transporte público segregando homens e
mulheres não relatam uma redução significativa no número de ataques a mulheres,
indicando que esse mecanismo não aborda a causa raiz do problema.
Esta é
precisamente a base para criticar a segregação: se os vagões exclusivos para
mulheres se tornarem a norma sem quaisquer outras mudanças significativas nas
políticas públicas – aplicação de penalidades, educação e campanhas na mídia –
a segregação por gênero colocará pressão adicional sobre as vítimas,
discriminará indivíduos não binários e enviará uma mensagem aos homens de que
sua violência será tolerada e que o deslocamento e a vida diária serão
planejados em torno dela. Vagões e espaços exclusivos para mulheres não devem
ser a única ou a solução permanente; em vez disso, a cidade e o transporte
público devem ser retomados, e a segurança para todos deve ser estabelecida
dentro de espaços compartilhados.
Se
queremos alcançar o direito à liberdade de locomoção e à segurança para todos,
devemos lançar luz sobre o quão inadequada é a atual infraestrutura de
mobilidade urbana e o quanto ela marginaliza as mulheres. As vidas e os padrões
de deslocamento das mulheres nos mostram como é a completa negligência
institucional.
No caso
de Podgorica, capital de Montenegro, além da falta de adequação a indicadores
sensíveis ao gênero, podemos ver exemplos concretos de quão inadequado é o
sistema de transporte para mulheres com deficiência ou mobilidade reduzida.
Apesar de ter se comprometido há mais de uma década a garantir a acessibilidade
de edifícios e ruas, Podgorica falhou completamente nesse aspecto. As ruas e
calçadas mal construídas e mal conservadas da cidade tornam o deslocamento
inseguro para mulheres que, predominantemente, assumem a responsabilidade pelo
cuidado dos filhos, empurram carrinhos de bebê ou usam cadeiras de rodas para
se locomover. Calçadas estreitas e irregulares, cheias de tampas de bueiros e
ralos abertos; pontos de transporte público inacessíveis; rampas íngremes e
escorregadias, inadequadas para os pneus de cadeiras de rodas; e piso tátil não
projetado para a variedade de calçados que as mulheres usam – estes são apenas
alguns dos obstáculos diários que as mulheres enfrentam ao se locomover. Essas
barreiras impedem o acesso a oportunidades sociais, de saúde, educacionais e
profissionais, intensificando ainda mais a discriminação enfrentada por grupos
marginalizados.
<><>
Onde as mulheres vencem
Viena
possui uma longa tradição de mobilidade urbana com perspectiva de gênero. Desde
2000, a igualdade de gênero tem sido uma prioridade no planejamento urbano da
capital austríaca. Ao integrar perspectivas de gênero em todas as suas
políticas, a cidade implementou projetos para melhorar a iluminação pública;
alargar calçadas para acomodar cadeiras de rodas; aumentar a visibilidade em
ruas e passagens com a instalação de espelhos urbanos; e adicionar bancos e
assentos em pontos de ônibus, ao longo de rotas pedonais e no transporte
público. Essa estratégia decorre do reconhecimento de que as mulheres dependem
com mais frequência dessas formas de locomoção e passam mais tempo esperando
entre viagens de curta distância. A resposta de Viena ao “encadeamento de
viagens” foi construir unidades habitacionais como parte do projeto
“Mulher-Trabalho-Cidade” (Women-Work-City), projetado por mulheres para
mulheres. Nessas unidades, as mulheres que prestam cuidados no âmbito da
família e da comunidade podem encontrar creches, médicos e farmácias em um só
lugar, reduzindo assim o tempo gasto nessas tarefas de cuidado. O objetivo
deste projeto foi facilitar o trabalho de cuidado realizado pelas mulheres.
Enquanto
isso, a cidade de Umeå, na Suécia, deu passos ainda mais ousados. Amplamente
conhecida como “a cidade mais feminista” do mundo, Umeå inclui uma dimensão com
perspectiva de gênero em todo o seu planejamento urbano. Em 2019, um protótipo
de ponto de ônibus sensível ao gênero foi construído na cidade, projetado para
abordar as preocupações das mulheres com a segurança no transporte público.
Sinais sonoros e visuais indicam que o ônibus está se aproximando do ponto,
enquanto cabines de madeira giratórias aumentam a visibilidade, permitem o
monitoramento do entorno, protegem do vento e de outras condições climáticas e
criam uma sensação de segurança no espaço público. Além disso, Umeå realizou
outras intervenções espaciais inspiradas no feminismo, incluindo bancos criados
para brincadeiras e socialização, desenvolvidos em colaboração com e voltados
para adolescentes do sexo feminino; construção de túneis pedonais subterrâneos
bem iluminados, com grandes entradas e saídas centrais e cantos de parede arredondados
para aumentar a visibilidade; priorização dos serviços de remoção de neve com
base no gênero, levando em conta que as mulheres andam a pé e usam o transporte
público com mais frequência; e limpeza de calçadas e pontos de ônibus antes das
vias rodoviárias.
Além
disso, a cidade organiza um tour “Paisagem Generificada” (Gendered Landscape)
que conecta as intervenções espaciais feministas existentes com aquelas ainda
necessárias para tornar a cidade verdadeiramente um lugar para todos. Tudo isso
foi reforçado por educação, pesquisa, integração de perspectivas de gênero nos
dados de mobilidade urbana, defesa da participação igualitária de homens e
mulheres no cuidado e envolvimento ativo das mulheres na tomada de decisões.
No
Reino Unido, um fator que melhorou a segurança das mulheres e fortaleceu uma
cultura de tolerância zero ao assédio sexual no transporte público é a
cooperação entre a Polícia de Transporte Britânica (British Transport Police),
a Polícia Metropolitana (Metropolitan Police), a Polícia da Cidade de Londres
(City of London Police) e o Transporte para Londres (Transport for London –
TfL). Após uma pesquisa do TfL em 2013 mostrar que 15% das mulheres que usavam
o transporte público haviam sofrido assédio sexual no ano anterior e que cerca
de 90% dos casos não foram denunciados, foi organizado treinamento para 2.000
policiais na rede de transporte público com o apoio de organizações feministas.
Apenas seis meses após o lançamento desta iniciativa, a porcentagem de casos de
assédio sexual denunciados aumentou em 20%, e o número de casos levados a
julgamento aumentou em 32%.
Como
observou a ONU Mulheres, além das melhorias no sistema de transporte público, a
participação ativa dos homens é um passo crucial na luta para eliminar a
violência masculina contra as mulheres no transporte público. Para esse fim, na
Cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã, a organização também abriu os chamados Clubes
de Defesa Masculina (Male Advocacy Clubs), que reúnem homens com o objetivo de
educar e promover a igualdade de gênero em várias esferas. Uma das campanhas de
mídia do clube teve como alvo o problema do assédio sexual contra mulheres em
espaços públicos. A mensagem da campanha sobre a prevenção desse tipo de
violência alcançou nada menos que 8,5 milhões de pessoas.
<><>
Mobilidade para todos
Para
construir uma mobilidade verdadeiramente inclusiva, devemos retomar nossos
parques, ruas e transporte público. Além disso, para libertar as mulheres e
tornar seus deslocamentos mais seguros, devemos começar a coletar estatísticas
por gênero e mapear a experiência interseccional feminina de viver nas cidades.
Vamos reagir à discriminação e à violência sistêmicas, gritar, escrever, nos
unir, construir uma rede de solidariedade entre nós e criar soluções
sistêmicas.
Como o
direito das mulheres à livre circulação está ameaçado, é importante imaginar um
futuro de mobilidade urbana igualitária – um futuro onde esse direito seja
garantido e respeitado, a provisão de cuidados seja compartilhada igualmente e
as mulheres participem ativamente do planejamento espacial e da criação de
políticas de mobilidade. Em tal futuro, as mulheres são saudáveis e seguras, e
podem socializar, criar, educar e melhorar suas vidas livremente.
“Como
seria o transporte se fosse projetado por mães? Como seriam as ruas se fossem
feitas para mulheres com deficiência? Quais grupos sociais não estão
representados em nossa infraestrutura e como podemos mudar isso?” – essas
perguntas podem ser o início de conversas construtivas sobre a construção de
uma cidade mais justa. Além dos grupos sociais marginalizados, os homens também
devem assumir responsabilidade e ser participantes ativos em tais discussões.
No
centro dessas conversas deve estar uma compreensão com perspectiva de gênero e
interseccional das questões de mobilidade das mulheres. Afinal, é dos estudos
de gênero e da teoria urbana feminista que emergiram as críticas à mobilidade
urbana centrada no homem. O caminho das mulheres para retomar os espaços comuns
também passa por aí.
Fonte:
Por Jovana Bozovic, no Eurozine | Tradução: Rôney Rodrigues, para Outas
Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário