terça-feira, 25 de agosto de 2026

Por que América do Sul está vendo tantos abalos sísmicos em sequência?

Um terremoto atingiu na quinta-feira (20/8) a região andina de Ayacucho, no Peru, deixando pelo menos três pessoas feridas, nenhum delas em estado grave.

O tremor ocorreu às 13h no horário local, com epicentro 35 quilômetros ao norte da localidade de Coracora, na província de Parinacochas, no sudoeste do país, informou o Instituto Geofísico do Peru (IGP).

O terremoto foi sentido em boa parte do país, incluindo Lima. Os danos, contudo, foram relativamente limitados. Segundo as autoridades, 22 residências e seis escolas foram afetadas.

O Instituto Geofísico do Peru (IGP) estimou a magnitude do terremoto em 7,2 e a profundidade em 108 quilômetros. Já o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) calculou magnitude de 6,7 e profundidade de cerca de 67 quilômetros.

O tremor no Peru ocorre dias após um forte terremoto atingir a Indonésia e pouco mais de uma semana depois de outro abalo de grande magnitude atingir a Colômbia. Nos últimos meses, também foram registrados terremotos fortes na Venezuela e no Japão. Esses tremores deixaram milhares de mortos e feridos, além de grandes danos.

A quantidade de terremotos registrados recentemente dá a impressão de que o número de abalos sísmicos está aumentando nos últimos anos.

Mas não há evidências de que isso esteja acontecendo de fato, de acordo com os registros dos principais serviços geológicos do mundo.

O que tem avançado, na verdade, é a capacidade dos cientistas de detectar esses tremores, mesmo os mais leves: os equipamentos estão ficando cada vez melhores, e foram espalhados por várias regiões do planeta.

Além disso, hoje em dia as notícias viajam com muita rapidez pela internet e pelas redes sociais.

Ou seja, ficamos sabendo de um terremoto que acabou de acontecer do outro lado do mundo em questão de segundos, e com acesso a uma série de vídeos feitos pelas próprias vítimas e por câmeras de segurança.

Há um terceiro fator importante nessa equação: a população está crescendo e vive cada vez mais concentrada em grandes centros urbanos.

E isso aumenta também o número de pessoas potencialmente expostas aos efeitos de um terremoto.

Terremotos são comuns no Peru e na Colômbia, que estão localizados no ponto de encontro entre as placas tectônicas de Nazca e Sul-Americana. Eles têm, portanto, a mesma origem tectônica. Isso, no entanto, não significa que um terremoto tenha provocado o outro.

"Foi o mesmo mecanismo que disparou os dois terremotos, mas a gente não pode dizer que um terremoto causou o outro. A gente não tem evidências de uma relação causal", explica a geofísica Susanne Maciel, professora da pós-graduação em Geociências da Universidade de Brasília (UnB).

"Até agora, o que a gente tem visto das análises sismológicas é que essas sequências de eventos são eventos independentes, apesar deles estarem ocorrendo numa sucessão muito rápida", acrescenta a especialista, que é apoiada pelo Instituto Serrapilheira.

No caso da Venezuela, o contexto tectônico é diferente, afirma Maciel. Embora o país também seja afetado pela tectônica da placa de Nazca, o terremoto está mais relacionado à interação entre as placas do Caribe e Sul-Americana.

<><> Quantos terremotos acontecem por ano?

O Centro Nacional de Informações sobre Terremotos dos EUA estima que, todos os anos, são registrados cerca de 20 mil terremotos ao redor do globo — em torno de 55 tremores de diferentes magnitudes todos os dias.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos calcula uma média de 16 terremotos de magnitude mais alta a cada doze meses.

Em média, são 15 tremores que superam uma magnitude 7 e um que ultrapassa a barreira da magnitude 8.

Mas esse número não se repete com precisão de um relógio suíço: nas últimas cinco décadas, houve pelo menos uma dúzia de anos em que esse número de terremotos mais fortes fugiu da média esperada.

Um exemplo disso foi o que aconteceu em 2010, quando 23 terremotos sacudiram diferentes regiões do planeta.

Mas há ocasiões em que esse número fica abaixo do esperado: em 1989, foram registrados apenas seis tremores de maior gravidade, que superaram a magnitude 7.

"Em termos estatísticos, a ocorrência de terremotos é um processo muito variável", destaca Maciel.

"Então, é natural que a gente tenha agrupamentos de eventos dessa magnitude em algumas janelas pequenas de tempo", complementa a geofísica.

A pesquisadora reforça que não há dados suficientes para dizer que o mundo está experimentando uma anomalia em termos de abalos sísmicos.

"Na verdade, se a gente for pensar na própria estatística da ocorrência dos terremotos, é comum que a gente espere esses agrupamentos de terremotos", pontua ela.

Segundo Maciel, apesar do número de terremotos de magnitude superior a 7 registrado neste ano ser relativamente grande, ainda está dentro da variabilidade esperada para eventos dessa magnitude, especialmente em regiões de borda de placas tectônicas.

"Está acontecendo tudo dentro do que a gente espera que aconteça mesmo", diz.

O desafio está na imprevisibilidade dos terremotos: ainda não existem ferramentas capazes de prever quando, onde e com qual magnitude um terremoto vai acontecer.

Mas, em alguns lugares, a tecnologia já permite detectar um terremoto logo depois que ele começa.

Assim, é possível emitir alertas para regiões que ainda serão atingidas por ondas mais fortes, por exemplo, dando às pessoas alguns segundos preciosos para se proteger.

<><> Peru decreta estado de emergência em cinco distritos após terremoto de 7,2

O governo peruano declarou estado de emergência no domingo (23/08) em cinco distritos do departamento de Ayacucho para agilizar o envio de ajuda às 500 vítimas do terremoto de magnitude 7,2.

A ordem oficial publicada em um veículo de comunicação nacional estabelece a medida por 60 dias nas cidades de Chumpi, Coracora, Pullo e Upahuacho, em Parinacochas, bem como no distrito de Carapo, em Huanca Sancos.

Essa ação judicial facilita a alocação de recursos financeiros para o enfrentamento da emergência. Relatórios técnicos do Instituto Nacional de Defesa Civil (Indeci) confirmam que o terremoto causou danos estruturais em 83 residências.

As autoridades também relataram danos a 20 centros educacionais, postos de saúde, locais públicos e trechos de estradas na área.

O plano de resposta imediata está sendo gerenciado pelo Governo Regional de Ayacucho e pelos municípios locais. Para agilizar a ajuda, as autoridades decretaram medidas para facilitar e isentar doações.

Essas instituições coordenam esforços sob a coordenação direta da Indeci e contam com o apoio dos Ministérios da Saúde, Educação, Habitação, Transportes e Interior.

Os envios prioritários incluem suprimentos médicos, alimentos, roupas de inverno, estações de tratamento de água, geradores de energia elétrica e materiais de construção para as famílias afetadas.

Por sua vez, o Centro Sismológico Nacional (Censis), vinculado ao Instituto Geofísico do Peru (IGP), relata um aumento da atividade sísmica no território nacional durante este ano , com recorrência especial nos departamentos de Lima, Arequipa, Ica e Piura.

¨      Por que não se podem prever terremotos altamente destrutivos

Os terremotos de magnitude 7,5 e 7,2 que atingiram a Venezuela nesta quarta-feira (24/06) foram os mais fortes em mais de um século, desde o ano 1900, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Apesar do alto potencial destrutivo e do prejuízo para a vida humana, os cientistas não conseguem prever estes abalos sísmicos, porque ainda falta conhecimento sobre os padrões da natureza. 

"Nós não sabemos como [prever grandes terremotos], e não esperamos saber num futuro previsível. Os cientistas do USGS só podem calcular a probabilidade de que um terremoto significativo ocorra em uma área específica dentro de um determinado número de anos," explica o site do serviço americano, referência mundial no assunto.

Prever um terremoto significaria, na prática, saber exatamente quando ele vai acontecer, a área que sentirá o maior choque e, ainda, qual será a magnitude. O problema é que não se sabe com clareza quais são os sinais que poderiam indicar as respostas para estas perguntas. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 750 mil pessoas morreram entre 1998 e 2017 em decorrência de terremotos, mais da metade das vidas perdidas em desastres naturais globalmente.

<><> Teorias não comprovadas

Existem várias teorias sobre fenômenos que poderiam preceder um abalo de alta magnitude numa localização geográfica.

A lista dos apontados "precursores" inclui terremotos moderados ou terremotos pequenos em série, que poderiam sugerir que outro maior está por vir; o aumento de radônio, gás radioativo presente na natureza; e até mesmo o comportamento incomum de animais. 

Mas nenhuma destas opções tem comprovação científica, apesar de frequentemente serem citadas por leigos que, sobretudo na internet, se dizem capazes de prever terremotos. 

"Infelizmente, a maioria desses precursores ocorre com frequência sem ser seguida por um terremoto, de modo que não é possível fazer uma previsão real," diz o USGS.

Já a previsão da magnitude de um terremoto – e, portanto, do seu potencial destrutivo – esbarra num obstáculo principal: os abalos pequenos e grandes começam de maneira parecida. A força do abalo só fica clara com pouquíssima antecedência, limitando a possibilidade de emitir alertas para a população. 

<><> Nova aposta em inteligência artificial

Uma das apostas dos estudiosos nos últimos anos, segundo a revista Nature, é o uso de inteligência artificial (IA) para identificar padrões que poderiam indicar a ocorrência futura de terremotos, com base em extensivas bases de dados já disponíveis. 

A dificuldade, explica a publicação, repousa, primeiro, no desconhecimento sobre quais fatores as máquinas devem analisar. Segundo, na ausência de informações completas para terremotos que aconteceram há duas ou três décadas, quando ainda não havia as mesmas tecnologias de captura de dados.

Todos os dias, milhares de pequenos terremotos acontecem ao redor do planeta, e a maioria deles é fraco demais para ser sentido na superfície terrestre. Mesmo o Brasil, numa região de estabilidade tectônica, registra em média 20 sismos de magnitude maior que 3,0 na escala Richter por ano e dois com magnitude maior que 4,0, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB).

A abundância de abalos facilita a vida dos pretensos previsores amadores de terremotos. Não é tão difícil acertar, por exemplo, que um tremor de baixa magnitude ocorrerá numa área de alta propensão dentro de um período de algumas semanas ou meses, pondera o USGS.

<><> Alertas de curto prazo

Os serviços geológicos, por sua vez, têm três ferramentas que contribuem para mitigar o poder destrutivo de um terremoto. A primeira delas é a emissão de alertas depois que um abalo sísmico já começou. Assim, é possível alertar populações de que um tremor poderá – mesmo que em alguns segundos – atingir a sua localização, orientando-as a se proteger.

O sistema identifica as chamadas ondas primárias de um terremoto, vibrações que viajam mais rápido, e avisa que deverão ocorrer ondas secundárias. O tempo que leva para as ondas primárias serem detectadas depende, entretanto, da distância entre o ponto de origem do abalo sísmico e os sismógrafos mais próximos. 

É necessário, então, transferir as informações por redes especializadas e, depois, processá-las, a fim de determinar que, de fato, se configuram as condições para um terremoto e que a sua intensidade é alta o suficiente para emitir um aviso à população.

"Alarmes falsos podem gerar custos desnecessários com emergências e comprometer a credibilidade desses sistemas, o que, em última análise, afetará a forma como as pessoas reagirão a alarmes no futuro. Garantir que as previsões sejam o mais precisas possível, minimizando esses riscos, é um desafio enorme," explica a Nature.

Estes sistemas de monitoramento e alerta são adotados por vários países, como México, Japão, Turquia e Itália. Numa das regiões mais vulneráveis do mundo, os japoneses têm hoje o sistema mais sofisticado, operando a nível nacional desde 2007, o que exige investimentos em tecnologias de detecção e aprimoramento contínuo. 

Os alertas são transmitidos, então, por sirenes, na televisão e no rádio e pelos celulares. Ainda assim, estabelecer o epicentro do terremoto e a sua magnitude permanecem desafios.

<><> Cálculos de probabilidades

As outras duas ferramentas dos cientistas miram o médio e o longo prazo. Assim como é possível prever como estará o tempo nos próximos dias ou semanas, estimam-se alguns abalos sísmicos de menor intensidade, que poderão ocorrer em janelas de tempo fechadas, de acordo com circunstâncias já dadas.

Mas o USGS explica que este recurso se aplica para abalos secundários, aqueles que vêm depois de um terremoto forte. A tendência é que os tremores subsequentes sigam o mesmo padrão. 

Além disso, os serviços geológicos calculam a probabilidade, em períodos extensos, de um terremoto acontecer numa localização e período específicos. A conta se baseia na média de eventos que já se registraram ao longo da história, assumindo que as taxas anuais de terremotos não mudam. 

Torna-se possível, assim, tomar medidas de prevenção de desastres para as regiões que tendem a ser mais afetadas ao redor do mundo. É o caso, sobretudo, do Círculo de Fogo do Pacífico, onde ocorrem 90% dos terremotos do planeta.

<><> Terremoto provocado por humanos no Brasil

Em casos raros, os terremotos podem também ser induzidos pela atividade humana, explica ainda o SGB, em decorrência de explosões nucleares, introdução de água e gás sob pressão no subsolo, construção de barragens, mineração a céu aberto de grandes proporções ou extração de fluidos, como petróleo, do subsolo.

Foi o que aconteceu na Hidroelétrica de Capivari-Cachoeira, perto de Curitiba, no Paraná, com atividade sísmica registrada entre 1971 e 1979, cada vez de menor intensidade. O maior tremor já registrado em solo brasileiro, segundo o SGB, ocorreu em 1955, com epicentro a 370 quilômetros de Cuiabá, no Mato Grosso.

Em geral, estima-se que, no país, devam ocorrer tremores de magnitude maior que 7,0 uma vez a cada 500 anos, em comparação a três anos no Chile, por exemplo.

 

Fonte: BBC News Brasil/Opera Mundi/DW Brasil

 

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